segunda-feira, 1 de junho de 2020

China, um país dois sistemas: o “socialismo de mercado nacional” e o “mercado internacional do socialismo”. É isto, não é?

Embora não tenha sido propriamente um maoista, mas um “marxista-leninista” convicto, no fim dos anos setenta era um crítico das ideias e concepções do Deng Xiaoping — que, mais do que as banalidades de “mestre-escola” do Mao Tsé-Tung, se me afiguravam um grave desvio face à ortodoxia — e da orientação da China em termos de política externa, pelo estabelecimento de relações políticas e diplomáticas com países onde existiam regimes ditatoriais. Uns anos depois tive de render-me ao sucesso económico do seu pragmatismo, que jogava às malvas o “marxismo-leninismo” e o maoismo. Vai para vinte anos, conversando com um colega a propósito das grandes transformações que ocorriam na China e sobre a sua previsível entrada próxima para a OMC, gracejava sobre a designação que o Deng arranjara (“socialismo de mercado”) para o pragmatismo com que passara a dirigir o país após a morte do Grande Timoneiro Mao Tsé-Tung. Prognosticava, então, que a maior abertura da China ao capital internacional que decorreria da sua entrada para a OMC a transformaria rapidamente num país moderno e desenvolvido, e que em poucas décadas as suas vantagens competitivas e o incremento das trocas internacionais transformá-la-iam numa potência industrial, financeira e imperialista.

A crescente exportação de capitais, quer pela burocracia comunista estatal, quer pelos capitalistas privados nacionais, possibilitada pela elevada acumulação interna, que segundo os cânones leninistas caracteriza o imperialismo, aí está a comprová-lo. E essa faceta daquele país até se nota aqui, com a compra de grandes empresas portuguesas altamente lucrativas por empresas estatais e privadas chinesas (o caso da EDP seria em qualquer lado um escândalo, um autêntico negócio da China ao contrário, pois foi comprada num ano com direito aos lucros do anterior e com outras benesses intermináveis). A internacionalização do capital não constitui qualquer novidade, é até a receita tradicional quando o dinheiro acumulado já não encontra no mercado interno oportunidades de aplicação para se transformar em capital obtendo taxas de lucro atractivas e essas oportunidades são encontradas em mercados externos ávidos de capital de investimento ou de crédito. A novidade reside entre os exportadores de capital se encontrar um país considerado socialista.

O interessante, no meio de tudo isto, é o PCP e outros partidos comunistas que ainda se afirmam “marxistas-leninistas” continuarem a designar a China como país socialista. No fundo, acaba por ser natural, porque o socialismo, em todo o lado, não passou de capitalismo de Estado monopolista, desempenhando os partidos comunistas a função de accionistas únicos das empresas estatais, que constituíam a esmagadora maioria (e, nalguns casos, a sua totalidade). O que já é um pouco surpreendente é o chamado “socialismo de mercado” para que se orientou o capitalismo de Estado monopolista chinês, e, após a reintegração de colónias e de enclaves de países europeus (Hong Kong e Macau) na mãe pátria, o estreitamento da aliança da burocracia comunista estatal com os capitalistas privados nacionais, incluindo os retornados à soberania da nação, assim como com os capitalistas privados internacionais (englobando os da secessionista Taiwan), sob a consigna “um país dois sistemas”, ter evoluído para o imperialismo, nas versões de “imperialismo de Estado” e de “imperialismo privado”.

Nada disto tem a ver com a casualidade de a nova epidemia “covid-19” ter aparecido primeiro na China, provável efeito de antigos hábitos de que os cães e os mais diversos animais selvagens criados em cativeiro eram fontes de proteínas não desprezáveis para colmatar a pobreza alimentar de antes e depois da implantação do regime comunista. Tem simplesmente a ver com a realidade do comunismo chinês e a ideologia dos novos capitalistas chineses quando se internacionalizam que me despertou o documentário “Fábrica americana” (American Factory). Recomendo-o vivamente aos comunistas portugueses, para que vejam como se comportam eles em relação ao sindicalismo: no caso concreto da fábrica chinesa instalada nos EUA, rejeitaram-no e fizeram de tudo para impedi-lo com sucesso, mas aceitam pacificamente o sindicalismo de Estado vigente na China. Curiosamente, na fábrica-mãe na China o sindicato do Estado estava presente, e o seu presidente, membro do partido comunista, era o cunhado do patrão!

Por que será? Bem provável é que a “emulação socialista”, a língua de pau para o trabalho sem direitos, de períodos diários e semanais longos e a ritmos elevados, sem condições de segurança e com salários baixíssimos que sempre caracterizou o “socialismo realmente existente” em todo o lado, no faz de conta de que a luta de classes desaparecera com que as burocracias comunistas manipularam e iludiram milhões de trabalhadores, se tenha enraizado na sociedade, condicionada ideológica e politicamente pela propaganda permanente e pelas melhorias obtidas no nível de vida, e assim tenha alastrado facilmente para as empresas capitalistas privadas, tornando a colaboração de classes uma das características mais vincadas da sociedade chinesa actual. O citado documentário permitiu-me constatar como a colaboração de classes, e os rituais que a costumam acompanhar, atingiu até as gerações mais novas de trabalhadores chineses.

Vê-lo também me fez lembrar os tempos idos das campanhas da “batalha da produção” e de “um dia de trabalho para a nação” e manter presente o que tem sido o sindicalismo “responsável” e “a bem da economia nacional”, de frete ao patronato e aos governos, praticado pela CGTP ao serviço do PCP, designado sem pudor por “sindicalismo de classe”, com que os comunistas têm adormecido os trabalhadores portugueses. Já não são apenas ignorância e cegueira derivadas do fanatismo; talvez seja qualquer coisa mais do tipo “falta de vergonha”. Sei lá, penso eu de que...