sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Sejamos magnânimos, concedamos-lhes também a liberdade de serem tontos


Entre muitas outras particularidades, os comunistas têm uma tendência inata para a falsificação. Apagar factos e figuras, denegrir o adversário, execrar o capitalismo e contrapor-lhe a verdade imaculada dos santos sem pecado, prometer a felicidade terrena contra as iniquidades do capital e o ópio das religiões e exaltar os feitos gloriosos dos regimes comunistas, com a União Soviética à cabeça, são alguns exemplos do extenso rol de práticas em que os comunistas são exímios. Reescrever a História é uma das variantes, mas dentro desta avulta o negacionismo.

Quando se trata dos crimes cometidos pelos regimes comunistas excitam-se momentaneamente, mas logo rapam do seu arsenal de negação. Os regimes comunistas não eliminaram milhões de pessoas, não encarceraram em condições humilhantes, não deportaram em massa, não provocaram deliberada ou negligentemente fomes dizimadoras, não internaram dissidentes em hospícios, nem tão pouco participaram em guerras imperialistas (neste caso, apenas reclamaram territórios legítimos ou ajudaram progressistas locais). Não podem ter cometido semelhantes barbaridades, pela simples razão de que são os portadores da ideologia mais humanista. Por princípio, uma realidade tão humilhante não pode ter existido.

Negada a possibilidade de tamanho sacrilégio, que contraria todas as promessas humanistas da profecia redentora, colocados perante a irrefutabilidade da prova recorrem à negação da condição de comunista dos regimes que cometeram as atrocidades. Na impossibilidade de ilibarem os regimes, porque todos de comunistas se proclamavam e como tal eram aclamados e reconhecidos, reduzem os exemplos a desvios oportunamente criticados; raramente chegam ao repúdio, ficando geralmente pela conivente compreensão. Devido aos múltiplos casos, formando um modelo generalizado, apenas com cambiantes de dimensão e de requinte de malvadez, sob pena de caírem no ridículo da negação da mais clara evidência adoptam a negação da qualidade de comunistas dos respectivos chefes. E assim sucessivamente.

Como ainda mantêm uma paixoneta por Estaline (cada vez menos secreta, já que de vez em quando a exprimem claramente) e resistem a qualificar “o pai dos povos” de bárbaro sanguinário, os comunistas jogam mão de outro subterfúgio: contrapõem às vítimas do comunismo as vítimas do imperialismo, na esperança de que a contabilidade lhes seja favorável. Nada deixam de fora, das guerras civis às guerras de agressão e à repressão interna. Ora, a contabilidade, mesmo recuando aos primórdios do capitalismo e feita com estimativas por alto, continua a apontar o comunismo como a ideologia mais sanguinária. Sem margem para quaisquer dúvidas, porque os números, mesmo com a manipulação mais grosseira a seu favor, não mentem.

Este último reduto em que se refugiam acaba transformando-se na negação da sua própria negação: afinal, sanguinários, sim, admitem; mas, atenção, que ainda há outros mais sanguinários! Na tentativa grotesca de encontrarem quem seja mais sanguinário, os comunistas perdem todo o pudor e demonstram ser possuidores duma desfaçatez sem limites. A raiva do desespero nem lhes permite enxergar o ridículo em que caem. E esquecem deliberadamente que nenhum regime capitalista praticou semelhantes barbaridades sobre os seus próprios nacionais. Mesmo dos regimes fascistas, só o nazismo se aproximou no ódio e na sanha liquidacionista, ficando muito aquém na dimensão da tragédia, porque os seis milhões de judeus que exterminou não eram na esmagadora maioria de nacionalidade alemã.

Porque a violência é uma constante da História e porque todas as revoluções acarretam baixas, os comunistas erigem tais princípios simplistas, repetidos, mas restritos a curtos períodos, como regra na luta política e adoptam-nos como normas de conduta permanente para lidarem com os adversários: a luta de classes não passa de guerra declarada, onde tudo vale e em que os fins justificam os meios mais abjectos. Como a História tem mostrado, os regimes políticos comunistas, com a sua concepção totalitária da organização social, que não deixa espaço para a organização livre e autónoma dos cidadãos fora dos organismos do partido único e do Estado, só têm sobrevivido à custa do terrorismo político periódico, organizado como safras purgadoras, e da constante repressão policial e carcerária.

Mais nenhum programa político, a não ser o dos comunistas, transforma os adversários em inimigos e proclama a sua eliminação física. Têm o mérito de não o esconderem, abusando da tolerância com que aqueles os aceitam. Basta atentar no ódio que votam aos inimigos de classe, que quotidianamente propalam, assim como nas proclamações que não se coíbem de fazer antecipadamente acerca do destino que a revolução comunista lhes reserva. Mas quando os que sofreram a opressão do comunismo e se libertaram lhes cerceiam a liberdade de se organizarem e ilegalizam os partidos comunistas, cortando-lhes as possibilidades de voltarem a oprimi-los, aqui del-rei! que são fascistas. Tais vinganças, apesar de tudo inaceitáveis, comparadas com o que sofreram às mãos dos comunistas são meras brincadeiras de crianças. Os comunistas não constituem um perigo encoberto, disfarçado, mas um perigo claramente afirmado; e a perversidade dos seus regimes não é mera conjectura, constitui uma pérfida realidade. Sabem-no os povos, que com a sensatez da experiência têm ido rejeitando a barbárie redentora que propõem e, nas sociedades democráticas, os têm reduzido a insignificantes, mas activas, minorias.

Para além dos execráveis objectivos estratégicos, tacticamente são artistas da dissimulação. Ainda enganam incautos com cânticos de sereia acerca do seu progressismo social, da sua abnegação ao serviço dos interesses dos trabalhadores e da felicidade terrena que prometem. Mas não conseguem iludir a incapacidade para os defenderem das investidas mais gravosas do capital, conduzindo-os para a acumulação de derrotas atrás de derrotas. Não apenas por inépcia e estupidez, adoptando as formas de luta mais desajustadas às situações concretas, mas porque toda a sua estratégia assenta no desejo recôndito do agravamento das condições de existência, na esperança de que do descontentamento e do desespero surja a almejada crise revolucionária que os conduza ao poder. Perante o agravamento das condições de vida dos trabalhadores, a sua cartilha preferida é a da lamúria moralista e do reavivar da hostilidade e do ódio classista, que de tanto repetida incute nas massas o desalento e a resignação. O desânimo que semeiam é então o campo necessário para realçarem a sua permanente combatividade e dedicação.

Quando o marasmo da impotência invade os acólitos, tudo inventam para incentivar a militância, cultivando o mais desbragado tarefismo. Com o avolumar da idade, até aos mais empenhados vai faltando a pachorra, mas a todos há que alegrar uma vez no ano, e aí está a Festa do Avante, a única altura em que podem confraternizar sem a interposição das barreiras do centralismo democrático. Reservada à propaganda, a ponto de encontro à volta dum copo e dum petisco regional e ao desfilar da música cada vez menos engajada, a Festa cumpre ainda o papel de principal angariadora de fundos, depois que cessaram as ajudas soviéticas e que se espatifaram as velhas fortunas burguesas de antigos companheiros de jornada, e o pouco que delas resta, junto com os subsídios do Estado capitalista, já não constitui financiamento suficiente. Mas a Festa é um bom pretexto para fazer ver aos comunistas o óbvio que o seu fanatismo os impede de ver: o contraste entre a liberdade de que gozam nas sociedades burguesas democráticas e o destino trágico que reservam aos burgueses e aos cépticos que ousem não se transformar em adeptos.

Este ano, aprestam-se para comemorar o nonagésimo aniversário da revolução comunista de Outubro de 1917, na Rússia, chorando a desgraça da queda do comunismo por todo o lado. Coitados! Nem o tempo, que tudo cura, lhes tem permitido fazerem o luto necessário. Apegados a semelhantes fantasmas, como todos os fanáticos os comunistas só podem estar loucos. Sejamos magnânimos, concedamos-lhes também a liberdade de serem tontos. Apesar de tontos perigosos.

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