Se há dias difíceis hoje é um deles
...contributos para a produção da explicação da realidade social.
Dissipadas as ilusões dos sonhos, o que resta, parecendo pouco, é uma imensidão. Porque a liberdade não tem preço.
Que sempre viva em nós o amor à liberdade!
Noticia-se a existência de pressões para arquivamento do caso Freeport (ou de partes do caso), por eventual prescrição dos supostos ilícitos em investigação. A possível prescrição de tais ilícitos era questão já ventilada. Mas as opiniões dos especialistas dividem-se, razão para dirimir a querela da prescrição em Tribunal.
Com investigação em curso, não seria melhor concluí-la? Em função dos indícios recolhidos e da prova produzida se veria a consistência das suspeitas para assim fundamentar acusação, apresentando-a ao Tribunal, ou a sua inconsistência, arquivando o inquérito e ilibando os suspeitos. Com tudo explicadinho seria ainda melhor. Devido às implicações políticas do caso, a questão dos prazos não deveria inibir a procura da verdade.
Compreende-se que a investigação seja difícil, que os códigos feitos à medida para protegerem corruptos e criminosos e para dificultarem a descoberta da verdade não ajudem. Mesmo com todos estes entraves, a investigação judicial deveria prosseguir. O objectivo de qualquer investigação é a descoberta da verdade. O julgamento para avaliação da prova compete ao Tribunal.
Tem existido demasiada candura no tratamento do caso. Investigação parada ou próximo disso durante anos, indícios não aproveitados porque os códigos não os admitem, principais presumíveis suspeitos tardiamente ouvidos, e sem que até agora o mais proeminente deles tenha prestado quaisquer declarações, enfim, tem sido um regabofe de deixa andar, à espera que o tempo passe.
A actuação do MP neste processo não tem sido nada abonatória. E o arquivamento do caso contribuiria para descredibilizar ainda mais a Justiça. Os envolvidos merecem que as suspeitas sejam cabalmente dissipadas, se for caso disso, e o povo tem o direito de saber a verdade. Mas quando se trata de gente da finança e do poder, e dos que andam à sua babugem, é o que se tem visto. Gente fina, de facto, é outra coisa.
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ADENDA (07.04.2009)
Comentadores e outros interessados expressaram em público a sua indignação pelo facto da denúncia das pressões sobre os procuradores que têm a seu cargo o inquérito ter partido do presidente da direcção do Sindicato dos Magistrados do MP, assim como por este ter pedido uma audiência ao Presidente da República.
Muito me engano ou estas pessoas desconhecem que uma das atribuições dum sindicato é a defesa dos seus associados contra pressões na sua actividade profissional ou contra quaisquer represálias que possam sofrer. E, mais grave, parecem desconhecer que aquele magistrado, na função de sindicalista, não está subordinado ao Procurador-Geral. Pelos vistos, o caso está a pôr a cabeça de algumas pessoas a andar à roda.
Apontou-se que um dos intermediários dos recados das pressões terá sido o ABC, uma triste figura de ministro, já com antecedentes na matéria nos célebres tempos de Macau e sob cuja tutela foram aprovadas as últimas alterações dos códigos, ao que tudo indica, tendo em vista safar amigos encrencapiados. A confirmar-se, parece que este figurão não tem emenda.
Existem em O Capital duas concepções acerca do valor de troca das mercadorias, qualquer delas errada. Na do Livro I, as mercadorias seriam trocadas pelos seus valores do custo, que os seus valores de troca expressariam; os valores do custo de produção seriam formados pelo somatório dos valores de custo dos factores produtivos com a chamada mais-valia, a outra designação que o Marx atribuiu ao lucro, resultante da aplicação duma taxa geral de mais-valia, a relação do lucro com os salários, à parte do capital empregada como salários. Na do Livro III, as mercadorias seriam trocadas pelos seus preços de produção, que já não corresponderiam aos seus valores do custo; estes preços de produção seriam formados pelo somatório dos preços de produção dos factores produtivos com o lucro, resultante da aplicação duma taxa geral de lucro à totalidade do capital empregado. A concepção inicial do Marx, aceitando que as mercadorias seriam trocadas pelos seus valores de custo e atribuindo a formação dos seus valores de troca à aplicação duma taxa geral de mais-valia, conduzia à obtenção de taxas de lucro inversamente proporcionais às composições orgânicas dos capitais, manifestamente em contradição com a realidade. A constatação de uma tal discrepância levou à introdução da nova concepção do valor de troca das mercadorias no Livro III de O Capital, objecto do capítulo IX, intentando resolver aquela contradição através da conversão dos valores de custo em preços de produção e da introdução do conceito de taxa média de lucro.
O lucro é considerado pelo Marx como a forma transfigurada da mais-valia, o suposto valor suplementar que o trabalhador assalariado forneceria gratuitamente ao capitalista pelo simples facto de lhe vender uma mercadoria mágica, a “força de trabalho”, a qual teria a faculdade de proporcionar mais valor do que o seu próprio valor. Apesar desta errada concepção marxista da sua génese, o lucro é a parte do valor criado na produção apropriada pelo capitalista, mas essa apropriação ocorre na troca desigual entre o capitalista e o trabalhador assalariado, não provém de qualquer faculdade mágica da “força de trabalho” para gerar mais valor do que o seu próprio valor. O capitalista, por seu lado, atribui a ocorrência do lucro a faculdades mágicas do capital para se transformar em mais capital. A produção exige a participação de meios de produção e de trabalho presente ou vivo, qualquer deles de sua pertença, porque os adquiriu no mercado; nada mais natural do que considerar a parte do valor de que se apropria, o lucro, como sendo originada pelo seu capital. A utilidade do capital para o processo produtivo, sem a qual a produção não seria possível, é confundida pelo capitalista com uma sua faculdade para produzir mais valor do que o valor das mercadorias com ele compradas. Um capital suplementar é o que espera obter formando o preço das mercadorias de que é proprietário pela aplicação duma taxa de lucro à totalidade do capital empregado, de modo que o preço de venda da produção seja superior ao preço de compra dos factores produtivos. Uma forma de legitimação do lucro — a remuneração que lhe acha devida pela utilidade do capital para o processo produtivo — é transformada pelo capitalista na génese do próprio lucro e com ela confundida.
Na formação dos preços nominais das mercadorias, os capitalistas sempre usaram a aplicação duma taxa de lucro esperada sobre o capital empregado. As vicissitudes do mercado — a concorrência de mercadorias congéneres com preços de venda diversificados, a adequação da oferta à procura, a preferência dos consumidores, por exemplo — acabam por transformar os preços nominais em preços de mercado e a taxa de lucro esperada em taxa de lucro obtida. O lucro obtido, portanto, resulta dos preços de mercado, dos preços diversificados pelos quais as mercadorias são vendidas, e as taxas de lucro obtidas pelos diversos capitalistas acabam sendo diversificadas, motivando a concorrência no interior dos ramos e a mobilidade dos capitais entre eles, na busca incessante da melhor taxa. A concorrência e a mobilidade dos capitais, por isso, constituem características fundamentais do modo de produção capitalista. Ao aceitar como plausível que os preços das mercadorias eram representativos dos seus valores, e considerando serem formados pela aplicação da chamada taxa de mais-valia ao capital empregado como salários, e não pela aplicação da taxa de lucro à totalidade do capital, o modelo de formação dos preços concebido pelo Marx fazia com que a taxa do lucro obtido por cada capitalista fosse inversamente proporcional à composição orgânica do seu capital.
Em condições de igualdade da jornada e dos ritmos de trabalho, assim como do nível dos salários, ocorre uma taxa geral de mais-valia. Na situação exemplificada, os trabalhadores seriam igualmente explorados em qualquer processo produtivo particular, porque em todos eles, fornecendo determinada quantidade de trabalho, ou trabalho com determinado valor, receberiam em troca idêntica quantidade a menos de trabalho, ou trabalho com idêntico menos valor. O conceito de taxa geral de mais-valia assim formulado, contudo, apenas tem validade para designar a relação do valor que os trabalhadores recebem a menos com aquele que efectivamente recebem, exprimindo a uniformidade da exploração a que se encontram sujeitos numa determinada formação económico-social, e não para designar a apropriação individual dos capitalistas. A apropriação duma parte do valor não ocorre no processo imediato de produção; aí tem lugar a criação do novo valor, através da produção do trabalho e das novas mercadorias em que ele transforma os objectos sobre os quais incide a sua acção. Nem ocorre apenas pela compra do trabalho presente; ela ocorre pela compra e venda do trabalho, pela compra de trabalho presente e passado e pela sua venda como novo trabalho passado. Nem tem como únicos intervenientes os capitalistas e os trabalhadores a quem cada um compra trabalho.
Devido à divisão social do trabalho e à intermediação da moeda, um capitalista particular não efectua trocas directas com os trabalhadores a quem compra trabalho, nem as suas trocas se resumem às que efectua com trabalhadores, englobando as que efectua com outros capitalistas a quem compra meios de produção e a quem venda a sua própria produção. Para que o seu lucro se origine basta que o trabalho que compra, passado e presente, seja vendido, sob a forma de novo trabalho passado apreciado, aos trabalhadores ou a outros capitalistas, consoante o tipo das novas mercadorias em cuja produção foi consumido. A apropriação duma parte do valor criado na produção, portanto, ocorre na circulação das mercadorias, através da compra de trabalho passado e presente depreciado e da sua venda sob a forma de novo trabalho passado apreciado, envolve diversos intervenientes e é efectuada pela intermediação da mercadoria equivalente geral dinheiro. Ela não provém da utilidade duma mercadoria mágica, a “força de trabalho”, cujo simples uso tivesse a faculdade de proporcionar directamente aos seus compradores mais valor do que o seu próprio valor, como concebeu o Marx. A utilização do conceito de taxa geral de mais-valia para determinar a parte do valor de que os capitalistas se apropriariam individualmente, e assim formar os preço nominais das suas mercadorias, é o reflexo duma concepção errada da génese do lucro e da forma como se processa a sua apropriação.
Os diversos tipos de mercadorias reprodutíveis que não o trabalho presente, para além de produtos da natureza, mais não são do que trabalho passado. A compra de trabalho passado sob a forma de meios de produção realiza o lucro daqueles que o compraram como trabalho presente; e a compra de novo trabalho presente realiza o lucro dos produtores dos meios de subsistência com que é pago. A totalidade do trabalho comprado por um capital particular é constituída por salários pagos pelo trabalho que originou os meios de produção e os meios de subsistência e pelos lucros distribuídos a cada um dos capitais empregados na produção destas mercadorias. O lucro esperado por um capital particular será originado pela apreciação, à taxa de lucro esperada, de todo o trabalho comprado, através da formação dos preços nominais das novas mercadorias em cuja produção for consumido, e será realizado com a venda destas mercadorias. Um ciclo de reprodução de um capital particular, portanto, envolve não só a sua própria reprodução como a de outros, realizando os lucros dos capitais de cujas mercadorias é comprador — directamente, no caso dos meios de produção, e indirectamente, através dos salários que paga, no caso dos meios de subsistência — e tendo o seu lucro realizado por aqueles que compram as suas mercadorias. A apropriação, por cada um dos diversos capitais particulares, duma parte do valor criado na produção, portanto, realiza-se pela repartição mútua do lucro social.
No caso da produção social, desde que num ciclo de reprodução do capital social, por exemplo anual, os montantes e a relação entre trabalho passado e trabalho presente — ou seja, o volume e a composição orgânica do capital, e, logo, a relação entre lucros referentes a trabalho presente anterior e lucros referentes a trabalho presente actual — se mantivessem constantes face ao ocorrido no ciclo precedente, o valor produzido e o lucro social obtido no ciclo actual poderiam ser referidos à totalidade do trabalho presente nele comprado. Ainda que uma parte deste trabalho presente apenas viesse a gerar lucro para quem o comprou, pela sua venda como trabalho passado, no ciclo seguinte, este lucro seria compensado por aquele gerado no ciclo actual pelo trabalho presente comprado no ciclo anterior. Nestas condições, a totalidade do lucro social, pela compensação assinalada, representaria o que seria gerado pela venda no ciclo actual de todo o trabalho presente nele comprado, e a taxa geral de lucro e a taxa geral de mais-valia seriam idênticas, reflectindo ambas a taxa de exploração dos trabalhadores, dado que a totalidade do capital social seria empregada na compra de trabalho presente. A relação do lucro e da sua taxa com a compra e venda do trabalho presente seria então clara, evidenciando o carácter supérfluo do conceito de taxa geral de mais-valia. Embora com flutuações no montante e na composição orgânica do capital social, é uma compensação deste tipo que ocorre na produção social.
Nos processos produtivos particulares, diversamente do que ocorre na produção social nas condições assinaladas, as proporções entre o trabalho passado e o trabalho presente comprados podem ser diversificadas. As composições orgânicas dos diversos capitais particulares, portanto, podem ser distintas entre si e da composição orgânica do capital social, e os lucros que cada um distribui podem estar desigualmente repartidos pelos capitais aplicados em trabalho passado (meios de produção) e pelos capitais aplicados em trabalho presente (meios de subsistência). A distribuição dos lucros alheios por cada capital particular é efectuada segundo a proporção da sua composição orgânica, e das composições orgânicas dos diversos capitais particulares resulta a repartição da totalidade do lucro social proporcionalmente à composição orgânica do capital social. Se os preços nominais das novas mercadorias fossem formados pela aplicação da taxa de mais-valia à parte correspondente aos salários pagos por cada um dos diversos capitais particulares, o lucro esperado assim determinado não equivaleria ao que cada um deles distribuíra e lhe seria devido pela repartição equitativa do lucro social esperado. Por esse facto, os preços nominais das novas mercadorias em cuja produção cada capital é empregado não podem ser formados pela aplicação da taxa geral de mais-valia à parte desse capital correspondente aos salários pagos. O conceito de taxa geral de mais-valia, por isso, tem uma operacionalidade restrita e não pode ser utilizado como instrumento de formação dos preços nominais das mercadorias.
Cada um dos diversos capitais particulares espera realizar com o processo produtivo em que é aplicado um lucro equivalente, a taxa similar, ao que distribuiu, por um lado, com a compra de trabalho passado consumido em meios de produção, como se tivesse sido o comprador do trabalho presente empregado na sua produção; por outro lado, com a compra de trabalho presente que ele próprio adquiriu, que pagou com salários, e que implicou igualmente a distribuição do respectivo lucro aos capitais produtores das mercadorias compradas com os salários. A totalidade do capital empregado, constituindo salários pagos e lucros distribuídos, representa o valor de todo o trabalho comprado; a transformação deste trabalho em novas mercadorias, e a sua apreciação pela aplicação da taxa de lucro esperada, originará com a sua venda o novo lucro, depreciando o trabalho presente que vier a ser comprado, em cujo pagamento participarão, directa ou indirectamente, as novas mercadorias. Deste modo, a formação dos preços nominais das novas mercadorias pela aplicação de taxas de lucro esperadas similares à totalidade do capital empregado na sua produção, e não pela aplicação da taxa geral de mais-valia à parte do capital empregada como salários, constitui a forma de realizar, simultaneamente, a depreciação homogénea do trabalho presente comprado por qualquer capital particular, a manutenção dos preços nominais relativos e a determinação do lucro social esperado, assim como a sua repartição equitativa pelos diversos capitais particulares, directamente proporcional à totalidade de cada um deles e independentemente das suas composições orgânicas.
A adopção pelo Marx dum modelo de formação dos preços nominais pela aplicação da taxa geral de mais-valia provém, antes de mais, da aceitação da premissa de que as mercadorias eram trocadas pelos seus valores, e, depois, da sua concepção de que o lucro era gerado no processo imediato de produção, como mais-valia ou trabalho suplementar fornecido gratuitamente pela “força de trabalho”. A designação de mais-valia que atribuiu ao lucro é suficientemente elucidativa da qualidade de valor suplementar com que a concebia. Não considerando o valor apropriado como sendo proveniente da compra do trabalho presente por preço inferior ao da sua venda como trabalho passado, o Marx não se apercebeu de que o lucro constituía o valor a menos pago ao trabalhador assalariado, uma verdadeira menos-valia e não uma mais-valia. O facto de designar a mais-valia também por trabalho não pago é revelador das dificuldades com que se defrontou na tentativa de arranjar uma explicação consistente para a exploração do trabalhador assalariado. Como não concebia o trabalho como sendo a mercadoria vendida, nem a troca como sendo uma troca desigual, esta sua designação do lucro ou mais-valia como trabalho não pago, mais do que uma ambiguidade, constituía uma flagrante inconsistência, uma vez que na sua concepção o trabalhador não vendia trabalho, nem este era a mercadoria que o capitalista comprava. Designar como não pago algo que não era vendido nem comprado, que por este facto não teria de ser pago, e radicar a origem do lucro na sociedade mercantil em algo que não constituía mercadoria, não tinha qualquer sentido. Sem romper com a falácia da troca equitativa, porém, só deste modo lhe era possível justificar a ocorrência do lucro e da exploração que o origina.
Tal como os capitalistas concebiam o lucro como sendo um valor suplementar fornecido pela utilidade do seu capital, o Marx concebia-o como valor suplementar fornecido pela utilidade da mercadoria mágica “força de trabalho”. Neste contexto conceptual, cada capitalista apropriar-se-ia da mais-valia correspondente à fornecida pela “força de trabalho” que comprava. Sendo o período e o ritmo do trabalho e o nível dos salários similares, a taxa geral de mais-valia transformava-se automaticamente em taxa de apropriação particular. Embora fosse admitido que algumas mercadorias pudessem ser trocadas abaixo do seu valor e outras acima dele, estas variações, justificadas pela produtividade marginal e por outros factores ocasionais, eram consideradas desvios em relação à lei geral da troca equitativa das mercadorias. Se as mercadorias, incluindo a “força de trabalho”, eram trocadas pelos seus valores; se a mais-valia era um valor suplementar fornecido gratuitamente pela “força de trabalho”; e se as condições de exploração eram comuns, cada capitalista apropriar-se-ia da mais-valia correspondente à aplicação da taxa geral ao capital que empregava como salários. Este errado modelo conceptual constitui a base da obra do Marx. Devido às suas discrepâncias com a realidade, um tal modelo viria a ser abandonado, substituído por um outro em que os preços nominais passavam a ser formados pela aplicação da taxa de lucro, através do artifício duma gorada tentativa de conversão dos valores em preços de produção, o que acabou por contribuir para descredibilizar a sua obra.
Alguns marxistas e comentadores da obra do Marx afirmam que aquele seu modelo de formação dos preços nominais se deveria a uma hipotética comodidade de exposição, para melhor ilustrar a formação do valor das mercadorias e a origem do lucro; e o Engels afirma mesmo que ele representava o que ocorria no modo de produção capitalista em condições bem mais atrasadas. Não comungo de opiniões tão ligeiras e benévolas. Um tal modelo de formação dos preços nominais é fruto das concepções erradas do Marx acerca do valor de troca das mercadorias e da génese do lucro; e muito provavelmente nunca ocorreu em qualquer fase do desenvolvimento do modo de produção capitalista. Parece-me mais plausível admitir que a sua concepção acerca do valor apropriado como sendo trabalho suplementar gratuito fornecido pela “força de trabalho” não lhe possibilitava conceber outro modelo de formação dos preços nominais, já que o valor apropriado por cada capitalista decorria da quantidade de “força de trabalho” que empregava, e a apropriação ocorria directamente na produção. Preso a uma tal concepção, o Marx não poderia imaginar que a apropriação duma parte do valor resultava duma troca desigual e, portanto, que ocorria na esfera da circulação. Existindo troca desigual, dizia, ela constituiria um mero logro recíproco dos capitalistas; não suspeitou que o logro se estendia ao participante mais fraco na troca, o trabalhador assalariado. Ficou impossibilitado, por isso, de sair da conclusão absurda que resultava da sua concepção da génese da exploração: taxas de lucro inversamente proporcionais às composições orgânicas dos capitais, manifestamente em contradição com a realidade.
Foi a resolução desta contradição, e a necessidade de conformar a concepção marxista com a realidade, que foi intentada com a chamada conversão dos valores em preços de produção. Para dar alguma credibilidade a esta operação de conversão de preços supostamente representativos de valores noutros preços, os chamados preços de produção, era apontada a identidade entre o preço representativo do valor e o preço de produção da globalidade da produção social. De facto, sendo os novos preços de produção formados pela aplicação da taxa geral de lucro, que resultava dos preços representativos de valores, aos capitais dos diversos ramos, o valor da produção global teria de ser idêntico ao seu preço de produção. A famosa conversão partia de preços, de compra e de venda, e de lucros dum modelo representativo de valores e transformava-o num outro modelo em que apenas os preços de venda representariam os chamados preços de produção. Um modelo irreal, em que todos os preços supostamente representavam valores, era convertido num outro, ainda mais irreal, em que os preços de venda da produção já não os representavam, mas eram formados a partir de preços de compra dos factores produtivos deles representativos. Uma verdadeira operação de conversão teria de envolver a conversão dos preços de compra de cada um dos ramos, corrigidos para preços de produção pela aplicação da taxa geral de lucro, de onde resultariam diferentes montantes de capitais por ramo; consequentemente, o novo preço de venda da produção de cada ramo seria distinto do preço obtido sem correcção, assim como distinta seria a distribuição do valor apropriado pelos capitais dos diversos ramos. É discutível que uma tal operação de conversão seja possível. Será ainda mais discutível que tenha qualquer interesse, porque não corresponde a qualquer transformação ocorrida na realidade.
A designação de conversão dos valores em preços de produção dada a esta operação, portanto, é errónea, visto tratar-se duma aparente conversão, na qual apenas uns preços de venda são transformados noutros preços de venda. O seu objectivo — corrigir a anterior concepção do valor de troca das mercadorias e ultrapassar a discrepância da obtenção de taxas de lucro inversamente proporcionais às composições orgânicas dos capitais — é claro; do novo modelo de formação dos preços nominais resultava agora a obtenção pelos diversos capitais particulares de taxas de lucro similares, a taxa geral de lucro, e de taxas de mais-valia variáveis, directamente proporcionais às composições orgânicas dos capitais, ao invés duma taxa de mais-valia fixa. O seu fundamento — que corresponderia à evolução e ao desenvolvimento do capitalismo — é inverosímil; no modo de produção capitalista, os preços nominais sempre foram formados pela aplicação da taxa de lucro esperada ao capital empregado, as mercadorias sempre foram trocadas pelos seus preços de mercado, transformados por múltiplos factores, e sempre foram estes preços que determinaram a taxa de lucro obtida por cada capitalista, assim como as que dela resultam: taxa de lucro média dos ramos e, também, a taxa de lucro média geral. Os preços nominais nunca foram formados pela aplicação duma taxa geral de mais-valia, porque a relação que ao capitalista sempre interessou foi a do dinheiro que recebe com a venda da produção com aquele que despende com a compra dos factores produtivos, e a taxa de lucro que dela resulta. A única operação necessária seria a demonstração de que a formação dos preços nominais pela aplicação da taxa de lucro esperada ao capital empregado, sendo as taxas similares, constituindo, por isso, uma taxa comum à totalidade dos capitais, não altera os preços nominais relativos das mercadorias, e que esta é a forma própria de depreciar homogeneamente o trabalho presente, independentemente de quem o compra, e, simultaneamente, de determinar o lucro social esperado e de proceder à sua repartição equitativa pelos diversos capitais particulares.
Detectados os erros conceptuais do Marx e as contradições a que conduziam, sem que tenham chegado a ser admitidos, a chamada conversão dos valores em preços de produção não passou de uma forma fantasiosa de tentar ultrapassá-las. Não se tratou, porém, apenas de pretender corrigir erros conceptuais acabando por cometer outros erros, o que seria natural. Neste caso, porque os erros não foram admitidos e a nova concepção foi justificada como correspondendo a um novo estádio de desenvolvimento do capitalismo, estamos em presença de pura manipulação cínica. Admitir erros de tamanha gravidade poria em causa o essencial da obra do Marx e a autoridade granjeada entre os marxistas até à publicação do Livro III de O Capital. Apesar do novo conceito preço de produção entrar em contradição com a premissa fundamental de que as mercadorias eram trocadas pelos seus valores, e de a obtenção de taxas de mais-valia directamente proporcionais às composições orgânicas dos capitais pôr em causa a sua fundamentação da tendência para a queda da taxa de lucro, nenhuma ilação foi tirada acerca das implicações desta nova concepção do valor de troca das mercadorias na obra do Marx, e ainda hoje é a concepção inicial que continua sendo apresentada como representativa da sua obra.
Presos a concepções falsas, o Marx e os marxistas também não poderiam imaginar o que é simples: que o lucro provém da depreciação do trabalho presente pela aplicação duma taxa de apropriação ao trabalho passado, e que este facto impede que as mercadorias sejam trocadas pelos seus valores. É nesta depreciação do trabalho presente, e na troca desigual que a consuma, que reside a essência do modo de produção capitalista. Formando os preços nominais pela aplicação de taxas de lucro esperadas similares, os preços nominais relativos das mercadorias não se alteram e a troca entre os diversos produtores capitalistas será equitativa. A transformação dos preços nominais em preços de mercado, devido aos factores já enumerados, podendo alterar os preços relativos e, com isso, diversificar as taxas de lucro obtidas, ocasiona troca desigual também entre os capitalistas. Esta troca desigual, porém, consiste numa redistribuição do lucro social obtido pela troca desigual efectuada entre os capitalistas e os trabalhadores assalariados, e constitui o estímulo para a concorrência e para a mobilidade dos capitais.
(continua)
Discute-se a legalidade dos actos governativos, e a sua eventual nulidade, que aprovaram o estabelecimento de um determinado empreendimento comercial em área protegida. Sendo os actos da competência do governo e tendo a legislação aprovada para o efeito tramitado como usualmente, parece pouco plausível que o processo esteja ferido de qualquer ilegalidade ou nulidade. O problema, portanto, não parece ser da esfera da legalidade. Pode tratar-se apenas de ter limado arestas e, depois de tudo devidamente encaixado, acelerar o processo para recuperar o tempo perdido. Um favor não implica forçosamente qualquer ilegalidade.
Segundo as autoridades policiais inglesas, alguém ligado àquele empreendimento pagou dinheiro a alguém em Portugal. A ser verdade, presume-se que o referido dinheiro não tenha sido uma dádiva, mas pagamento de favor. É também de presumir que o favor pago se relacione com a ultrapassagem dos bloqueios que impediam a aprovação do empreendimento. É deste modo, aliás, que os detentores de poderes burocráticos diversos se fazem pagar por fora. O esquema, tão comum nas Câmaras Municipais, embora grave, é tomado por banal. Se chega ao governo ou a instituições da administração central dele dependentes, presume-se que os valores em causa sejam mais substanciais, gerando inveja e a concomitante indignação.
Nestas coisas, o conhecimento das pessoas certas é fundamental. É preciso que alguém ponha alguém em contacto com as pessoas dotadas dos poderes necessários. Presume-se que o valor pago seja repartido pelos diversos intervenientes, nas proporções ou partes combinadas. E embora todos ganhem, alguém poderá desempenhar o papel de testa de ferro, aparecendo, se for caso disso, como recebedor, depositário e gestor do valor pago, até que a repartição se possa efectivar em segurança. Se alguém pagou e alguém recebeu, meus senhores, não se precipitem: sigam aquele dinheiro. Se lhe encontrarem o rasto, o resto se verá. Mas apressem-se, não sejam cândidos, senão esgotam-se os prazos e os eventuais ilícitos prescrevem, como num caso mal contado de um diploma escolar.
Alguém disse que a ética republicana é a ética da lei. Ganhar a dois carrinhos é ético, republicano e legal? Se assim for, alguém nos acode perante a amoralidade e o despudor com que tantos alguéns se aproveitam da res pública?
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Adenda (30.01.2009).
Soube esta tarde que JPP, o mais atarefado dos comentadores políticos, não considera que "a questão política fundamental do Freeport para o debate público seja “seguir o dinheiro”". Afirma o conceituado comentador que isso "É-o para a justiça, mas para o debate público há muitas outras coisas que podem ser discutidas independentemente de se “seguir o dinheiro”. O dinheiro é a bomba atómica, mas há muito obus de artilharia por registar e a boa saúde dos soldados da democracia também depende de responder à barragem de artilharia". O debate público a que se refere será o "diz-se, diz-se" e as conversas de escárnio e maldizer dos desabafos de café acerca da honorabilidade da personagem em causa?
Pinóquio é mentiroso compulsivo, aliás, como muita gente e quase todos os políticos. O que importa para julgá-lo politicamente não é o facto de mentir, mas o teor e a gravidade dos actos encobertos pelas suas mentiras. Suspeita-se que esteve envolvido em traficâncias de assinaturas de favor quando era um simples técnico camarário, assim como se suspeita que um seu diploma escolar não foi obtido segundo os cânones académicos. Em qualquer dos casos, a má sorte bateu-lhe à porta, porque investigações incompetentes não o implicaram em qualquer ilícito, mas também não o ilibaram. Desta vez, as suspeitas são mais difusas, mas o eventual ilícito é mais grave. Até agora, sobre este caso, pode haver lapsos ou mentiras cujo significado não está esclarecido. A única merda que vi foi aquela com que alguns jornalistas tentaram emporcalhar o Pinóquio; ainda não vislumbrei qualquer que ele tivesse feito. Falta, portanto, investigar, a sério e rapidamente. O coitado tem direito à justiça, porque com a honorabilidade de cada um não se deve brincar.
Verificada a legalidade dos actos de que resultou a aprovação do licenciamento do empreendimento, que apesar das estranhas coincidências e celeridades não envolve polémica (ao contrário das reprovações anteriores), o que resta para o combate político se não o eventual envolvimento em tráfico de influências ou em corrupção? Como usar estes temas no combate político sem o cabal esclarecimento do caso ou sem fortes indícios de envolvimento nesses ilícitos? Apenas por conjecturas baseadas em suspeitas infundadas motivadas por testemunhos que poderão não ser isentos? O que transforma um eventual favor (de necessidade genuína ou artificialmente fabricada) num eventual ilícito se não o recebimento de dinheiro (ou de outros bens) em proveito próprio ou no de terceiros? Como não é importante seguir o rasto do dinheiro que é afirmado ter sido pago para garantir a aprovação do licenciamento se é ele que determina a existência do ilícito? O desespero de certos políticos armados em comentadores fê-los perderem a tramontana?
O céu apresenta-se repleto de nuvens negras. O tempo está chuvoso e parece que assim irá continuar por mais alguns dias. A crise do capitalismo, na sua inexorável caminhada, vai agudizar as precárias condições de vida de muita gente, exigindo redobrada solidariedade por parte de quem pode. O ano eleitoral que vai entrar poderá ser uma boa oportunidade para mudar alguma coisa, dentro da mudança possível. O problema, sempre eterno, é que a consciência sobre a vida e a memória dos padecimentos são bens escassos. Os jovens ainda não pensam, os velhos já deixaram de o fazer e os maduros estão virados para outro lado. Apesar de tudo, melhores tempos virão.
Que todos os visitantes e leitores façam por ter um Bom Ano de 2009!
A obra do Marx tem sido atacada desde há muito e por muitos ideólogos burgueses. A componente política dessa obra é facilmente contestada, pelo falhanço dos regimes políticos comunistas que se inspiraram na profecia idealista que ela anunciava. A componente apelidada de científica, nomeadamente, a crítica da economia política e um esboço de teoria da revolução social, tem igualmente sido objecto de críticas. Desta componente da obra do Marx ressalta a sua teoria do valor das mercadorias, derivada da teoria clássica do valor, e a explicação da génese do lucro e da exploração dos trabalhadores assalariados que o origina. Até hoje, a teoria marxista do valor e a explicação da génese do lucro não tinham sido cabalmente refutadas, e os críticos não conseguiam demonstrar a sua falsidade. Foi este trabalho que empreendi com o texto O trabalho, o valor e a mais-valia no modo de produção capitalista (I) e com os da série Os erros de Marx acerca da exploração, de que este é o quarto e último.
Nos textos anteriores, julgo ter procedido a uma refutação cabal da concepção marxista do valor das mercadorias e da génese do lucro, e também penso ter apresentado uma concepção inovadora, original, para essas questões. A metodologia que segui foi aplicar às concepções do Marx o método crítico por ele adoptado na sua crítica das concepções dos economistas políticos clássicos. Constatei, deste modo, que usando as premissas adoptadas pelo Marx a sua argumentação se mostrava inválida, porque as conclusões contrariavam as premissas, devido a erros lógicos grosseiros; e verifiquei, além disso, que várias daquelas premissas, umas originais, outras oriundas da economia política clássica, tidas por verdadeiras, não se mostravam plausíveis, de onde resultavam conclusões falsas. Concluí, por isso, que a concepção marxista do valor das mercadorias e da génese do lucro e da exploração que o origina está destituída de qualquer coerência e é falsa.
As concepções do Marx não terem encontrado críticos à altura não deixa de causar alguma perplexidade. Encarado como profeta duma sociedade nova apostada em substituir o modo de produção capitalista, compreende-se que tenha sido tomado como inimigo por muitos ideólogos burgueses e que a sua obra tenha sido relegada para o índex das leituras não recomendadas. Banida dos cursos universitários de economia, o que é de lamentar, a sua crítica da economia política não foi alvo de estudo aturado. Fixando-se em questões menores — como a famosa e indemonstrável conversão dos valores em preços de produção, que pode ser considerada uma tentativa tardia e infrutífera de corrigir a concepção da génese do lucro ou mais-valia no processo de trabalho e de substituir o modelo original de formação dos preços nominais das mercadorias pela aplicação da taxa de mais-valia ao capital empregado como salários, e que muito provavelmente é da lavra do Engels — nem mesmo os críticos mais sagazes abordaram o que de fundamental constituía a inovação marxista, a identificação da “força de trabalho” como sendo a mercadoria vendida pelo trabalhador assalariado, com a qual o Marx julgava ter ultrapassado os obstáculos em que o David Ricardo havia esbarrado.
Tolhidos pela ilusória representação da realidade de que a troca das mercadorias era uma troca equitativa, proclamada pela ideologia dominante como lei geral — apesar dela ser facilmente refutada, quer pela existência do lucro, quer pela diversidade das taxas de lucro obtidas pelos distintos capitais particulares, originando a concorrência e a mobilidade desses capitais, que ao procurarem constantemente anulá-la geram novas desigualdades — os críticos não puseram em causa a veracidade duma tal premissa, também adoptada pelo Marx. E, afinal, são estas duas concepções — a troca equitativa e a “força de trabalho” como mercadoria — juntamente com os desenvolvimentos que acarretaram, nomeadamente, a concepção do valor das mercadorias como sendo criado pelo trabalho vivo, que estão na origem dos erros cometidos pelo Marx e da falsidade das suas concepções no que se refere à teoria do valor das mercadorias e à génese do lucro.
Decorreu recentemente em Lisboa um Congresso Internacional dedicado ao Karl Marx, organizado por um departamento duma universidade estatal conjuntamente com uma cooperativa cultural. Apresentar uma comunicação a esse congresso internacional não foi coisa que não me tivesse ocorrido, e alguém próximo chegou mesmo a alvitrar a oportunidade para divulgar ali as minhas concepções sobre a obra do Marx. Indisciplinado, duvido que conseguisse alinhavar coisa de jeito para cumprir os prazos estabelecidos; defendendo concepções que refutam as do Marx e demonstram a sua falsidade, suspeito que uma comunicação minha não seria aceite. Verificando os diferentes painéis em que estava estruturado, depressa me apercebi de que aquele não era o tipo de evento adequado para o efeito. O elenco dos temas mostrava que os organizadores não procuravam a discussão da obra do Marx, mas pretendiam o desenvolvimento do chamado marxismo, a divulgação e discussão de ideias de adeptos sobre os mais variados temas políticos. A publicação do programa com a identificação das comunicações confirmou esses objectivos dos organizadores. Curiosamente, apenas uma das muitas comunicações versava sobre um tema importante, a teoria do valor, e do título depreendia-se facilmente o seu carácter laudatório. O referido Congresso acabou por ser um exemplo de como nalgumas universidades é promovida a difusão de ideias políticas em vez da investigação e da produção de conhecimento. Aproveito a ocasião de proximidade para fazer um resumo da minha crítica às concepções do Marx acerca da teoria do valor das mercadorias e da génese do lucro e da exploração que o origina.
Os erros do Marx nascem da concepção de que as mercadorias eram trocadas pelos seus valores e, em conformidade, de que a sua troca era equitativa. Tal concepção correspondia à representação que os ideólogos burgueses faziam da troca, mas não encontrava correspondência na realidade. Aceitando acriticamente esta errada concepção, o Marx cometeu depois outros erros inteiramente da sua lavra. O primeiro desses erros foi não ter definido e usado a grandeza “custo de produção” para caracterizar as mercadorias, restringindo as suas qualidades às grandezas “utilidade” e “relação na troca” ou preço, ainda que tenha reconhecido implicitamente que o seu valor era o que custava produzi-las, o valor do custo da sua produção. Na minha crítica, elimino a ambiguidade daquilo que o Marx designa por valor das mercadorias. Identifico o conceito de valor com a dimensão ou resultado da medida de uma característica; e quando me refiro ao valor das mercadorias identifico-o com o valor do custo da sua produção. Outro dos seus erros foi ter designado a “força de trabalho”, a capacidade para produzir trabalho humano, como sendo a mercadoria vendida pelo trabalhador assalariado. E outro, ainda, foi ter atribuído a criação do valor das mercadorias ao trabalho vivo, tido como utilidade da "força de trabalho", durante o processo imediato de produção. Toda a argumentação com que fundamentou a sua teoria do valor das mercadorias e da génese do lucro decorre destes erros.
Começo pela famosa premissa de que as mercadorias seriam trocadas pelos seus valores, oriunda da economia política clássica e adoptada pelo Marx como verdadeira. Na realidade, nada permite comprovar a veracidade de tal premissa. Antes pelo contrário. A existência do lucro é um forte indício de que a equidade da troca não ocorre na realidade; e a diversidade das taxas de lucro obtidas pelos distintos capitais particulares, que origina a concorrência nos ramos e a mobilidade dos capitais entre eles na tentativa incessante da obtenção da melhor taxa, mostra que a troca equitativa nem ocorre entre os diversos produtores capitalistas. Mesmo que estes movimentos possam eventualmente gerar equilíbrios transitórios, temporários e precários na distribuição equitativa do valor apropriado por entre os capitalistas de uma mesma formação económico-social, logo destruídos por inovações que melhoram a produtividade e motivam a concorrência e a mobilidade dos diversos capitais particulares, a troca entre os capitalistas de diversas formações económico-sociais, contribuindo para o seu desenvolvimento desigual, aí está para comprovar que a troca não é equitativa, mas troca desigual.
Pela sua própria natureza, a troca é uma relação social que não oferece qualquer garantia de equidade, podendo gerar desigualdade nos valores trocados, quer pelo desconhecimento do valor da mercadoria alheia, quer pela sua depreciação intencional. A troca entre capitalistas e trabalhadores assalariados, através da depreciação do trabalho vivo pela aplicação duma taxa de lucro ao trabalho passado, é a principal das trocas desiguais; mas também entre os produtores capitalistas podem ocorrer trocas desiguais, através da diversidade da produtividade com que ocorre a produção das mercadorias, diferenciando os seus valores, e exprimindo-se pelas distintas taxas de lucro que obtêm. É na troca desigual entre intervenientes aparentemente livres e iguais que reside a essência do modo de produção capitalista, pois é ela que origina a apropriação duma parte do valor criado na produção, o lucro ou a mais-valia (se bem que o termo mais-valia seja totalmente inadequado para designar a parte do valor apropriada pelos capitalistas, o valor a menos que o trabalhador recebe em troca do valor que forneceu), assim como é também ela que gera o desenvolvimento desigual do modo de produção capitalista em relação ao modo de produção tributário, ou acentua o que ocorre entre as diferentes formações económico-sociais capitalistas.
Se os diversos produtores desconhecerem o valor do custo de produção da mercadoria alheia, a troca tanto pode ser equitativa como desigual; e se dispuserem de condições para conhecê-lo e de capacidade para depreciá-lo, a troca é seguramente desigual. Quando os produtores colocam uma mercadoria em relação quantitativa com outra, o valor do custo que lhe é atribuído na troca, que determina o seu valor de troca ou preço, corresponde ao valor do custo de produção da mercadoria pela qual é trocada e não ao seu próprio valor. Nada garante, portanto, que o valor de troca expresse fielmente o valor do custo de produção, que as mercadorias sejam trocadas pelos seus valores de custo e que a relação na troca seja equitativa. Parecendo uma relação entre coisas, entre mercadorias, a troca é uma relação social estabelecida entre pessoas, e o estado de necessidade em que cada um dos intervenientes se encontra em relação à mercadoria alheia, e a pertinência que lhe atribui, influencia a quantidade da sua mercadoria que está disposto a ceder em troca da que necessita. Mesmo numa situação ideal de equilíbrio entre a oferta e a procura, a troca é influenciada por avaliações subjectivas da pertinência, as quais determinam a preferência dos produtores enquanto consumidores e acabam reflectindo-se no valor de troca das mercadorias.
A grandeza custo de produção é de tal modo importante na produção das mercadorias que desde sempre os produtores se têm afadigado a reduzir-lhe a dimensão ou valor. No acto da troca, que conclui o processo de produção das mercadorias, consumando a transformação dos produtos em coisas que se compram e vendem, elas têm determinado o custo da sua produção, que não mais varia e é independente da relação quantitativa que os produtores estabeleçam entre as mercadorias que trocam. Porque não está dependente de qualquer dos factores que podem influenciar a relação quantitativa das mercadorias na troca, o custo de produção, portanto, é a grandeza que permite comparar objectivamente o que cada um dos intervenientes cede em troca do que recebe dos outros. Não só as mercadorias têm custo de produção, como este é a grandeza que constitui a variável independente na troca. Sem a determinação do valor ou dimensão da grandeza custo de produção não seria possível conhecer o que não é visível na relação quantitativa entre as mercadorias na troca.
Partindo do princípio de que a troca era equitativa, que o valor de troca expressava necessariamente o valor do custo, e caracterizando economicamente as mercadorias apenas pelas grandezas utilidade e relação na troca ou preço, decorrente do valor que lhes era atribuído na troca, não seria possível ao Marx, como não fora aos ideólogos burgueses, desvendar o segredo do “trabalho passado comandar mais trabalho presente”, que o Adam Smith já apontara, o segredo do valor apropriado. Perante a dificuldade, o Marx tinha como alternativa refutar o princípio de que a troca era equitativa ou arranjar uma mercadoria dotada duma faculdade muito especial: o “dom” de fornecer mais valor do que o seu próprio valor. Ora, um tal fenómeno não ocorre na realidade; nada fornece mais do que contém, seja do que for que contenha, e, portanto, nenhuma mercadoria pode fornecer mais valor do que o seu próprio valor. Foi este, contudo, o caminho seguido pelo Marx ao inventar uma mercadoria especial dotada duma capacidade tão paradoxal: a “força de trabalho”.
A “força de trabalho”, a mercadoria que teria a faculdade de fornecer mais valor do que o seu próprio valor, é o que designo por mercadoria mágica. Ainda que esta imaginária mercadoria parecesse ter a faculdade de fornecer mais trabalho do que aquele que o trabalhador recebera em troca, nada permitia afirmar que o valor do custo da sua produção correspondia ao valor do custo de produção das mercadorias pelas quais era trocada. Aliás, a diferenciação salarial comprovava que a “força de trabalho” não era trocada pelo valor do custo da sua produção, porque o mesmo tipo de mercadoria não poderia ter custos de produção tão diferenciados quanto eram os salários, nem a mesma mercadoria produzida pelo mesmo trabalhador em alturas distintas da sua vida poderia ter custos de produção tão diversos. O Marx tomou a aparência do fenómeno como representativa da sua essência, e considerou o valor a menos que o trabalhador realmente recebia na troca daquela sua suposta mercadoria como se fosse um suposto valor a mais que ela teria a faculdade de fornecer. Pode-se imaginar quanta dificuldade terá tido o Marx para engendrar esta solução, porque sem refutar a concepção que a ideologia dominante decretara para caracterizar a troca, erigindo a troca equitativa como lei geral, não era fácil sair do impasse a que tinham chegado os ideólogos burgueses.
Mesmo arranjando uma mercadoria com um tal “dom” o problema da génese do lucro não ficava cabalmente resolvido. O próprio Marx tinha a consciência de que o valor das mercadorias resultava do valor daquelas que entravam na sua produção, e afirmara-o. Se esta mercadoria entrasse na produção com o seu valor, o valor resultante do processo produtivo seria idêntico ao que nele entrara, não havendo lugar à criação de qualquer valor suplementar. Faltava explicar como esta mercadoria especial forneceria mais valor do que o seu próprio valor. Para isso, o Marx teve de complementar a sua concepção do lucro com mais uma originalidade: o valor das mercadorias não resultava dos valores daquelas que participavam no processo da sua produção, como também afirmara, mas era criado nesse processo pelo trabalho vivo, tido como sendo a utilidade da mercadoria “força de trabalho”. O valor aparecia não como resultado de valores anteriores, mas como sendo criado pela utilidade daquela mercadoria especial. Através da sua acção sobre os objectos de trabalho, o trabalho vivo criava não só a nova utilidade daqueles objectos, mas também o seu novo valor de custo, transformando-o num valor superior ao do somatório do seu valor anterior com o da “força de trabalho”. O valor era assim concebido como sendo criado pela utilidade, uma grandeza de natureza distinta, de uma mercadoria especial.
O fenómeno da génese do lucro parecia enfim ficar suficientemente explicado: o trabalhador venderia a sua mercadoria pelo seu valor, ficando quite, e, ainda que em troca recebesse mercadorias com menos valor, ninguém enganava ninguém. Tudo se passaria no respeito pela sacrossanta lei da troca equitativa, porque ao capitalista coubera em sorte comprar uma mercadoria que fornecia mais valor do que o seu próprio valor. Desta concepção, porém, resultava um problema maior, que o Marx eventualmente não se apercebeu. Se o trabalho vivo era o criador do valor das mercadorias, não era o criador do valor dessa mercadoria especial que ele inventara, a “força de trabalho”, em cuja produção não participava, visto ser o seu produto, e a produção daquela resultar apenas do trabalho passado. Não participando na criação do valor da “força de trabalho”, o trabalho vivo não poderia ser o criador do valor de todas as mercadorias; ou, então, a “força de trabalho” não seria mercadoria, ou, sendo, não teria valor, visto não ser produto do trabalho vivo, mas a sua produtora. Afirmando o Marx que a “força de trabalho” era mercadoria e, além do mais, que tinha valor, a sua argumentação que faz do trabalho vivo o criador do valor das mercadorias não é válida, porque viola as regras da inferência.
O trabalho vivo é o produtor das restantes mercadorias, menos da mercadoria especial “força de trabalho”, da qual é apenas o produto. Impõe-se questionar, por isso, se esta tão especial mercadoria será uma mercadoria real ou um mero artifício arranjado para encontrar uma explicação cabal para a ocorrência do lucro. Se analisarmos bem, a “força de trabalho”, a capacidade para produzir trabalho humano, não é coisa que se possa fornecer a terceiros, para que eles produzam trabalho; é apenas a capacidade produtiva do trabalhador, aquilo que faz dele um produtor de mercadorias. Como se constata, o trabalhador não entrega ao capitalista “força de trabalho” para este produzir trabalho. Uma fábrica, por exemplo, tem capacidade produtiva; pode constituir mercadoria quando é vendida a outrem. No modo de produção capitalista, o trabalhador assalariado, a fábrica que detém a capacidade de produzir trabalho humano, não é vendido, não constitui mercadoria, ao contrário do que acontecera na escravidão. Assim sendo, a “força de trabalho”, a capacidade de produzir trabalho humano, não pode constituir a mercadoria que o trabalhador vende, porque não é uma mercadoria real.
O trabalhador assalariado, contudo, vende alguma mercadoria. Se não vende "força de trabalho", capacidade para produzir trabalho, o que vende só pode ser o trabalho que produz com ela. Trabalho com utilidade concreta, de facto, é o que os diversos trabalhadores concretos fornecem para ser usado na transformação da utilidade de objectos de trabalho que sejam pertença dos compradores da sua mercadoria. Então, se o trabalho é mercadoria e é o produtor das restantes mercadorias, que mais não são do que produtos da sua acção e trabalho sob a forma de trabalho passado, o trabalho constitui a mercadoria universal a que podem ser reduzidas todas as mercadorias. Ao trocarem alguma coisa, os intervenientes mais não fazem do que trocar trabalho: trabalho vivo, presente, a produzir ou em produção, por trabalho morto, passado, já produzido. Deste modo, enquanto mercadoria, o trabalho tem valor, o valor do custo da sua produção; e, enquanto mercadoria universal, o valor das mercadorias é o valor do custo de produção do trabalho.
O valor do custo de produção do trabalho não é medível em trabalho, mas num padrão da substância que o origina. Essa substância criadora do trabalho é a energia humana, que poderá ser designada de forma aligeirada por “força de trabalho”. Uma certa quantidade de trabalho terá como custo de produção uma certa quantidade de energia humana, qualquer que seja a unidade de medida que arranjemos como adequada. Se homogeneizarmos o trabalho concreto de diversas utilidades reduzindo-o a um trabalho geral ou abstracto, representativo daquelas diversas utilidades e produzido com esforço e ritmo ou potência médios, em condições ambientais similares, o valor do trabalho, ou quantidade de energia humana consumida, é função do tempo da sua produção. Em termos práticos, o tempo de produção do trabalho pode ser tomado como unidade expedita adequada para a medição do seu valor, e tanto a quantidade do trabalho como o seu valor podem ser expressos pelo tempo da sua produção. O valor das mercadorias, portanto, é criado pela energia humana ou “força de trabalho”, e não pelo trabalho, e este tem valor. A concepção do Marx constitui uma completa inversão da realidade.
Comparando as quantidades de trabalho que são trocadas, facilmente se constata que o vendedor do trabalho presente ou vivo recebe como pagamento menor quantidade de trabalho passado ou morto. É pois nesta troca desigual entre vendedores e compradores de trabalho presente ou vivo que reside a génese do lucro e da exploração que o origina. A exploração é produto duma relação social, a troca, e o lucro em que ela se traduz não é mais do que o valor a menos que o trabalhador recebe ao trocar o seu trabalho presente por trabalho passado. O lucro não é qualquer mais-valia ou valor suplementar fornecido no processo de produção por uma qualquer mercadoria mágica, como é apontado pela concepção marxista. A sua origem é a exploração do trabalhador assalariado pela troca desigual do seu trabalho presente por menor quantidade de trabalho passado. Para explicar de forma coerente e plausível a génese do lucro e da exploração que o origina não é necessário recorrer à existência de mercadorias mágicas que produzam mais valor do que o seu próprio valor, violando as leis da física, nem cometer invalidades argumentativas, contrariando as leis da lógica. Esta realidade acontece porque o trabalhador assalariado se encontra num estado de necessidade que não lhe permite obter uma troca equitativa.
Da errada concepção do valor das mercadorias decorrem outros erros do Marx acerca da explicação do funcionamento do modo de produção capitalista. Desde logo, a sua concepção da mais-valia como sendo um valor a mais fornecido gratuitamente no processo imediato de produção, e não um valor a menos pago ao trabalhador no processo de circulação. Depois, a concepção do trabalho produtivo restrito ao trabalho empregado no processo imediato de produção, não extensivo ao trabalho empregado no processo global de produção, da concepção à circulação das mercadorias, já que apenas o trabalho empregado no processo imediato de produção criaria a mais-valia. Depois, ainda, a concepção da formação do valor de troca ou preço pela aplicação duma taxa de mais-valia. Em condições de exploração similares existiria uma taxa de mais-valia similar, e o valor de troca resultaria do somatório dos preços de compra dos factores produtivos com a mais-valia proveniente da aplicação daquela taxa ao capital empregado como salários.
Deste modo, cada capitalista apropriar-se-ia da mais-valia correspondente à fornecida pelos trabalhadores que empregava, donde resultava que quanto maior fosse a composição orgânica do seu capital menor seria a taxa de lucro que obteria; e, para capitais de igual montante, que quanto maior fosse a composição orgânica menor seria o lucro obtido. Uma tal concepção entrava em contradição com a realidade e com os fundamentos do modo de produção capitalista. Com esta mesma contradição, porém, já o Ricardo se vira confrontado anteriormente, e é também ela que está patente na explicação do Marx para a ocorrência duma suposta tendência para a baixa da taxa de lucro, da qual decorreria a decadência do modo de produção capitalista. Uma tentativa tardia de corrigir estas erradas concepções — a famosa conversão dos valores em preços de produção — mostrar-se-ia infrutífera, acabando por acrescentar novas contradições à teoria marxista, como veremos noutros textos.
O acto da troca, concluindo o processo de produção, determina o valor do custo de produção das mercadorias; esse é o seu valor, independentemente do valor de troca que lhes venha a ser atribuído. Os valores de troca, reflectidos nos preços pelos quais as mercadorias acabam sendo trocadas, são influenciados por variadíssimos factores; os valores dos seus custos de produção, porém, estão determinados no acto da troca e não são influenciados por quaisquer desses factores, que se manifestam no mercado. Por isso, a relação quantitativa em que são trocadas as mercadorias, directamente ou através da intermediação duma mercadoria equivalente geral facilitadora das trocas, contendo o seu próprio valor ou representando um valor meramente simbólico, não garante a equidade da troca, nem permite conhecer a desigualdade com que são trocadas. Somente o valor do custo de produção, constituindo a variável independente na troca, permite conhecer com fiabilidade a real proporção em que os diversos produtores trocam as suas mercadorias. É possível assim determinar em que medida o produtor de trabalho vivo recebe em troca menor quantidade de trabalho do que aquela que forneceu.
A existência do lucro impede os preços das mercadorias, e, logo, os seus valores de troca, de expressarem os seus valores de custo, porque a aplicação duma taxa de lucro ao trabalho passado deprecia o trabalho vivo e faz com que o seu valor de troca, reflectido na relação ou preço que o expressa, não represente o seu valor de custo. As mercadorias sempre foram trocadas pelos seus preços de mercado, e os seus valores de troca sempre foram distintos dos seus valores de custo, e é através deles que se efectiva a troca desigual entre os trabalhadores assalariados e os capitalistas, proporcionando a estes a apropriação duma parte do valor criado na produção; assim como é também através deles que se realiza a distribuição desigual daquele valor apropriado por entre os diversos capitalistas, na proporção das taxas de lucro que obtêm. Enleado numa teia de concepções falsas e de erros, o Marx produziu uma explicação fantasiosa para a exploração dos trabalhadores assalariados: transformou-a em coisa natural, ainda que derivada de capacidades paradoxais duma mercadoria mágica, e assim a legitimou.
Como afirmou o Engels, a grande inovação do Marx na sua crítica da economia política teria sido a identificação da “força de trabalho” como sendo a mercadoria vendida pelo trabalhador assalariado. De facto, foi com recurso a essa mágica mercadoria imaginária, cujas características violavam as leis da física, e ainda pela aceitação da falácia da troca equitativa e pelo uso de inferências inválidas, violando as leis da lógica, que o Marx pretendeu ter desvendado o segredo da génese do lucro e da exploração que o origina. Tantos erros só poderiam conduzir a uma concepção falsa. É o que acontece com a concepção marxista do valor das mercadorias e da génese do lucro e da exploração que o origina.
José Manuel Correia
O BPN, o banco do bloco central dos interesses, estava à beira da falência. Não por efeitos da crise do crédito mal parado, mas, ao que tudo indica, por gestão danosa e eventualmente fraudulenta. Apesar da inércia do Banco de Portugal, que pela segunda vez em pouco tempo não exerceu diligentemente a supervisão que lhe competia, correm investigações judiciais às irregularidades denunciadas pela administração mais recente.
Enquanto isso, o governo afirmou reiteradamente que a banca não tinha problemas. Sendo este um banco pequeno, afinal, havia problemas, mesmo que pequenos. Sem qualquer pudor ou respeito, o governo mentiu ao povo. Porque na praça ninguém lhe concedia crédito, o governo mandou a CGD enterrar umas centenas de milhões de euros no dito BPN. Perante a insuficiente provisão e a falta de liquidez iminente, o governo, apadrinhado pela maioria parlamentar que o sustenta, apresta-se para nacionalizá-lo.
Estando em curso investigações judiciais, existindo até fortes indícios e suspeitas de gestão danosa ou fraudulenta, ocorre perguntar: o governo apresta-se para nacionalizar um banco ou um caso de polícia? E mais: o governo vai indemnizar administradores e accionistas, premiando uns e cobrindo o risco dos outros, por terem levado o banco à beira da falência? Não seria melhor e não sairia mais barato deixá-lo falir e comprá-lo depois em leilão? Não seria a ocasião propícia para levar a cabo a operação de limpeza e de saneamento que urge efectuar no ramo nacional da usura, que parece ter tomado o gosto por negócios mafiosos? Por detrás do BPN e da companhia accionista maioritária haverá negociatas ainda desconhecidas e escuras como breu?
Que governo é este, que em vez de servir o povo lhe mente e serve os amigos, fazendo leis a feitio? Um governo banana duma república das bananas? E que administração do Banco de Portugal é esta, incompetente na supervisão que deveria exercer? Por fim, que oposição é esta, que de imediato aceitou o negócio e, depois, apenas recuou para as reticências e para as críticas secundárias? O compadrio, por tamanho, mete nojo. O despudor causa náusea. Segundo parece, já passámos da Madeira.
A actual crise do capitalismo — crise provocada no capitalismo pela agiotagem, pelo rentismo especulativo e pela cartelização mafiosa, actividades que extravasam do capitalismo por lhe serem anteriores ou espúrias — tem motivado um renovado interesse pelo marxismo. Ele é a corrida à compra de obras famosas do Marx, de O Manifesto do Partido Comunista a O Capital; ele é a realização de Congressos Internacionais sobre o marxismo ou sobre o Marx; enfim, ele é uma cornucópia de interesses que faz com que o Marx e o marxismo estejam entrando em moda.
Tamanha saga não faz aumentar a simpatia pelo comunismo marxista, mas faz suspeitar de que um destes dias o estudo do marxismo volte em força aos cursos de economia das universidades, de onde fora escorraçado, ainda que de alguns outros nunca tenha saído. Não vem mal ao mundo, antes pelo contrário, se nas universidades se passar a estudar a obra do Marx e o marxismo. Seria bom que fossem estudados e não apenas recitados. Mas este renovado interesse faz correr o risco de alguns ideólogos do capitalismo passarem a tomar o Marx como seu guia e a sua obra científica como conhecimento válido.
Se os trabalhadores assalariados já estão bem lixados com o esbulho de parte do valor do seu trabalho, através da troca desigual que efectuam com os capitalistas, que lhes é imposta pela necessidade de sobreviverem, pelos aparelhos do Estado da burguesia e, em caso de refilarem muito, pelo porrete da polícia, causas da sua desdita que os comunistas lhes escondem, imagine-se o que seria os capitalistas, com base na obra científica do Marx, passarem a negar que lhes roubam algo, ou, de modo mais finório, que se apropriam de algo que não lhes pertença por direito próprio.
Como diz o Marx, as mercadorias são trocadas pelos seus valores, a troca é uma troca equitativa, o lucro é produzido pela utilidade da mercadoria força de trabalho para criar mais valor do que o seu próprio valor, os capitalistas, ao comprarem uma tão especial mercadoria pelo seu valor e ao passarem a ser donos da sua utilidade, não roubam nada, ou, de modo mais finório, não se apropriam de algo alheio, apenas colhem o fruto de terem comprado uma tão especial mercadoria. Quando descobrirem isto, alguns ideólogos do capitalismo não vão querer melhor.
Sortudos, os capitalistas, que compram essa mercadoria mágica a força de trabalho. Mais sortudos ainda se erigirem o Marx cientista maduro, desculpando-lhe os desvarios da juventude, no seu grande ideólogo. Então, a coisa fiará mais fino!
A culpa da actual crise é, e continuará sendo, dos capitalistas, esses malandros gananciosos. Se bem que esta não seja uma crise de acumulação de mercadorias por consumir, mas de mercadorias consumidas sem que os seus consumidores tivessem rendimentos para tal. Ao contrário do que é habitual, os actuais consumidores a crédito não fazem parte da malandragem gananciosa, mas estúpida, que usava o crédito para produzir, produzir sempre mais, para hipotéticos consumidores solventes, que por não existirem faziam as mercadorias acumularem-se nos armazéns. Estes consumidores a crédito pertencem à mesma estirpe daqueles que dantes consumiam "ao rol" sob a suspeita do contrariado fiador, sempre na dúvida se um dia a dívida seria saldada. Como bons cristãos, apesar da dúvida, os fiadores sabiam que praticavam uma boa acção mitigando a fome aos pobres, miseráveis desempregados, temporariamente insolventes por não encontrarem quem lhes comprasse a mercadoria de que eram produtores, o seu trabalho.
Ao contrário dos pobres de antigamente, os actuais consumidores insolventes vendem o seu trabalho. Também ao contrário deles, não se endividam para mitigar a fome. Perante a avalanche de mercadorias, que não pára de crescer, são instados a consumirem o que não poderiam consumir com o rendimento obtido com a venda do seu trabalho. Embarcam na ilusão fácil do "consuma hoje, pague um dia destes". Os próprios fiadores fiam o que não é seu e já não padecem do cepticismo dos fiadores de outrora. Para uns e outros, o mundo transformou-se numa caixa mágica, onde tudo parece fácil e ao alcance de um estalar de dedos. Uns tiram coelhos da cartola como se nunca lá tivessem sido postos; outros papam os coelhos, tão saborosos quanto reais, obtidos pela magia do prestidigitador. Perante a facilidade do crédito, para quê garantias de solvabilidade, para quê pagarem, uns, ou reivindicarem, outros, melhores salários? Para quê, pensam, se o salário não é uma parte do que foi produzido, mas um crédito adiantado sobre o que será produzido?
E vivem nesta ilusão, até que um dia despertam, em sobressalto, com todos reclamando os seus créditos. Desfaz-se então a magia e, enfim, são forçados a compreenderem a verdade nua e crua com que o sempre glosado bombo das festas das segundas-feiras os brinda constantemente: “não há almoços grátis”!
Os militantes do PCP podem:
-discutir e apreciar o projecto de resolução política que o Comité Central cessante decide apresentar ao Partido;
-propor alterações e emendas que o Comité Central cessante decide aprovar ou não;
-votar a proposta de resolução que o Comité Central cessante, emendando ou não, decide apresentar ao Congresso;
-votar a lista única de candidatos que o Comité Central cessante decide apresentar para o substituir.
Todos podem participar na discussão, na alteração e na aprovação daquilo que o Comité Central cessante decide aprovar para ser aprovado. Esta democracia, de facto, é diferente da democracia da balda vigente nos partidos burgueses. É a democracia planificada. A mais eficiente das formas da democracia, a que não permite o aparecimento de alternativas, evitando esse desnecessário desperdício. Concedendo ao Comité Central cessante o poder de decidir, evita a dificuldade e a chatice da escolha. Substituindo a livre decisão pela livre consagração, constitui a mais ampla democracia tutelada. Engana-se, portanto, quem julgar que a democracia implica escolher, com base na liberdade de propor e de optar. Para os comunistas, a liberdade de propor e de optar está reservada para o Comité Central cessante; aos restantes, somente está concedida a “liberdade” de aceitar.
Dizem-nos que esta não é a democracia que propõem para a organização do Estado. Porque é defeituosa? Então, porque a utilizam? Porque no partido — que se guia pelo marxismo-leninismo, a teoria científica do passado, do presente e do futuro por acontecer — não há opiniões contraditórias que necessitem de ser expressas? Porque nesta época da “revolução anti-monopolista e anti-imperialista” já não há interesses contraditórios entre os trabalhadores e os pequenos e médios “empresários”, que o partido, à molhada, pretende representar? Porque é a única forma de garantir a “unidade” do partido e, depois, do povo?
Não deixa de ser surpreendente, nos tempos que correm, que os comunistas ainda confundam a unidade com a negação do direito à expressão da diversidade e da eventual contradição que ela encerra; que persistam na cegueira do óbvio, que não lhes permite distinguir entre a democracia e a ausência dela; e que acabem todos felizes por participarem na aprovação do que o Comité Central cessante decidir aprovar que eles aprovem. Enganam-se os comunistas, enganamo-nos nós, que apontamos estes contra-sensos, ou pretenderão eles enganar-nos?
Não podemos ficar indiferentes, ainda que eles o queiram. Mas, perante tamanha mostra de felicidade, é caso para dizermos: Viva o Comité Central cessante!
No seu blog (aqui e aqui) e na página da "Renovação Comunista" na Internet, Jorge Nascimento Fernandes publicou uma interessante reflexão intitulada “O PCP, a Revolução Democrática e Nacional e o rumo ao socialismo. Algumas contribuições para a caracterização do 25 de Abril”. Manifestei-lhe, no seu blog e nessa altura, o meu aplauso por aquela sua reflexão. Nesse texto, o autor aponta a similitude entre a “revolução democrática e nacional” e a “revolução democrático-popular” adoptada pelo VII Congresso da IC, nunca referida pelo PCP, assinala a crítica a essa linha política feita pelo Partido Comunista Grego (PCG) num texto publicado em sítios da Internet afectos àquele partido, que estaria sendo recomendado para estudo e reflexão, e refere a contradição entre a apologia da linha do partido e a recomendação do estudo dum texto que indirectamente a critica. Apesar da perspicácia, a intenção do autor é criticar um pretenso “esquerdismo obreirista” que viria afectando o PCP, e para isso invoca também o ecletismo da orientação que a recomendação do estudo da crítica do PCG e a publicação recente de um livro sobre o leninismo revelariam.
É interessante que alguém da área política do PCP, embora crítico e afastado, pela primeira vez identifique a “revolução democrática e nacional” com a “revolução democrático-popular”. Como antigo esquerdista comunista marxista-leninista-maoista, eu próprio escrevera em tempos, em diversas ocasiões, sobre a Revolução Democrática e Nacional e sobre a sua relação com a linha oportunista implantada no movimento comunista internacional pelo VII Congresso da Internacional Comunista (IC), em 1935. Tendo sido crítico, no PCP(R), da etapa da “revolução democrático-popular”, que classificava de contrabando oportunista, conhecia suficientemente o assunto para abordar a linha política adoptada pelo PCP a partir de 1965. Fui desencaixotar alguns desses textos, dum período em que me entretinha a criticar alguns informes e outros textos do Cunhal, de que possuía cópias de edições antigas ou que as edições Avante reeditavam. Achei-os curiosos e não me furtei a sorrir. Por um lado, pela linguagem que usava na época; por outro lado, pela satisfação que me provocaram, por ver que já então, sobre estas questões, formulara opiniões que o tempo viria a confirmar. Aproveitei este que agora publico. O tema central do texto, a linha política oportunista do PCP, é mais vasto, mas tem como pano de fundo a “revolução democrática e nacional”, assim como as variantes que a antecederam. Expurguei-o da linguagem mais acintosa que usava para referir o Cunhal e o PCP, corrigi-o num ou noutro pormenor e actualizei-o com algumas informações mais recentes, sem desvirtuar-lhe o sentido. O texto é ligeiro, e já não me recordo se o escrevera com algum propósito definido ou se apenas para desabafar e ir matando fantasmas, como aconteceu com muitos outros textos.
Jorge Nascimento Fernandes afirma que “o PCP, depois do 25 de Abril, nunca pretendeu tomar o poder”. Parece-me uma afirmação ousada e um pouco injusta. Aquele partido sempre pretendeu desempenhar um papel importante no que então designou por “processo revolucionário em curso” (PREC), e é iniludível que não só partilhou o poder — com cargos no governo, no parlamento, nas empresas nacionalizadas, no vasto aparelho do Estado, e também com assento no Conselho de Estado — como almejava ampliar e reforçar o poder que detinha, através do uso da agitação da parte do movimento de massas que controlava. Como partido que se afirma comunista, com maior ou menor convicção o PCP pretendeu alcançar o poder para implantar o socialismo ou, pelo menos, aquilo que o seu ideólogo, em maior ou menor sintonia com a ortodoxia, considerava ser o socialismo, isto é, o capitalismo de Estado monopolista, no caso concreto, restrito aos principais sectores da economia, não muito distinto e apenas um pouco mais radical do que o socialismo defendido pelas fracções de esquerda da social-democracia, pacificamente aceite pela burguesia em períodos de crise do capitalismo. A táctica que adoptou para atingir esse socialismo foi uma sonhada aliança das forças “anti-monopolistas e anti-imperialistas”, as chamadas forças “democráticas e progressistas” (correspondentes às forças “patrióticas e progressistas” de antes do 25 de Abril). Procurou concretizá-la, no plano partidário, através duma “maioria de esquerda” parlamentar, formada com a social-democracia, objectivo pelo qual sempre orientou a sua acção política, e, no plano militar, através da aliança Povo-MFA, por via da cooperação entre os seus simpatizantes ou militantes e os social-democratas na Comissão Coordenadora do MFA, que após a ruptura ficariam conhecidos, respectivamente, por Esquerda Militar e por Grupo dos 9. Depois da tentativa frustrada do golpe reaccionário de 11 de Março, servida de bandeja, com a nacionalização da banca e dos seguros e, através dela, de centenas de empresas, o PCP vislumbrou uma oportunidade inesperada de aprofundamento da sua “revolução anti-monopolista, anti-latifundista e anti-imperialista” e pretendeu reforçar o seu poder. Um capitalismo não monopolista, o do “nacionalizado, nosso”, no quadro duma democracia burguesa, contudo, foi a feição máxima do socialismo em nome do qual o PCP lutou pelo poder.
Coisa bem diferente é se o PCP alguma vez defendeu e lutou pela revolução socialista proletária, o que me parece inquestionável não ter acontecido. Como nunca lutou pela revolução socialista proletária, o PCP também não poderia defender nem adoptar a via insurreccional para chegar ao socialismo. Por isso me parece correcta a sua afirmação mais precisa de que “nunca houve da parte do PCP, ao longo do processo revolucionário de 74/75, qualquer ruptura revolucionária com vista a implantar a ditadura do proletariado”. Apesar do envolvimento de grupos de militantes mais radicalizados na aventura militar que constituiria o pretexto para o golpe de 25 de Novembro de 1975 — mostrando alguma divisão interna entre facções que pelo recurso ao putschismo pretenderiam reconquistar o equilíbrio perdido ao nível dos órgãos de poder militar e civil após as sucessivas derrotas sofridas ultimamente, que tinham conduzido à queda do V Governo Provisório, o último do "companheiro" Vasco, e facções que eventualmente desejariam um levantamento militar e civil mais radical, para dar novo fôlego à revolução democrática e nacional — o cumprimento imediato da ordem de retirar emitida pelo núcleo restrito da direcção executiva, quando a contagem de espingardas mostrou não existir qualquer garantia de sucesso, confirma que acções radicais não desfrutavam de apoio convincente das facções dominantes ou nem faziam parte das concepções de muitos. Como se viu, nem para reconquistar posições quanto mais para desencadear revoluções.
Desde há muitos anos, o PCP caracteriza-se por ter uma linha política oportunista, que de forma elaborada já vem do tempo em que o Cunhal tomou a direcção do partido, a qual nunca teve em vista a luta pela revolução socialista proletária. Primeiramente, com a “revolução nacional-democrática”, de 1943, ficou-se claramente pela subordinação aos interesses da burguesia liberal; depois, com a “revolução democrática e nacional”, de 1965, evoluiu para a ilusória etapa intermédia duma “revolução anti-monopolista e anti-imperialista”, “profundamente popular”, que atribuía a uma coligação de forças imaginariamente anti-monopolistas e anti-imperialistas, integrando a média burguesia, tarefas que só o proletariado, aliado ao campesinato mais pobre e a fracções da pequena burguesia urbana e da intelectualidade progressista, poderia realizar com sucesso levando a cabo a revolução socialista proletária; finalmente, desde 1976, com a caracterização da sociedade portuguesa como sendo uma “democracia avançada rumo ao socialismo”, tudo o que pudesse restar de ilusões revolucionárias nas mentes de alguns ingénuos foi jogado às urtigas. Esboroado o comunismo, tendo o centro dirigente, o chamado Sol na Terra, sido tomado de assalto por dentro, sem que o proletariado mexesse uma palha para defendê-lo, o socialismo e o comunismo são apenas miragens agitadas pela propaganda, que serão implantados pela ordem natural das coisas, como sucessores inevitáveis do capitalismo, como dita a profecia política marxista, faltando esperar pela sua derradeira crise geral.
O PCP, portanto, não ilustra apenas a hipocrisia de continuar a afirmar lutar pelo socialismo e pelo comunismo quando somente espera o cumprimento da profecia, futuro ainda mais improvável depois do falhanço do comunismo como regime económico-social. Muito antes do comunismo ruir, quando ainda poderia ser legítima alguma ilusão, já a sua linha política oportunista se caracterizava pelo abandono da luta pelo socialismo e pelo comunismo. Toda a obra em que o Cunhal se pôs a teorizar sobre etapas da revolução, sobre estratégia e táctica, sobre a identificação dos inimigos e dos aliados e sobre as tarefas do partido é disso exemplo claríssimo. Para além dum exímio organizador e dum bom político prático, o Cunhal era um fraco conhecedor do marxismo-leninismo e um fraquíssimo seguidor da doutrina na sua aplicação à realidade social e política portuguesa. Não creio que os erros e os equívocos em que laborou durante toda a sua vida fossem conscientes e, muito menos, intencionais, mas são ilustrativos da sua condição de político pequeno-burguês radical de esquerda e do contexto ideológico e político que caracterizou o movimento comunista internacional após a morte do Lenine. Aconteceu-lhe também ter tido como adversários, dentro e fora do partido, principalmente, gente que estava à sua direita, que conhecia do marxismo-leninismo menos do que ele e que errava ainda mais na análise da realidade social e política portuguesa. O único adversário à sua esquerda, que verdadeiramente lhe poderia ter feito frente, para além de errar quanto à essência do oportunismo da linha política, errava também na apreciação da conjuntura e na orientação que o partido deveria tomar, e não dispunha de experiência nem era dotado de outras qualidades em nível comparável. Neste contexto, o PCP não passou dum propagandista e defensor da União Soviética, e, a partir de 1956, dum fiel seguidor das ordens do PCUS; a isso se restringiu a sua luta pelo socialismo e pelo comunismo.
Tal não impediu que a burguesia e os adeptos, por razões opostas, atribuíssem ao partido e ao Cunhal objectivos pelos quais verdadeiramente nunca lutaram. A propaganda definira o comunismo como a encarnação do mal, e os comunistas como comedores de criancinhas ao pequeno-almoço e matadores de velhos por injecção atrás da orelha; tudo o que apenas cheirasse a comunismo e a comunista sofria os efeitos dessa conotação pejorativa. A História acabaria por mostrar que nem o PCP nem o Cunhal pretendiam levar a cabo a revolução socialista proletária para implantar o comunismo, fazendo-lhes justiça. O Cunhal tinha a visão do comunismo como meta inelutável das sociedades humanas, cuja construção ocorreria durante um longo período histórico, acabando assim por cumprir a profecia marxista. O que ele retinha do marxismo era esse objectivo final inexorável e as razões que o determinavam, as lutas das classes oprimidas contra as opressoras, dos explorados contra os exploradores, que acabariam identificadas com as lutas dos pobres contra os ricos, mas não os meios violentos pelos quais essas lutas se desenrolariam, constituindo uma espécie de rosa sem espinhos. A marcha para o comunismo, por isso, seria uma dura caminhada feita de pequenos passos, prenhe de escolhos, com avanços e recuos, com vitórias e derrotas, constituída por pequenas revoluções, sim, mas daquelas aceites por todos, ou pela maioria, tidas como inevitáveis, portanto, longe das concepções leninistas mais ortodoxas que identificavam a revolução com a épica insurreição armada das amplas massas proletárias para a conquista do poder político. A revolução, para ele, era um contínuo “processo revolucionário em curso”, numa versão de história interminável de que apenas se conhecia o radioso final. Pelo caminho, as coisas poderiam ser elas e o seu contrário, o poder ser detido pela burguesia, mas a sociedade portuguesa não ser uma formação económico-social capitalista. Bastava abstrairmo-nos da questão do poder e concentrarmo-nos na questão do Estado, afinal, para ele, em vez do poder, a questão central de toda a revolução. Daí que enquanto uma parte dos sectores essenciais da economia esteve nacionalizada a sociedade portuguesa fosse “rumo ao socialismo”. O PCP nunca teve uma linha política divergente destas concepções. Existiu escudado nas concepções políticas e nas capacidades de trabalho do Cunhal. Quando este lhe faltou foi pior a emenda do que o soneto, e, como se viu, enquanto ele esteve politicamente activo, o PCP foi o partido do Cunhal, o partido do “filho do advogado”. Hoje, com alívio, pode-se dizer: para melhor, antes assim.
A concepção oportunista com que o PCP afirma pretender atingir o socialismo tem contribuído para as sucessivas derrotas do movimento operário e popular e para a perda de direitos que em períodos mais favoráveis têm sido conquistados. Desde sempre, estas derrotas e insucessos têm sido atribuídos pelo PCP à “traição” da social-democracia, vendida aos interesses da grande burguesia e do imperialismo. É um facto indesmentível, que entre nós a reiterada prática política do PS apenas confirma à saciedade. Mas outro facto indesmentível é que desde há muito o marxismo-leninismo tinha desmascarado a social-democracia e denunciado a sua característica de ala esquerda da burguesia e do imperialismo. Ora o PCP não só calou essa denúncia como tratou de promover a social-democracia como aliado privilegiado. Todos os que foram contemporâneos do evento se recordam da proposta da Intersindical nascente para que discursassem no Comício do 1.º de Maio de 1974 um representante do PCP e outro do PS, um partido social-democrata constituído um ano antes, na Alemanha, sem qualquer representatividade no movimento operário e sindical e albergando muitos trânsfugas e ultra oportunistas conhecidos, mas que o PCP necessitava de promover como interlocutor credível e aliado preferencial para o seu projecto político. Em vez da denúncia da social-democracia, do seu carácter burguês e de inimigo declarado dos interesses da classe operária e dos trabalhadores, devido às suas ilusões oportunistas o PCP ocultou aquele carácter reaccionário e promoveu-a. Depois, a custo, não sem ambiguidade, conforme lhe convenha, tem vindo a denunciar o PS e as suas políticas ao serviço do capital. O PCP, contudo, nunca fez qualquer autocrítica das suas próprias responsabilidades na ocultação da social-democracia como inimiga do socialismo. Não a poderia fazer, sob pena de se desmascarar, porque centrou a sua política de “rumar ao socialismo” numa aliança com a social-democracia, através duma almejada “maioria de esquerda”.
Daí que a acusação de “obreirismo”, seja lá o que for que o termo designe, formulada por Jorge Nascimento Fernandes ao PCP me pareça totalmente infundada. O PCP, de há muito, é um partido pequeno-burguês reformista radical, “anti-monopolista e anti-imperialista”, pretendendo representar simultaneamente operários e outros trabalhadores, artesãos, agricultores e comerciantes, quadros, intelectuais e pequenos e médios patrões, e outros que aspiram a sê-lo. A sua linha política protestativa, clamando contra as “políticas de direita” e com a tónica na defesa dos interesses dos trabalhadores, é por isso deveras contraditória, como contraditórios são os interesses das classes e categorias sociais que alberga. Podendo ser muitas coisas, nem chega ao economicismo, à defesa consequente dos interesses económicos dos trabalhadores, quanto mais ao que se queira designar por obreirismo. E se o PCP se transformasse num partido do trabalho, num partido que se pudesse dizer obreirista, abandonando o mito da missão histórica do proletariado e os demais da profecia marxista, a que continua apegado, e a pretensão da “construção” do socialismo e do comunismo (que se resume a simples liturgia retórica, depois do abandono de qualquer referência à “revolução socialista”), assim como os inerentes vícios organizativos centralistas, seria talvez um acontecimento importante para a vida política portuguesa.
José Manuel Correia.
PCP: o drama que calhou em sorte à classe operária
José Manuel Correia
Quando concepções políticas de direita se mostram infrutíferas, ou os seus defensores se encontram momentaneamente impedidos, o terreno fica propício para o florescimento de concepções ainda mais à direita. Basta que a um político oportunista, como era o Cunhal, suceda outro ainda mais oportunista, como era o Fogaça, e que a restante direcção e o conjunto do partido não disponham de capacidade ideológica e política para apontarem o carácter oportunista da linha seguida e para lhe moverem combate. Foi o que aconteceu no PCP depois da prisão do Cunhal, em 1949. Com o Cunhal na cadeia, e com o Fogaça à frente da direcção do partido, a “política de transição” transformou-se em linha política oficial, ganhando com o tempo novos desenvolvimentos, sob a forma de “solução pacífica do problema político português”. A adopção da nova orientação foi antecedida de um período de purgas internas, a seguir às prisões de 1949, e dois ou três quadros que haviam abandonado ou pretendiam abandonar o partido foram sumariamente executados, por precaução de novas denúncias e traições, revelador do clima de desconfiança maniqueísta que se tinha instalado. Divergências entre os membros da direcção, em torno da ascensão do Fogaça ao secretariado e das suas posições, e entre aquela e os quadros, brandindo acusações mútuas, dificultaram o trabalho colectivo e obrigaram ao abrandamento da actividade partidária. Nesse período de desorientação, que ficaria conhecido por “sectarismo”, a actividade do movimento de unidade anti-fascista, que sempre fora frágil, pelos receios do controlo que o partido permanentemente procurou exercer, paralisou. O MUNAF acabou por extinguir-se, e o Movimento Nacional Democrático (MND), criado para substituí-lo, não teve futuro. Hostilizados, muitos militantes e simpatizantes intelectuais abandonaram o partido. Simultaneamente, o partido isolava-se das massas e das organizações e das personalidades democratas. A correcção do “sectarismo” levaria ao abandono da linha do “levantamento nacional”, substituída pela da “solução pacífica”, com a qual o partido procurava relançar a unidade anti-fascista.
Dando continuidade a um certo desanuviamento nas relações internacionais, devido ao nascimento de novos Estados, oriundos de antigas colónias que alcançaram a independência, e à formação do movimento dos países não alinhados, é adoptada uma política de “coexistência pacífica” entre o comunismo e o capitalismo. Para ser aceite como orientação credível, a “coexistência pacífica” não poderia ficar confinada à diplomacia, teria de estender-se ao movimento comunista internacional, dirigido pelo PCUS através das Conferências Internacionais dos Partidos Comunistas e Operários, a nova estrutura organizativa mais informal que entretanto substituíra o Cominform. Compreende-se, portanto, a sua transposição para a linha geral do movimento comunista internacional sob a forma de “transição pacífica” do capitalismo para o socialismo. A União Soviética, deste modo, mostrava ao mundo aceitar o jogo democrático da concorrência entre sistemas económico-sociais diferentes, e os partidos comunistas, abandonando as concepções marxistas-leninistas da revolução socialista proletária e da via insurreccional para a levar a cabo, integravam-se plenamente na vida política parlamentar da democracia burguesa.
A ascensão do nazi-fascismo produzira a “revolução democrático-popular” anti-fascista, anti-monopolista e anti-imperialista. A agressividade do imperialismo conduzira ao lançamento da “luta pela paz”. O desanuviamento dera lugar à “coexistência pacífica”. Com a “coexistência pacífica” surge a “transição pacífica” e, com ela, uma nova revolução intermédia, a “revolução anti-monopolista e anti-imperialista”. Ambas as etapas intermédias entre a revolução burguesa e a revolução proletária teriam a virtude de efectuar a “transição pacífica” do capitalismo para o socialismo. Deste modo, o desvio oportunista de direita do VII Congresso da entretanto extinta IC era consolidado num desvio ainda mais à direita, no que ficou conhecido, e bem, por “revisionismo moderno” (por distinção em relação ao revisionismo bernesteiniano e kautskista do início do século). Quem conheça minimamente o marxismo-leninismo, a teoria e a prática da revolução proletária moderna, não pode deixar de caracterizar a teorização duma nova etapa da revolução entre a revolução burguesa e a revolução proletária, uma dita “revolução anti-monopolista e anti-imperialista”, baseada numa suposta comunhão de interesses entre o proletariado e camadas não monopolistas e nacionalistas da burguesia, com o consequente abandono das concepções insurreccionais e com a defesa duma “transição pacífica”, como despudorado revisionismo do marxismo e do leninismo. O realismo político dos interesses da União Soviética, contudo, uma vez mais, sobrepunha-se à ortodoxia ideológica, ou ao dogmatismo na interpretação da ortodoxia, como viria a ser designada a interpretação que dela faziam os opositores da adopção do novo contrabando oportunista, e os interesses do proletariado mundial eram relegados para plano secundário.
Durante a década de cinquenta, o PCP conheceu tempos difíceis, devido aos insucessos acumulados e aos duros golpes sucessivos infligidos pela polícia política nos meios da organização, nos militantes, no corpo de funcionários e nos órgãos de direcção, agravados por múltiplas traições, incluindo de quadros que recentemente tinham ascendido ao CC. O fascismo não caíra nem fora derrubado, e na nova política internacional da guerra-fria contra o comunismo passara a beneficiar do apoio anglo-americano, funcionando como esteio do anti-comunismo na Península Ibérica. A curta existência do MUD Juvenil e a campanha eleitoral do Humberto Delgado, em 1958, assim como as greves de 1958-59, mostraram a existência dum amplo movimento de massas à escala nacional esperando por ser convenientemente enquadrado e mobilizado para a luta política, e o movimento grevista do início dos anos sessenta (Outubro de 1961-Abril de 1962), na capital, confirmava a predisposição das massas operárias mais esclarecidas para o recurso a formas de luta cada vez mais audaciosas e radicais. Paralisado por uma linha política ultra oportunista, o PCP não se mostrava à altura de aproveitar e de desenvolver as potencialidades que o movimento operário e popular evidenciava possuir. O partido não só não apoiava o recurso a formas de luta violentas como se mantinha apegado à linha da “unidade de todos os portugueses honrados”, e ainda descia a posições mais oportunistas, apelando a uma jornada de luta pacífica para o afastamento do Salazar do poder. Desiludidos e desesperados, muitos militantes abandonavam o partido, enquanto outros mais radicais se envolviam, à sua revelia, na aventura militar do assalto ao quartel de Beja, enquadrados por aventureiros pequeno-burgueses.
Contra as veleidades e ilusões duma parte da burguesia liberal, o Cunhal apercebera-se, tal como alguns oficiais superiores inicialmente apoiantes do salazarismo, descontentes com o poder pessoal do Salazar, reconvertidos em democratas conservadores e transformados em impenitentes conspiradores, de que o regime fascista se mantinha pelo apoio das forças armadas, que soubera conquistar. A sua queda, portanto, só aconteceria com a insubordinação da tropa. Foi esta componente de sublevação militar, necessária para o derrube do fascismo, que conduziu o Cunhal para a concepção do “levantamento nacional”, juntando à componente militar uma componente civil, não restrita à participação dos tradicionais conspiradores reviralhistas, mas alargada ao envolvimento do movimento de massas, justificadora da sua qualidade de “nacional” e popular e do apoio do partido. O “levantamento nacional”, que o Cunhal qualificava, abusivamente, de “insurreição nacional”, porém, não tinha em vista a luta pelo socialismo, mas apenas a restauração da democracia burguesa. Para além da definição duma via insurreccional ou duma via pacífica, eram os objectivos da luta política anti-fascista e a etapa da revolução em que ela se inseria que estavam em causa. Esses objectivos, contudo, integravam-se numa inventada “primeira fase da revolução democrático-burguesa”, como se para o restabelecimento dum regime democrático-burguês não fosse suficiente uma “revolta” e implicasse a necessidade duma “revolução”, ou a existência dum regime ditatorial fascista colocasse a revolução portuguesa numa etapa diferente da revolução socialista proletária, ainda que tivesse de envolver a luta pelo socialismo noutra política de alianças, mais restritiva, e em maiores dificuldades. O socialismo, porém, não passava duma distante aspiração, não constituía objectivo da luta política concreta do partido durante o regime fascista, nem viria a constituir nunca.
Em relação à realização da frente única operária, o Rodrigues também apresentava alternativas incorrectas. Naquela época, os trabalhadores procuravam o apoio dos sindicatos corporativos para a resolução de muitos problemas práticos, e algumas direcções eram constituídas por trabalhadores honestos. Desde os anos quarenta, o partido procurara trabalhar nos sindicatos, ainda que com pouco sucesso é verdade, e fazia da luta pela eleição de direcções representativas dos trabalhadores um objectivo concreto. Na nova situação dos anos sessenta, fermentavam as condições para se intensificarem as contradições entre as direcções vendidas ao patronato e ao corporativismo fascista e os trabalhadores, e essa constituía uma importante frente a desenvolver para alargar a luta reivindicativa às mais amplas massas. Ao contrário desta perspectiva, o Rodrigues defendia o abandono do trabalho nos sindicatos corporativos e a criação de sindicatos paralelos clandestinos, revolucionários, que quanto muito podiam colher a adesão de operários simpatizantes do comunismo, mas não possibilitavam o alargamento da influência do partido. Não assimilara o insucesso que uma tal orientação, já adoptada pelo partido nos anos trinta, se revelara na prática. Privilegiando as acções armadas de pequenos grupos, de certo modo menosprezava o desenvolvimento do trabalho nas múltiplas e variadas organizações do movimento de massas, conjugando as formas de luta legais com as semi-legais e com as ilegais, partindo da iniciativa e da coordenação de militantes na legalidade e sob a direcção da organização clandestina, em torno de objectivos concretos diversificados, que tanto tinham ajudado o partido a existir, lançando raízes no movimento operário e conquistando simpatia entre as massas populares. Estas concepções ilustravam sobejamente não só o ecletismo como a fragilidade das suas críticas.
O afã radical, a pressa e a falta de quadros comunistas levá-lo-iam à criação da Frente de Acção Popular (FAP), um simulacro de um pequeno partido frentista, para levar a cabo a aventura guevarista da “revolução popular” com que sonhava, antes mesmo da constituição de um novo partido comunista revolucionário. À míngua de quadros, a organização dos comunistas ficou reduzida a um pequeno Comité Marxista-Leninista Português (CMLP), constituído por pouco mais de uma dúzia de gatos-pingados que se arrastavam na imigração,
A etapa da revolução, porém, não era definida em função das relações de produção dominantes, da contradição principal que as caracterizava e dos interesses das classes sociais que as protagonizavam. Constituía uma ideia previamente concebida, sem qualquer fundamentação, a não ser a sua implícita coerência com a linha da “revolução anti-monopolista e anti-imperialista”. Depois, era justificada identificando como inimigo principal não a classe social dominante, mas a sua fracção que deteria o poder e que congregaria contra si o maior número de classes e de camadas sociais; não em função dos objectivos que desbloqueariam o desenvolvimento económico e social, mas em função daqueles que seriam susceptíveis de colherem o maior número de aliados. A política dos pequenos passos e das amplas alianças, própria da táctica para ganhar batalhas, era transposta para a estratégia, que deveria ser concebida para ganhar a guerra. Para poder ser credível, esta etapa da revolução continha, à mistura, um cunho de radicalidade, consubstanciado num extenso e profundo programa de expropriações, de nacionalizações e de reforma agrária, muito dificilmente aceitável pela média burguesia e por largas fracções da pequena-burguesia, de realização só possível no quadro da revolução socialista proletária. Uma revolução que contém no seu programa objectivos que transformam presumíveis aliados em inimigos declarados está condenada à partida e não passa duma imaginária revolução.
Assim acontecia com a “revolução democrática e nacional”. Se fosse expurgada da sua componente mais radical, que tendo em conta a política de alianças definida constituía um obstáculo intransponível e lhe ditava a sua impossibilidade, a nova revolução ficaria confinada à restauração da democracia burguesa e à descolonização, objectivos plenamente aceitáveis por todos os apontados aliados. A revolução socialista proletária bem poderia esperar, continuando tão distante como dantes, já que constituía uma guerra que o Cunhal não se mostrava disposto a travar. A ironia resultante desta nova concepção da revolução portuguesa é a de que com ela o Cunhal procurava sanar o que estivera na origem duma parte das críticas, precisamente a de que o partido abandonara a luta pela revolução socialista proletária. Para compor o ramalhete, tal como a revolução mudava no nome, também o “levantamento” e a “insurreição” sofriam ligeiros ajustamentos na designação. O “levantamento nacional libertador” e a “insurreição nacional armada”, próprios duma revolução “nacional-libertadora” ou “nacional-democrática”, eram por isso abandonados, dando lugar a um “levantamento popular armado” e a uma “insurreição popular armada”, adequados a uma “revolução popular”. Por essa razão, mudava ligeiramente a linguagem do partido, polvilhada de mais referências ao marxismo-leninismo, ao socialismo e ao comunismo, acompanhando a evolução ideológica do Cunhal e as novas tarefas que passara a desempenhar no seio do movimento comunista internacional como ajudante dos seus conselheiros soviéticos. No fundo, mantinha-se tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.
A nova concepção denotava uma certa evolução ideológica, um maior amadurecimento das ideias do Cunhal, em relação às suas concepções enquanto jovem dirigente do partido, vinte e um anos atrás, o que não admira. A estadia na União Soviética permitira-lhe recuperar, no plano ideológico, num curto período, os longos anos passados na cadeia, durante os quais fora impedido de participar na luta política nacional e de adquirir um conhecimento aprofundado das transformações ideológicas e políticas que ocorriam no movimento comunista internacional. As concepções da “coexistência pacífica” entre sistemas económico-sociais diferentes e da “transição pacífica” do capitalismo para o socialismo tinham-se reflectido na teorização duma “revolução anti-monopolista e anti-imperialista”, apresentada como antecessora necessária da revolução socialista proletária na situação de domínio mundial do imperialismo, mesmo nos países desenvolvidos, levada a cabo pelo proletariado, sob a direcção do seu partido revolucionário, tendo como aliados as classes e camadas não monopolistas do povo. Vendo bem, uma revolução de quase todo o povo, como se a contradição entre o proletariado e a burguesia tivesse desaparecido como contradição principal. Tais concepções não constituíam uma genuína novidade, já existiam mesmo no tempo em que o Cunhal era jovem, oriundas do VII Congresso da IC. Agora, cristalizadas, tinham uma fundamentação mais elaborada, e de desvio oportunista transformaram-se em desvio revisionista do marxismo-leninismo. Constituíam, além do mais, um fundamento teórico inestimável para o Cunhal poder continuar a defender a linha política oportunista centrada na unidade anti-fascista em que o partido desde sempre se empenhara.
Reconhecendo o desenvolvimento capitalista nos campos e a existência dum extenso proletariado agrícola, em 1943, o Cunhal usou as relações de produção semi-feudais que ainda subsistiam nalgumas regiões do país, embora apenas como resquícios, assim como o fraco nível do desenvolvimento das forças produtivas, para caracterizar a revolução portuguesa como anti-feudal, como “uma primeira fase da revolução democrático-burguesa”. Contraditoriamente, essa “revolução anti-feudal”, simultaneamente, era também uma “revolução anti-monopolista e anti-imperialista” e tinha como objectivos centrais a luta contra os monopolistas, os latifundiários e o imperialismo, tidos como suportes do regime fascista, além do abandono do colonialismo. A esta “revolução anti-feudal, anti-monopolista, anti-imperialista e anti-colonialista”, “primeira fase da revolução democrático-burguesa”, ele atribuiu a designação de “revolução nacional libertadora” ou “revolução nacional-democrática”. Os objectivos duma tal revolução, porém, passaram a constituir os objectivos da nova “revolução democrática e nacional”. As novas concepções do Cunhal, portanto, não se distinguiam muito das de antigamente, expurgadas dos erros grosseiros e das contradições que então apresentavam, que inexplicavelmente ninguém apontara — nomeadamente, a caracterização da revolução portuguesa como sendo a “primeira fase da revolução democrático-burguesa” — resumindo-se a passar a caracterizá-la como “revolução popular”.
Se anteriormente tivesse adoptado o desvio oportunista da “revolução democrático-popular”, introduzido pela IC, teria de referi-la como primeira fase ou parte integrante da revolução socialista proletária. Nessa época, isso não deixaria de ter reflexos nos militantes operários mais esclarecidos, fortalecendo as ideias insurreccionais que fervilhavam nas suas cabeças, e de afectar a linha da unidade anti-fascista. Então, a “revolução nacional-democrática” que inventara permitira-lhe defender uma linha política oportunista sem ter de invocar a luta pelo socialismo. Agora, a “revolução democrática e nacional”, por seu lado, permitia-lhe defender a mesma linha oportunista invocando que constituía uma etapa própria, mas integrada na luta pelo socialismo, que preparava a etapa da revolução socialista proletária. Deste modo, alentava algumas consciências mais desanimadas e sossegava outras porventura mais perturbadas. Era também a concessão necessária às críticas pela esquerda, com as quais nunca se vira confrontado antes, e a adaptação aos novos tempos em que a União Soviética construíra o socialismo e se preparava para entrar no comunismo, a sociedade de todo o povo. As suas novas concepções apenas passaram do erro de apreciação ou da deturpação intencional para um patamar superior, escorando-se no revisionismo do marxismo-leninismo que se implantara no movimento comunista internacional.
Todos se contentaram em ter o seu partido dirigido por uma personalidade prestigiada pelas suas singulares capacidades, respeitada pelo seu comedimento político e admirada pelo ascetismo em que vivia, pela completa dedicação ao partido e pela aura de mistério que cultivava. Esse sentimento de admiração — fortalecido pela deficiente formação política e ideológica e pela notória diferença de capacidade intelectual e de trabalho entre a direcção e o Cunhal, que a colocava na sua dependência para a elaboração da linha política e para a redacção dos principais documentos do partido, falsamente apresentados como sendo fruto do trabalho colectivo — originou um profundo culto da personalidade, que se manifesta até pela familiaridade do tratamento pelo nome próprio. Aliada ao fascínio que o Cunhal despertava, esta singular situação não permitiu aos militantes aperceberem-se de que para além de exímio organizador as suas qualidades de ideólogo, de estratego e de táctico não condiziam com as requeridas por um partido proletário revolucionário. Apesar de tudo, o partido era diferente dos partidos burgueses tradicionais. Também por isso, julgaram que um partido com operários seria, naturalmente, um partido operário e, além do mais, comunista. Não pensaram que um partido que se designa por comunista fosse um partido burguês, mais concretamente um partido pequeno-burguês radical, e que este PCP não passasse de uma fraude, de um partido pequeno-burguês radical para operários.
(A partir de um texto de 25 de Setembro de 1988, revisto e corrigido).
A história da libertação de Ingrid Betancourt e de mais uns quantos sequestrados, incluindo militares colombianos, está muito mal contada. Salta à vista que se tratou de uma encenação para encobrir o pagamento de grossas maquias, em dinheiro e noutras moedas de troca, envolvidas na operação. Apesar do folclore, congratulemo-nos pela libertação de sequestrados civis, capturados por um grupo terrorista que parece usar de todos os expedientes para se ir mantendo activo.
Realiza-se hoje, dia 19, por iniciativa da família, «um encontro de registo de memórias e empatias de Victor Wengorovius». O texto completo que anuncia e descreve o evento pode ser lido aqui.
Entre muitas outras actividades oposicionistas que desenvolveu durante o regime corporativo-fascista, Victor Wengorovius foi advogado de militantes políticos oposicionistas e consultor jurídico do Sindicato dos Jornalistas e do Sindicato dos Metalúrgicos de Lisboa. Depois do 25 de Abril, foi um dos fundadores do MES-Movimento de Esquerda Socialista.
Francisco Canais Rocha apresenta-se como historiador. Desconheço se será historiador de grandes ou de pequenos méritos, nem isso interessa. Sei apenas que centrou a sua actividade no estudo e divulgação da história do movimento operário e sindical, um campo de investigação sempre menosprezado pelas correntes historiográficas dominantes. Se outros não forem os seus méritos, este poderá ser suficiente para lhe garantir um lugar de referência na historiografia nacional. Desde, é claro, que o relato histórico não se resuma ao panegírico nem seja reduzido à propaganda. O que me traz à liça não é o conjunto da sua obra, que desconheço e por isso não julgo, mas um pequeno texto de sua autoria publicado na revista Vértice (68), em 1995, e que circula na Internet, intitulado “Luta sindical e repressão no consulado caetanista (1972-1974)”, que tem como centro a actividade do Sindicato Nacional dos Electricistas do Distrito de Lisboa nesse período. Tenho conhecimento directo desse assunto, por ter protagonizado alguns dos factos referidos no texto. Aproveito a ocasião para corrigir algumas imprecisões e omissões da sua narrativa, para deixar o meu testemunho sobre o trabalho desenvolvido por aquele Sindicato, assim como para exprimir um pouco do que penso sobre o período que ficou conhecido por “marcelismo”.
Compreende-se a posição de Canais Rocha, coincidente com a do PCP, de desvalorização do alcance do que o “marcelismo” representou, pretendendo à viva força identificar o “Estado Social” do Marcelo Caetano como mera continuidade do “Estado Novo” do Salazar. Mas ela não é minimamente aceitável. O “marcelismo”, apesar da tímida abertura que representou, veio de facto a distinguir-se do “salazarismo”; e, o que é de longe mais importante, o aproveitamento que os trabalhadores fizeram dessa tímida abertura, durante os pouco mais de cinco anos que o regime durou, foi muito mais frutuoso do que toda a luta sindical dos trinta e cinco anos anteriores. Os trabalhadores que tenham um pouco de memória e tenham vivido activamente esses tempos não podem refutar esta realidade indesmentível. O mesmo não se verifica com o PCP, para o qual o “marcelismo” se resume à demagogia, visando alargar a base social e política do regime, e parece não alcançar que entre o que o regime pretendia e o que na realidade se produziu vai a distância das lutas que os trabalhadores desenvolveram aproveitando essa abertura demagógica.
A desmedida euforia de que os adeptos do PCP andavam imbuídos fazia-os confundirem a situação real em que nos encontrávamos com uma imaginada sociedade “a caminho do socialismo”, como diziam. Os fracos resultados eleitorais que obtiveram em 1975 e, uns meses depois, a queda do 5.º Governo Provisório, o último do Vasco Gonçalves, um seu homem de mão na Comissão Coordenadora do MFA, fizeram com que compreendessem que o assalto aos aparelhos do Estado, a sabotagem das lutas reivindicativas do movimento operário e o menosprezo das iniciativas do movimento popular não eram suficientes para lhes garantirem o controlo do Governo e do MFA, como esperavam. Mas, se a constatação da evidência lhes esmoreceu a ilusão da tomada pacífica do poder, não eliminou o fulgor de muitos. O “Verão quente” de 75, durante o qual o país conservador, engrossado com umas centenas de milhar de retornados das colónias, reagia ao seu sectarismo e pretensões totalitárias, incendiando e atacando à bomba os seus “centros de trabalho”, barricando estradas e mostrando-se disposto a outras violências, iria fazer com que entrassem em desespero e embarcassem, juntamente com outros ainda mais radicalizados, na aventura militar que constituiria o pretexto para a eclosão do golpe reaccionário de 25 de Novembro de 1975, de há muito preparado, de cujas consequências mais gravosas só a custo foram salvos pelo Melo Antunes e pelo Costa Gomes. Deslumbraram-se com o papel de sabotadores das iniciativas mais radicais do movimento operário e popular que a burguesia lhes reservara, e julgando-se os novos senhores do mundo mostravam à saciedade o que nos esperava se conquistassem o poder. O papel de coadjuvantes da burguesia liberal, que tão bem desempenhavam, não ficaria por aqui, continuaria por mais alguns anos, mesmo depois do movimento operário e popular, perante a contra ofensiva da burguesia, ter entrado em refluxo. No campo sindical, apupos, berrarias de “abaixo a reacção” e quejandas, assim como pancadaria em quem ousasse criticá-los, contrariá-los ou desmascará-los não faltavam nas assembleias e passaram a ser arma frequente. Os interesses dos trabalhadores, esses, não os preocupavam e eram remetidos para plano secundário, como vinha sendo comprovado.
José Manuel Correia.
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As empresas multinacionais, ou transnacionais, eram então a expressão da primeira fase da expansão global do capitalismo, antes da actual liberalização total das trocas comerciais e da circulação dos capitais, conhecida por globalização. Sedeadas em geral nos países desenvolvidos, mantinham fábricas em países de mão-de-obra barata, usufruindo aí de facilidades aduaneiras e fiscais que lhes permitiam declarar os lucros onde lhes fosse mais conveniente, através da subfacturação das vendas, ou exportá-los legalmente, deixando localmente pouco mais do que os salários. Gozavam também da protecção dos governos contra as reivindicações dos trabalhadores, através da repressão ou do controlo do movimento sindical. Só com tais garantias aquelas empresas se resolviam a fixar-se, e só assim aqueles países logravam captar algum investimento criador de emprego. As produções, em geral, tinham como destino a exportação para o mercado mundial ou para alguma outra subsidiária do mesmo grupo empresarial; apenas num ou noutro caso se destinavam ao mercado local, integradas nalgum programa governamental ou empresarial de modernização de um qualquer sector, como era o caso, entre nós, das telecomunicações.
Os capitais investidos eram de pequeno volume, visto as tecnologias utilizadas serem as que requeriam mão-de-obra intensiva, com fraca composição orgânica do capital. Os poucos equipamentos que dispunham provinham, muitas vezes, de outros sítios onde os salários mais elevados tinham tornado os custos de produção menos rentáveis. Quando a rápida inovação que então ocorria tornava os processos de fabrico obsoletos, algumas empresas, subsidiárias ou dependências locais de grandes empresas com nome no mercado mundial, ainda intentavam a reconversão, adaptando-se a outras produções deslocalizadas de subsidiárias do mesmo grupo empresarial; outras, de mais fraca estrutura, fechavam pura e simplesmente as portas, lançando no desemprego milhares de trabalhadores. Nestes casos, nem se davam ao trabalho de transferir os equipamentos para localizar a produção noutros países; por terem ficado obsoletos e terem um reduzido valor, eram pura e simplesmente abandonados no local. A precariedade era a forma de existência destas empresas menores, que viviam da subcontratação e na dependência da renovação de contratos de fornecimento de sub-conjuntos, por vezes nem dispondo de instalações próprias, laborando em instalações industriais inespecíficas arrendadas.
A seguir ao 25 de Abril, algumas das empresas multinacionais acabaram por concretizar as ameaças que vinham fazendo como forma de pressão para a não aprovação do CCT. Conjugaram-se então duas situações a que aquele tipo de empresas não estava habituado. Por um lado, as condições da exploração tornaram-se menos propícias, devido à entrada em vigor do CCT; por outro, a instabilidade política e o permanente clima de agitação social em que se passou a viver, que intimidava as administrações e tornava intolerável, para os trabalhadores, o autoritarismo e a repressão que caracterizara as relações laborais no interior dalgumas das empresas. Ironicamente, a primeira a concretizar essas ameaças foi precisamente a Applied Magnetics Portugal, onde havia começado o surto grevista do ano anterior. Subsidiária da Applied Magnetics Corporation, uma empresa multinacional que se dedicava ao fabrico de cabeças de leitura e de memórias magnéticas para computadores, sedeada em Porto Rico, laborava aqui em instalações industriais precárias, arrendadas. Face aos novos custos de produção, a empresa intentou despedir mais de uma centena de trabalhadores; sem avaliarem correctamente a situação, ao invés de lutarem contra os despedimentos e de se fixarem na exigência da reintegração dos despedidos, incentivados não se sabe por quem os trabalhadores acabaram por radicalizar as suas reivindicações.
Eventualmente descontentes com o que tinham obtido através do CCT, os trabalhadores daquela empresa, logo em Julho, puseram em vigor um período de trabalho semanal de 40 horas e exigiram um período de férias de 1 mês, contra as 44 horas e os 18 ou 26 dias úteis que o contrato fixara. Como se verificaria, a subsidiária portuguesa não tinha estrutura financeira autónoma para suportar tais encargos, e a AMC recusou-se a assumir quaisquer compromissos, afirmando que a AMP era uma empresa portuguesa com a qual apenas mantinha relações comerciais. O pagamento dos salários foi suspenso. A empresa invocou necessitar dum empréstimo governamental de 5000 contos para os poder pagar, o qual não lhe seria concedido, e o administrador americano, intimidado com a situação, abandonou o país. Os trabalhadores ocuparam as instalações fabris até aos meados de Setembro, mas acabaram todos no desemprego, com a garantia de um subsídio, no montante de metade do salário mínimo, durante seis meses. Para acudir à sua difícil situação económica, o Sindicato lançou uma campanha de angariação de fundos, apelando à solidariedade da população para que contribuísse. Menosprezando o esforço feito pelo seu sindicato, e não acatando o seu repetido conselho acerca das prioridades da sua luta, os trabalhadores deixaram-se arrastar pela conversa de demagogos e de aventureiros, e como em tantos outros casos foram conduzidos para um beco de onde saíram com uma pesada derrota.
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NOTA 2 (21.09.2008)
A inclemência do tempo, e os seus reflexos na memória, não deixaria apenas estas marcas. Referia também, na redacção original, que o período de trabalho semanal fora fixado em 40 horas, com duas pausas de 10 minutos para descanso, o que não corresponde à realidade. O período de trabalho semanal foi fixado pela comissão arbitral em 44 horas, até Junho de 1975, e em 42 horas, a partir de Julho desse ano, com duas pausas diárias de 20 minutos para descanso, para todo o pessoal operário do 12.º escalão, o que se traduzia num período de trabalho semanal efectivo de pouco mais de 40 horas, reduzido depois para pouco mais de 38 horas. Este erro não invalida o facto de que aquele período de trabalho semanal era realmente inovador. Os melhores períodos de trabalho semanal na indústria, para o pessoal operário, eram então de 45 horas, e os electricistas tinham sido das primeiras profissões a conquistá-lo, em 1973. Passado tanto tempo desligado deste assunto, a memória pregou-me mais uma partida.
Por minha iniciativa, os dois principais contratos colectivos do Sindicato – o CCT dos instaladores e o CCT do material eléctrico – passaram a ser editados em brochura. Acompanhando de notas explicativas as cláusulas mais técnicas ou de redacção mais confusa, a edição em formato de bolso era um modo de proporcionar aos trabalhadores um instrumento de fácil consulta, que podiam ter sempre à mão para desfazerem dúvidas ou para se oporem a que o patronato lhes impusesse condições de trabalho não previstas. Vasculhando papéis antigos, não encontrei a brochura do contrato original; deparei-me, por ironia, com a brochura da revisão de 1977, que já não fora editada por minha iniciativa. Para repor a verdade, tive de recorrer a fotocópia do BINTP, de Maio de 1974. Os parágrafos respectivos foram corrigidos em conformidade.
Não tenho disponibilidade para proceder a uma comparação exaustiva entre o CCT original e as suas revisões, como referia na nota anterior ser minha intenção. Comparei o contrato original com a revisão de 1977, e numa apreciação ligeira verifico que os dois períodos intercalares diários para descanso, inicialmente extensivos a todo o pessoal operário do 12.º escalão, foram restringidos ao pessoal de alguns sectores da produção, o que não me parece muito escandaloso; e que o período de férias foi harmonizado para 30 dias de calendário, acabando com a diferenciação pela antiguidade (entre 18 e 26 dias úteis, para quem tivesse menos ou mais de 8 anos de antiguidade, o que se traduzia, respectivamente, em pouco menos e em pouco mais de 30 dias de calendário). Naquela data, períodos de férias de 30 dias eram já correntes, enquanto períodos de descanso intercalares continuavam não sendo habituais. Conquistar reduções do período de trabalho é muito mais importante, e difícil, do que conseguir aumentos do período de férias, mas esta troca, hoje, não me merece grande censura. Já o mesmo não posso dizer em relação aos salários, que ficaram representando uma baixa significativa do poder de compra da maioria dos trabalhadores. E isso foi já fruta da época: da inflação, da investida dos governos do Mário Soares contra as conquistas dos trabalhadores e dos cuidados sindicais com a “defesa da economia nacional”. Apesar de tudo, segundo os novos sindicalistas, a democracia portuguesa seguia "rumo ao socialismo".
NOTA 3
José Manuel Correia
1. O revolucionarismo comunista marxista-leninista.
Ao contrário do que propala a ideologia burguesa, mesmo a de cariz académico e com pretensões científicas, a História tem sentido. Um sentido dinâmico e difuso, que vai sendo construído lentamente e por vias sinuosas, apreendido ainda mais lenta e desfasadamente pelas limitações intrínsecas da compreensão humana da realidade e da acção das suas próprias práticas sobre ela, mas que consiste na construção daquilo a que J. Piaget designou afortunadamente por equilibração: a busca incessante de novos e melhores equilíbrios em resposta à desequilibração permanente que afecta os sistemas no caminho para a entropia (e, nomeadamente, os sistemas humanos, visivelmente predatórios dos equilíbrios naturais).
O marxismo identificou o sentido da História com a sucessão de sistemas económicos ou modos de produção cada vez mais produtivos e susceptíveis de irem resolvendo as situações de penúria e de dependência da natureza que caracterizavam a existência humana, e atribuiu às classes sociais progressivas, representativas das novas tendências evolutivas, e aos seus estratos mais radicais (as suas vanguardas), capazes de interpretarem essas tendências e de formularem novos conceitos e valores com elas coerentes, o papel de agentes das transformações ideológicas e políticas adaptáveis às novas realidades económicas emergentes. Esse é um mérito que dificilmente lhe poderá ser negado, apesar da persistência da ideologia burguesa na negação de qualquer sentido para a História (talvez por ser a burguesia uma classe social também ela histórica, cujo progressismo se esgotará, sendo então substituída por uma nova classe social emergente).
Outro mérito do marxismo foi ter posto em evidência o papel da violência na construção das transformações políticas mais adaptadas às realidades económicas. Ambos estes méritos, tal como os da formulação dos conceitos de ideologia, de classe social e de lutas de classes, porém, viriam a ser ofuscados por grandes equívocos, nomeadamente, na identificação do proletariado como a classe revolucionária, que haveria de suceder à burguesia na direcção da sociedade, e na redução da revolução social à sua componente de revolução política. Infelizmente, pelas implicações políticas que vieram a ter, são os equívocos que hoje são apontados como características essenciais do marxismo, relegando para plano secundário as grandes contribuições de Marx para a compreensão um pouco melhor da realidade social.
Numa época de marcadas convulsões sociais, fomentadas pela rápida evolução económica que punha na ordem do dia a necessidade de acentuadas transformações políticas, como foram os séculos XVIII e XIX, o proletariado emergente era um actor destacado da luta política radical. Perante as vacilações da burguesia, que desejando a transformação temia a revolução, Marx julgou ser o proletariado a classe social capaz de substituí-la na direcção da sociedade no caminho do progresso económico e social. Não descortinou que a luta proletária era uma luta defensiva, não só contra aspectos arcaicos da organização social como contra as rápidas transformações económicas que lhe degradavam as condições de existência. Embora compreendesse a reacção proletária ao rápido progresso técnico que lhe acarretava no imediato condições de vida ainda mais precárias, quando combateu as raízes idealistas das suas utopias igualitárias foi para demonstrar-lhe que não só o progresso era inevitável como o papel social que lhe estava predestinado era a revolução social e a instauração da sociedade igualitária, sem classes, sem explorados nem exploradores.
Ao tempo em que foi proclamado (1848), num panfleto revolucionário que constituía o programa da Liga dos Comunistas intitulado Manifesto do Partido Comunista, este axioma profético não encontrava sustentação em qualquer conhecimento histórico, isto é, toda a História demonstrava que as classes sociais que se sucediam no poder não eram as classes sociais exploradas, mas novas classes sociais emergentes, detentoras dos novos instrumentos económicos, ainda que subalternizadas politicamente (e, por vezes, até, dominadas e oprimidas). A revolução proletária profetizada pelo marxismo confirmava o sentido da História, mas errava nos protagonistas da construção desse sentido: pela primeira vez (e não há para tudo uma primeira vez?), uma classe explorada iria suceder no poder a uma classe exploradora. Que sociedade poderia esta classe explorada implantar se não uma sociedade sem explorados nem exploradores?
A ascensão da burguesia ao poder foi lenta, como lenta foi a transformação económica que foi operando na sociedade a evolução do capitalismo mercantil para o capitalismo industrial. Nuns casos, envolveu lutas violentas, e, noutros, lutas pacíficas; umas vezes, traduziu-se por vitórias claras, outras, acabou em compromissos, e outras, ainda, conformou-se por derrotas mais ou menos pesadas. Não há exemplo das revoluções burguesas que possa apontar-se como modelo, tão diferentes foram os contextos do desenvolvimento económico e político em que se desenrolaram. Paradoxalmente, o marxismo vulgar erigiu a revolução francesa como paradigma da revolução burguesa, mas ela teve muito pouco de original e muito menos ainda de modelo. Pode dizer-se que o golpe de estado insurreccional e a guerra civil revolucionária constituem recursos extremos impostos pela intransigência da classe dominante ou quando as condições objectivas ainda não estão completamente amadurecidas. No caso da França, um país atrasado no desenvolvimento capitalista, a insurreição jacobina reflecte não só o atraso económico como os entraves da monarquia feudal ao desenvolvimento da economia capitalista.
A redução da revolução social à revolução política e esta ao golpe de estado insurreccional foi uma simplificação abusiva da realidade histórica multifacetada levada a cabo pelo marxismo. Este reducionismo não foi ingénuo, dado que uma classe social desprovida de meios de produção e de outros instrumentos de pressão que favoreçam a negociação e a troca de papéis com a classe dominante dificilmente pode tomar o poder se não pelo golpe de estado insurreccional. O marxismo era, antes de mais, uma proposta revolucionária insurreccional, tendo como exemplo, apontado por Marx, a Comuna de Paris; e Lenine foi não só o exemplo do marxista revolucionário insurreccional como o difusor do regime pós-revolução como ditadura do proletariado, visto uma tal classe não ter hipótese de se manter no poder nem de empreender profundas transformações económicas e políticas se não pela violência e pela via ditatorial de supressão das liberdades. A vida, com toda a carga de dramas pessoais e sociais, veio a comprovar que o poder proletário só pode realizar-se sob a forma de Estado totalitário.
Outra interpretação do marxismo diferente da interpretação insurreccional resultava numa caricatura. Nesta questão, Lenine era mais coerente do que Kautsky, tido até aos primórdios do século como o guardião do templo da ortodoxia marxista. A acção sindical e parlamentar eram importantes para a conquista de influência política entre as massas em períodos de refluxo do movimento, mas estavam destituídas de valor como instrumentos de ascensão ao poder. O reformismo parlamentar como via privilegiada de realização da revolução socialista proletária não passava de uma corrente oportunista no seio do marxismo. Se para a burguesia o reformismo político fora, em geral, suficiente para desenvolver e consolidar a sua revolução social (apesar de nalguns casos ter tido necessidade de chegar à insurreição para desencadear transformações políticas mais radicais), ao proletariado o reformismo nunca permitiria a conquista do poder. Insurreição ou reforma seria doravante a distinção entre marxistas e não marxistas, e se os reformistas social-democratas mantiveram durante anos a referência ao marxismo tal não passou de um mero rótulo oportunista.
A revolução proletária socialista, de Outubro de 1917, veio confirmar o voluntarismo leninista e a via insurreccional para a tomada do poder, e tornou-se no paradigma da revolução proletária moderna. Apesar disso, devido às vicissitudes da guerra-fria e às conquistas do movimento operário nos países capitalistas ocidentais, os partidos comunistas de orientação soviética, ditos revisionistas, evoluíram para o reformismo. Para cúmulo do paradoxo, mantinham as velhas retóricas e desígnios revolucionários, mas propunham-se alcançá-los pela via reformista, numa teia de contradições cada vez mais insustentável, de que o contraste entre o autoritarismo que caracterizava os seus programas e formas de organização (devido ao velho “centralismo democrático” leninista) e as liberdades que usufruíam nas sociedades democráticas os seus militantes e adeptos enquanto cidadãos era o exemplo mais caricatural.
O esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista, nascido da ruptura com o comunismo pró-soviético no rescaldo das disputas sino-soviéticas sobre a liderança do movimento comunista internacional, arvorou-se no verdadeiro herdeiro do marxismo revolucionário insurreccional. Este retorno à ortodoxia, apesar de tudo, era mais aparente do que real, devido às concepções maoistas sobre o papel do partido e das massas e sobre os protagonistas principais da revolução (que identificava como sendo o campesinato), o que contribuiu decisivamente para a fragilidade política e ideológica patenteada desde sempre pelos pequenos grupos esquerdistas marxistas-leninistas-maoistas dos países desenvolvidos. Se algo os caracterizou foram as suas exacerbadas retóricas anti-capitalistas, a evocação permanente da acção revolucionária insurreccional, a rejeição liminar de toda e qualquer actuação reformista, a existência desligada das massas operárias, baseada na agitação e na propaganda, e o radicalismo típico das seitas.
O repúdio tão veemente do reformismo, propalado pelo esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista, reflectia também o receio de ser contaminado pelo sistema e de ser por ele absorvido, como criticava aos partidos comunistas pró-soviéticos. Apresentando-se mais radical nas palavras, afirmando-se detentor da herança ideológica revolucionária e repudiando os pretensos desvios burocráticos do regime soviético, mas contentando-se com a propaganda da revolução, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista era tão ou mais oportunista do que o comunismo marxista-leninista pró-soviético, deixando o proletariado à deriva nas lutas económicas, sem tentar, pelo menos, dar-lhes um cunho radical e transformá-las em lutas políticas contra o domínio e a exploração do capital que as consolidassem.
2. O esquerdismo marxista-leninista-maoista e os falhanços revolucionários.
“Sabemos hoje que o socialismo era uma impossibilidade nas condições históricas dos séculos XIX e XX, não devido a uma qualquer maldição genética da espécie humana mas (devido) ao insuficiente desenvolvimento das forças produtivas. Nas condições materiais vigentes, o comunismo era então e é porventura ainda uma miragem longínqua e indefinível (...). A revolução proletária falhou na Europa ocidental dos anos 20 por clara imaturidade e hesitação do movimento insurreccional. Quer isto dizer que nos países do capitalismo mais avançado não havia ainda condições materiais para a tomada (e naturalmente para o exercício) do poder pela classe operária. O que remete o sucesso inicial da revolução russa para as extraordinárias condições sociológicas (extrema concentração do proletariado, ardiloso aliciamento do campesinato), históricas (derrota e desmobilização na guerra) e até humanas (uma liderança incomparável) que lhe subjazeram. Após o primeiro embate vitorioso, logo se viu porém que não havia condições materiais para prosseguir a revolução no caminho do poder dos sovietes. O voluntarismo dos dirigentes comunistas tentou então preencher a lacuna, à espera da revolução mundial. Mas esta não estava nas cartas e, em verdade, não foi decisiva a ‘traição’ de Estaline para o seu fracasso. A revolução russa ‘devia perecer’” [1] (itálicos meus). Embora não as esgote, esta longa citação permite situar as posições actuais do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista face aos falhanços revolucionários proletários, pelo menos, em relação à revolução russa de Outubro de 1917.
Duma primeira apreciação ressalta a autêntica obsessão do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista pela revolução e pela via insurreccional, a ponto de tentar justificar as derrotas revolucionárias pelas razões mais contraditórias. Na Rússia, apesar das extraordinárias condições subjectivas que tornaram possível a insurreição vitoriosa, a revolução falhou por falta de “condições materiais para prosseguir”; fica sem saber-se, porém, se as condições materiais não existentes para prosseguir existiriam para ela ter irrompido sequer. Enquanto na Europa ocidental, por seu lado, se “nos países do capitalismo mais avançado não havia ainda condições materiais”, a revolução proletária falhou “por clara imaturidade e hesitação do movimento insurreccional”. Pese embora a amálgama de argumentos contraditórios e sem sentido, o último refúgio do esquerdismo comunista para justificar os desaires revolucionários parece residir na falta de maturidade das condições materiais existentes quer na Rússia, quer nos países europeus de capitalismo avançado onde foram desencadeadas tentativas revolucionárias (Alemanha e Hungria). O reconhecimento de uma tal imaturidade permite ao esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista manter inabalável a fé na futura revolução proletária, remetendo a sua eclosão vitoriosa para quando as condições materiais estiverem maduras, restando-lhe esperar que então estejam também maduras as condições subjectivas para a insurreição vitoriosa e que o proletariado não pregue mais uma partida à sua vanguarda.
Esta cedência à evidência histórica é, porém, um claro subterfúgio para manter indefinidamente em aberto uma discussão estéril — sobre a existência de condições revolucionárias maduras — e escamotear a questão de fundo: saber se a revolução socialista proletária profetizada pelo marxismo é sequer uma possibilidade histórica. Colocando-se nos estreitos limites da discussão da conjuntura, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista pretende evitar qualquer discussão teórica sobre as tendências gerais da evolução social e sobre a evolução e superação do próprio capitalismo como modo de produção dominante, e, deste modo, desviar da discussão a questão da validade do axioma profético marxista. Nestas condições, queda-se pelo campo da crença pela fé, no qual nenhuma discussão frutuosa é possível, porque a fé está fora de qualquer racionalidade. Para quem se afirma detentor de uma teoria científica da evolução social e se reclama do materialismo em que o marxismo se pretende ter fundado, esta posição idealista constitui mais um paradoxo.
A apreensão da realidade que o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista consegue fazer, porém, é também ela falaciosa. Para explicar os falhanços das revoluções proletárias, alguns admitem “que o socialismo era uma impossibilidade nas condições históricas dos séculos XIX e XX” [2], devido “ao insuficiente desenvolvimento das forças produtivas”, e que, por isso, a Grande Revolução Proletária Socialista, de Outubro de 1917, “devia perecer”, já que “após o primeiro embate vitorioso, logo se viu porém que não havia condições materiais para prosseguir a revolução no caminho do poder dos sovietes” [3]; e outros chegam ao ponto de lhe negarem o carácter socialista — “a revolução russa não foi ‘traída’, era por natureza burguesa e não socialista” [4] — numa pirueta política sem precedentes. Com estas justificações tão extravagantes quanto serôdias, não estranharemos se um destes dias o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista passar a negar à revolução russa de Outubro de 1917 o seu carácter proletário. Parece valer tudo para continuar a não retirar as necessárias conclusões acerca do monumental logro em que o proletariado mundial foi levado a acreditar: que a História lhe teria reservado a missão de remir os pecados da humanidade, como proclama o axioma profético marxista.
Incapaz de compreender o carácter idealista do axioma profético marxista e de descortinar as limitações e equívocos da crítica marxista ao modo de produção capitalista, assim como dos proclamados processos deterministas da evolução social, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista nunca pôde compreender a natureza do modo de produção vigente na União Soviética desde a revolução proletária de 1917, que apesar das representações que dele tinham os protagonistas e os adeptos não passava de uma forma diferente do capitalismo (o capitalismo de Estado monopolista), nem a natureza totalitária do seu regime político. Para se demarcar das estafadas tiradas do trotskismo sobre um hipotético desvio burocrático do regime proletário, teve de inventar um desvio revisionista krushovista; quando o maoismo já se esboroava, passou a identificar o próprio estalinismo com um hipotético desvio centrista; e, após a revolução burguesa russa de 1991 que derrubou o regime comunista, avançou para novas hipóteses justificadoras, apontando que “sob Estaline, houve como que um regresso ao modo de produção asiático para servir as necessidades de uma brutal acumulação capitalista” e “em lugar do definhamento da autoridade estatal e devolução do poder à organização espontânea dos produtores, deu-se a construção de um super-Estado burocrático e imperialista” [5].
Não contente por se afirmar detentor de uma profecia que lhe dá a conhecer o futuro ainda por acontecer, o desvario do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista não tem limites e arroga-se também conhecedor do outro rumo que o próprio passado não percorreu, que seria “um rumo bem mais sombrio”, tentando encontrar ainda um qualquer resquício de progressismo com que legitimar a revolução proletária russa. Consola-se persuadido de que “sem o abalo libertador de Outubro de 17, o mundo teria seguido outro rumo, bem mais sombrio. Não fosse o ‘ditador’ Lenine, e a tão gabada civilização ocidental ainda não teria muito provavelmente descoberto o Estado-providência, o salário mínimo, o voto das mulheres e o direito ao aborto, a independência das colónias e os direitos humanos...” [6], tudo conquistas da revolução de Outubro para o próprio povo russo e, por sua influência, outorgadas de mão beijada pelo capitalismo ocidental aos seus povos!
A revolução proletária russa assim como as revoluções democráticas deste século cumpriram, por caminhos sinuosos, um papel histórico necessário — trouxeram para a modernidade, em pouco mais de meio século, países atrasados ou colónias, tarefa que a burguesia demorou bem mais tempo a conseguir noutros lados — e esse é o seu grande mérito histórico, não é necessário assacar-lhes outros totalmente imerecidos. Nesse sentido, e pela sua influência nas aspirações dos trabalhadores e no fortalecimento dos partidos comunistas, a revolução proletária russa influenciou o curso da evolução política mundial, é um facto inegável; e aquele desiderato — cujo carácter histórico-social se enquadra nas tarefas das revoluções burguesas — é mérito da acção revolucionária do proletariado russo e do apoio que conseguiu do proletariado mundial. Infelizmente, apesar das grandes transformações económicas e políticas realizadas, a forma de produção instaurada não ultrapassou os limites do modo de produção capitalista — embora sob a nova forma de capitalismo de Estado monopolista — e o regime político implantado para levar a cabo tamanhas transformações não passou de uma ditadura totalitária e concentracionária.
Apesar dos progressos que o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista vem fazendo ao longo dos anos, num lento exorcismo dos fantasmas do seu passado ideológico (devagar, como se o trauma lhe pudesse causar desequilíbrios irremediáveis) — desde que abraçou a tese da “degenerescência” da revolução proletária russa e passou ao ataque do “revisionismo” pós-Estaline e à defesa intransigente da política terrorista e chauvinista do déspota iluminado maníaco-depressivo salvador da mãe pátria, fazendo coro com a ideologia nacionalista-camponesa do outro grande déspota iluminado deste século, Mao Zedong, até que descobriu no “centrismo” dimitrovista e estalinista o causador dos males e o fustigou, refugiando-se por fim na adopção, com algumas reservas, do legado teórico-prático leninista e na defesa intransigente do monumento ideológico marxista — ele parece não conseguir ainda chegar à derradeira etapa: reconhecer que o “socialismo científico” marxista e o seu axioma profético formam o maior equívoco ideológico produzido na época moderna.
Este monumento político-ideológico — criado por um duo ímpar da intelectualidade burguesa revolucionária, mas marginal, imbuído quiçá das melhores intenções e do mais sincero despojamento pessoal, que se envolveu com os interesses de uma classe a que não pertencia, como se só ela lhe pudesse proporcionar o desafio julgado adequado à dimensão da sua genialidade; que por via da negação do idealismo filosófico hegeliano começou por atribuir à revolta operária contra as miseráveis condições de existência o sentido duma missão histórica redentora dos pecados da humanidade, num paralelismo certamente não desejado, mas facilmente comparável, com as crenças milenaristas das seitas radicais anabaptistas do campesinato medieval; que denodadamente se esforçou a combater as utopias idealistas operárias e pequeno-burguesas para ocupar o seu lugar na orientação revolucionária das lutas da grande massa do proletariado moderno; que se esforçaria a comprovar um tal axioma profético com a demonstração das contradições intrínsecas do capitalismo, através do mais exaustivo estudo da economia política feito à época — não pode deixar de ser merecedor da nossa admiração, aquela mesma que rendemos ao feito memorável da tomada do poder em Outubro de 1917.
Mas reconhecer que a revolução proletária russa e o socialismo soviético não poderiam ter sido outra coisa; constatar que o grande desenvolvimento alcançado com a transição para a modernidade num período tão curto foi um feito memorável; aceitar que a cegueira do deslumbramento nos impediu ver uma realidade atroz, a mais horrível caricatura do que sonhávamos poder ser a prática do socialismo, que outros denunciavam, mas cujas denúncias repudiávamos atribuindo-as a calúnias da propaganda do inimigo de classe; compreender, por fim, que o axioma profético marxista é um equívoco, que a obra do próprio Marx nos permite descortinar, e que os interesses duma classe social dominada não se confundem com a representação que deles fazem os membros mais radicais da classe dominante que mudam de campo constitui uma necessidade, para que o pesado fardo da história do comunismo proletário não continue a contribuir para vulnerabilizar ainda mais uma classe social que nada dispõe além da capacidade para trabalhar.
Ficar agarrado ao passado, parado no tempo, cultivando a fidelidade ao marxismo-leninismo — expurgando-o de hipotéticos desvios, purificando a própria ortodoxia e identificando-o com a única ideologia legítima para o proletariado — e esperando que a História se repita não cometendo os mesmos erros, demonstra nada ter aprendido: se aquela foi uma história trágica, a sua repetição só poderia vir a ser uma farsa. É tempo de reconhecer que o socialismo proclamado pelo marxismo se distingue do capitalismo privado pela forma estatal monopolista; que a ditadura do proletariado, supostamente para ser exercida sobre os antigos exploradores, não se distingue duma ditadura sobre o proletariado; e que o Estado proletário, controlando a produção material e a fruição cultural, não pode sair do quadro de um Estado totalitário e concentracionário, que pretende controlar a vida social e pessoal. As perversões políticas dos regimes orientados pelo marxismo-leninismo, porque comuns à generalidade deles, não podem continuar a ser imputadas a hipotéticos desvios da ortodoxia ou à influência de bárbaras tradições políticas e culturais locais, como denodadamente o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista se tem esforçado a fazer, porque os seus germes estão contidos na própria ortodoxia marxista-leninista.
Compete-nos salvar o que de bom nos legaram estes cento e cinquenta anos de utopia comunista proletária. Mas não é continuando agarrados a ela, espectantes, esperando a repetição da História, que cumprimos a opção de agir na defesa dos interesses do proletariado. Essa é hoje, como foi no passado, a atitude dos que dizem abraçar a causa do proletariado, mas fazem-no imbuídos da crença de que ele é a classe revolucionária, o vencedor antecipado na derradeira crise do capitalismo, e aspiram à suprema glória de se contarem entre a vanguarda vitoriosa do grande embate revolucionário, para usufruírem do festim dos despojos. Cada vez mais, porém, essa é uma expectativa sem futuro, porque o proletariado, ou o que dele restar daqui a uns anos, faz orelhas moucas às suas prédicas revolucionárias e trata de defender-se como pode, através da luta sindical possível e do acolhimento sob as abas da capa de quem afirme cuidar de si, seja o oportunismo social-democrata, seja o burocratismo comunista, para que ao menos o salário não lhe falte.
3. O atentismo do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista.
Para justificar a sua postura espectante, de aparente reflexão teórica e de imobilismo prático permanentes, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista vai-se entretendo com a propaganda da necessidade da revolução proletária, reafirmando a fidelidade a Marx e tecendo loas à sua genialidade. Fá-lo, porém, escudando-se numa das piores ofensas jamais feitas a Marx — “se ele pôde, há século e meio, divisar com lucidez genial os contornos da sociedade sem classes para além do capitalismo, isso deveu-se aos vastos horizontes que rasgava essa era de mudança, quando a nova ordem social emergia cheia de dinamismo sobre os escombros do mundo feudal” [7]. Se Marx está desactualizado — apesar da originalidade e da fecundidade da crítica da economia política que produziu, que permitiu explicar de forma menos incoerente o desenvolvimento do modo de produção capitalista, e da genialidade do seu pensamento, que possibilitou formular esboços de uma futura sociedade sem classes — é porque apesar da “era de mudança” em que produziu parte da sua obra, ou precisamente pelo contexto de então, não lhe era possível ir mais além, e foi bem longe.
Foi a fecundidade da crítica de Marx à economia política burguesa, destruindo-lhe os fetiches e formulando uma teoria do valor e da exploração que explicava — pelo menos, de forma menos incoerente — as formas e as tendências do desenvolvimento capitalista, que lhe permitiu traçar um esboço possível de uma futura sociedade sem classes, e não “os vastos horizontes que rasgava essa era de mudança”. A realidade é por demais complexa para que a genialidade de Marx fosse suficiente para compreendê-la perfeitamente enquanto participava nela, e, de qualquer modo, a interacção dialéctica que rege o desenvolvimento social não permitiria determinar de antemão as formas precisas que assumiria passado tanto tempo e com tantas lutas de classes de permeio.
Não é Marx nem a insuficiência dos seus esboços da sociedade futura que estão desactualizados; tal como muitas das suas teorizações, eles resultaram de erros e de equívocos e sempre foram inadequados. Quem está desactualizado são os marxistas, que se quedaram deslumbrados por um extenso monumento teórico, aparentemente coerente, que não compreenderam em toda a sua vastidão, e se remeteram a elevar a crítica da economia política e a filosofia da História elaboradas por Marx à categoria de ciência certa, e a proclamar-lhe o génio e a autoridade indiscutível, para depois, escudando-se em citações abundantes, conquistarem e legitimarem a sua própria autoridade de teóricos respeitáveis ou de dirigentes incontestáveis.
Para esconder a sua incapacidade para compreender a realidade presente para além do que Marx previu, e para justificar os estéreis esforços teóricos e o afastamento das massas e da luta de classes em que se refugia, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista afirma que mesmo “com todos os conhecimentos modernos, é-nos mais difícil, hoje, abarcar as leis gerais do sistema do que foi a Marx” [8]. Bem se pode dizer: “mal do esquerdismo comunista se não fosse o Marx”, ou “bom Deus, manda-lhe um novo anjo anunciador, que o primeiro não foi suficiente”. Compreender a realidade social para agir sobre ela é difícil em todas as épocas — não podemos afirmar se é mais ou menos difícil hoje do que na época de Marx ou do que será no futuro. Se as interpretações sobre o passado são o que são, tentar compreender o presente é uma empreitada sem limites, de resultados sempre incompletos, toscos e enviesados, mas é com eles que se dispõem os tijolos com que se constrói o edifício social. Nesta actividade que pretende formular o sentido e apontar o rumo às lutas em que se digladiam interesses antagónicos não se pode esperar pelo resultado da lotaria, tem de se comprar antes o bilhete; nem se pode desejar a prévia caução da ciência, tem de se participar na praxis social e ir reflectindo sobre ela. Com sentido crítico, mas sem medo do julgamento da História.
Se pretendesse, de facto, compreender um pouco a realidade presente para agir sobre ela, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista não se quedaria pela citação apologética dos textos políticos de Marx e dos seus intrépidos discípulos, nem se ficaria pelas proclamações da necessidade da revolução proletária redentora. Começaria por questionar a filosofia da História, que proclamou o axioma profético da revolução proletária socialista, e chegaria à crítica da economia política e às restantes construções ideológicas elaboradas por Marx, que conduziram às hipóteses do desaparecimento apocalíptico do capitalismo e da pauperização absoluta do proletariado. Então, criticando-o e aprendendo com os seus erros e equívocos, talvez lhe prestasse a melhor porque a genuína das homenagens.
Se fosse por aí, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista poderia chegar também à compreensão de que a concepção leninista do partido proletário como organização de revolucionários profissionais, existindo fora do seio da classe, auto proclamando-se seu representante e arrogando-se o direito exclusivo à produção e à validação do conhecimento político e social, à interpretação infalível da realidade social e à definição da “linha justa” — tal como a redução da revolução social à sua componente de revolução política ou a concepção da revolução política como golpe de estado insurreccional — só muito dificilmente poderiam deixar de ser qualificados como novos erros e equívocos a juntar aos de Marx.
Talvez compreendesse, então, que o idealismo voluntarista que desaguou na revolução proletária socialista, de Outubro de 1917, e conduziu uma vanguarda pequeno-burguesa radical ao poder em nome dos operários e dos camponeses não poderia construir outro sistema económico-social que não o capitalismo. Um capitalismo diferente do capitalismo privado concorrencial — não só pelas representações sociais de que partia, fundadas numa ideologia que lhe predestinava a implantação do socialismo, mas pelo próprio contexto da sociedade russa, mergulhada em profundos atrasos e arcaísmos que as fracções moderadas da burguesia não se mostraram capazes de ultrapassar — mas um regime de capitalismo de Estado monopolista, gerido por uma burocracia terrorista e maniqueísta, comandada por longo tempo por um déspota iluminado, que em nome dos interesses do proletariado lhe retirou os direitos mais elementares e instaurou um Estado totalitário e concentracionário.
E poderia compreender, por fim, que os resultados daquela revolução socialista não foram apenas erros de percurso — ainda que de consequências práticas desastrosas para o movimento operário — nem ela própria foi uma revolução prematura, parida antes de tempo, mas certa e segura, como certo é o Sol nascer todos os dias, antes foi a crua demonstração do voluntarismo idealista e a dramática evidência da impossibilidade de realização da utopia anunciada pela profecia marxista. A realidade social é um objecto por demais complexo para se vergar às falsas representações que dela vamos formulando, e, apesar dos novos sentidos que as vontades atribuem às práticas, a acção prática contribui inexoravelmente para desenvolver e consolidar as tendências de evolução já presentes no real. Não há volta a dar-lhe: ou compreendemos a realidade e construímos formas de minimizar os impactos negativos das tendências do seu desenvolvimento ou ficaremos fora do tempo ou contra ele.
4. Os dinossáurios do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista.
Entre nós, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista vangloria-se de albergar os últimos dinossáurios do marxismo revolucionário, os verdadeiros comunistas, e afirma-o com a solenidade de quem estaria salvando umas avis rari da extinção e com a convicção de estar prestando um inestimável serviço à causa do proletariado. Estes dinossáurios arrogam-se hoje o prestimoso título de guardiães da pureza dos textos sagrados do marxismo, assim como o de seus fiéis intérpretes, tal como ontem ou há vinte e cinco anos atrás se consideravam os legítimos depositários do verdadeiro marxismo-leninismo, do puro e duro estalinismo e do radical e folclórico maoismo, escudando-se na áurea granjeada pela clandestinidade e pela glória da ruptura com o PCP na defesa da via insurreccional para o derrube do fascismo. Com esse título glorioso, o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista pretende apresentar-se também como o genuíno representante dos interesses mais profundos do proletariado, mesmo que este não o reconheça como tal.
Mas a história do percurso dos dinossáurios, que justificaria a coroa de louros com que se ornamentam, está muito mal contada, e os seus pretensos méritos na defesa dos interesses do proletariado não têm qualquer fundamento, mesmo no contexto da realidade portuguesa. O seu papel não difere do de outros papagueadores do marxismo-leninismo-maoismo que não se cansam de repetir citações das cartilhas para legitimarem as suas erradas análises da realidade social e política, e que assim se vão entretendo a preencher as suas vidas vazias e a compensar as suas frustrações. Ao longo do tempo, a sua missão parece ser a de genuínos intérpretes do último grito da moda (ou da moda do último grito) em matéria de ideologia proletária revolucionária. Mudou apenas o séquito dos apoiantes, e à míngua de quem os aclame reafirmam-se eles como baluartes da sua própria fortaleza.
Após a queda da ditadura, os dinossáurios tiveram papel de relevo na criação dum partido de massas (a UDP) que obteve nas eleições um mandato para a assembleia constituinte e para a que se lhe seguiu, e na aglutinação de pequenos grupos de activistas marxistas-leninistas-maoistas num grupo político mais amplo, de implantação por todo o território nacional, que então foi designado por PCP(R). A juntar a estes méritos mais recentes, no currículo do mais proeminente pesava também a militância no PCP, durante o fascismo, na clandestinidade, a pertença à Comissão Executiva do seu Comité Central, o pioneirismo no corte com o “revisionismo” e na fundação do primeiro grupo marxista-leninista português (o CMLP), assim como o martírio dos longos anos das várias prisões. A expiação de velhos pecados da prisão — resultante de uma arcaica concepção comunista que confundia proclamações de fervor revolucionário e juras de dedicação sem limites à causa com coragem física para aguentar a porrada selvática ou a tortura ignóbil, armas correntes por todo o lado na guerra suja movida pelas polícias políticas aos militantes subversivos, e que concedia às hierarquias partidárias a prerrogativa de lançar os fracos à penitência da fogueira do ostracismo ou ao opróbrio da expulsão — maculava-lhes o passado, mas não os impediu de se alcandorarem nos mais altos cargos, condizentes com o carisma e o halo mitológico de que eram portadores. Nesse deve e haver, o balanço foi considerado positivo e os dinossáurios integraram o Secretariado do Comité Central do novo partido, aquando do congresso da sua fundação (realizado entre 27 de Dezembro de 1975 e 5 de Janeiro de 1976).
O estabelecimento de ligações com o movimento marxista-leninista-maoista europeu — constituído por pequenos partidos de implantação restrita e de representatividade insignificante, agrupados em torno da defesa das posições albanesas e chinesas contra o “revisionismo” soviético — trouxe até nós, para ajudar à organização e consolidação do novo partido, Diógenes Arruda Câmara, dirigente do Partido Comunista do Brasil (partido “marxista-leninista”, resultante duma cisão, ocorrida em 1962, no Partido Comunista Brasileiro, de que também fora importante dirigente). Exilado em França desde 1973, depois do golpe militar de Pinhochet, no Chile, onde se acolhera após a libertação da sua última prisão (1969-1972) para tratamento das sequelas dos maus tratos que lhe tinham sido infligidos pelo regime da Ditadura Militar vigente no Brasil, instaurado pelo golpe de estado de 1964, e deslumbrado com o golpe de estado que restabeleceu a democracia em Portugal, Arruda, um político experiente e antigo parlamentar, viria a ter um papel de relevo na evolução do esquerdismo marxista-leninista-maoista entre nós e na dos próprios dinossáurios.
Uma das primeiras intervenções de Diógenes Arruda no PCP(R) foi a clarificação de regras face a militantes que haviam fraquejado na polícia, e o consequente afastamento de cargos de direcção daqueles que arcavam com essa mácula no seu passado. Os dinossáurios foram então destituídos dos cargos que ocupavam, para os quais tinham sido eleitos menos de seis meses antes, situação que aparentaram aceitar demonstrando uma enganadora humildade. Para alguns, contudo, a destituição era mais formal do que real, pois foram colocados na redacção do órgão de imprensa e em comissões eventuais de apoio à direcção do partido, especialmente constituídas ou alargadas para albergá-los, já que a indigência política da direcção os considerava insubstituíveis e parecia não poder dispensar totalmente o seu conselho e colaboração. A nova situação não era de todo descabida: possibilitava-lhes desembaraçarem-se de um problema que não parecia abandoná-los e permitia-lhes continuarem a influenciar a linha política do partido, se bem que nos bastidores, à sorrelfa. Constituía, digamos, um mal menor a que tiveram de sujeitar-se.
Foi nesta condição de conselheiros que os dinossáurios participaram na reformulação da linha que anteriormente haviam delineado para o partido e na invenção da estratégia da etapa intermédia do “25 de Abril do povo” [9] a caminho da “revolução democrático-popular”, etapa intermédia a caminho da “revolução socialista”, e na delineação da táctica da ascensão imparável das maravilhosas massas de milhões de proletários para os embates do assalto ao poder que se avizinhava, e noutras trampas do género, à medida da sua fértil imaginação e ao ritmo da fácil fluência de escrevinhadores prolixos. A leviandade com que repudiavam a linha original do partido e adoptavam este contrabando oportunista viria a manifestar-se também mais tarde, no processo da sua destituição, quando passaram a criticá-lo, identificando-o com o centrismo dimitrovista e estalinista, como se nada tivessem a ver com a sua autoria, e evidenciava a sua capacidade para se manterem à tona e sobreviverem mesmo aos mais fortes vendavais.
Aquelas tontarias, que a indigência obreirista aplaudia com fervor e a infantilidade estudantil-intelectual secundava efusivamente, rondando o delírio laudatório, resultantes da coexistência do mais prosaico oportunismo com o tradicional aventureirismo guevarista dos dinossáurios, revelavam confrangedoras incapacidades de percepção da realidade política e social e de nela intervir, mas não os incomodavam sobremaneira. As retóricas radicais adoptadas constituíam, até certo ponto, o suporte necessário para o combate ao “revisionismo cunhalista” em que os dinossáurios se mostravam empenhados, e denotavam a sua propensão para guardiães do templo, defensores estremes do radicalismo puro e duro, na época identificado com citações de conveniência da cartilha marxista-leninista-estalinista-maoista sem qualquer relação com a realidade existente.
A sua notória tendência para cortiços flutuantes fê-los participar, aquando do 2.º Congresso do então novel PCP(R), em Março de 1977, dedicado à definição da estratégia e da táctica, na proa da vergonhosa orquestração que visou o isolamento, e a posterior tentativa de expulsão, do dirigente que assumia com frontalidade a primeira divergência de fundo que se manifestava naquele partido. Nesse notável congresso, exemplo da consigna comunista “os fins justificam os meios”, onde parecia valer tudo — dos sussurros intimidatórios às ameaças veladas nos discursos inflamados encomendados a exaltados operários, ideologicamente analfabetos e politicamente ineptos, e à mobilização da direcção cessante, estrategicamente dispersa pela sala, com cada membro rodeado do seu séquito de delegados, escolhido em simulacros de assembleias regionais, sucedendo-se em intervenções previamente preparadas e combinadas contra a oposição singular de um dirigente que tinha a coragem de correr o risco de defender posições originais, contrárias às da totalidade da direcção e da esmagadora maioria dos delegados — os dinossáurios mostraram o maior desprezo pela luta de ideias e o seu profundo apego aos métodos estalinistas vigentes nos partidos marxistas-leninistas.
No essencial, a oposição caracterizava como socialista a etapa da revolução, face às relações de produção dominantes e ao desenvolvimento das forças produtivas no país, e definia como refluxo o estado do movimento operário, cujas greves e outras formas de luta tinham um carácter marcadamente defensivo, apontando medidas para o correcto enquadramento da actividade partidária, tanto no campo da reorganização interna (com a legalização do partido e a extinção da frente de massas UDP) como no campo da intervenção sindical (com a orientação do partido para o reforço da participação dos militantes e dos simpatizantes nos sindicatos e nas lutas dos trabalhadores nas fábricas, nos estaleiros e nas oficinas). Mas aquela era uma oposição politicamente frágil, que não saía do âmbito da ortodoxia marxista-leninista e que procurava até a sua aplicação coerente; numericamente débil, isolada na direcção e não conquistando mais do que meia dúzia de adeptos entre os delegados; e quiçá inoportuna, devido às múltiplas fragilidades que ela própria e o partido evidenciavam.
Apesar das suas limitações — de que ressaltavam a imaturidade para avaliar e prever o desenvolvimento duma luta partidária em condições tão desfavoráveis e a ingenuidade de julgar que a discussão de ideias era possível num partido em que a análise da realidade visava encontrar nela analogias plausíveis com as citações da cartilha, cujos quadros se mostravam incapazes de qualquer exercício pessoal de racionalidade, acomodando-se às posições maioritárias para não perderem os cargos — as propostas que defendia mostravam-se perigosas, porque chocavam com a estratégia e a táctica propostas pela direcção do PCP(R) e com a estratégia definida para o PC do Brasil — que então, através de Diógenes Arruda, tutelava o PCP(R) — e as punha em causa. Por todas essas razões, a oposição congregou contra si as tendências latentes no partido, sob a batuta do próprio Arruda e com o empenhamento dos dinossáurios, e traçou irremediavelmente o seu destino no interior do PCP(R).
Para além de defensores e de escrevinhadores do contrabando veiculado pela proposta de resolução apresentada ao congresso pela direcção, e do afã com que o defenderam no decorrer das sessões, os dinossáurios e a clique dirigente mantiveram intocada a estratégia da etapa intermédia do “25 de Abril do Povo” a caminho da “revolução democrático-popular”, e, na táctica, inventaram, sem o mais leve pingo de vergonha, para caracterizar o estado do movimento operário, um “recuo peculiar” (quando durante o congresso se haviam esfalfado a ilustrar a ascensão), tomando de empréstimo, embora sob um disfarce “peculiar”, a tese demonstrada pelo opositor derrotado, numa manobra típica do centrismo estalinista, que combatia e derrotava nas votações (quando não mandava eliminar) os que poderiam vir a fazer-lhe qualquer tipo de sombra e depois adoptava o essencial das suas posições.
Passados uns anos — quando lhes coube a vez de discordar e entraram em dissidência, constituindo-se como fracção organizada, e foram expulsos — os dinossáurios, com a mesma falta de vergonha, falsificavam o relato da pequena história das lutas internas, para mais uma vez se adornarem com os louros de defensores das posições de esquerda e de depositários legítimos da verdadeira interpretação da cartilha marxista-leninista. “Em 1978, o PC(R) encontrou-se a braços com a sua primeira dissidência de direita. Uma parte considerável do CC e dos quadros regionais punha em causa o valor das ‘conquistas de Abril’ e a esperança numa reabertura próxima da crise, reclamava uma táctica defensiva, assente na acção sindical e parlamentar, a legalização do partido, a aproximação ao PCP, aos socialistas de esquerda, mesmo aos eanistas” [10] (itálicos meus). Para além do manifesto oportunismo do deputado Acácio Barreiros [11], unanimemente reconhecido, e das costumeiras reticências e ambiguidades ainda indecifráveis do Frederico Carvalho [12], a generalidade da direcção alinhava pelo diapasão da euforia, pelo que é uma rematada falsidade a afirmação de que a maioria do CC e dos quadros regionais reclamava uma táctica defensiva. Tal como é outra falsidade que alguém com responsabilidades de direcção alguma vez reclamasse com convicção a aproximação ao PCP, aos socialistas de esquerda ou aos eanistas, mesmo de entre os mentecaptos que por vezes sugeriam, à laia de dúvidas, as baboseiras mais infantis para usar como manobras no trabalho local.
A conotação da oposição com a reclamação da aproximação com partidos ou tendências estrategicamente à direita é uma velha artimanha a que os dinossáurios recorrem para tornar credível o epíteto de “crítica de direita” com que baptizam a oposição à linha então vigente. E o que chamam de dissidência resumia-se a posições divergentes expressas pelo segundo secretário do comité central, às quais veio a aderir, durante os debates preparatórios do congresso, um quadro regional e uma dúzia de militantes dispersos. Mas esta oposição, numericamente insignificante e politicamente ingénua, que chegou a acreditar que o debate de ideias era possível e susceptível de vencer os interesses instalados do oportunismo e do carreirismo políticos, como acontecera no grupo de que era originária (a OCMLP), conseguiu, ao menos, pôr a nu as fragilidades ideológicas e políticas do PCP(R) e da dita corrente marxista-leninista-maoista, e esse feito inesperado transformou-a no alvo de um combate sem tréguas.
“Para demonstrar o oportunismo desta tendência seria necessário reconhecer que o partido errara toda a apreciação da crise de 75 e do seu desenlace. O cansaço evidente dos dissidentes, desejosos de abandonar uma trincheira que se tornava incómoda, não podia obscurecer o facto de que eles punham a nu os pontos fracos do vanguardismo do partido. Só dando um passo à esquerda se podia responder efectivamente à crítica de direita. Esta via estava contudo excluída para o núcleo dirigente, que chegara ao mito do 25 de Abril do povo pelo cruzamento da euforia do ‘Verão quente’ com a linha internacional das frentes populares e das democracias populares. Optou-se, por isso, no 3º congresso, por reajustar a táctica do partido, indo disfarçadamente ao encontro das críticas. (...) Na aparência, a linha do partido não mudava; na prática, tratava-se de se adaptar ao recuo” [13] (itálicos meus).
Apesar de pôr “a nu os pontos fracos do vanguardismo do partido”, para os dinossáurios a oposição desenvolvia uma “crítica de direita”, e eles, embora na altura relegados para redactores de serviço e para funções de apoio ao núcleo dirigente, mas intervindo activamente na construção da linha política vigente, eram os detentores da resposta de esquerda necessária. Achando, curiosamente, que gente cansada se daria ao trabalho de enfrentar solitariamente, durante meses a fio, todo um partido, os dinossáurios ainda se esqueceram de referir a sua própria responsabilidade na criação do “mito do 25 de Abril do povo”, do contrabando da “revolução democrático-popular” e do voluntarismo folclórico, que na prática servia para enfeitar a “reunite crónica” com que o partido se entretinha, virado para o seu interior, para assim encobrir a sua completa incapacidade de percepção da realidade política e de intervenção sobre ela.
As responsabilidades dos dinossáurios, porém, não se ficam apenas pela elaboração e pela defesa duma linha política deslocada da realidade: eles foram cúmplices, apadrinhando ou calando a denúncia, dos métodos persecutórios e manipulatórios usados para isolar a oposição interna. E se referem, ao de leve, que a táctica que viria a ser progressivamente adoptada não correspondia à aprovada no congresso, mas a decisões posteriores da direcção, devido à necessidade de corrigir uma orientação que se comprovava completamente desajustada da realidade, não se dignam a esboçar qualquer palavra de crítica às trafulhices praticadas por gente sem escrúpulos, autênticos vigaristas políticos. Foi deles e desta gente, destas práticas e do manifesto infantilismo político que caracterizava o esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista que a oposição se cansou, e, informando-os de que para brincadeira preferia o jogo do berlinde com os filhos, os mandou à fava e lhes virou as costas abandonando o partido [14].
Os dinossáurios atribuem ao “arrudismo” todos os males que afligiram o PCP(R) após o seu 2.º Congresso. É simples de mais para corresponder à realidade, mesmo que o “arrudismo” representasse uma corrente oportunista no seio do movimento operário organizado, que pregava a revolução, mas praticava a conciliação, que se distinguia do cunhalismo por um anti-revisionismo de cariz pequeno-burguês de laivos maoistas e que reduzia a táctica à pragmática da manobra hábil, mas, por isso mesmo, sinuosa e obrigando a inflexões constantes. O “arrudismo”, porém, não passa de um bode expiatório com o qual os dinossáurios pretendem esconder não só as suas próprias responsabilidades anteriores como as da sua longa convivência com ele. O principal problema do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista nunca residiu nas práticas organizativas e nos métodos de direcção, que oscilavam entre o federalismo anarquista e o centralismo estalinista, mas esteve sempre ligado à sua incapacidade de compreender a realidade e de agir sobre ela, e era essa incapacidade, partilhada com o “arrudismo”, que lhe impossibilitava conquistar credibilidade e influência política entre as massas operárias.
Por detrás desta simplória atribuição das culpas de todos os males ao “arrudismo” estão ainda razões pessoais, que os dinossáurios demonstram não esquecer. Eles parecem não perdoar ao “arrudismo” ter vindo desenterrar o velho axioma comunista de que militante que fraqueja na polícia não pode jamais pertencer a órgãos de direcção, que então parecia haver sido ultrapassado, e ter conseguido afastá-los do comité central por métodos anti-estatutários. O facto, porém, é que os dinossáurios não contestaram quer a renovação dessa velha querela, dado comungarem do mesmo idealismo fanfarroneiro, quer os métodos usados, visto sofrerem da mesma propensão para a arbitrariedade do centralismo autoritário que não se submete a regras. Apesar de todos os agravos pessoais de que possam ter sido vítimas, os dinossáurios já tiveram tempo para perceber que para o insucesso do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista na conquista e consolidação de um espaço político próprio entre as massas operárias, mesmo que de pequeno relevo, mas justificador da sua existência autónoma, tão nefasto foi o oportunismo do “arrudismo” quanto o seu voluntarismo.
5. Agonia do esquerdismo comunista português.
Cumprindo o percurso previsível de todo o esquerdismo inconsequente — como resultado da sua nulidade teórica, que o levava a procurar refúgio seguro na recitação da cartilha; das suas limitações na compreensão da realidade e na intervenção na política prática, que o faziam virar-se para o seu interior e entreter-se com intermináveis reuniões e periódicas campanhas de rectificação; e do desprezo pelos interesses do proletariado, que sacrificava à propaganda da revolução vindoura, tentando assim preencher e caucionar uma existência vazia de conteúdo — do esquerdismo comunista marxista-leninista-maoista pouco resta.
O PCP(R), consumido em sucessivas dissidências e cisões, acabou por extinguir-se, por inútil, migrando os seus restos para a velha frente esquerdista UDP, hoje transformada num pequeno grupo de intelectuais pequeno-burgueses entretidos com jogos políticos de alianças para ir apanhando migalhas na representação autárquica. Os antigos quadros e dirigentes revolucionários esperam por melhores dias, acomodam-se a governar a vida ou pura e simplesmente transferiram-se para o campo do capital, como o fizeram muitos outros “revolucionários” de muitos outros grupos esquerdistas.
Os dinossáurios, reduzidos a um pequeno grupo coeso de seguidores do indefectível arauto de sempre, limitam-se a papaguear o anúncio da revolução proletária redentora e a tecer comentários lineares sobre a actualidade política nacional e internacional, usando como instrumentos privilegiados da análise alguns dos velhos estereótipos de sempre. A crueza da realidade do rescaldo das revoluções proletárias impôs-lhes algum esforço de reflexão, que os levou a pôr em causa o carácter socialista daquelas revoluções e a renunciar ao legado ideológico maoista, a repudiar as práticas estalinistas, a rejeitar um ou outro postulado leninista e a refugiarem-se na ortodoxia marxista. Mas questionar o velho Marx e compreender-lhe os erros e equívocos parece ser para eles uma barreira intransponível. Se abandonassem o axioma profético da revolução proletária, com que se entreteriam eles, que sempre desprezaram a defesa dos interesses imediatos dos operários e dos trabalhadores em nome dos seus cantados interesses a longo prazo? A apologia sempre é preferível à crítica, a crença na verdade previamente revelada é bem mais confortável do que a mais leve dúvida, e a fidelidade ideológica, apesar de tudo, ainda proporciona uma consoladora coerência. Apetece perguntar: que separa hoje os dinossáurios do cunhalismo petrificado?
A antiga oposição interna dos tempos do PCP(R) — politicamente inexperiente e inábil, que comungava de muitas das incapacidades da militância marxista-leninista, mas não se deslumbrava com os cargos de responsabilidade que ocupava nem com os profusos elogios que Diógenes Arruda Câmara lhe fazia até ao surgimento das divergências, qualificando-a como a mais promissora revelação no partido — remeteu-se a uma longa travessia do deserto de inactividade política partidária, que lhe trouxe frustrações nem sempre bem superadas. Um tão longo interregno permitiu-lhe, ao menos, matar os fantasmas do passado, encetar uma tentativa de crítica consequente da ideologia marxista-leninista e vir propor o esboço de uma nova ideologia, baseada no reformismo radical de esquerda, e a fundação de um partido classista proletário, que se pudessem constituir como instrumentos de intervenção política na defesa dos interesses sociais, económicos e políticos dos trabalhadores.
Por estranho que pareça, tais propostas não encontraram qualquer eco em muitos antigos revolucionários, quer entre os desiludidos com a política, quer entre os confortados com a filiação na social-democracia à portuguesa. E os que se mantêm activos parecem preferir, à clarificação do corte ideológico com o marxismo revolucionário e à consequente adopção do reformismo radical, a transfiguração do revolucionarismo comunista no pragmatismo transclassista da nova esquerda emergente designada por Bloco de Esquerda. Aparentemente mantêm-se revolucionários, embora com retóricas de léxico mais suave, mas vão inexoravelmente operando a transmutação dos protagonistas da futura revolução, cada vez menos a classe operária e os trabalhadores. Na nova esquerda emergente albergam-se hoje ex-maoistas e trotskistas, mas não admirará se um dia destes a unificação dos nostálgicos revolucionários comunistas vier a congregar também os estalinistas da velha esquerda, já que os separa tão pouco.
A hipocrisia do reformismo não assumido de uns e do revolucionarismo disfarçado de outros é a medida da dimensão da crise do esquerdismo comunista português. Esta contradição não resolvida fá-lo persistir na proclamação de um futuro radioso para os eleitos, a reconstruir após a derrocada apocalíptica do capitalismo globalizado, portador de todos os males reais e imaginários, enquanto no ínterim os vai deixando entregues à sua sorte, à mercê dos impactos mais negativos das transformações que se estão operando no capitalismo contemporâneo. De que vale o Céu se o Inferno não for uma imensa fogueira de intensas labaredas onde perecerão ardendo os ímpios? Mas se o Céu for apenas o que conscientemente podermos transformar do Inferno da realidade que sem nos darmos conta construímos para existir, o futuro é já hoje, e os amanhãs das profecias apenas um sonho alucinado. Sejamos lúcidos para desejar como provável a construção do possível!
Almada, 30 de Julho de 1999.
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Durante os trabalhos preparatórios e nas discussões no 2.º Congresso do PCP(R), apercebera-me de que o último dos dinossáurios do marxismo-leninismo, Francisco Martins Rodrigues, se caracterizava por um fraco nível teórico e por muito pouco rigor estratégico e táctico. Escrevia, e muito, mas a sua prosa era ressequida, e mesmo espremida dela brotava muito pouco sumo. Embora fosse o redactor do projecto de resolução política veiculando as posições da direcção, recordo-me de que não dominava as teses saídas do 7.º Congresso da Internacional Comunista nem a concepção dimitrovista da “revolução democrático-popular”, que constituíam o suporte teórico da nova concepção estratégica em vias de ser aprovada pelo partido.
Milhares de professores saíram à rua por esse país fora em manifestações parcelares, e mais de 100 000 juntaram-se na grande manifestação do passado dia 8 de Março,
Na vida, porém, há coisas do arco da velha. Numa reviravolta impensável, de um momento para o outro, as direcções sindicais acabaram por chegar a um “entendimento” com a ministra, a própria, que pela importância das coisas fora em pessoa às negociações. O “entendimento” não respeitava ao ponto da situação nem à clarificação das divergências; constituía uma cedência em toda a linha às pretensões do governo, ratificando um modelo de avaliação transitório, simplificado e mais expedito, aplicável em todas as escolas, uniformizando as formas contraditórias com que estava sendo aplicado nalgumas, e aceitando a implementação plena, a partir do próximo ano, do modelo de avaliação imposto. O “entendimento”, no imediato, sanava as violações da lei pela sua aplicação não uniforme, eliminando um dos argumentos sindicais para a sua impugnação judicial, salvando o governo desse imbróglio, e no geral constituía uma traição aos interesses dos trabalhadores, descarada como há muito não se via.
As direcções sindicais foram meros peões de brega, prestando-se a vergonhosos papéis. Ainda poderiam ter ensaiado uma qualquer medida mais radical, que fizesse temer os professores e os desmobilizasse. Salvariam a face, mas o risco era demasiado, podendo sair-lhes o tiro pela culatra. Com a desfaçatez que as caracteriza, tiveram a falta de vergonha suficiente para cantarem vitória. E aqueles que nas escolas as secundaram, preparando com minúcia a encenação para a aceitação do negócio da traição, desempenharam uma função ignóbil. Estão habituados, é a sina das suas vidas: a quem eles devem fidelidade é ao partido, não aos trabalhadores. Mas o sindicalismo existe para defender os interesses dos trabalhadores, não para servir outros senhores, sejam os patrões, o governo ou os partidos; só pode servir a um amo, não a vários, conforme convenha aos dirigentes. Como vemos desde há várias décadas, defender os interesses dos trabalhadores não é o lema do sindicalismo vigente.
Este é um espaço que utilizo para divulgar a minha crítica às teorias do marxismo e à profecia política do comunismo. De vez em quando, aproveito-o também para abordar outros assuntos, acerca dos quais tenha algo a dizer fora dos lugares comuns do costume. O texto anterior foi sobre os objectivos pretendidos com o novo modelo de avaliação do desempenho dos professores e sobre as falácias com que o patrão o fundamenta. Aproveito-o agora para falar um pouco sobre o vídeo amador mais famoso dos últimos tempos: um que por aí corre sob o lema “Dá-me o telemóvel, já!”. É fácil perceber que os dois temas se prendem com a minha actividade profissional.
O país depara-se com um grave problema no sistema de ensino: elevadas taxas de abandono e de insucesso. A escolarização e o sucesso escolar são mesmo, desde há muito, um dos nossos mais graves calcanhares de Aquiles. Nesta questão, estamos ao nível dos países subdesenvolvidos mais desenvolvidos, o que é uma vergonha. Dantes, o grande culpado era o salazarismo (ainda que à medida das possibilidades do país o regime tenha envidado esforços para aumentar o número de escolarizados, mesmo à custa da redução da escolaridade obrigatória para três anos); veio o 25 de Abril e, passados os primeiros anos, o mal voltou a atacar em força: à medida que tem aumentado a oferta educativa, têm aumentado proporcionalmente o abandono e o insucesso. Mais de duas décadas depois da reforma educativa de 1989, parece ainda não terem sido encontradas as razões para semelhante calamidade, e todas as tentativas dos sucessivos governos para a debelar têm resultado
Em vez de identificarem os problemas e de lhes estudarem as causas, para tentarem encontrar as soluções mais adequadas, os actuais governantes repetem as mesmas medidas, comprovadamente inadequadas, e ainda arranjam um rol de outros problemas, tomando como alvo os professores, aqueles que nas escolas arcam com todas as dificuldades. Por este facto, as suas políticas sobre a educação têm sido um avolumar de problemas, o que só agrava a situação e inviabiliza o ataque ao problema principal. Os actuais CEF (cursos de educação e formação) pouco diferem do 9ºAno+1, dos Currículos Alternativos e de outras trapalhadas vindas dos tempos da Ana Benavente (aliás, a responsável, enquanto secretária de Estado, pela inqualificável reforma educativa em vigor, que o David Justino tentou remendar em vão), e o programa Novas Oportunidades tem-se revelado uma caricatura da formação de qualidade que a escola deveria proporcionar como segunda oportunidade aos que a abandonaram há mais tempo. Sem qualquer pudor, os mentores destas medidas usam o aumento das taxas de escolarização que temporariamente proporcionam como se fossem sinónimo de redução das taxas de abandono e de insucesso.
O mais grave deste modelo de avaliação, porém, não é o seu uso para condicionar a progressão dos docentes na carreira. Ao introduzir como objecto da avaliação factores que escapam totalmente ao controlo dos docentes, os quais não integram o seu trabalho e que têm com ele apenas uma relação indirecta, como sejam os resultados do desempenho dos alunos, o que é pretendido com este modelo de avaliação parece não se restringir a reduzir custos nem a aferir a qualidade do desempenho profissional dos docentes. Por isso, é legítimo questionar se a introdução do resultado do desempenho dos alunos como objecto da avaliação do desempenho dos professores não tem também como objectivo a redução administrativa das estatísticas do insucesso escolar. Só com este objectivo não explicitado, e totalmente desprovido de sentido, se poderá compreender que o aproveitamento que os alunos fazem do trabalho dos professores constitua objecto da avaliação do desempenho dos docentes.
Confrontada com uma situação insustentável, mas desprovida de competência para a enfrentar adequadamente, parece nada mais ter restado à actual equipa governamental da educação se não adoptar a medida mais drástica, neste caso, fazer depender a progressão na carreira também da redução das taxas de insucesso. Doravante, os professores estarão condicionados nas suas avaliações do desempenho dos alunos, e é de prever que muitos não resistirão a fazê-las depender dos efeitos negativos que delas possam resultar para a sua progressão na carreira. Mantendo-se profissionais íntegros, sofrerão as penalizações inerentes; cedendo à coacção, aliviarão as estatísticas, camuflando a realidade.
Antes de tecerem elogios ao espírito reformista da ministra e dos seus ajudantes, os abalizados comentadores da nossa praça, que não se cansam de invocar preocupação com a baixa qualidade das aprendizagens escolares, deveriam procurar inteirar-se sobre o que verdadeiramente está em jogo e o que daí poderá resultar a médio prazo.
Os marxistas persistem agarrados aos preconceitos da obra do seu mestre. Não só em relação aos preconceitos da proclamação panfletária classista que revela a profecia messiânica de que o comunismo será o necessário sucessor do capitalismo, mas também em relação aos preconceitos da obra teórica do Marx. Os adeptos comunistas marxistas, embora afirmem que o marxismo-leninismo, o catecismo prático da liturgia revolucionária, não constitui um dogma, mas um guia para a acção, não ousam questioná-lo. Criticar as sagradas escrituras, então, é impensável, está fora de qualquer conjectura. Uma das razões para que assim procedam será, eventualmente, o receio de que todo o edifício se esboroe como frágil castelo de areia, como aconteceu com os regimes políticos totalitários comunistas, e daí lhes advenha trauma ainda maior; outra, mais prosaica, será a de que muitos deles não conhecem a obra teórica do mestre, ou, conhecendo-a, não a compreendem. O mais surpreendente é o caso dos intelectuais marxistas, sejam adeptos dos partidos comunistas, ou não, que tendo obrigação de conhecerem a obra teórica do mestre repetem a argumentação inválida e as conclusões falsas da sua crítica da economia política como se de puras verdades se tratassem. Depois que ruíram as experiências políticas comunistas, uns e outros remetem-se à comodidade de apontar a expansão global do capitalismo, as crises periódicas e o domínio imperialista de uns Estados por outros como confirmações das previsões marxistas, como se tais tipos de ocorrências constituíssem quaisquer novidades que não tivessem acontecido também outrora, em vida do profeta e mesmo antes de proclamada a profecia, ainda que com outra amplitude e outro ritmo e visibilidade.
José Manuel Correia
III – Ainda sobre a origem do lucro
Como vimos anteriormente e reforçamos agora, para que o lucro se origine basta que o trabalho vivo seja comprado abaixo do seu valor (quando usado sem qualificativo, o termo valor refere-se ao valor do custo de produção), isto é, que o seu valor de troca seja inferior ao seu valor do custo de produção. Se o trabalho fosse comprado pelo seu valor, se o valor de troca e o valor de custo do trabalho fossem idênticos, não haveria lugar a lucro. É, pois, na troca de uma determinada quantidade de trabalho presente por uma menor quantidade de trabalho passado que é originado o lucro ou valor apropriado. O lucro tem origem na relação social estabelecida entre capitalistas e trabalhadores assalariados, através da troca das mercadorias de que são possuidores, no caso, através da compra e venda do trabalho e dos seus produtos.
A concepção do Marx de que o lucro seria originado na produção resulta da aceitação da premissa de que a troca das mercadorias era uma troca equitativa. Aceite como plausível esta premissa, as mercadorias seriam trocadas pelos seus valores e da sua troca não resultava qualquer lucro. Em conformidade, o lucro só poderia ser originado na produção das mercadorias, como valor novo aí criado que lhes fosse adicionado. Subsistia, porém, uma dificuldade: constituindo os factores produtivos mercadorias tendo o seu próprio valor, o produto resultante não poderia ter valor superior ao somatório dos valores das mercadorias que lhe deram origem. Também assim, a origem do lucro ficava por desvendar. Para ultrapassar este impasse, o Marx identificou a força de trabalho como sendo a mercadoria vendida pelo trabalhador assalariado e atribuiu-lhe a faculdade mágica de fornecer mais valor do que o seu próprio valor. Esse valor a mais constituía o lucro, que deste modo aparecia como sendo originado na produção. Com esta explicação, a ocorrência do lucro era apresentada como coisa natural, e a sua apropriação pelo capitalista estava plenamente legitimada como simples consequência de ter comprado a força de trabalho, a mercadoria mágica que tinha a faculdade de proporcionar mais valor do que o seu próprio valor.
A premissa da troca equitativa fazia também corresponder o valor das mercadorias ao seu valor de troca. Se as mercadorias eram vendidas pelos seus valores, os seus valores de troca coincidiam com os seus valores do custo. Daí que na obra do Marx o valor do custo seja apresentado como expresso pelo valor de troca e designado apenas por valor. A grande variabilidade dos salários das diferentes profissões, ou da mesma profissão em diferentes regiões ou na mesma região em diferentes épocas, porém, parecia contrariar o princípio de que o valor de troca da força de trabalho — o salário — fosse expressão do valor do custo da sua produção, visto não ser plausível que a mesma quantidade de força de trabalho, ou de energia humana, pudesse ter custos de produção tão variados. Do mesmo modo, aquele princípio parecia contrariar a desigualdade das taxas de lucro obtidas pelos diversos capitais particulares e a concorrência e a mobilidade dos capitais que continuamente a renovam, assim como o desenvolvimento desigual que se observava entre o modo de produção capitalista e o modo de produção tributário ou entre as diversas formações económico-sociais capitalistas. A variação do valor da força de trabalho era explicada pelo Marx como sendo devida à acção de factores históricos na formação dos trabalhadores assalariados, à acção das culturas locais, ou, até, à luta reivindicativa dos trabalhadores. Apesar de muito diversificados, porém, aqueles são factores sociais e, como tal, não intervêm no processo fisiológico da produção da força de trabalho, não podendo, por isso, determinar o valor do custo que dele resulta.
Facilmente se comprova que as premissas de que o Marx partiu — a troca equitativa e a capacidade da força de trabalho para fornecer mais valor do que o seu próprio valor — não se mostram plausíveis. A grande variação salarial, por exemplo, mostra que a força de trabalho produtora de trabalho de diversos tipos não é trocada pelo valor do custo da sua produção; e, por outro lado, nenhum factor produtivo, seja qual for, produz mais valor do que aquele que possui como mercadoria, porque nada fornece mais do que contém, seja do que for que contenha. Deste modo, como a realidade não permite comprovar que as mercadorias sejam trocadas pelos seus valores, nem que no processo produtivo a força de trabalho forneça mais valor do que aquele com que nele entrou, e, pelo contrário, permite refutar a sua veracidade, a explicação marxista para a origem do lucro na produção revela-se falsa. Para a refutação, como se vê, basta a demonstração da falsidade das premissas que o próprio Marx usou na sua argumentação. A concepção marxista, contudo, contém outras falsidades — nomeadamente, a que identifica a força de trabalho como sendo a mercadoria vendida pelo trabalhador assalariado e a que apresenta o valor como sendo criado pelo trabalho — que também são facilmente refutáveis.
Na produção das mercadorias é originado o valor, não o lucro. É aí que o trabalho é produzido e nasce como coisa com custo de produção ou com valor; simultaneamente, com o seu consumo, o valor do trabalho é transferido para as coisas que são objecto da sua acção. Os objectos de trabalho não adquirem outro valor que não o do trabalho que os transforma. A marca da sua acção, fazendo com que os objectos de trabalho adquiram novas utilidades, é a forma através da qual o trabalho lhes transmite o seu valor. O trabalho não cria o valor; o valor é criado pela energia humana ao produzir o trabalho humano. Deste modo, o valor é conferido ao trabalho enquanto é produzido; o trabalho adquire e tem valor, o valor do custo da sua produção, ou quantidade de energia humana despendida na sua produção. Como a produção das restantes mercadorias é concomitante com a produção do trabalho, e elas, enquanto objectos de trabalho, são o resultado da sua acção, que lhes modifica a utilidade, o valor das mercadorias não é outro se não o valor do trabalho que sobre elas incide.
No processo produtivo, através da produção do trabalho e dos seus produtos, é criado o valor das mercadorias; e não é criado outro valor que não seja o valor do próprio trabalho, passado e presente, que nele participa. Se na troca do trabalho presente ou vivo por trabalho passado ou morto o trabalhador recebesse a mesma quantidade de trabalho que forneceu não haveria lugar à existência de lucro. Por isso, o lucro é originado fora do processo de trabalho ou de produção, no processo de troca, na relação social de troca desigual estabelecida entre o capitalista e o trabalhador assalariado, através da troca de uma quantidade de trabalho vivo por outra quantidade menor de trabalho passado.
IV – Sobre a mercadoria mágica “força de trabalho”
Em conformidade com a premissa de que as mercadorias eram trocadas pelos seus valores, o Marx designou como valor da força de trabalho o valor pelo qual ela era trocada. Nada, a não ser a aceitação daquela premissa como plausível, permitia comprovar que o seu valor de troca correspondesse ao valor do custo da sua produção. De qualquer modo, mesmo admitindo como plausíveis as premissas do Marx — que a força de trabalho fosse a mercadoria vendida pelo trabalhador, e que o valor pelo qual era trocada correspondia ao valor do custo da sua produção — o valor das mercadorias teria de ser constituído pelo valor da força de trabalho, passada e presente, consumida na sua produção. Com base nestas premissas, a explicação da origem do lucro continuaria a não ser possível. Para ultrapassar esta impossibilidade, o valor das mercadorias, que só poderia resultar do valor daquelas que participavam no processo produtivo, passou a ser concebido como criação do trabalho vivo, e a mercadoria força de trabalho passou a ser dotada de características especiais, sendo uma delas a faculdade de fornecer mais valor — maior quantidade de trabalho — do que fora necessário para a sua produção. Esta diferença de valor, que o Marx designou por mais-valia, era por ele identificada com o lucro.
Sendo o trabalho vivo definido como a substância criadora do valor, ele teria de intervir no processo de produção de todas as mercadorias. Para ter valor, como qualquer outra mercadoria a força de trabalho teria de ser, obrigatoriamente, um produto do trabalho vivo. Paradoxalmente, como se constata, o trabalho vivo, tido como substância criadora do valor, não participa na produção da força de trabalho; ao contrário, ele é o seu produto. Em coerência argumentativa, a força de trabalho não poderia possuir qualquer valor, ou, para tê-lo, o trabalho vivo não poderia constituir a substância criadora do valor. O Marx, contudo, não só atribuiu valor à força de trabalho — não o fazer constituiria um absurdo, uma vez que ela não era vendida graciosamente — como lhe atribuiu o valor correspondente apenas ao trabalho passado ou morto contido nas mercadorias compradas pelo salário, em contradição com a premissa de que o valor das mercadorias era criado pelo trabalho vivo. Apenas com esta contradição lógica a sua concepção da origem do lucro na esfera da produção se tornava possível.
Para além de ter o seu valor criado apenas pelo trabalho passado ou morto, a força de trabalho ainda tinha a faculdade de fornecer maior quantidade de trabalho do que aquela que fora necessária para a sua produção. A realidade mostrava, de facto, que o valor atribuído na troca à suposta mercadoria vendida pelo trabalhador constituía um valor menor em relação ao que ele fornecia, representado pelo trabalho que produzia na jornada; mas não mostrava que aquele valor de troca constituía o valor do custo de produção daquela suposta mercadoria. Admitir que o valor de troca da força de trabalho correspondia ao valor do custo da sua produção decorria apenas da premissa tida como plausível de que as mercadorias eram trocadas pelos seus valores. Não ter o seu valor criado pelo trabalho presente ou vivo, mas apenas pelo trabalho passado ou morto, e ter a faculdade de fornecer mais valor do que aquele que continha, portanto, são as características que fazem da força de trabalho uma mercadoria especial no reino das mercadorias. A primeira das características contradiz a premissa de que o trabalho vivo é o criador do valor; a segunda contradiz o princípio físico de que nada fornece mais do que contém, seja do que for que contenha.
Impõe-se questionar se uma mercadoria tão especial, dotada de propriedades tão paradoxais, será sequer uma mercadoria real. Quando se confronta a força de trabalho com as características definidas para as mercadorias — produtos úteis, produzidos para serem trocados, sendo para esse efeito fornecidos para o consumo de outros — verifica-se que ela não reúne tais condições. A força de trabalho, a energia humana ou capacidade de produzir trabalho humano, não pode ser desligada da pessoa que a produz, o trabalhador assalariado, e, por esse facto, não pode ser fornecida a outros, para eles, consumindo-a, produzirem trabalho humano. Embora a força de trabalho seja identificada como sendo a mercadoria vendida, a impossibilidade de a fornecer faz com que o produto fornecido não seja a própria mercadoria vendida, mas um produto produzido com ela pelo trabalhador: o seu trabalho. Se o trabalhador fornece como produto o trabalho por si produzido com a sua força de trabalho, é o trabalho, e não a força de trabalho, a mercadoria que o trabalhador vende. Não seria lícito a alguém vender um produto e fornecer outro. Deste modo, é falsa a identificação marxista da força de trabalho como sendo a mercadoria vendida pelo trabalhador assalariado.
Se o trabalho é o produto fornecido pelo trabalhador e a mercadoria que vende, e como da sua produção resulta a produção das restantes mercadorias, que é com ela concomitante, todas as mercadorias podem ser reduzidas à mercadoria trabalho, nas suas formas de trabalho presente ou vivo e de trabalho passado ou morto, que assim constitui a mercadoria universal. Por outro lado, se o trabalho é produto da força de trabalho, da energia humana, é esta a substância de que ele é constituído, e o seu valor é determinado pela quantidade da energia humana consumida na sua produção. Deste modo, o valor de qualquer mercadoria corresponderá à quantidade de energia humana consumida na sua produção, o que no caso de mercadorias que não o trabalho corresponderá ao valor do trabalho (passado e presente) que tenha sido empregado para esse efeito. Se homogeneizarmos os diferentes tipos de trabalho, reduzindo-os a um trabalho geral e abstracto cuja produção exija a mesma quantidade de energia, a unidade de medida prática e expedita do valor do trabalho pode também ser reduzida ao factor que diferencia a energia consumida: o tempo da produção do trabalho. Assim sendo, quando trocam mercadorias, seja na forma de trabalho presente ou vivo ou de trabalho passado ou morto, os intervenientes trocam a mesma substância, a energia humana, o que torna possível a comparação objectiva das quantidades trocadas.
Esta concepção elimina as contradições lógicas da argumentação e a falsidade das premissas em que se baseava a concepção marxista. Abandonando a premissa da troca equitativa, originária da economia-política clássica e aceite como plausível pelo Marx, cuja falsidade foi já também demonstrada, é possível com esta nova concepção formular uma explicação mais plausível para a origem do lucro. Ao contrário da concepção marxista, esta concepção localiza a origem do lucro na esfera da circulação das mercadorias, na troca desigual entre o capitalista e o trabalhador assalariado, através da venda do trabalho vivo abaixo do seu valor.
Cada modo de produção é caracterizado pela forma específica como se processa a apropriação do produto social, e contém os instrumentos ideológicos que a legitimam. No modo de produção capitalista, a apropriação de uma parte do produto social pela classe dos detentores dos meios de produção — a exploração de que o trabalhador assalariado é alvo — assume a forma de uma troca desigual da substância do custo de produção das mercadorias, a energia humana consumida; diferentemente do que acontece noutros modos de produção, a exploração ocorre entre intervenientes que se apresentam no mercado como produtores aparentemente livres e iguais. A constatação do facto não envolve qualquer julgamento moral; importa apenas que a explicação da sua génese seja plausível. Tementes dos julgamentos sobre a apropriação desigual do produto social, os ideólogos burgueses desde sempre se mostraram mais preocupados com a elaboração de boas legitimações do lucro do que com a explicação da sua génese, e persistem negando a sua verdadeira essência. O que não falta são legitimações para o lucro, umas melhores do que outras; não sem razão, o lucro tem uma existência milenar, acompanhando o capitalismo como seu mote, e ter possibilitado que ele se tenha tornado no modo de produção dominante é certamente a melhor das legitimações. De nada serve aos ideólogos burgueses, ao procurarem legitimar o lucro, tentarem ocultar a sua essência ou tergiversarem sobre o mecanismo social da sua génese.
A concepção do Marx identificando a força de trabalho como sendo a mercadoria vendida pelo trabalhador, atribuindo o valor do custo da sua produção ao seu valor de troca, identificando o trabalho vivo como a substância criadora do valor e explicando a origem do lucro pela faculdade mágica da força de trabalho para fornecer mais valor do que o seu próprio valor, portanto, não tem qualquer consistência. Assim como também não tem qualquer consistência a qualificação da troca das mercadorias como troca equitativa, feita pelos economistas clássicos e aceite como plausível pelo Marx. Na tentativa de ultrapassar as dificuldades com que o Ricardo se defrontara, o Marx arranjou uma explicação para a origem do lucro baseada em argumentação inválida, porque ferida de contradições lógicas, e em conclusões falsas, porque assente em premissas não plausíveis. Para reconstituir a realidade, bastaria ao Marx ter refutado a premissa da troca equitativa, formulada pelos economistas clássicos. Não o tendo feito, engendrou uma concepção falsa para explicar a exploração do trabalhador assalariado e o lucro que ela origina. A concepção da origem do lucro formulada pelo Marx não tem qualquer coerência. Só admira que ainda hoje continue sendo aceite pelos marxistas como conhecimento válido.
Apesar da falsidade da concepção marxista, persiste no senso comum a ideia de que a força de trabalho, a energia humana, seria produzida pelas mercadorias compradas pelo salário, e que teria como valor o valor dos meios de subsistência. A energia humana, contudo, é produzida pela utilidade daquelas mercadorias, ou pela utilidade da parte que fornece as substâncias energéticas, e pela utilidade do corpo humano para transformar aquelas substâncias energéticas em energia humana; ela, portanto, é produto da utilidade dos meios de subsistência e do corpo humano vivo, e não tem origem apenas nos meios de subsistência. Embora estes tenham valor, o valor do trabalho consumido na sua produção, não sabemos como atribuir valor ao corpo humano vivo, o outro factor produtivo cuja utilidade é indispensável para transformar a energia contida nos meios de subsistência em energia humana; deste modo, não é possível atribuir valor à energia humana, pelo que o seu valor é indeterminado. Para ultrapassar a dificuldade, poderíamos atribuir ao corpo humano, ou à própria energia humana, valor de troca, legitimando-o como renda obtida pelo trabalhador pela cedência do seu produto; mas do que estamos tratando é do valor do custo de produção das mercadorias, não do seu valor de troca, nem de um hipotético valor que pudesse (se pudesse) ser atribuído à substância de que são constituídas as mercadorias.
Como vemos, não é possível atribuir valor ao custo da produção da força de trabalho, da energia humana, porque ela não é trabalho nem objecto de trabalho, mas a origem do próprio trabalho. Embora possamos conhecer o valor dos meios de subsistência, não é possível atribuir valor ao corpo humano vivo, o outro factor produtivo indispensável para a produção da energia humana. Mesmo que assim não fosse, e desprezássemos, para este efeito, o valor do corpo humano, também não saberíamos como determinar que parte da energia humana produzida constituiria a força de trabalho, visto a quantidade transformada em trabalho trocado por salário ser menor do que a totalidade produzida, que além do mais é variável. Deste modo, também no que respeita à determinação do valor do custo da sua produção, a força de trabalho constituiria uma mercadoria paradoxal: ao contrário de todas as outras, cujo valor do custo poderia ser determinado pela quantidade de trabalho consumida na sua produção, o valor da força de trabalho não poderia ser determinado por qualquer medida objectiva. Se levássemos o raciocínio do Marx por diante chegaríamos a constatações ainda mais absurdas, nomeadamente, que a mercadoria força de trabalho seria trocada por valor superior ao do custo da sua produção, já que os meios de subsistência possibilitam não apenas a produção do trabalho assalariado como de outros tipos de trabalho, para além, é claro, das muitas outras actividades que constituem a vida do trabalhador.
A energia humana é um produto da utilidade dos meios de subsistência e do corpo humano vivo; e aquelas utilidades produzem maior quantidade de energia humana do que o trabalhador utiliza para produzir o trabalho que vende. Pudera que assim não fosse; o trabalhador seria então reduzido a mera máquina de produzir o trabalho que venderia. A energia humana é a essência da vida, produz trabalho para dar e vender, como se costuma dizer, e ainda muitas outras actividades humanas. A energia humana produzida pela utilidade dos meios de subsistência e do corpo humano é maior do que a necessária para produzir o trabalho que o trabalhador assalariado vende; e é precisamente por esse facto determinante que a troca desigual é possível. Se a produtividade do trabalho humano não permitisse extrair da natureza mais energia do que aquela consumida com a produção do próprio trabalho usado para obtê-la nenhum excedente haveria para poupar ou para ser apropriado por outros. A natureza é pródiga, apesar de todas as contingências e dificuldades, e proporciona a todos os seres existentes os meios de subsistência; o homem foi adquirindo a capacidade de usá-la e de transformá-la, conferindo produtividade crescente ao seu trabalho, e assim tem vindo a produzir condições de existência cada vez mais desafogadas e confortáveis.
V – Sobre a criação do valor de umas mercadorias pela utilidade de outra
A utilidade dos produtos reside na sua capacidade para desempenharem determinadas funções que respondem a necessidades humanas; essa capacidade é o que lhes confere aptidão para a troca, para serem transformados em mercadorias. Os produtos são trocados pela sua utilidade, mas desde que a sua função útil específica constitua resposta adequada e em tempo oportuno a uma necessidade concreta, isto é, seja pertinente, para outros; se a sua utilidade fosse pertinente para o seu produtor ele não se desfazia deles. O valor da utilidade, portanto, varia com a pertinência das mercadorias; um produto útil tem pertinência para o seu comprador e não a tem para o seu produtor; e o mesmo produto útil pode ter valor de utilidade diferente para dois compradores, em função da pertinência que represente para cada um deles. O valor da utilidade não pode ser determinado de forma objectiva, porque é variável em função da necessidade e da oportunidade que a característica útil que o define representa para um comprador; essa variabilidade está por isso também reflectida na variabilidade do valor de troca ou preço das mercadorias. A troca dos produtos de utilidade diversa, portanto, não é feita com base em qualquer medida objectiva do valor da utilidade.
Para cada produtor aceder à utilidade dos produtos alheios fornece o que para si constituiu o custo do produto que cede; para ele, o valor da utilidade do produto alheio está representado no valor do custo de produção do produto que cede em troca. Deste modo, a relação estabelecida pelos intervenientes na troca entre as utilidades dos seus produtos acaba sendo uma relação entre os respectivos custos de produção. Se cada um desconhecer o custo de produção do produto alheio, do qual não é produtor, a relação entre os custos de produção na troca tanto pode ser equitativa como desigual. Uma classe de produtores, a dos capitalistas, porém, conhece o valor do custo de produção de uma mercadoria de que não é produtora e de que só ela é compradora, o trabalho humano vivo, e trata de efectuar com os seus produtores uma troca desigual. Toda a economia capitalista reside em acautelar que essa troca desigual seja tão ampla quanto possível, o que também não é tarefa pequena, visto a concorrência entre os capitalistas pela apropriação do maior quinhão poder fazer com que tenham mais olhos do que barriga, acabando por reduzir o bolo com que em conjunto foram agraciados.
A utilidade de uma mercadoria, porém, não é factor que integre o custo de produção. Utilidade e custo de produção são grandezas de natureza distinta, que não se podem misturar; o custo de produção não é originado pela utilidade; a utilidade produz utilidade, não produz custo de produção. Uma mercadoria tem utilidade para o processo produtivo, ou não tem; e mercadorias do mesmo tipo podem ter valor de utilidade distinto se a função que desempenham no processo produtivo em que intervêm proporciona distinta produtividade do factor do custo, o trabalho, economizando o seu consumo. O valor da utilidade dos factores produtivos, portanto, pode influenciar a diferenciação do valor do custo de produção de mercadorias do mesmo tipo oriundas de processos produtivos distintos, mas não é factor constituinte do custo; o único factor constituinte do custo de produção é o trabalho humano, porque o custo de produção não é outro que o custo de produção do trabalho. Diferente utilidade dos factores produtivos, reduzindo o trabalho consumido e, logo, o valor do custo de produção, pode constituir uma vantagem comparativa entre produtores do mesmo tipo de mercadorias, que a aproveitam para venderem as suas por preços similares aos das concorrentes, acabando por trocarem como se fossem idênticos custos de produção desiguais, obtendo maiores lucros e taxas de valor apropriado. Tarde ou cedo, porém, a concorrência entre produtores acaba por esbater ou anular as eventuais vantagens comparativas, até que surjam outras.
A concepção do Marx, porém, misturava o custo com a utilidade. O valor do custo de produção das mercadorias era criado pelo trabalho; não pelo valor do trabalho (ou da força de trabalho, já que na concepção marxista o trabalho não tinha valor, embora fosse medível e quantificável…), mas pela utilidade da mercadoria força de trabalho, tal era nela a qualificação atribuída ao trabalho. Deste modo, o custo de produção resultava da mistura de custos de produção, representados pelo trabalho passado contido nos meios de produção e na força de trabalho, com a utilidade trabalho vivo. Ao trabalho, definido como utilidade da força de trabalho, era atribuída uma dupla utilidade: a criação de novas utilidades dos objectos de trabalho e a criação de uma parcela nova do valor, o lucro. Por que arte mágica criava a utilidade trabalho esta parcela nova do valor, não tendo valor nem a capacidade de se produzir a si próprio, mas apenas a utilidade de produzir novas utilidades dos objectos da sua acção, foi coisa que ao próprio Marx escapou explicar. Não o poderia explicar, mesmo se fosse possuído do maior virtuosismo, porque o valor do custo de produção de uma qualquer mercadoria é apenas determinado pelo valor do custo de produção do trabalho de diversas utilidades que tenha sido consumido na sua produção. A produção das restantes mercadorias é concomitante com a produção do trabalho que as origina, e o valor do custo da sua produção é apenas o valor do custo da produção do trabalho que a sua produção consumiu. Deste modo, o trabalho constitui a mercadoria universal e o custo da sua produção representa o custo de produção de qualquer mercadoria. Comparando a quantidade desta mercadoria universal que cada um cede ao trocar trabalho de diversas utilidades é possível identificar a origem do lucro na troca desigual do trabalho vivo por trabalho passado.
Na minha concepção da origem do lucro não existe qualquer contradição ou qualquer tendência para a desvalorização contínua do trabalho. O valor do trabalho permanece inalterado (desde que seja trabalho produzido com esforço e ritmo ou potência e em condições ambientais similares); em geral, dez horas de trabalho continuam sendo dez horas de trabalho, hoje ou noutra altura qualquer, aqui ou em qualquer lugar. O valor do trabalho não é função do valor das mercadorias compradas pelo salário; é apenas função da energia humana consumida para o produzir. As variações do salário, as variações do valor de troca do trabalho, somente reflectem a variação da troca desigual: quanto menor o salário, ou, melhor, quanto menor o valor das mercadorias compradas pelo salário, em troca da mesma quantidade de trabalho fornecida pelo trabalhador, tanto maiores o lucro e a taxa de exploração ou do valor apropriado. Devido ao facto dos preços das restantes mercadorias não descerem concomitantemente com a subida da produtividade, nem na mesma proporção, os ganhos de produtividade (ou a inflação dos preços) reduzem o valor do salário (o que o Marx designava por mais-valia relativa), até que a concorrência faça baixar os preços ou que a luta reivindicativa dos trabalhadores faça subir os salários. A luta económica, reflectida na variação dos preços e dos salários, não altera o valor do trabalho; altera apenas os termos da troca desigual.
Na esfera da circulação das mercadorias, das trocas, a relação quantitativa entre distintas mercadorias é designada por valor de troca ou preço. Desde há muito, as trocas são realizadas por intermediação da mercadoria equivalente geral dinheiro; o valor de troca das mercadorias é por isso referido à moeda, e o preço assume a forma de preço monetário. Realizando-se o lucro com a troca, ele aparece sob a forma de mais dinheiro obtido com a venda das mercadorias produzidas do que aquele que foi empregado na compra dos meios de produção e do trabalho vivo consumidos na sua produção. Independentemente da forma dinheiro sob que se apresenta, o lucro constitui a parte do valor apropriada pelo capitalista, a qual pode ser consumida improdutivamente ou aplicada na compra de mais meios de produção e de trabalho vivo. Se aplicado na acumulação de factores produtivos, e, portanto, também na compra de mais trabalho vivo, o lucro assume a qualidade de capital.
(continua).
A última panaceia dos ideólogos ao serviço da direita política para a resolução dos problemas do sistema de ensino é o chamado “cheque ensino”. Como as escolas privadas proporcionam melhores resultados aos seus alunos, o Estado deveria financiar a frequência das escolas privadas àqueles que hoje frequentam escolas públicas e pretendessem mudar, forma garantida de melhorar as taxas de sucesso e o nível da qualificação dos alunos, dizem. De seguida, em nome da igualdade, o Estado deveria financiar a frequência àqueles que hoje já frequentam escolas privadas pagando do seu bolso; isto não dizem, mas subentende-se. E assim, em nome do financiamento público do direito de escolha dos pobres, aliviava-se a despesa das classes média e média alta que optam por colocar os filhos nas escolas privadas. Não está mal pensado, não senhor.
Sendo previsível que mesmo com o “cheque ensino” a iniciativa privada não iria investir em novos estabelecimentos para atender à previsível numerosa clientela, nem iria localizá-los nas zonas da sua residência, acarretando maiores despesas e incómodos com transportes, e que se o fizesse constituiria um enorme desperdício de investimento, proponho uma solução mais expedita, à moda da arranjada noutros sectores: a privatização da gestão das escolas públicas e a instituição do “cheque ensino”. Vou até mais longe: arrendamento gracioso das escolas públicas — de todas, por junto, eventualmente, agrupadas em lotes — por um prazo à volta, digamos, dos trinta anos, contra o pagamento apenas das despesas de manutenção; despedimento de professores e de auxiliares supérfluos, segundo a legislação do contrato individual do trabalho, suportado pelo Estado, aliviando a bolsa às novas entidades gestoras privadas e pondo aquela cambada de incompetentes e de madraços na ordem.
Um leitor interessado levantou um conjunto de dúvidas e de divergências acerca das ideias defendidas nalguns dos textos publicados. Ligeiramente corrigidas, aqui ficam as respostas que então lhe dei.
1-Muitos conceitos do Marx são aceitáveis como reconstituição de elementos significativos da realidade social. A constatação de que existem relações sociais estabelecidas naquilo que é básico para a existência — a produção das condições materiais dessa existência — e designar essa parte da realidade por estrutura, e que existem outras relações sociais estabelecidas ao nível das representações que se fazem dessa parte da realidade, que são materializadas em instituições cuja função é assegurar a regulação e a reprodução daquelas relações, e designar esta outra parte da realidade social por superstrutura, parece-me uma feliz conceptualização do Marx. Não vejo razão, por enquanto, para abandonar esses conceitos. A reconstituição conceptual da realidade social foi um dos grandes avanços do pensamento; e o facto do Marx a ter feito nos meados do século XIX é um seu mérito inestimável.