sexta-feira, 2 de maio de 2008

Mitos do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista


Cada um de nós tem a sua história. Pequena história, insignificante, é certo, mas é dela e da inter relação de muitas pequenas histórias que resulta a História, a memória do que se passou. O presente texto é sobre uma pequenina parte da minha história, até agora conhecida apenas por um círculo restrito. Os factos que refere passaram-se há trinta anos. A sua importância hoje é ainda menor do que a pouca que tiveram na altura, ou seja, praticamente nenhuma. Se dou a conhecê-los agora ao público mais vasto que frequenta o blog, e que por esse facto demonstra manter algum interesse por estes assuntos, é apenas como pequeno contributo para desfazer os mitos que ainda correm sobre o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista no período imediatamente a seguir ao 25 de Abril.


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MITOS DO ESQUERDISMO COMUNISTA
MARXISTA-LENINISTA-MAOISTA


José Manuel Correia


1. O revolucionarismo comunista marxista-leninista.

Ao contrário do que propala a ideologia burguesa, mesmo a de cariz académico e com pretensões científicas, a História tem sentido. Um sentido dinâmico e difuso, que vai sendo construído lentamente e por vias sinuosas, apreendido ainda mais lenta e desfasadamente pelas limitações intrínsecas da compreensão humana da realidade e da acção das suas próprias práticas sobre ela, mas que consiste na construção daquilo a que Jean Piaget designou afortunadamente por equilibração: a busca incessante de novos e melhores equilíbrios em resposta à desequilibração permanente que afecta os sistemas no caminho para a entropia (e, nomeadamente, os sistemas humanos, visivelmente predatórios dos equilíbrios naturais).

O marxismo identificou o sentido da História com a sucessão de sistemas económicos ou modos de produção cada vez mais produtivos e susceptíveis de irem resolvendo as situações de penúria e de dependência da natureza que caracterizavam a existência humana, e atribuiu às classes sociais progressivas, representativas das novas tendências evolutivas, e aos seus estratos mais radicais (as suas vanguardas), capazes de interpretarem essas tendências e de formularem novos conceitos e valores com elas coerentes, o papel de agentes das transformações ideológicas e políticas adaptáveis às novas realidades económicas emergentes. Esse é um mérito que dificilmente lhe poderá ser negado, apesar da persistência da ideologia burguesa na negação de qualquer sentido para a História (talvez por ser a burguesia uma classe social também ela histórica, cujo progressismo se esgotará, sendo então substituída por uma nova classe social emergente).

Outro mérito do marxismo foi ter posto em evidência o papel da violência na construção das transformações políticas mais adaptadas às realidades económicas. Ambos estes méritos, tal como os da utilização do conceito de classe social e da concepção da evolução social através de lutas de classes, porém, viriam a ser ofuscados por grandes equívocos, nomeadamente, na identificação do proletariado como sendo a classe revolucionária que haveria de suceder à burguesia na direcção da sociedade e na redução da revolução social à sua componente de revolução política. Infelizmente, pelas implicações políticas que vieram a ter, são os equívocos que hoje são apontados como características essenciais do marxismo, relegando para plano secundário as grandes contribuições de Marx para a compreensão um pouco melhor da realidade social.

Numa época de marcadas convulsões sociais, fomentadas pela rápida evolução económica que punha na ordem do dia a necessidade de acentuadas transformações políticas, como foram os séculos XVIII e XIX, o proletariado emergente era um actor destacado da luta política radical. Perante as vacilações da burguesia, que desejando a transformação temia a revolução, Marx julgou ser o proletariado a classe social capaz de substituí-la na direcção da sociedade no caminho do progresso social. Não descortinou que a luta proletária era uma luta defensiva, não só contra aspectos arcaicos da organização social como contra as rápidas transformações económicas que lhe degradavam as condições de existência. Embora compreendesse a reacção proletária ao rápido progresso técnico que lhe acarretava no imediato condições de vida ainda mais duras e precárias, quando combateu as raízes idealistas das suas utopias igualitárias foi para demonstrar-lhe que não só o progresso era inevitável como o papel social que lhe estava destinado era a direcção da revolução social e a instauração da sociedade igualitária, sem classes, sem explorados nem exploradores.

Ao tempo em que foi proclamado (1848), num panfleto revolucionário que constituía o programa da Liga dos Comunistas intitulado Manifesto do Partido Comunista, este axioma profético não encontrava sustentação em qualquer conhecimento histórico, isto é, toda a História mostrava que as classes sociais que se sucediam no poder não eram as classes sociais exploradas, mas novas classes sociais emergentes, detentoras dos novos instrumentos económicos, ainda que subalternizadas politicamente (e, por vezes, até dominadas e oprimidas). A revolução proletária profetizada pelo marxismo confirmava o sentido da História, mas errava nos protagonistas da construção desse sentido: pela primeira vez (e não há para tudo uma primeira vez?), uma classe explorada iria suceder no poder a uma classe exploradora. Que sociedade poderia esta classe explorada implantar se não uma sociedade sem explorados nem exploradores?

A ascensão da burguesia ao poder foi lenta, como lenta foi a transformação económica que foi operando na sociedade a evolução do capitalismo mercantil para o capitalismo industrial. Nuns casos, envolveu lutas violentas, e, noutros, lutas pacíficas; umas vezes, traduziu-se por vitórias claras, outras, acabou em compromissos, e outras, ainda, conformou-se por derrotas mais ou menos pesadas. Não há exemplo das revoluções burguesas que possa apontar-se como modelo, tão diferentes foram os contextos do desenvolvimento económico, ideológico e político em que se desenrolaram. Paradoxalmente, o marxismo vulgar erigiu a revolução francesa como paradigma da revolução burguesa, mas ela teve muito pouco de original e muito menos ainda de modelo. Pode dizer-se que o golpe de estado insurreccional e a guerra civil revolucionária constituem recursos extremos impostos pela intransigência da classe dominante ou quando as condições objectivas ainda não estão completamente amadurecidas. No caso da França, um país atrasado no desenvolvimento capitalista, a insurreição jacobina reflecte não só o atraso económico como os entraves da monarquia feudal ao desenvolvimento da economia capitalista.

A redução da revolução social à revolução política e esta ao golpe de estado insurreccional foi uma simplificação abusiva da realidade histórica multifacetada levada a cabo pelo marxismo. Este reducionismo não foi ingénuo, dado que uma classe social desprovida de meios de produção e de outros instrumentos de pressão que favoreçam a negociação e a troca de papéis com a classe dominante dificilmente pode tomar o poder se não pelo golpe de estado insurreccional. O marxismo, antes de mais, era uma proposta revolucionária insurreccional, tendo como exemplo, apontado por Marx, a Comuna de Paris; e Lenine foi não só o exemplo do marxista revolucionário insurreccional como o difusor do regime pós-revolução como ditadura do proletariado, visto uma tal classe social não ter hipótese de se manter no poder nem de empreender profundas transformações económicas e políticas se não pela violência e pela via ditatorial de supressão das liberdades. A vida, com toda a carga de dramas pessoais e sociais, veio a comprovar que o poder proletário só pode realizar-se sob a forma de Estado totalitário.

Outra interpretação do marxismo diferente da interpretação insurreccional resultava numa caricatura. Nesta questão, Lenine era mais coerente do que Kautsky, tido até aos primórdios do século como o guardião do templo da ortodoxia marxista. A acção sindical e parlamentar eram importantes para a conquista de influência política entre as massas em períodos de refluxo do movimento, mas estavam destituídas de valor como instrumentos de ascensão ao poder. O reformismo parlamentar como via privilegiada de realização da revolução socialista proletária não passava de uma corrente oportunista no seio do marxismo. Se para a burguesia o reformismo político fora, em geral, suficiente para desenvolver e consolidar a sua revolução social (apesar de nalguns casos ter tido necessidade de chegar à insurreição para desencadear transformações políticas mais radicais), ao proletariado o reformismo nunca permitiria a conquista do poder. Insurreição ou reforma seria doravante a distinção entre marxistas e não marxistas, e se os reformistas social-democratas mantiveram durante anos a referência ao marxismo tal não passou de um mero rótulo oportunista.

A revolução socialista proletária de Outubro de 1917 veio confirmar o voluntarismo leninista e a via insurreccional para a tomada do poder, e tornou-se no paradigma da revolução proletária moderna. Apesar disso, devido às vicissitudes da guerra-fria e às conquistas do movimento operário nos países capitalistas ocidentais, os partidos comunistas de orientação soviética, ditos revisionistas, evoluíram para o reformismo. Para cúmulo do paradoxo, alguns mantinham as velhas retóricas e desígnios revolucionários, mas todos se propunham implantar o socialismo e o comunismo pela via reformista, passo a passo e de etapa em etapa, numa teia de contradições cada vez mais insustentável, de que o contraste entre o autoritarismo que caracterizava os seus programas e formas de organização (devido ao velho “centralismo democrático” leninista) e as liberdades que usufruíam nas sociedades burguesas democráticas os seus militantes e adeptos enquanto cidadãos era o exemplo mais caricatural.

Nascido da ruptura com a deriva reformista do comunismo pró-soviético no rescaldo das disputas sino-soviéticas sobre a liderança do movimento comunista internacional nos primórdios da década de 60, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista arvorou-se no verdadeiro herdeiro do marxismo revolucionário insurreccional. O retorno à ortodoxia revolucionária propagandeado pelo maoismo, apesar de tudo, era mais aparente do que real. As concepções maoistas sobre o papel do partido e das massas e sobre o protagonista da revolução (que identificava como sendo o campesinato), assim como a própria revolução política dirigida pelo Partido Comunista da China em aliança com a burguesia nacional “patriótica”, variante local da revolução democrático-popular (designada ali por Democracia Nova) instituída pelo VII Congresso da Internacional Comunista como alternativa à revolução socialista proletária, ao invés da afirmada fidelidade à ortodoxia constituíam um nítido desvio da dogmática ideológica marxista-leninista.

Por estas razões, fora das formações sociais onde o campesinato era a classe social maioritária e dos movimentos de libertação nacional de antigas colónias e de partidos comunistas de países pouco desenvolvidos, o maoismo não conquistou muitos adeptos. Nos países desenvolvidos, confinar-se-ia a pequenos grupos de activistas, formados em geral por dissidências dos partidos comunistas marxistas-leninistas pró-soviéticos ou por iniciativa de jovens radicais de ideologias eclécticas. As apontadas concepções maoistas, mais o seu desmesurado voluntarismo, viriam a contribuir decisivamente para a fragilidade ideológica e política patenteada desde sempre pelos grupos esquerdistas marxistas-leninistas-maoistas. Se algo os caracterizou foram as suas exacerbadas retóricas anti-capitalistas, a evocação permanente da acção revolucionária insurreccional, a rejeição liminar de toda e qualquer actuação reformista, a existência desligada das massas operárias, baseada na agitação e na propaganda, e o radicalismo típico das seitas.

O repúdio tão veemente do reformismo, propalado pelo esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista, reflectia também o receio de ser contaminado pelo sistema e de ser por ele absorvido, como criticava aos partidos comunistas pró-soviéticos. Apresentando-se mais radical nas palavras, afirmando-se detentor da herança ideológica revolucionária e repudiando os pretensos desvios reformistas e burocráticos do regime soviético, mas contentando-se com a propaganda da revolução, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista era tão ou mais oportunista do que o comunismo marxista-leninista pró-soviético, deixando o proletariado à deriva nas lutas económicas, sem tentar, pelo menos, dar-lhes um cunho radical e transformá-las em lutas políticas contra o domínio e a exploração do capital que as consolidassem.

2. O esquerdismo marxista-leninista-maoista e os falhanços revolucionários.

“Sabemos hoje que o socialismo era uma impossibilidade nas condições históricas dos séculos XIX e XX, não devido a uma qualquer maldição genética da espécie humana mas (devido) ao insuficiente desenvolvimento das forças produtivas. Nas condições materiais vigentes, o comunismo era então e é porventura ainda uma miragem longínqua e indefinível (...). A revolução proletária falhou na Europa ocidental dos anos 20 por clara imaturidade e hesitação do movimento insurreccional. Quer isto dizer que nos países do capitalismo mais avançado não havia ainda condições materiais para a tomada (e naturalmente para o exercício) do poder pela classe operária. O que remete o sucesso inicial da revolução russa para as extraordinárias condições sociológicas (extrema concentração do proletariado, ardiloso aliciamento do campesinato), históricas (derrota e desmobilização na guerra) e até humanas (uma liderança incomparável) que lhe subjazeram. Após o primeiro embate vitorioso, logo se viu porém que não havia condições materiais para prosseguir a revolução no caminho do poder dos sovietes. O voluntarismo dos dirigentes comunistas tentou então preencher a lacuna, à espera da revolução mundial. Mas esta não estava nas cartas e, em verdade, não foi decisiva a ‘traição’ de Estaline para o seu fracasso. A revolução russa ‘devia perecer’” [1] (itálicos meus). Embora não as esgote, esta longa citação permite situar as posições actuais do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista face aos falhanços revolucionários proletários, pelo menos, em relação à revolução russa de Outubro de 1917.

Duma primeira apreciação ressalta a autêntica obsessão do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista pela revolução e pela via insurreccional, a ponto de tentar justificar as derrotas revolucionárias pelas razões mais contraditórias. Na Rússia, apesar das extraordinárias condições subjectivas que tornaram possível a insurreição vitoriosa, a revolução falhou por falta de “condições materiais para prosseguir”; fica sem saber-se, porém, se as condições materiais não existentes para prosseguir existiriam para ela ter irrompido sequer. Enquanto na Europa ocidental, por seu lado, se “nos países do capitalismo mais avançado não havia ainda condições materiais”, a revolução proletária falhou “por clara imaturidade e hesitação do movimento insurreccional”. Pese embora a amálgama de argumentos contraditórios e sem sentido, o último refúgio do esquerdismo comunista para justificar os desaires revolucionários parece residir na falta de maturidade das condições materiais existentes quer na Rússia, quer nos países europeus de capitalismo avançado onde foram desencadeadas tentativas revolucionárias (Alemanha e Hungria). A invocação de uma tal imaturidade permite ao esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista manter inabalável a fé na futura revolução proletária, remetendo a sua eclosão vitoriosa para quando as condições materiais estiverem maduras, restando-lhe esperar que então estejam também maduras as condições subjectivas para a insurreição vitoriosa e que o proletariado não pregue mais uma partida à sua proclamada vanguarda.

Esta cedência à evidência histórica, porém, é um claro subterfúgio para manter indefinidamente em aberto uma discussão estéril — sobre a existência de condições revolucionárias maduras — e escamotear a questão de fundo: saber se a revolução socialista proletária profetizada pelo marxismo é sequer uma necessidade histórica. Colocando-se nos estreitos limites da discussão da conjuntura, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista pretende evitar qualquer discussão teórica sobre as tendências gerais da evolução social e sobre a evolução e a superação do próprio capitalismo como modo de produção dominante, e, deste modo, desviar da discussão a questão da validade do axioma profético marxista. Nestas condições, queda-se pelo campo da crença pela fé, no qual nenhuma discussão frutuosa é possível, porque a fé está fora de qualquer racionalidade. Para quem se afirma detentor de uma teoria científica da evolução social e se reclama do materialismo em que o marxismo se pretende ter fundado, esta posição idealista constitui mais um paradoxo.

A apreensão da realidade que o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista consegue fazer, porém, é também ela falaciosa. Para explicar os falhanços das revoluções proletárias, alguns admitem “que o socialismo era uma impossibilidade nas condições históricas dos séculos XIX e XX” [2], devido “ao insuficiente desenvolvimento das forças produtivas”, e que, por isso, a Grande Revolução Socialista Proletária, de Outubro de 1917, “devia perecer”, já que “após o primeiro embate vitorioso, logo se viu porém que não havia condições materiais para prosseguir a revolução no caminho do poder dos sovietes” [3]; e outros chegam ao ponto de lhe negarem o carácter socialista — “a revolução russa não foi ‘traída’, era por natureza burguesa e não socialista” [4] — numa pirueta política sem precedentes. Com estas justificações tão extravagantes quanto serôdias não estranharemos se um destes dias o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista passar a negar à revolução russa de Outubro de 1917 o seu carácter proletário. Parece valer tudo para continuar a não retirar as necessárias conclusões acerca do monumental logro em que o proletariado mundial foi levado a acreditar: que a História lhe teria reservado a missão de remir os pecados da humanidade, como proclama o axioma profético marxista.

Incapaz de compreender o carácter idealista do axioma profético marxista e de descortinar as limitações e equívocos da crítica marxista ao modo de produção capitalista, assim como dos proclamados processos deterministas da evolução social, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista nunca pôde compreender a natureza do modo de produção vigente na União Soviética desde a revolução proletária de 1917, que apesar das representações que dele tinham os protagonistas e os adeptos não passava de uma forma diferente do capitalismo (o capitalismo de Estado monopolista), nem a natureza totalitária do seu regime político. Para se demarcar das estafadas tiradas do trotskismo sobre um hipotético desvio burocrático do regime proletário, teve de inventar um desvio revisionista kruschovista; quando o maoismo já se esboroava, passou a identificar o próprio estalinismo com um hipotético desvio centrista; e, após a revolução burguesa russa de 1991 que derrubou o regime comunista, avançou para novas hipóteses justificadoras, apontando que “sob Estaline, houve como que um regresso ao modo de produção asiático para servir as necessidades de uma brutal acumulação capitalista” e “em lugar do definhamento da autoridade estatal e devolução do poder à organização espontânea dos produtores, deu-se a construção de um super-Estado burocrático e imperialista” [5].

Não contente por se afirmar detentor de uma profecia que lhe dá a conhecer o futuro por acontecer, o desvario do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista não tem limites e arroga-se também conhecedor do outro rumo que o próprio passado não percorreu, que seria “bem mais sombrio”, tentando encontrar um qualquer resquício de progressismo com que legitimar a revolução proletária russa e a grande transformação social que ela indubitavelmente realizou. Consola-se persuadido de que “sem o abalo libertador de Outubro de 17, o mundo teria seguido outro rumo, bem mais sombrio. Não fosse o ‘ditador’ Lenine, e a tão gabada civilização ocidental ainda não teria muito provavelmente descoberto o Estado-providência, o salário mínimo, o voto das mulheres e o direito ao aborto, a independência das colónias e os direitos humanos...” [6], tudo conquistas da revolução de Outubro para o próprio povo russo e, por sua influência, outorgadas de mão beijada pelo capitalismo ocidental aos seus povos!

A revolução proletária russa e as revoluções democrático-nacionais deste século cumpriram, por caminhos sinuosos, um papel necessário, eventualmente não contemplado nas intenções dos seus ideólogos — trouxeram para a modernidade, em pouco mais de meio século, países atrasados ou colónias, tarefa que a burguesia demorou bem mais tempo a conseguir noutros lados — e esse é o seu grande mérito histórico, não é necessário assacar-lhes outros totalmente imerecidos. Nesse sentido, pela sua influência nas aspirações dos trabalhadores e no fortalecimento dos partidos comunistas, a revolução proletária russa influenciou o curso da evolução política mundial, é um facto inegável; e aquele desiderato — cujo carácter histórico-social se enquadra nas tarefas das revoluções burguesas — é mérito da acção revolucionária do proletariado russo e do apoio que conseguiu do proletariado mundial. Infelizmente, apesar das grandes transformações económicas e políticas realizadas, a forma de produção instaurada não ultrapassou os limites do modo de produção capitalista — embora sob a nova forma de capitalismo de Estado monopolista — e o regime político implantado para levar a cabo tamanhas transformações não passou de uma ditadura totalitária e concentracionária.

Apesar dos progressos que o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista vem fazendo ao longo dos anos, num lento exorcismo dos fantasmas do seu passado ideológico (devagar, como se o trauma lhe pudesse causar desequilíbrios irremediáveis) — desde que abraçou a tese da “degenerescência” da revolução proletária russa e passou ao ataque do “revisionismo” pós-Estaline e à defesa intransigente da política terrorista e chauvinista do déspota iluminado maníaco-depressivo salvador da mãe pátria, fazendo coro com a ideologia nacionalista-camponesa do outro grande déspota iluminado deste século, Mao Zedong, até que descobriu no “centrismo” dimitrovista e estalinista o causador dos males e o fustigou, refugiando-se por fim na adopção, com algumas reservas, do legado teórico-prático leninista e na defesa intransigente do monumento ideológico marxista — ele parece não conseguir ainda chegar à derradeira etapa: reconhecer que o “socialismo científico” marxista e o seu axioma profético formam o maior equívoco ideológico produzido na época moderna.

Este monumento ideológico e político — criado por um duo ímpar da intelectualidade burguesa revolucionária, mas marginal, imbuído quiçá das melhores intenções e do mais sincero despojamento pessoal, que se envolveu com os interesses de uma classe social a que não pertencia, como se só ela lhe pudesse proporcionar o desafio julgado adequado à dimensão da sua genialidade; que por via da negação do idealismo filosófico hegeliano começou por atribuir à revolta operária contra as miseráveis condições de existência o sentido duma missão histórica redentora dos pecados da humanidade, num paralelismo certamente não desejado, mas facilmente comparável, com as crenças milenaristas das seitas radicais anabaptistas do campesinato medieval; que denodadamente se esforçou a combater as utopias idealistas operárias e pequeno-burguesas, para poder ocupar o seu lugar na orientação revolucionária das lutas da grande massa do proletariado moderno; que se esforçaria a comprovar um tal axioma profético com a demonstração das contradições intrínsecas do capitalismo, através do mais exaustivo estudo da economia política feito à época — não pode deixar de ser merecedor da nossa admiração, aquela mesma que rendemos ao feito memorável da tomada do poder em Outubro de 1917.

Mas reconhecer que a revolução proletária russa e o socialismo soviético não poderiam ter sido outra coisa; constatar que o grande desenvolvimento alcançado com a transição para a modernidade num período tão curto foi um feito memorável; aceitar que a cegueira provocada pelo deslumbramento nos impediu de ver uma realidade atroz, a mais horrível caricatura do que sonhávamos poder ser a prática do socialismo, que outros denunciavam, mas cujas denúncias repudiávamos atribuindo-as a calúnias da propaganda do inimigo de classe; compreender, por fim, que o axioma profético marxista é um equívoco, que a obra do próprio Marx nos permite descortinar, e que os interesses duma classe social dominada e explorada não se confundem com a representação que deles fazem os membros mais radicais da classe dominante que mudam de campo constitui uma necessidade, para que o pesado fardo da história do comunismo proletário não continue a contribuir para vulnerabilizar ainda mais uma classe social que nada dispõe além da capacidade para trabalhar.

Ficar agarrado ao passado, parado no tempo, cultivando a fidelidade ao marxismo-leninismo — expurgando-o de hipotéticos desvios, purificando a própria ortodoxia e identificando-o com a única ideologia legítima para o proletariado — e esperando que a História se repita não cometendo os mesmos erros demonstra nada ter aprendido: se aquela foi uma história trágica, a sua repetição só poderia vir a ser uma farsa. É tempo de reconhecer que o socialismo proclamado pelo marxismo se distingue do capitalismo privado pela forma estatal monopolista; que a ditadura do proletariado, supostamente para ser exercida sobre os antigos exploradores, não se distingue duma ditadura sobre o próprio proletariado; e que o Estado proletário, controlando a produção material, a organização social e a fruição cultural, não pode sair do quadro de um Estado totalitário e concentracionário, que pretende controlar a vida social e pessoal. As perversões políticas dos regimes orientados pelo marxismo-leninismo, porque comuns à generalidade deles, não podem continuar a ser imputadas a hipotéticos desvios da ortodoxia ou à influência de bárbaras tradições políticas e culturais locais, como denodadamente o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista se tem esforçado a fazer, porque os seus germes estão contidos na própria ortodoxia marxista-leninista.

Compete-nos salvar o que de bom nos legaram estes cento e cinquenta anos de utopia comunista proletária. Mas não é continuando agarrados a ela, expectantes, esperando a repetição da História, que cumprimos a opção de agir na defesa dos interesses do proletariado. Essa é hoje, como foi no passado, a atitude dos que abraçam a causa do proletariado calculadamente, imbuídos da crença de que ele é a classe revolucionária, o vencedor antecipado na derradeira crise do capitalismo, e que aspiram à suprema glória de se contarem entre a vanguarda vitoriosa do grande embate revolucionário, para usufruírem do festim dos despojos. Cada vez mais, porém, essa é uma expectativa sem futuro, porque o proletariado, ou o que dele restar daqui a uns anos, faz orelhas moucas às suas prédicas revolucionárias e trata de defender-se como pode, através da luta sindical possível e do acolhimento sob as abas da capa de quem afirme cuidar de si, seja o oportunismo social-democrata, seja o burocratismo comunista, para que ao menos o salário não lhe falte.

3. O atentismo do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista.

Para justificar a sua postura expectante, de aparente reflexão teórica e de imobilismo prático permanentes, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista vai-se entretendo com a propaganda da necessidade da revolução proletária, reafirmando a fidelidade a Marx e tecendo loas à sua genialidade. Fá-lo, porém, escudando-se numa das piores ofensas jamais feitas a Marx — “se ele pôde, há século e meio, divisar com lucidez genial os contornos da sociedade sem classes para além do capitalismo, isso deveu-se aos vastos horizontes que rasgava essa era de mudança, quando a nova ordem social emergia cheia de dinamismo sobre os escombros do mundo feudal” [7]. Se Marx está desactualizado — apesar da originalidade e da fecundidade da crítica da economia política que produziu, que permitiu explicar de modo menos incoerente o desenvolvimento do modo de produção capitalista, e da genialidade do seu pensamento, que possibilitou formular esboços de uma futura sociedade sem classes — é porque apesar da “era de mudança” em que produziu parte da sua obra, ou precisamente pelo contexto de então, não lhe era possível ir mais além, e foi bem longe.

Foi a fecundidade da crítica de Marx à economia política burguesa, destruindo-lhe os fetiches e formulando uma teoria do valor e da exploração que explicava — pelo menos, de modo menos inconsistente — as formas e as tendências do desenvolvimento capitalista, que lhe permitiu traçar um esboço possível de uma futura sociedade sem classes, e não “os vastos horizontes que rasgava essa era de mudança”. A realidade é por demais complexa para que a genialidade de Marx fosse suficiente para compreendê-la perfeitamente enquanto participava nela, e, de qualquer modo, a interacção dialéctica que rege o desenvolvimento social não permitiria determinar de antemão as formas precisas que assumiria passado tanto tempo e com tantas lutas de classes de permeio.

Não é Marx nem a insuficiência dos seus esboços da sociedade futura que estão desactualizados; tal como muitas das suas teorizações, eles resultaram de erros e de equívocos e sempre foram inadequados. Quem está desactualizado são os marxistas, que se quedaram deslumbrados por um extenso monumento teórico, aparentemente consistente, que não compreenderam em toda a sua vastidão, e se remeteram a elevar a crítica da economia política e a filosofia da História elaboradas por Marx à categoria de ciência certa, e a proclamar-lhe o génio e a autoridade indiscutível, para depois, escudando-se em citações abundantes, conquistarem e legitimarem a sua própria autoridade de teóricos respeitáveis ou de dirigentes incontestáveis.

Para esconder a sua incapacidade para compreender a realidade presente para além do que Marx previu, e para justificar os estéreis esforços teóricos e o afastamento das massas e da luta de classes em que se refugia, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista afirma que mesmo “com todos os conhecimentos modernos, é-nos mais difícil, hoje, abarcar as leis gerais do sistema do que foi a Marx” [8]. Bem se pode dizer: “mal do esquerdismo comunista se não fosse o Marx”, ou “bom Deus, manda-lhe um novo anjo anunciador, que o primeiro não foi suficiente”. Compreender a realidade social para agir sobre ela é difícil em todas as épocas — não podemos afirmar se é mais ou menos difícil hoje do que na época de Marx ou do que será no futuro. Se as interpretações sobre o passado são o que são, tentar compreender o presente é uma empreitada sem limites, de resultados sempre incompletos, toscos e enviesados, mas é com eles que se dispõem os tijolos com que se constrói o edifício social. Nesta actividade que pretende formular o sentido e apontar o rumo às lutas em que se digladiam interesses antagónicos não se pode esperar pelo resultado da lotaria, tem de se comprar antes o bilhete; nem se pode desejar a prévia caução da ciência, tem de se participar na praxis social e ir reflectindo sobre ela. Com sentido crítico, mas sem medo do julgamento da História.

Se pretendesse, de facto, compreender um pouco a realidade presente para agir sobre ela, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista não se quedaria pela citação apologética dos textos políticos de Marx e dos seus intrépidos discípulos, nem se ficaria pelas proclamações da necessidade da revolução proletária redentora. Começaria por questionar a filosofia da História, que proclamou o axioma profético da revolução socialista proletária, e chegaria à crítica da economia política e às restantes construções ideológicas elaboradas por Marx, que conduziram às hipóteses do desaparecimento apocalíptico do capitalismo e da pauperização absoluta do proletariado. Então, criticando-o e aprendendo com os seus erros e equívocos, talvez lhe prestasse a melhor porque a genuína das homenagens.

Se fosse por aí, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista poderia chegar também à compreensão de que a concepção leninista do partido proletário como organização de revolucionários profissionais, existindo fora do seio da classe, auto proclamando-se seu representante e arrogando-se o direito exclusivo à produção e à validação do conhecimento sobre a economia e a política, à interpretação infalível da realidade social e à definição da “linha justa” — tal como a redução da revolução social à sua componente de revolução política ou a concepção da revolução política como golpe de estado insurreccional — só muito dificilmente poderiam deixar de ser qualificados como novos erros e equívocos a juntar aos de Marx.

Talvez compreendesse, então, que o idealismo voluntarista que desaguou na revolução socialista proletária, de Outubro de 1917, e conduziu uma vanguarda pequeno-burguesa radical ao poder em nome dos operários e dos camponeses não poderia construir outro sistema económico-político que não o capitalismo. Um capitalismo diferente do capitalismo privado concorrencial — não só pelas representações sociais de que partia, fundadas numa ideologia que lhe predestinava a implantação do socialismo, mas pelo próprio contexto da sociedade russa, mergulhada em profundos atrasos e arcaísmos que as fracções moderadas da burguesia não se mostraram capazes de ultrapassar — mas um regime de capitalismo de Estado monopolista, gerido por uma burocracia terrorista e maniqueísta, comandada por longo tempo por um déspota iluminado, que em nome dos interesses do proletariado lhe retirou os direitos mais elementares e instaurou um Estado totalitário e concentracionário.

E poderia compreender, por fim, que os resultados daquela revolução socialista não foram apenas erros de percurso — ainda que de consequências práticas desastrosas para o movimento operário — nem ela própria foi uma revolução prematura, parida antes de tempo, mas certa e segura, como certo é o Sol nascer todos os dias, antes foi a crua demonstração do voluntarismo idealista e a dramática evidência da impossibilidade de realização da utopia anunciada pela profecia marxista. A realidade social é um objecto por demais complexo para se vergar às falsas representações que dela vamos formulando, e, apesar dos novos sentidos que as vontades atribuem às práticas, a acção prática contribui inexoravelmente para desenvolver e consolidar as tendências de evolução já presentes no real. Não há volta a dar-lhe: ou compreendemos a realidade e construímos formas de minimizar os impactos negativos das tendências do seu desenvolvimento ou ficaremos fora do tempo ou contra ele.

4. Os dinossáurios do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista.

Entre nós, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista vangloria-se de albergar os últimos dinossáurios do marxismo revolucionário, os verdadeiros comunistas, e afirma-o com a solenidade de quem estaria salvando umas aves raras da extinção e com a convicção de estar prestando um inestimável serviço à causa do proletariado. Estes dinossáurios arrogam-se hoje o prestimoso título de guardiães da pureza dos textos sagrados do marxismo, assim como o de seus fiéis intérpretes, tal como ontem ou há vinte e cinco anos atrás se consideravam os legítimos depositários do verdadeiro marxismo-leninismo, do puro e duro estalinismo e do radical e folclórico maoismo, escudando-se na áurea granjeada pela clandestinidade e pela glória da ruptura com o PCP na defesa da via insurreccional para o derrube do fascismo salazarista. Com esse título glorioso, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista pretende apresentar-se também como o genuíno representante dos interesses mais profundos do proletariado, mesmo que este não o reconheça como tal.

Mas a história do percurso dos dinossáurios, que justificaria a coroa de louros com que se ornamentam, está muito mal contada, e os seus pretensos méritos na defesa dos interesses do proletariado não têm qualquer fundamento, mesmo no contexto da realidade portuguesa. O seu papel não difere do de outros papagueadores do marxismo-leninismo-maoismo que não se cansam de repetir citações das cartilhas para legitimarem as suas erradas análises da realidade económica e política, e que assim se vão entretendo a preencher as suas vidas vazias e a compensar as suas frustrações. Ao longo do tempo, a sua missão parece ser a de genuínos intérpretes do último grito da moda (ou da moda do último grito) em matéria de ideologia proletária revolucionária. Mudou apenas o séquito dos apoiantes, e à míngua de quem os aclame reafirmam-se eles como baluartes da sua própria fortaleza.

Após a queda da ditadura, os dinossáurios tiveram papel de relevo na criação dum partido de massas (a UDP) que obteve nas eleições um mandato para a Assembleia Constituinte e para a que se lhe seguiu, e na aglutinação de pequenos grupos de activistas marxistas-leninistas-maoistas num grupo político mais amplo, de implantação por todo o território nacional, que então foi designado por PCP(R). A juntar a estes méritos mais recentes, no currículo do mais proeminente pesava também a pertença à Comissão Executiva do Comité Central do PCP, durante o fascismo, o pioneirismo no corte com o “revisionismo” e a fundação do primeiro grupo marxista-leninista português (o CMLP), assim como o martírio de longos anos de várias prisões. A expiação de velhos pecados da prisão — resultante de uma arcaica concepção comunista que confundia proclamações de fervor revolucionário e juras de dedicação sem limites à causa com coragem física para aguentar a porrada selvática ou a tortura ignóbil, armas correntes por todo o lado na guerra suja movida pelas polícias políticas aos militantes subversivos, e que concedia às hierarquias partidárias a prerrogativa de lançarem os fracos à penitência da fogueira do ostracismo ou ao opróbrio da expulsão — maculava-lhes o passado, mas não os impediu de se alcandorarem nos mais altos cargos, condizentes com o carisma e o halo mitológico de que eram portadores. Nesse deve e haver, o balanço foi considerado positivo e os dinossáurios integraram o Comité Central do novo partido (e o mais proeminente o seu Secretariado), aquando do congresso da sua fundação (realizado entre 27 de Dezembro de 1975 e 5 de Janeiro de 1976).

O estabelecimento de ligações com o movimento marxista-leninista-maoista europeu — constituído por pequenos partidos de implantação restrita e de representatividade insignificante, agrupados em torno da defesa das posições albanesas e chinesas contra o “revisionismo” soviético — trouxe até nós, para ajudar à organização e consolidação do novo partido, Diógenes Arruda Câmara, dirigente do Partido Comunista do Brasil (partido “marxista-leninista”, resultante duma cisão, ocorrida em 1962, no Partido Comunista Brasileiro, de que também fora importante dirigente). Exilado em França desde 1973, depois do golpe militar de Pinochet, no Chile, onde se acolhera após a libertação da sua última prisão (1969-1972) para tratamento das sequelas dos maus-tratos que lhe tinham sido infligidos pelo regime da Ditadura Militar vigente no Brasil, instaurado pelo golpe de estado de 1964, e deslumbrado com o golpe de estado que restabeleceu a democracia em Portugal, Arruda, um político experiente e antigo parlamentar, viria a ter um papel de relevo na evolução do esquerdismo marxista-leninista-maoista entre nós e na dos próprios dinossáurios.

Uma das primeiras intervenções de Diógenes Arruda no PCP(R) foi a clarificação de regras face a militantes que haviam fraquejado na polícia, e o consequente afastamento de cargos de direcção daqueles que arcavam com essa mácula no seu passado. Os dinossáurios foram então destituídos dos cargos que ocupavam, para os quais tinham sido eleitos menos de seis meses antes, situação que aparentaram aceitar demonstrando uma enganadora humildade. Para alguns, contudo, a destituição era mais formal do que real, pois foram colocados na redacção do órgão de imprensa e em comissões eventuais de apoio à direcção do partido, especialmente constituídas ou alargadas para albergá-los, já que a indigência política da direcção os considerava insubstituíveis e parecia não poder dispensar totalmente o seu conselho e colaboração. A nova situação não era de todo descabida: possibilitava-lhes desembaraçarem-se de um problema que parecia teimar em não abandoná-los e permitia-lhes continuarem a influenciar a linha política do partido, se bem que nos bastidores, à sorrelfa. Constituía, digamos, um mal menor a que tiveram de sujeitar-se.

Foi nesta condição de conselheiros que os dinossáurios participaram na reformulação da linha política que anteriormente haviam delineado para o partido e na invenção da estratégia da etapa intermédia do “25 de Abril do povo” [9] a caminho da “revolução democrático-popular”, etapa intermédia a caminho da “revolução socialista”, e na delineação da táctica da ascensão imparável das maravilhosas massas de milhões de proletários para os embates do assalto ao poder que se avizinhava, e noutras trampas do género, à medida da sua fértil imaginação e ao ritmo da fácil fluência de escrevinhadores prolixos. A leviandade com que repudiavam a linha política original do partido e adoptavam este contrabando oportunista viria a manifestar-se também mais tarde, no processo da sua destituição, quando passaram a criticá-lo, identificando-o com o "centrismo" dimitrovista e estalinista, como se nada tivessem a ver com a sua autoria, e evidenciava a sua capacidade para se manterem à tona e sobreviverem mesmo aos mais fortes vendavais.

Aquelas tontarias, que a indigência obreirista aplaudia com fervor e a infantilidade estudantil-intelectual secundava efusivamente, rondando o delírio laudatório, resultantes da coexistência do mais prosaico oportunismo com o tradicional aventureirismo guevarista dos dinossáurios, revelavam confrangedoras incapacidades de percepção da realidade económica e política e de nela intervir, mas não os incomodavam sobremaneira. As retóricas radicais adoptadas constituíam, até certo ponto, o suporte necessário para o combate ao “revisionismo cunhalista” em que os dinossáurios se mostravam empenhados, e denotavam a sua propensão para guardiães do templo, defensores estremes do radicalismo puro e duro, na época identificado com citações de conveniência da cartilha marxista-leninista-estalinista-maoista sem qualquer relação com a realidade existente.

A sua notória tendência para cortiços flutuantes fê-los participar, aquando do 2.º Congresso do então novel PCP(R), em Março de 1977, dedicado à definição da estratégia e da táctica, na proa da vergonhosa orquestração que visou o isolamento, e a posterior tentativa de expulsão, do dirigente que assumia com frontalidade a primeira divergência de fundo que se manifestava naquele partido. Nesse notável congresso, exemplo da consigna comunista “os fins justificam os meios”, onde parecia valer tudo — dos sussurros intimidatórios às ameaças veladas nos discursos inflamados encomendados a exaltados operários, ideologicamente analfabetos e politicamente ineptos, e à mobilização da direcção cessante, estrategicamente dispersa pela sala, com cada membro rodeado do seu séquito de delegados, escolhido em simulacros de assembleias regionais, sucedendo-se em intervenções previamente preparadas e combinadas contra as de um dirigente que tinha a ousadia de divergir, que assumia sem rodeios a oposição às ideias dominantes e que corria o risco de defender posições originais, contrárias às dos restantes dirigentes e da esmagadora maioria dos delegados — os dinossáurios mostraram o maior desprezo pela luta de ideias e o seu profundo apego aos métodos estalinistas vigentes nos partidos marxistas-leninistas.

No essencial, a oposição caracterizava como socialista a etapa da revolução social em Portugal, face às relações de produção dominantes e ao desenvolvimento das forças produtivas no país, e definia como sendo de refluxo o estado do movimento operário — cujas greves e outras formas de luta, após o início da contra-ofensiva da burguesia, tinham um carácter marcadamente defensivo — apontando medidas para o correcto enquadramento da actividade partidária, tanto no campo da reorganização interna (com a legalização do partido e a extinção da frente de massas UDP) como no campo da intervenção sindical (com a orientação do partido para o reforço da participação dos militantes e dos simpatizantes nos sindicatos e nas lutas dos trabalhadores nas fábricas, nos estaleiros e nas oficinas). Mas aquela era uma oposição politicamente frágil, que não saía do âmbito da ortodoxia marxista-leninista e que procurava até a sua aplicação coerente; numericamente débil, isolada na direcção e não conquistando mais do que meia dúzia de adeptos entre os delegados; e quiçá inoportuna, devido às múltiplas fragilidades que ela própria e o partido evidenciavam.

Apesar das suas limitações — de que ressaltavam a imaturidade para avaliar e prever o desenvolvimento duma luta partidária em condições tão desfavoráveis e a ingenuidade de julgar que a discussão de ideias era possível num partido em que a análise da realidade visava encontrar nela analogias plausíveis com as citações da cartilha, cujos quadros se mostravam incapazes de qualquer exercício pessoal de racionalidade, acomodando-se às posições maioritárias para não perderem os cargos — as propostas que defendia mostravam-se perigosas, porque chocavam com a estratégia e a táctica propostas pela direcção do PCP(R) e com a estratégia definida para o PC do Brasil — que então, através de Diógenes Arruda, tutelava o PCP(R) — e as punha em causa. Por todas essas razões, a oposição congregou contra si as tendências latentes no partido, sob a batuta do próprio Arruda e com o empenhamento dos dinossáurios, e traçou irremediavelmente o seu destino no interior do PCP(R).

Para além de defensores e de escrevinhadores do contrabando veiculado pela proposta de resolução apresentada ao Congresso pela direcção, e do afã com que o defenderam no decorrer das sessões, os dinossáurios e a clique dirigente mantiveram intocada a estratégia da etapa intermédia do “25 de Abril do Povo” a caminho da “revolução democrático-popular”, e, na táctica, inventaram, sem o mais leve pingo de vergonha, para caracterizar o estado do movimento operário, um “recuo peculiar” (quando durante o congresso se haviam esfalfado a ilustrar a ascensão), tomando de empréstimo, embora sob um disfarce “peculiar”, a tese demonstrada pelo opositor derrotado, numa manobra típica do "centrismo" estalinista, que combatia e derrotava nas votações (quando não mandava eliminar) os que poderiam vir a fazer-lhe qualquer tipo de sombra e depois adoptava o essencial das suas posições.

Passados uns anos — quando lhes coube a vez de discordar e entraram em dissidência, constituindo-se como fracção organizada, e foram expulsos — os dinossáurios, com a mesma falta de vergonha, falsificavam o relato da pequena história das lutas internas, para mais uma vez se adornarem com os louros de defensores das posições de esquerda e de depositários legítimos da verdadeira interpretação da cartilha marxista-leninista. “Em 1978, o PC(R) encontrou-se a braços com a sua primeira dissidência de direita. Uma parte considerável do CC e dos quadros regionais punha em causa o valor das ‘conquistas de Abril’ e a esperança numa reabertura próxima da crise, reclamava uma táctica defensiva, assente na acção sindical e parlamentar, a legalização do partido, a aproximação ao PCP, aos socialistas de esquerda, mesmo aos eanistas” [10] (itálicos meus). Para além do manifesto oportunismo do deputado Acácio Barreiros [11], unanimemente reconhecido, e das costumeiras reticências e ambiguidades ainda indecifráveis do Frederico Carvalho [12], a generalidade da direcção alinhava pelo diapasão da euforia, pelo que é uma rematada falsidade a afirmação de que a maioria do CC e dos quadros regionais reclamava uma táctica defensiva. Tal como é outra falsidade que alguém com responsabilidades de direcção alguma vez defendesse com convicção a aproximação ao PCP, aos socialistas de esquerda ou aos eanistas, mesmo de entre os mentecaptos que por vezes sugeriam, à laia de dúvidas, as baboseiras mais infantis para usar como manobras no trabalho local.

A conotação da oposição com a reclamação da aproximação com partidos ou tendências estrategicamente à direita é uma velha artimanha a que os dinossáurios recorrem para tornar credível o epíteto de “crítica de direita” com que baptizam a oposição à linha então vigente. E o que chamam de dissidência resumia-se a posições divergentes expressas pelo segundo secretário do Comité Central, às quais vieram a aderir, durante os debates preparatórios do congresso, um quadro regional e uma dúzia de militantes dispersos. Mas esta oposição, numericamente insignificante e politicamente ingénua, que chegou a acreditar que o debate de ideias era possível e susceptível de vencer os interesses instalados do oportunismo e do carreirismo políticos, como acontecera no grupo de que era originária (a OCMLP), conseguiu, ao menos, pôr a nu as fragilidades ideológicas e políticas do PCP(R) e da dita corrente marxista-leninista-maoista, e esse feito inesperado transformou-a no alvo de um combate sem tréguas.

“Para demonstrar o oportunismo desta tendência seria necessário reconhecer que o partido errara toda a apreciação da crise de 75 e do seu desenlace. O cansaço evidente dos dissidentes, desejosos de abandonar uma trincheira que se tornava incómoda, não podia obscurecer o facto de que eles punham a nu os pontos fracos do vanguardismo do partido. Só dando um passo à esquerda se podia responder efectivamente à crítica de direita. Esta via estava contudo excluída para o núcleo dirigente, que chegara ao mito do 25 de Abril do povo pelo cruzamento da euforia do ‘Verão quente’ com a linha internacional das frentes populares e das democracias populares. Optou-se, por isso, no 3º congresso, por reajustar a táctica do partido, indo disfarçadamente ao encontro das críticas. (...) Na aparência, a linha do partido não mudava; na prática, tratava-se de se adaptar ao recuo” [13] (itálicos meus).

Apesar de pôr “a nu os pontos fracos do vanguardismo do partido”, para os dinossáurios a oposição desenvolvia uma “crítica de direita”, e eles, embora na altura relegados para redactores de serviço e para funções de apoio ao núcleo dirigente, mas intervindo activamente na construção da linha política vigente, eram os detentores da resposta de esquerda necessária. Achando, curiosamente, que gente cansada se daria ao trabalho de enfrentar solitariamente, durante meses a fio, todo um partido, os dinossáurios ainda se esqueceram de referir a sua própria responsabilidade na criação do “mito do 25 de Abril do povo”, do contrabando da “revolução democrático-popular” e do voluntarismo folclórico, que na prática servia para enfeitar a “reunite crónica” com que o partido se entretinha, virado para o seu interior, para assim encobrir a sua completa incapacidade de percepção da realidade política e de intervenção sobre ela.

As responsabilidades dos dinossáurios, porém, não se ficam pela elaboração e pela defesa duma linha política deslocada da realidade: eles foram cúmplices, apadrinhando ou calando a denúncia, dos métodos persecutórios e manipulatórios usados para isolar a oposição interna. E se referem, ao de leve, que a táctica que viria a ser progressivamente adoptada não correspondia à aprovada no Congresso, mas a decisões posteriores da direcção, devido à necessidade de corrigir uma orientação que se comprovava completamente desajustada da realidade, não se dignam a esboçar qualquer palavra de crítica às trafulhices [14] praticadas por gente sem escrúpulos, autênticos vigaristas políticos. Foi deles e desta gente, destas práticas e do manifesto infantilismo político que caracterizava o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista que a oposição se cansou, e, informando-os de que para brincadeira preferia o jogo do berlinde com os filhos, os mandou à fava e lhes virou as costas abandonando o partido [15].

Os dinossáurios atribuem ao “arrudismo” todos os males que afligiram o PCP(R) após o seu 2.º Congresso. É simples de mais para corresponder à realidade, mesmo que o “arrudismo” representasse uma corrente oportunista no seio do movimento operário organizado, que pregava a revolução, mas praticava a conciliação, que se distinguia do cunhalismo por um anti-revisionismo de cariz pequeno-burguês de laivos maoistas e que reduzia a táctica à pragmática da manobra hábil, mas, por isso mesmo, sinuosa e obrigando a inflexões constantes. O “arrudismo”, porém, não passa de um bode expiatório com o qual os dinossáurios pretendem esconder não só as suas próprias responsabilidades anteriores como as da sua longa convivência com ele. O principal problema do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista nunca residiu nas práticas organizativas e nos métodos de direcção, que oscilavam entre o federalismo anarquista e o centralismo estalinista, mas esteve sempre ligado à sua incapacidade de compreender a realidade e de agir sobre ela, e era essa incapacidade, partilhada com o “arrudismo”, que lhe impossibilitava conquistar credibilidade e influência política entre as massas operárias.

Por detrás desta simplória atribuição das culpas de todos os males ao “arrudismo” estão ainda razões pessoais, que os dinossáurios demonstram não esquecer. Parece não perdoarem ao “arrudismo” ter vindo desenterrar o velho axioma comunista de que militante que fraqueja na polícia não pode jamais pertencer a órgãos de direcção, que então parecia haver sido ultrapassado, e ter conseguido afastá-los do Comité Central por métodos anti-estatutários. O facto, porém, é que os dinossáurios não contestaram quer a renovação dessa velha querela, dado comungarem do mesmo idealismo fanfarroneiro, quer os métodos usados, visto sofrerem da mesma propensão para a arbitrariedade do centralismo autoritário que não se submete a regras. Apesar de todos os agravos pessoais de que possam ter sido vítimas, os dinossáurios já tiveram tempo para perceber que para o insucesso do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista na conquista e consolidação de um espaço político próprio entre as massas operárias, mesmo que de pequeno relevo, mas justificador da sua existência autónoma, tão nefasto foi o oportunismo do “arrudismo” quanto o seu voluntarismo.

5. Agonia do esquerdismo comunista português.

Cumprindo o percurso previsível de todo o esquerdismo inconsequente — como resultado da sua nulidade teórica, que o levava a procurar refúgio seguro na recitação da cartilha; das suas limitações na compreensão da realidade e na intervenção na política prática, que o faziam virar-se para o seu interior e entreter-se com intermináveis reuniões e periódicas campanhas de rectificação; e do desprezo pelos interesses do proletariado, que sacrificava à propaganda da revolução vindoura, tentando assim preencher e caucionar uma existência vazia de conteúdo — do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista pouco resta.

O PCP(R), consumido em sucessivas dissidências e cisões, acabou por extinguir-se, por inútil, migrando os seus restos para a velha frente esquerdista UDP, hoje transformada num pequeno grupo de intelectuais pequeno-burgueses entretidos com jogos políticos de alianças para ir apanhando migalhas na representação autárquica. Os antigos quadros e dirigentes revolucionários esperam por melhores dias, acomodam-se a governar a vida ou pura e simplesmente transferiram-se para o campo do capital, como o fizeram muitos outros “revolucionários” de muitos outros grupos esquerdistas.

Os dinossáurios, reduzidos a um pequeno grupo coeso de seguidores do indefectível arauto de sempre, limitam-se a papaguear o anúncio da revolução proletária redentora e a tecer comentários lineares sobre a actualidade política nacional e internacional, usando como instrumentos privilegiados da análise alguns dos velhos estereótipos. A crueza da realidade do rescaldo das revoluções proletárias impôs-lhes algum esforço de reflexão, que os levou a pôr em causa o carácter socialista daquelas revoluções e a renunciar ao legado ideológico maoista, a repudiar as práticas estalinistas, a rejeitar um ou outro postulado leninista e a refugiarem-se na ortodoxia marxista. Mas questionar o velho Marx e compreender-lhe os erros e equívocos parece ser para eles uma barreira intransponível. Se abandonassem o axioma profético da revolução proletária, com que se entreteriam eles, que sempre desprezaram a defesa dos interesses imediatos dos operários e dos trabalhadores em nome dos seus cantados interesses a longo prazo? A apologia sempre é preferível à crítica, a crença na verdade revelada é bem mais confortável do que a mais leve dúvida, e a fidelidade ideológica, apesar de tudo, ainda proporciona uma consoladora coerência. Apetece perguntar: que separa hoje os dinossáurios do cunhalismo petrificado?

A antiga oposição interna dos tempos do PCP(R) — politicamente inexperiente e inábil, que comungava de muitas das incapacidades da militância marxista-leninista, mas não se deslumbrava com os cargos de responsabilidade que ocupava nem com os profusos elogios que Diógenes Arruda Câmara lhe fazia até ao surgimento das divergências, qualificando-a como a mais promissora revelação no partido — remeteu-se a uma longa travessia do deserto de inactividade política partidária, que lhe trouxe frustrações nem sempre bem superadas. Um tão longo interregno permitiu-lhe, ao menos, matar os fantasmas do passado, encetar uma tentativa de crítica consequente da ideologia marxista-leninista e vir propor o esboço de uma nova ideologia, baseada no reformismo radical de esquerda, e a fundação de um partido classista proletário, que se pudessem constituir como instrumentos de intervenção política na defesa dos interesses sociais, económicos e políticos dos trabalhadores.

Por estranho que pareça, tais propostas não encontraram qualquer eco em muitos antigos revolucionários, quer entre os desiludidos com a política, quer entre os confortados com a filiação na social-democracia à portuguesa. E os que se mantêm activos parecem preferir, à clarificação do corte ideológico com o marxismo revolucionário e à consequente adopção do reformismo radical, a transfiguração do revolucionarismo comunista no pragmatismo transclassista da nova esquerda emergente designada por Bloco de Esquerda. Aparentemente mantêm-se revolucionários, embora com retóricas de léxico mais suave, mas vão inexoravelmente operando a transmutação dos protagonistas da futura revolução, cada vez menos a classe operária e os trabalhadores. Na nova esquerda emergente albergam-se hoje ex-maoistas e trotskistas, mas não admirará se um dia destes a unificação dos nostálgicos revolucionários comunistas vier a congregar também os estalinistas da velha esquerda, já que os separa tão pouco.

A hipocrisia do reformismo não assumido de uns e do revolucionarismo disfarçado de outros é a medida da dimensão da crise do esquerdismo comunista português. Esta contradição não resolvida fá-lo persistir na proclamação de um futuro radioso para os eleitos, a reconstruir após a derrocada apocalíptica do capitalismo globalizado, portador de todos os males reais e imaginários, enquanto no ínterim os vai deixando entregues à sua sorte, à mercê dos impactos mais negativos das transformações que se estão operando no capitalismo contemporâneo. De que vale o Céu se o Inferno não for uma imensa fogueira de intensas labaredas onde perecerão ardendo os ímpios? Mas se o Céu for apenas o que conscientemente podermos transformar do Inferno da realidade que sem nos darmos conta construímos para existir, o futuro é já hoje, e os amanhãs das profecias apenas um sonho alucinado. Sejamos lúcidos para desejar como provável a construção do possível!

Almada, 30 de Julho de 1999.

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NOTAS:

[1] Ângelo Novo (1995): “Comunismo. Para uma Reconstituição Estratégica do Movimento Emancipador do Proletariado”. Política Operária, (11), 51: 28-33.
[2] Ângelo Novo (1995), a. c., p. 29.
[3] Ângelo Novo (1995), a. c., p. 29.
[4] Francisco Rodrigues (1995): “Marx em Liberdade Vigiada”. Política Operária, (11), 49: 31-35, p. 33.
[5] Ângelo Novo (1995), a. c., p. 29.
[6] Francisco Rodrigues (1995), a. c., p. 33.
[7] Francisco Rodrigues (1995), a. c., p. 35.
[8] Francisco Rodrigues (1995), a. c., p. 35.
[9] Um governo do "25 de Abril do Povo" foi apresentado como objectivo táctico, quando afinal constituía uma consigna que traduzia um dos objectivos da revolução democrático-popular, definida então como estratégia. A incapacidade do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista para compreender a conjuntura política e para formular objectivos tácticos concretos adaptados à realidade e à sua evolução, aos avanços e aos recuos do movimento operário e popular, ou aos seus refluxos mais acentuados, e à correlação das forças em presença, exequíveis em cada fase da luta, e de orientar a sua acção para a realização das tarefas de organização necessárias para os atingir, levava-o à permanente agitação de objectivos estratégicos como se fossem as consignas tácticas adequadas. Era o que acontecia, no caso, com a consigna "Por um 25 de Abril do povo".
A táctica assim formulada, por distante das possibilidades reais do movimento, não era por este compreendida e revelava-se infrutífera. A impotência e o desespero, derivados da incapacidade de influenciar o movimento operário e popular, conduziam o esquerdismo para o espontaneísmo, colocando-se a reboque das massas, apoiando as acções mais descabeladas, secundárias, que desviavam o movimento do rumo principal e dos objectivos relevantes e lhe dispersavam as forças. Para demonstrar que apoiava o movimento operário e popular, o esquerdismo tratava de radicalizar as acções espontâneas das massas, imaginando assim que as dirigia.
O espontaneísmo radicalizado do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista contrastava com a direcção calculada que o PCP, dotado de concepções claras, de maior experiência e maturidade políticas e de implantação entre as massas, imprimia ao movimento operário e popular, refreando-lhe os ímpetos, adaptando-lhe os objectivos ou amortecendo os seus efeitos e sabotando as iniciativas mais inovadoras que escapavam ao seu controlo, orientando-o para os objectivos partidários reformistas centrados na realização duma coligação com a fracção social-democrata da burguesia, representada pelo PS, e confirmando que a consolidação do regime democrático-burguês, afinal, fora desde sempre o seu principal objectivo.
Enquanto o PCP vendia às massas a ilusão de que a burguesia se deixaria expropriar pacificamente, porque fora os monopolistas e os latifundiários a restante era tudo malta porreira que aceitaria a transição pacífica para o socialismo, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista oferecia-lhes como alternativa a subversão da ordem estabelecida, mas disparava consignas radicais em todas as direcções, sem discernir entre o principal e o acessório, sem distinguir entre inimigos, aliados e indecisos, sem avaliar a correlação das forças e sem qualquer capacidade de influenciar as lutas de massas, muito menos de as dirigir, devido â exiguidade das suas forças e ao radicalismo dos seus desejos.
Os vendedores de sonhos, tanto os reformistas do PCP como os radicais esquerdistas comunistas marxistas-leninistas-maoistas, não tiveram capacidade para transformar a crise política aberta com o golpe de Estado de 25 de Abril de 1974, e o agravamento que viria a conhecer no decurso de um ano, devido ao pânico que as iniciativas inovadoras do movimento operário e popular incutiram na burguesia, em verdadeira crise revolucionária, de modo que a questão do poder chegasse a ser colocada na ordem do dia. As suas políticas foram um completo fracasso, do qual não fizeram ainda o balanço necessário para tirarem as devidas ilações. É certo que o comunismo se revelou uma dramática ilusão e a profecia marxista um logro total, mas as lições são importantes, para que os explorados possam ao menos aprender a defender-se melhor nos tempos que correm.
Estamos todos no mesmo barco, ouve-se dizer. Mas uns estão no convés, espreguiçando-se e gozando as delícias do sol, e outros estão no porão e na casa das máquinas, cuidando para que o barco não pare. As posições que cada um ocupa neste barco, portanto, ainda fazem toda a diferença.
Foi bonito o sonho. Durou um ano e meio e é hoje recordado com nostalgia por aqueles que o viveram intensamente.
(Nota acrescentada em 25.07.2008).
[10] Francisco Rodrigues (1986): “PC(R): A Decadência do Centrismo”. Política Operária, (1), 3: 40-51, p. 42.
[11] Que levou à sua destituição do Comité Central, mantendo-se como deputado.
[12] Um dos escrevinhadores de serviço, que mais tarde viria a abandonar o partido, transitando para o PCP.
[13] Francisco Rodrigues (1986), a. c., p. 42.
[14] A trafulhice política atingiu aspectos caricatos. Pertencendo ao Secretariado e à Comissão Política (CP) do Comité Central (CC), nos trabalhos preparatórios do Congresso fui colocado na Organização Regional de Lisboa (ORL), para aí apresentar as minhas teses, alternativas às propostas apresentadas em nome do CC para discussão no partido. Mantendo muitos afazeres (ainda que me tivessem sido retiradas as funções de maior responsabilidade que até aí me tinham estado atribuídas e que desempenhara o melhor que soubera), redigi um texto em que me debruçava apenas sobre os aspectos essenciais das divergências: a etapa em que se encontrava a revolução social em Portugal e a orientação táctica que o partido deveria adoptar na nova situação de crise política atenuada após o golpe reaccionário de 25 de Novembro. Aquele texto deveria ter sido publicado na Tribuna do Congresso, para o partido tomar conhecimento das divergências, assim como deveria ter sido discutido na Assembleia Regional de Lisboa, para que os seus delegados ao Congresso pudessem em primeira mão optar por uma ou outra das alternativas. Com o passar do tempo e a aproximação da data marcada para a realização do Congresso, estranhei que nem uma nem outra coisa estivessem acontecendo, e numa das reuniões da direcção da ORL questionei sobre o assunto o homem de mão do Diógenes Arruda Câmara naquela direcção, um tal Zé (ou seria Pedro?) “brasileiro”, que era apresentado como seu secretário, ou coisa parecida, e que mais me parecia um agente da CIA mal disfarçado do que outra coisa. Como seria de esperar, deu-me uma desculpa esfarrapada, escudada no grande volume de propostas recebidas, nas dificuldades em dactilografá-las e em policopiá-las atempadamente e na data tardia em que entregara o meu texto. Denunciei estes procedimentos no Secretariado, mas o responsável pela organização e pelos quadros não me assegurou a resolução daquela lamentável situação, que acabaria por se manter. Este facto marcou definitivamente a minha percepção do tipo de seita em que estava metido.
Para além destes aspectos administrativos, reveladores da arbitrariedade e da falta de respeito pela democracia interna, típicas dos anteriores grupos e que continuavam no novo partido, o clima afectivo que deveria caracterizar o relacionamento entre camaradas esfriou e rapidamente se deteriorou. Por comentários marginais às discussões, sussurrados, e pelo isolamento deliberado a que fui sendo sujeito nas reuniões, apercebi-me de que as divergências políticas tinham dado azo a uma acentuada animosidade pessoal. Para os restantes membros do CC, os novos valores da unidade ideológica e política do partido deviam ser preservados acima de tudo, e era-lhes difícil tratarem um dissidente com a cordialidade de anteriormente; e para mim era inaceitável a falta de escrúpulos manifestada por gente com responsabilidades. O fanatismo exaltava até os mais pacatos, que nas divergências viam as posições do inimigo. Eventualmente, alguns identificar-me-iam com o inimigo, não tanto porque compreendessem o alcance político do que estava em jogo, mas perturbados pelo arrojo com que eu assumia as divergências, pela persistência com que as manifestava, pela convicção com que defendia as minhas ideias, pelo modo como os encarava, olhando-os bem de frente, que tomavam por altivez, e pelo combate que movia a todos (salvo àqueles de quem nada se aproveitava do que diziam). Sabendo do que gente daquele jaez poderia ser capaz, passei a andar e a ir armado para as reuniões, e assim fui para o Congresso. Felizmente, para os mais apalermados, nunca passaram da ameaça velada aos actos.
[15] No final de 1977, trabalhando no Sindicato dos Trabalhadores em Carnes de Lisboa, onde exercia a anterior profissão de técnico de contratação colectiva de trabalho, a direcção do partido, através da controleira (por casualidade, irmã do 1.º secretário do Comité Central, o Eduardo Pires), intentou mover-me um processo disciplinar por pretensas actividades fraccionistas. Nessa altura, apenas o presidente da direcção sindical (Vítor Hugo Marcela, que imune às pressões tivera a gentileza e a coragem de me convidar para trabalhar no Sindicato após a minha saída dos cargos de direcção no partido, como rescaldo do Congresso, e com isso me ajudou a ultrapassar a difícil situação económica em que me encontrava) manifestara alguma simpatia pelas teses que eu defendia, e, de resto, a acusação era totalmente infundada (porque nunca tive interesse, nem capacidade nem jeito nem despertei a simpatia necessária para formar apaniguados; como tenho vindo a constatar, falo grego e mingua-me o tacto, e nas duas disputas partidárias ideológicas e políticas em que me envolvi, como noutras situações da vida, os opositores excederam os seguidores, que se contavam pelos dedos das mãos). Mas era reveladora do descontentamento que o meu inesperado ingresso no Sindicato provocara e do receio de que o sucesso que se verificava na actividade sindical pudesse vir a desencaminhar alguns dos jovens quadros que integravam a direcção sindical e a célula partidária, além de ilustrar os velhos métodos do estalinismo, incapaz de conviver com a diversidade de ideias. Fartei-me de tanta animosidade e do clima persecutório de que era alvo, e nem possibilitei que a acusação fosse por diante: nos meados de Fevereiro de 1978, saí do partido, sem qualquer séquito, deixando-os a falar sozinhos. A surpresa levaria o Diógenes Arruda Câmara a deslocar-se a minha casa, procurando demover-me, infrutiferamente.
Poucos meses mais tarde, acabei por sair do Sindicato. Gastara as pequenas poupanças em donativos e a complementar o magro salário de funcionário do partido — chegando depois ao ponto de depender de dádivas de familiares e de amigos, camaradas sinceros, e de ter de andar a caminho do prego com os parcos haveres de valor que me restavam — e o pouco que passei a ganhar no Sindicato mal dava para sustentar a família, de modo que tive de me fazer à vida. Voltei, então, a ser abordado, por diversas vezes, pelo Manuel Rodrigues (o "tácticas”), que à noite me esperava à saída da carreira fluvial, no Cais do Sodré, quando me dirigia para o trabalho. Em nome da direcção e do Arruda, instava-me a reingressar e a reintegrar a direcção, o que também recusei. Uma das suas últimas abordagens, já em 1979, ocorreu quando estavam no auge os trabalhos preparatórios do 3.º Congresso, desta vez para me pôr a par das acesas disputas internas. Ironias da vida, passados dois anos, o João Moreira, o João Carlos Espada e outros, precisamente dos mais acérrimos críticos das posições que defendera, estavam a ultrapassar-me pela “direita”; constituídos em fracção organizada, acabariam por ser expulsos.
O José Alexandre Magro, que uns anos antes patrocinara a minha entrada na OCMLP e na época abandonara o partido acompanhando a fracção expulsa, mais tarde convidou-me para participar num pequeno grupo, ainda indefinido (que julgo ter vindo a dar origem ao Clube da Esquerda Liberal, de que fez parte, juntamente com o João Carlos Espada, o José Pacheco Pereira e outros). Fui a uma ou duas reuniões, mas o que lá ouvi não me agradou. Constituía um retrocesso em relação àquilo em que ainda acreditava, para além das actividades do grupo representarem meras especulações teóricas de jovens intelectuais à procura de notoriedade, totalmente desligados de qualquer perspectiva de intervenção política em defesa dos interesses dos trabalhadores. Selei assim a minha intervenção partidária, iniciada em 1969.

ADENDA (04.05.2008).
No seu número de 2 de Abril de 2005, a revista Grande Reportagem publicou um artigo intitulado “Era uma vez a revolução”, da autoria de João Mesquita, dedicado à UDP e ao PCP(R)/PC(R). Esse artigo contém algumas imprecisões. No que me diz respeito, refere que “José Martins, um electricista, é promovido a primeiro secretário”. É uma mistura de dados, de que resulta uma informação errada. Pode ter ficado a dever-se a mais uma das muitas confusões do Eduardo Pires (a eventual fonte do jornalista).
“Martins” era de facto o pseudónimo que eu usava desde os tempos da OCMLP, que o José Alexandre Magro, por qualquer razão que desconheço, me atribuiu. Naquela época, o partido vivia numa semi-clandestinidade um pouco caricata, adoptando algumas regras de segredo e de compartimentação, e os que não eram figuras públicas continuavam sendo tratados pelo respectivo pseudónimo. Recordo-me de que o António Carriço (oriundo do CMLP, como o João Carlos Espada e o João Moreira) era tratado por “Matos”, e de só mais tarde ter vindo a conhecer o seu verdadeiro nome.
Eu também não era electricista. Fora, e tornaria a sê-lo, mas desde 1972 exercia a profissão de técnico de contratação colectiva de trabalho, precisamente no Sindicato dos Electricistas de Lisboa (que abrangia todo o sul e as ilhas), profissão esta que voltei a exercer no Sindicato dos Trabalhadores em Carnes de Lisboa após o 2.º Congresso e a saída dos cargos de direcção que ocupara no partido até Março de 1977.
E em relação ao cargo que desempenhava no Secretariado do Comité Central o artigo também não prima pelo rigor. Na negociação do acordo de integração da OCMLP no PCP(R), em que não participei, firmado em Março de 1976, tinha sido atribuído um determinado número de cargos aos membros daquela organização nos Comités Regionais e no Comité Central do partido, assim como lugares (não elegíveis) como candidatos independentes nas listas da UDP para as eleições parlamentares de 25 de Abril desse ano. Após a integração, em Maio, numa das reuniões plenárias do Comité Central (julgo que na 5.ª RPCC), alargada aos membros do Comité Central e a outros quadros da extinta OCMLP, fui cooptado para o Comité Central do PCP(R), juntamente com o Magro, o Manuel Rodrigues, o Manuel Raposo, o José Carlos Codinha, o José Manuel Esperto, o Jorge Azevedo e, julgo, o sempre jovial "Sarmento" (mais conhecido por "Carlos das ocupações").
Nessa reunião do Comité Central, que se prolongou por várias sessões, foram efectuadas muitas remodelações naquele órgão. Alguns dos seus membros foram destituídos dos cargos que ocupavam e para os quais tinham sido eleitos no 1.º Congresso (pelo que me recordo, os casos mais notórios foram os de Francisco Martins Rodrigues e de Rui d’Espiney), e foram constituídos nova Comissão Política e novo Secretariado. O Eduardo Pires, que já era figura pública na UDP, foi nomeado 1.º secretário, substituindo nesse cargo o cunhado, o José Caiado (o “Zé do Carregado”), oriundo, como ele, da ORPCML, tendo eu sido nomeado 2.º secretário e o Carriço 3.º secretário, responsável pela organização e pelos quadros. Não me recordo com exactidão do número total de membros, porque nas reuniões participava sempre mais gente, mas julgo que seria apenas três, e esta composição distribuía os cargos equitativamente pelas organizações que haviam originado e integrado o partido, sendo o Pires pela ORPCML, o Carriço pelo CMLP e eu pela OCMLP. Nesta qualidade, foram-me sendo atribuídas muitas funções, nomeadamente, a direcção da comissão militar e a direcção da imprensa (que incluía o semanário "25 de Abril do Povo"), além de zelador para que o Pires não dissesse muitas patacoadas nas suas intervenções públicas e institucionais. Era nessa época, e até ao surgimento das divergências durante os trabalhos preparatórios do 2.º Congresso, o delfim do Diógenes Arruda Câmara, talvez a razão pela qual o Pires e outros me considerassem o membro mais importante do Secretariado, ainda que assim eu não me visse nem nominalmente o fosse.
No decurso de 1976, estava previsto ir de visita à Albânia, numa das romagens regulares que o partido organizava para dar a conhecer aos quadros o paraíso socialista. Devido aos muitos afazeres, não pude ir. Escolhi para me substituir um quadro regional que me acompanhava desde os tempos da OCMLP e em quem confiava para me fazer um relato fidedigno, José Júlio Gomes (que viria a apoiar as teses que mais tarde defendi). Não mais esquecerei o relato que me fez da situação económica e social que encontrou. ”Liberdade, só existe para o partido. O culto da personalidade do Enver Hoxha até causa impressão. Não passam fome; comem muitos legumes, enchidos e carne de borrego. Muitas casas não têm reboco exterior (dizem eles que o importante é o interior). A indústria é pouca e luta com falta de sobressalentes, desde que os soviéticos lhes cortaram os fornecimentos; e agora, com os chineses, as coisas vão de mal a pior. Exportam cobre e importam (de França) condutores eléctricos. Os autocarros são de modelos russo e chinês, e já conheceram melhores dias; num, em que andei, os bancos eram de madeira e alguns estavam presos com arame de fardo de palha…”.
Esta referência aos autocarros com bancos de madeira fez-me recordar os tempos de infância, em que nos Belo havia um exemplar que ainda tinha bancos de madeira… aparafusados ao pavimento. Mas isso fora no Portugal do Salazar, na província, nos anos cinquenta. Pelos vistos, para paraíso, aquele socialismo não estava nada mal. Existiam, então, algumas reticências sobre o rumo que o PC da China vinha tomando, e as relações entre albaneses e chineses já não eram as melhores.

2 Comentários:

Às 1:55 da tarde, maio 05, 2008 , Anonymous Anónimo disse...

Boa tarde JMC

A minha prolongada ausência do seu blog (a que tenho contudo continuado atento) não se deve a quebra de interesse pelas matérias nele tratadas, mas apenas ao facto das férias, o pico de trabalho que sempre as antecede e o trabalho que durante elas se acumula, só agora me ter permitido disponibilidade para vir aqui deixar os meus desabafos.

Conto voltar a participar com mais frequência mas, hoje, e já que o tema central é Marx, vou-me ficar por um relato que procurarei seja breve (?), sobre a “odisseia” por que passei ao procurar “O Capital” e o “Manifesto Comunista” nas livrarias em Portugal. Não foi no século passado: foi há poucos dias.

Em Lisboa a questão foi pacífica. O impessoal e liso “não temos”, que ouvi como resposta em todas as livrarias de referência onde procurei, não trazia, para além da negativa, qualquer outra mensagem espúria.

“ – Tem O Capital, de Marx? – e após breve pesquisa vinha a resposta:
- Não temos.
- Muito obrigado. Boa tarde.” - E o breve diálogo ficava-se por ali.

A coisa complicou-se quando, já desiludido da praça lisboeta, e em desespero de causa, tentei encontrar Marx lá para os lados de uma aldeia próxima da minha – refiro-me a Coimbra – que, entre outras excentricidades em aldeias até possui uma antiga universidade. Eu diria mesmo, excessivamente antiga. Aqui deixo um exemplo, entre outros que me aconteceram, de saboroso diálogo travado ao balcão de livraria na baixa coimbrã.

- Boa tarde. Tem O Capital, de Marx?
- De Karl Marxssssssss ? – perguntou o livreiro, deixando por breves segundos a boca distendida na acentuação do xsssssss, da última sílaba, enquanto mostrava a fileira de dentes e emitia um estranho silvo.

- Precisamente. De Karl Marx. – Confirmei. – E, já agora, diga-me também se tem o Manifesto Comunista.

Como que picado por estranho insecto, um cliente que, de costas para nós vasculhava nas prateleiras as últimas novidades, à palavra “comunista” rodou um quarto de volta sobre os calcanhares e lançou-me um olhar curioso e pouco discreto, em que fingi não reparar.

- Necessita de ajuda Senhor Doutor? – perguntou o empregado, solícito.
- Não, não. Apenas me suscitou curiosidade o facto de alguém ainda procurar Marx. Não tenho ideia de, nos últimos vinte anos em que dou conferências, ouvir alguma vez referir Marx.

Nem os efeitos da variação de pressão provocada pela descida do avião, poucos dias antes, no aeroporto da Portela, me provocou mais estranha sensação de zumbido nos ouvidos, que a intervenção do cliente que era Doutor e Dava Conferências. E, como se me encontrasse já muito distante do local onde de facto ainda estava, ouvi ao longe a voz aflautada de um jovem que secundou a do Doutor:

- Oh Professor, esse tal “de Marx” não se trata de um autor já há muito ultrapassado !?

E adivinhei o golpe de misericórdia. Eu caíra numa emboscada em que o inimigo era nem mais nem menos que a temível dupla mestre/discípulo. Nas emboscadas da Guiné sempre tinha conseguido acautelar previamente a imprescindível rota para a retirada estratégica e sobreviver. Mas, na presente situação, estava completamente cercado e à mercê de um inimigo impiedoso. Um dizia mata e o outro esfola. Aqueles vinte anos de conferências, em que seguramente tinham sido proferidas as mais sábias sentenças para os destinos do país, para já não dizer da própria humanidade, pesavam sobre mim como pedra gigantesca arremessada por poderosa catapulta, e sentia todo o meu ser ameaçar desmoronar-se a qualquer instante. O peso dos conhecimentos que adivinhava naqueles dois autênticos atletas do saber – um Professor, Doutor, Dador de Conferências e, como se tal não bastasse, assessorado por um jovem discípulo (talvez até já Assistente, quem sabe?!) desejoso de mostrar serviço, esmagaram por completo a possibilidade de qualquer veleidade intelectualóide da minha parte.

Acontece ainda que não tinha lido os jornais dos últimos dias e também tinha estado pouco atento às notícias. Uma terrível dúvida assaltou-me então de repente o espírito: será que houve algum golpe de estado da extrema direita? Ou ter-se-ia dado o caso de algum inspector da ASAE, ao ler Raymond Aron (o marxismo é o ópio dos intelectuais) levou o aforismo à letra e ordenou a retirada das obras de Marx do mercado, consideradas como droga? – Fosse o que fosse que tivesse acontecido eu pressenti ali o fim dos meus dias e o início do calcorrear de um tenebroso labirinto de inquiridores kafkianos. Seguia embalado neste turbilhão de negros pensamentos quando fui despertado pela voz do Professor, Doutor, Dador de Conferências:

- Nem nesta nem em qualquer outra livraria vai encontrar o que procura. Sabe o que lhe sugiro? Procure nos alfarrabistas. Logo aqui a meia dúzia de passos tem um. Siga sempre em frente. Não vire na primeira nem na segunda. Vire apenas na terceira rua à esquerda. Suba cerca de cem metros em frente e vê logo do lado direito. É a porta número tal.

E o que de início me tinha parecido o golpe de misericórdia – Marx condenado à semi-obscuridade dos alfarrabistas – veio a revelar-se afinal como a luz ao fundo do túnel. Tinha necessidade de abandonar rapidamente a zona de fogo e, sem sequer esperar a mais que provável resposta negativa do empregado, que continuava com zelo a teclar no computador, saí dali em passo apressado pelo trajecto que me fora indicado. A meio caminho ainda hesitei se deveria seguir até ao suposto alfarrabista. Poderia tratar-se de alguma manobra provocatória urdida pelo inimigo, e o possível novo poder pretender apenas apanhar-me com a boca na botija. Ao entrar na livraria tinha reparado que a montra se encontrava engalanada com a biografia do Tony Carreira, em edição de luxo. Talvez se tratasse do líder do novo poder instituído. Qualquer coisa parecida com o que sucedera à três décadas atrás com o “Portugal e o Futuro” de Spínola. Ora, se assim fosse, para apagar qualquer suspeita que sobre mim recaísse bastaria apenas que voltasse atrás, me dirigisse novamente ao balcão da livraria e dissesse: “- Veja lá a minha distracção! O que eu de facto quero não é o Marx: é o nosso grande Tony Carreira.” E tudo ficaria resolvido.

Contudo, pesados os prós e os contras decidi seguir em frente e, já refeito do susto, dei comigo até a fantasiar algumas perversas expectativas. “ - E se me esperasse no tal alfarrabista, por exemplo, os volumes do Capital anotados e sublinhados por algum “ex” de nome firmado? – Vital Moreira, Carlos Espada, Durão Barroso ... e tudo isto por meia dúzia de patacos? Além do mais eu ficaria a conhecer, não só o pensamento de Marx mas também o pensamento dos marxistas portugueses, que sempre supus serem coisas diferentes. Seria ouro sobre azul. E já me perdia em maliciosas conjecturas acerca de como seria a assinatura dos referidos, quando reparei encontrar-me na tal rua junto à porta número tal.

O estabelecimento era escuro e habitava-o aquele cheiro antigo, característico de todos os alfarrabistas, que se desprende dos livros amarelecidos pelo tempo. O livreiro, afável, sublinhou com um sorriso a retribuição à minha saudação.

- Muito boa tarde. Então o que deseja?
- Será que o Senhor tem alguma coisa de Marx? – perguntei, evitando desta vez a aspereza de palavras como “Capital”, “Comunista”, que os próprios comunistas me parece não gostar já muito de usar.
- Procura alguma coisa em concreto?
- Talvez “O Capital”, ou o “Manifesto Comunista”. – A introdução progressiva do assunto resultou e não produziu qualquer reacção secundária.
- Creio que tenho qualquer coisa lá para dentro. Vou ver e volto já. – E desapareceu nos fundos do estabelecimento, deixando-me por mais uns momentos entregue às minhas congeminações. “ - Teriam os próprios ex-comunistas – alguns, bastantes - para ganhar a confiança do regime democrático, do qual se tornaram os seus mais reverentes vassalos, promovido algum auto de fé e, com a mesma religiosidade com que leram (?) as obras de Marx declarado o seu repúdio queimando-as em praça pública, na fogueira purificadora?”

- Não; afinal, de momento não tenho nada. Mas vá passando por cá porque estou à espera de umas coisas e pode ser que em breve já tenha o que procura. – Era o alfarrabista. Presumi da sua resposta que eventualmente estaria na expectativa de novas “rescisões ideológicas” para breve, e aguardava a oportunidade para repor o seu stock.

E foi assim que regressei a Luanda, novamente sem nada de Marx na minha biblioteca ambulante.

Caro JMC, será que me pode sugerir alguma forma de ultrapassar esta lacuna?

nelson anjos

 
Às 2:18 da manhã, maio 06, 2008 , Blogger JMC disse...

Viva Nelson Anjos.

Antes de mais, agradeço o seu regresso à caixa dos comentários. Eu também não tenho andado com grandes vagares para incursões blogosféricas, devido principalmente a afazeres profissionais. As intervenções mais recentes referem-se a acontecimentos de conjuntura, por sinal ligados a questões sindicais do sector em que exerço actividade.

Publiquei este último texto, já antigo, respigado de uma edição copiografada vai para nove anos, do qual já nem possuía o ficheiro original, apenas porque o que fui ouvindo nos últimos dias me soava a histórias sem qualquer consistência com a realidade. Na altura em que foi publicado, não teve grande retorno, porque a crise dos esquerdistas comunistas marxistas-leninistas-maoistas já era grande. Agora, também não espero qualquer retorno crítico. Servirá, conjuntamente com outro que preparo sobre assunto conexo, para demonstrar a miséria ideológica e política, teórica e prática, que grassava naquela corrente do comunismo entre nós no seu período áureo do PREC.

Em relação ao que me conta, imagino as suas dificuldades em encontrar as obras fundamentais do Marx. Outras obras de menor fôlego, de divulgação ou de índole filosófica, editadas com profusão a seguir ao 25 de Abril, ainda poderá encontrar, não já em restos de edições, mas como livros usados, dando uma volta pelos alfarrabistas de Lisboa. O Manifesto, por exemplo, ainda encontrará nas Edições Avante, do PCP. O livro primeiro de O Capital também poderá encontrar na mesma editora, eventualmente. Mas a obra fundamental do Marx não teve, em Portugal, qualquer edição completa de qualquer préstimo. A única que foi feita, edição da Delfos, é uma tradução muito má; as restantes edições, com traduções aceitáveis, são incompletas, respeitantes ao livro primeiro (a já referida, das edições Avante) ou a um primeiro tomo do livro primeiro (em edição da Centelha, de Coimbra, com tradução do Vital Moreira e do Avelãs Nunes). Não sei o sucesso que terá procurando directamente nos editores.

Felizmente, o Brasil é um país com um mercado grande e diverso, onde se fala português, e aí foram editadas as melhores traduções portuguesas de O Capital, em versão completa. Existem pelo menos duas editoras que a publicaram, em diversas edições (a Civilização Brasileira e a Difel), e ainda hoje existem edições recentes, pelo que não deverá ser difícil encontrá-lo no mercado brasileiro. Eu uso a tradução do Reginaldo Santana, numa edição já velhinha (1968/74) da Civilização Brasileira, que por aquilo que consegui respigar de outras considero uma boa tradução. Devido ao muito uso dos exemplares que possuo, que faz com que alguns dos cinco grossos volumes estejam desconjuntados, também eu me verei forçado a adquirir oportunamente uma edição mais recente. Pela minha parte, fá-lo-ei através duma das grandes livrarias portuguesas (a Bertrand, a Portugal ou a Fnac, por exemplo, que aceitam encomendas de livros estrangeiros). As compras pela Internet, no caso do mercado brasileiro, não são fáceis, por causa da moeda e dos custos de envio para a Europa muitas vezes não aparecerem descriminados. De qualquer modo, devido ao interesse que manifesta, tente qualquer uma das vias (livraria ou Internet). Com tempo, conseguirá certamente. Conte com um preço total elevado, porque pelo que se pode verificar on-line, cada volume é caro e os transportes também não deverão ficar baratos. Mas a obra fundamental do Marx valerá sempre a pena para quem se interessa por estes assuntos da economia política (não pela economia como gestão micro ou macro-económica, mas pela análise dos conceitos e das relações que as pessoas estabelecem entre si ao trocarem mercadorias).

Pode parecer estranho um crítico da obra do Marx estar a fazer-lhe estes encómios. Para mim, porém, criticar os seus erros e equívocos não encerra qualquer manifestação de menor apreço pela sua grande capacidade intelectual e pelo mérito de ter sido o pioneiro no desbravar da compreensão do modo de produção capitalista. Pena foi que o Marx não tivesse tido críticos à altura. Mas a vida é o que é, e não o que gostaríamos que fosse ou tivesse sido. E, para mim, criticar as suas concepções ainda constitui um desafio intelectual aprazível. Tenho esboçada uma crítica da famosa transformação dos valores em preços de produção, que publicarei quando tiver oportunidade. O tema é mais um exemplo de como os marxistas foram incapazes de compreender os erros do Marx, já que a famosa transformação constitui apenas uma tentativa, por sinal muito mal conseguida, de corrigir o erro original quanto à concepção do valor do custo como valor de troca e da mais-valia como sendo produzida na produção, no processo imediato de trabalho. Como não têm mostrado qualquer capacidade crítica em relação às concepções do Marx, os marxistas continuam afanosamente a tentar compreender o significado da famosa transformação, deparando-se com um problema que não existe, e que portanto não tem solução. Fazem lembrar o cão girando à volta do rabo, à procura do melhor lugar para se deitar e que nunca o encontra.

Os maiores êxitos para a sua tentativa de adquirir O Capital. E vá deixando comentários. Mesmo que sejam simples notícias. A sua prosa é sempre agradável.

Cumprimentos.

JMC.

 

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