terça-feira, 7 de novembro de 2017

Grande Revolução Socialista Proletária de Outubro de 1917: a maior revolução social de que há memória.

As paixões que desperta — o ódio dos capitalistas privados, a veneração dos adeptos fanáticos e a desilusão dos idealistas ingénuos — podem distorcer a realidade, mas nada apaga o feito memorável da transformação de um velho e vasto Império atrasado no desenvolvimento económico e político num conjunto de países modernos e medianamente desenvolvidos, levado a cabo num curto período histórico pela instauração do comunismo assalariado, sob a forma de capitalismo de Estado monopolista e de Estado totalitário. Passa agora o primeiro centenário, mas por muitos outros será lembrada.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Parece que desta vez caçaram o Pinóquio. Resta saber se o conseguirão fritar...

O sujeito é autoritário, arrogante, mentiroso compulsivo, dissimulado, manhoso, cínico, desprovido de escrúpulos, de ambição desmedida, narcisista provado e tornou-se no Padrinho de um autêntico polvo de tentáculos familiares, de amigos de longa data, de paus-mandados e de serventuários dedicados que foi construindo meticulosamente. Isto para mamar à grande e à francesa de variada corrupção sem que pudesse vir a ser incriminado. Julgava o artista.

Será que ao longo dos anos que andou na política e, depois, exerceu o poder ninguém dos correligionários terá notado os defeitos de carácter do espécime, carinhosamente apelidado de "animal feroz"? Salvou-se apenas um "corajoso" que teve a hombridade de arrepender-se e o desplante de o mandar à merda? É caso para perguntar: eram ceguetas ou simples subordinados agradecidos e por isso bajuladores do chefe? Escroques, é mais simples.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O oportunismo ao rubro de verde vestido: autárquicas, a primeira banhada. Não se preocupem, vêm aí outras.

domingo, 1 de outubro de 2017

O Capital: cento e cinquenta anos de equívocos e de erros transformados pelos marxistas em embuste intelectual (III)

Um leitor dos meus textos (um dos poucos que faziam comentários, entretanto desaparecido daqui como alguns outros, certamente porque a temática não suscita grande interesse e a forma de abordá-la é monótona e às tantas se torna enfadonha, já que não tenho competência nem apetência para abordar outros assuntos e os dotes estilísticos são escassos) colocou-me um conjunto de questões interessantes, correspondentes a dúvidas suas, em comentários ao meu texto “A famosa conversão dos valores em preços de produção”, publicado aqui em 02 de Fevereiro de 2009.

Relendo agora, a oito anos de distância, as respostas que então lhe dei em jeito telegráfico achei-as engraçadas, pela simplicidade com que tratei o assunto da génese do valor apropriado que possibilita o lucro, e muito adequadas para colocá-las aqui com o destaque que me parece merecerem inseridas na temática da efeméride dos cento e cinquenta anos da passagem da publicação do Livro primeiro de O Capital.

Não houve muito que corrigir. Transformei o texto de entradas múltiplas em texto corrido e introduzi entre parênteses rectos um ou outro acrescento esclarecedor.


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O lucro é gerado na compra do trabalho presente e na sua venda como trabalho passado pelo capitalista ao trabalhador assalariado; é gerado, portanto, na esfera da circulação das mercadorias, ou, melhor, na circulação do trabalho enquanto mercadoria universal. Como é fácil de constatar, a troca que aí ocorre é uma troca desigual, pois X horas de trabalho presente são vendidas [pelo trabalhador] pelo preço Y (o salário), ao qual correspondem X - (X.l') horas de trabalho passado, [e são revendidas pelo capitalista como novo trabalho passado consumido na produção das novas mercadorias pelo] preço Y + (Y.l'), em que l' é a taxa de lucro.

A génese do lucro, a determinação da sua taxa e a forma pela qual se processa a sua apropriação pelos diversos capitalistas são questões diversas. As trocas entre os capitalistas e os trabalhadores assalariados não são [apenas] trocas directas; os capitalistas que produzem meios de produção, por exemplo, compram trabalho aos trabalhadores, mas não lhes vendem nada; enquanto os capitalistas que produzem meios de subsistência são quem realiza trocas completas com os trabalhadores assalariados, comprando-lhes trabalho presente e vendendo-lhes trabalho passado. Porque são quem vende trabalho passado aos trabalhadores, os capitalistas do ramo dos meios de subsistência vendem [como trabalho passado] maior quantidade de trabalho presente [do que a] que compraram, porque o vendem aos trabalhadores empregados nos dois ramos da produção social (meios de produção e meios de subsistência).

Aparentemente, no ramo dos meios de subsistência seria realizado um lucro extra, correspondente ao lucro que os capitalistas do ramo dos meios de produção não teriam oportunidade de realizar. Acontece que os meios de subsistência são produzidos com trabalho presente comprado directamente e com meios de produção, os quais, por sua vez, também são produzidos com trabalho presente. Deste modo, ao comprarem meios de produção, os produtores de meios de subsistência estão comprando, indirectamente, o trabalho presente empregado naquele ramo da produção, e com essa compra realizam o lucro dos capitalistas daquele ramo.

O lucro extra que aparentemente seria realizado no ramo dos meios de subsistência, porque venderia [como trabalho passado] maior quantidade de trabalho presente do que aquela que comprara, é afinal distribuído ao ramo dos meios de produção. Como se vê, a apropriação individual do lucro é efectuada por distribuição do lucro total por entre os capitalistas dos dois ramos da produção social [e equitativamente, na exacta medida em que cada um contribuiu para a sua formação].

Para além da forma como se processa a distribuição do lucro, falta determinar em que proporção cada um dos capitalistas o recebe, se proporcionalmente ao trabalho presente que compra (representado pelo capital empregado em salários) ou se proporcionalmente à totalidade do capital empregado. Se todo o capital é empregado na compra de trabalho, seja directamente como trabalho presente, seja indirectamente como trabalho passado, e se todo ele reaparece acrescido pela sua venda [como novo trabalho passado] aos trabalhadores assalariados, é lógico que a repartição do lucro se efectiva através da aplicação de taxas de lucro similares à totalidade do capital empregado.

A concepção do Marx de que o lucro seria determinado pela taxa de mais-valia, e não pela taxa de lucro, não tem qualquer consistência, porque deriva duma concepção errada da sua génese como trabalho suplementar gratuito fornecido pela força de trabalho. Desta concepção resultava a apropriação individual directa e na proporção da parte do capital empregada como salários, o que entrava em contradição com a realidade e com os fundamentos do capitalismo.


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A concepção da génese do lucro pela troca desigual entre o capitalista e o trabalhador assalariado e a explicação da distribuição do lucro por entre os distintos capitalistas que apresento nestes textos são de minha autoria. Tanto quanto julgo saber, são originais [tenham o valor que tiverem, que eventualmente poderá não ser muito]. A designação “troca desigual” não é original, pois foi utilizada anteriormente por Arghiri Emmanuel, no seu caso, para designar a desigualdade que ocorre nas trocas internacionais e não a das trocas entre os capitalistas e os trabalhadores.

É bondade sua designar estas minhas concepções por teoria, visto que se referem a aspectos parcelares, ainda que fundamentais, da economia política. Julgo serem plausíveis e explicarem a realidade sem discrepâncias, mas só a passagem pelo crivo da crítica poderá conferir-lhes qualquer credibilidade. Apesar dos erros da sua teoria, reconheço mérito à tentativa do Marx, e as minhas concepções, de facto, mantêm-se no âmbito da teoria do valor-trabalho, que não encontra muitos adeptos fora do marxismo. De qualquer modo, isso não faz de mim adepto marxista. [As minhas concepções, aliás, constituem uma alternativa, pois defino o valor do custo de produção das mercadorias como valor do custo de produção do trabalho].

É como diz, a famosa conversão dos valores em preços de produção foi uma tentativa de corrigir a contradição da concepção marxista de taxas de lucro inversamente proporcionais à composição orgânica dos capitais, como [também] acontecia com a teoria do Ricardo. Em meu entender, eventualmente, é da autoria do Engels, que com ela tentou salvar, infrutiferamente, a credibilidade da obra do Marx. Os preços nominais das mercadorias sempre foram formados pela aplicação da taxa de lucro esperada; aliás, sendo os capitalistas compradores e vendedores de mercadorias, não se compreende porque apenas obteriam lucro da compra da mercadoria trabalho [presente] e não das outras mercadorias necessárias ao processo produtivo.

Esta famosa conversão apenas era necessária para corrigir o modelo original de formação dos preços nominais do Marx, decorrente da concepção da troca equitativa e da mais-valia como trabalho suplementar fornecido gratuitamente pela força de trabalho. Uns ideólogos esforçaram-se a demonstrar que estava errada, embora o que lhes interessasse fosse a refutação da teoria clássica do valor-trabalho e da origem do lucro como trabalho apropriado; enquanto outros, os marxistas, se esforçaram e continuam empenhados a tentar salvar e a justificar a conversão, aparentemente sem se aperceberem [de] que esse é um esforço inglório, porque o erro reside no modelo original do Marx.

A refutação da conversão é proporcionada pela própria explicação defendida para a formação dos chamados preços de produção. Baseando-se na concepção de que as mercadorias produzidas com maior composição orgânica dos capitais (e, logo, com maior produtividade) seriam vendidas acima do valor e as produzidas com menor composição orgânica seriam vendidas abaixo do valor, [essa explicação] refuta que as mercadorias teriam sido alguma vez vendidas pelo valor, como era defendido pelos economistas clássicos e pelo Marx.

O que surpreende é os marxistas, ainda hoje, defenderem a concepção absurda de que a força de trabalho é a mercadoria vendida pelo trabalhador e que o lucro tem origem na faculdade extraordinária desta mercadoria mágica para fornecer mais valor do que o seu [suposto] próprio valor; isto é que me parece deveras extraordinário, coisa de conto de fadas para mentes infantis. [Mas os marxistas, como os crentes no sagrado, mesmo adultos feitos e com idade para terem juízo são propensos à crendice nos milagres mais inverosímeis, bastando-lhes as aparências do prodígio].

Os capitais não migram para os ramos em que a composição orgânica dos capitais é menor, mas para aqueles em que ela é maior, [o que permite] não só aumentar o ritmo da produção como a produtividade do trabalho e o lucro. A mecanização e a automatização, iniciadas com a revolução industrial, e prosseguidas hoje com as tecnologias da informatização, aí estão para comprová-lo de forma exuberante (e mesmo em pleno século XIX, no tempo do Marx, a automatização da produção têxtil do seu amigo Engels, por exemplo, evidenciava a tendência que se acentuaria para o aumento constante da composição orgânica dos capitais).


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Comungo de muitas das apreciações que faz acerca do marxismo. Se o comunismo se tem quedado por ser um movimento político e não por ter sido uma experiência política com as consequências positivas e negativas conhecidas, é muito provável que o marxismo não chegasse a conhecer a divulgação que teve. [Duvido] de que as experiências comunistas devam ao Marx mais do que a inspiração na profecia classista redentora da proclamação panfletária de 1848 [do] Manifesto do Partido Comunista e na Crítica do Programa de Gotha. Em meu entender, o essencial do comunismo, desde a possibilidade da sua eclosão até às formas concretas de que se revestiu, deve muito mais ao leninismo-estalinismo (baptizado de marxismo-leninismo) do que ao marxismo.

A sua melhor relação com o marxismo acaba por ser a demonstração de que a tese da revolução socialista proletária é um idealismo pegado, que não corresponde a qualquer necessidade de revolução social. Daí o carácter de desenvolvimento do capitalismo em sociedades menos desenvolvidas e o cunho nacionalista que o comunismo assumiu por todo o lado, com o estado a desempenhar o papel que caberia às burguesias nacionais, e o proletariado a produzir a mata-cavalos a acumulação necessária para a rápida transformação de sociedades atrasadas em modernas sociedades desenvolvidas.

Concordo que as teorias do valor e da génese do lucro para além da dita teoria do valor-trabalho, pretendendo explicar o lucro pela psicologia de produtores e de consumidores, de facto, nada explicam e não passam de discursos legitimadores do lucro. Ora, a melhor legitimação do lucro é a sua já longa existência, demonstrando a sua importância social. O problema que a humanidade tem de resolver não é tanto a existência ou a legitimação do lucro, mas de quem dele se apropria.

Almada, 9-17 de Junho de 2009.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O Capital: cento e cinquenta anos de equívocos e de erros transformados pelos marxistas em embuste intelectual (II)

Em Portugal, a intelectualidade que se julga marxista, incluindo a que não anda por aí a afirmá-lo, constitui um pequeno número de entre os que se pode incluir nessa categoria social assaz difusa. De entre eles, os que conhecem a obra do Marx, principalmente O Capital, são em número ainda mais reduzido. Com tão poucos conhecedores, não admira que nos congressos e colóquios que têm tido lugar entre nós dedicados à obra do Marx ou ao marxismo o nível dos discursos, mesmo o dos apologéticos, seja muito pobre.

Os marxistas, infelizmente, não compreendem a obra do Marx, pelo que se torna muito complicado debater com eles as ideias do seu mestre. Num tal debate, amiúde temos de refutar as ideias do Marx e as ideias deformadas que eles têm dessas ideias, o que constitui um trabalho duplamente árduo e geralmente improfícuo. E é confrangedor ver gente jovem, além do mais com formação universitária ou até fazendo carreira académica, a papaguear algumas das baboseiras do Marx. Isto já não apenas por cá, mas por todo o lado.

Eles não compreendem o conceito de valor das mercadorias, acerca do qual fazem múltiplas confusões, e repetem sem pensar duas das palermices que constituem o cerne da obra do Marx: a de que a força de trabalho é a mercadoria vendida pelos trabalhadores assalariados (no dizer do Engels, o primeiro dos marxistas, a única originalidade do Marx em relação aos economistas políticos clássicos) e a de que o lucro constitui um valor a mais (ou mais-valia) criado pelo trabalho para além do valor da força de trabalho que o originou.

Não se interrogam que na sociedade que generalizou o trabalho assalariado a mercadoria vendida pelo trabalhador não seja o seu trabalho mas a sua capacidade de o produzir (a sua força de trabalho), mesmo que essa sua capacidade não se possa desprender do seu ser, seja por si consumida e ele apenas possa fornecer o trabalho que produz com ela. Levianamente, propalam que o trabalho, sendo produto duma suposta mercadoria, é o criador do valor e de mais valor do que o da suposta mercadoria que o produziu, como se alguma coisa pudesse fornecer mais do que contém, seja do que for que contenha, e da criatura criar mais do que o criador que a criara.

O valor apropriado pelo capitalista provém da compra do trabalho presente (ou vivo) por preço abaixo do preço do valor e da sua venda como trabalho passado (ou morto) por preço correspondente ao do valor, constituindo o que venho designando desde há anos por troca desigual. Isto nada tem a ver com a concepção da mais-valia do Marx como sendo trabalho não pago. Na sua cegueira, os marxistas continuam repetindo uma tal baboseira sem se aperceberem do ridículo em que caem ao considerarem como não pago algo (o trabalho) que na sua concepção não seria vendido nem comprado e que por isso não teria de ser pago.

O texto que se segue é ilustrativo da miséria franciscana que caracteriza o nível dos marxistas portugueses. É a transcrição de três comentários inseridos no blog Vias de Facto, em 20, 22 e 23 de Julho de 2010, acerca de um texto de um tal Ricardo Noronha (A crise do valor) e das suas réplicas, que poderá consultar aqui.


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O tema é complexo, pelo que é temerário abordá-lo tão levianamente, sem questionar os conceitos, aceitando-os passivamente como se de conhecimento certo se tratassem. A fé, neste como em todos os outros casos, conduz ao logro.

Usando, como usa, os conceitos de “valor de uso” e de “valor de troca”, não acha estranho usar um outro conceito como simplesmente “valor”?

Afinal, que é isso do valor das mercadorias? Valor será algo diferente do resultado duma medida (feita a olhómetro, por estimativa, por cálculo ou por comparação)? Se assim não for, de que grandeza será esse tal valor o resultado da medida? Sim, porque deverá haver uma grandeza das mercadorias [uma sua característica mensurável] a que atribuamos valor, para além das grandezas utilidade e relação na troca. Ou não? Desvende este primeiro mistério.

Depois, o que é que cria o valor dessa tal grandeza das mercadorias? O trabalho vivo, como diz o Marx? Então, não lhe parece estranho que essa mercadoria especial de corrida, a força de trabalho, tenha o seu valor criado pelo trabalho passado e não pelo trabalho vivo? Afinal, em que é que ficamos? O que é que cria esse tal valor? O trabalho vivo ou o trabalho morto? Pense nisso, porque como bem notou o Engels: “Ou o trabalho acumulado cria valor, como o trabalho vivo, e então a lei do valor não vigora; ou não o cria (…)” (F. Engels, prefácio ao Livro terceiro de O Capital). Tire você as conclusões que ele não soube tirar.

Só depois disto poderá partir para a desmontagem de toda a tralha marxista, quer se refira à crítica da economia política, quer à profecia messiânica do comunismo proletário, de que me apercebo ser você um fiel devoto.

O seu post está repleto de confusões e contém algumas barbaridades ditas inconscientemente. Seria fastidioso apontar-lhas. Ressalto apenas esta: “o nível de necessidades históricas da classe trabalhadora portuguesa é bastante superior ao da indiana”. Acha mesmo, Ricardo, que as classes trabalhadoras tenham necessidades de nível diferente entre si ou diferente em relação aos capitalistas? Não estará confundindo o nível das necessidades que lhes é permitido satisfazer historicamente com o nível histórico das suas necessidades?

E, depois, o que tem o nível das necessidades a ver com o tal valor das mercadorias? Você pode ter necessidades insaciáveis, mas em que é que isso altera o valor da mercadoria que vende e o valor que lhe pagam por ela?

Pense. O que lhe faz falta é amadurecer a reflexão e armar-se do espírito crítico, ferramenta indispensável para a produção de conhecimento.


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Ricardo Noronha.

Não guardo recordação de já termos debatido isto (ou qualquer outro assunto). Eventualmente, porque o resultado não terá sido satisfatório. De qualquer modo, você proporcionou agora outra oportunidade, trazendo a matéria a debate, o que poderá ser sinónimo do seu interesse e é salutar e de registar, razão pela qual me decidi a intervir, mesmo sabendo das limitações deste meio para discussões sobre questões desta natureza.

Eu próprio não estou seguro de não navegar em equívocos, tome nota. Não seria novidade, tantos foram aqueles em que já naveguei. Mas você equivoca-se redondamente ao afirmar que li Marx apressadamente (não sei mesmo que tipo de arte adivinhatória lhe permitirá afirmar tal). Elucido-o: as leituras dos textos do Marx foram muitas, demoradas e, nalguns temas, exaustivas, e vêm já de longa data (de há mais de 40 anos, imagine). Poderá invocar que o tenha lido mal, não compreendido, e por aí fora. Conviria, contudo, demonstrá-lo, usando o melhor dos instrumentos: argumentos.

Coloquei-lhe apenas duas pequenas questões, mas constato que não respondeu a nenhuma, ou, pelo menos, não concretizou as respostas, de modo que pudessem ser entendidas com clareza.

Diz que os “conceitos de “valor de uso” e de “valor de troca”, são aqui pouco relevantes”. Não me parece ser o caso, pois eles designam ideias facilmente compreensíveis, a saber: o valor ou dimensão do “uso” ou da “utilidade” e o valor ou dimensão da “relação de troca”. Com eles, portanto, ficamos a saber que as características “utilidade” e “relação de troca” são duas grandezas que definem as mercadorias (e por isso podem ter valor, o resultado da medida da sua dimensão ou quantidade). Já quanto àquilo a que chama “valor das mercadorias” continua sem designar a grandeza (característica mensurável) das mercadorias a que esse valor (resultado da medida) se refere.

Ficamos a saber apenas que esse valor — quantidade de trabalho que as mercadorias contêm — se refere a qualquer grandeza, ainda não designada, que o trabalho confere às mercadorias. Não sendo muito, é o bastante para não sairmos da ambiguidade em que o Marx deixou o assunto (assim como os clássicos que o antecederam). Isto porque a utilidade, por exemplo, é também uma grandeza conferida pelo trabalho às mercadorias produzidas (abstraindo, portanto, das que são oferta da natureza), ainda que o seu valor não seja expresso na quantidade de trabalho que contenham.

Diz depois que o ”valor respectivo [das mercadorias] diz respeito à quantidade (e, progressivamente, à qualidade) de trabalho que cada um[a] implicou”. Mas imediatamente antes afirma que ” Um garrafão de vinho não teria valor se não pudesse ser trocado por um saco de aveia ou um fardo de algodão”, o que constitui uma manifesta contradição com a ideia de que o chamado valor constitui a medida do trabalho implicado na sua produção. Deste modo, parece que o garrafão de vinho teria sido produzido pelo divino espírito santo (ou pela natureza, ou lá pelo que fosse) e não pelo trabalho humano.

É claro que o garrafão de vinho tem “trabalho implicado” e, como tal, tem o chamado “valor”. Chamemos, por comodidade, a este trabalho implicado “custo de produção”, o tal músculo, nervo e cérebro, a que se refere o Marx, que custou aos trabalhadores que o produziram, e a este valor “valor do custo de produção”, identificando assim a grandeza a que esse tal “valor” se refere. Em mais uma das suas muitas contradições, o Marx disse que este valor apenas se manifestava na troca, ideia que você repete um pouco atabalhoadamente dizendo que o tal “garrafão de vinho não teria valor se não pudesse ser trocado”.

Nota-se que é coisa estapafúrdia, não? Ou bem que o garrafão de vinho é fruto do trabalho humano, e tem custo de produção, ou bem que é fruto do divino espírito santo, e não tem custo de produção. O que o glosado garrafão de vinho, se não for trocado, não tem é valor de troca, dado que se não for vendido não chega a relacionar-se com qualquer outra mercadoria. Isto quer apenas dizer que o produto útil garrafão de vinho, não sendo trocado, não adquiriu a qualidade de mercadoria, aquilo que se merca, que se compra e vende. Neste caso, o seu valor de custo de produção transformou-se em mero desperdício.

Mas, se for vendido, continua a ter o seu “valor do custo de produção” e adquire “valor de troca”. O erro do Marx foi pensar que este valor de troca das mercadorias expressava fielmente o seu valor do custo de produção, erro decorrente da aceitação duma falácia da ideologia dominante que afirmava que as mercadorias se trocavam pelos seus valores e que a troca era uma troca equitativa. Daí que, se as mercadorias se trocavam pelos seus valores, o chamado “valor” tenha passado, para o Marx, a ser a mesma coisa que o “valor de troca”. Isto, de facto, é o que se passa, em geral, nas trocas entre os capitalistas (verificável pela similaridade das taxas de lucro), e não admira que eles assim vejam o mundo, mas não é o que se passa nas trocas entre os capitalistas e os trabalhadores assalariados. Doutro modo, como seria originado o lucro?

Para sair da trapalhada, e poder explicar a génese do lucro, o Marx inventou a “força de trabalho” (que, como o Engels muito bem afirma, foi a sua única originalidade em relação à economia política clássica) como sendo a mercadoria vendida pelos trabalhadores assalariados, ao contrário do trabalho, tido até então como sendo a mercadoria [por eles] vendida. Uma mercadoria muito especial, diga-se de passagem, pelas capacidades que lhe foram conferidas, com a qual o Marx resolveu, de uma penada, todas as dificuldades em que esbarrara a economia política clássica.

Eu chamo-lhe “mercadoria mágica”, tão irreal é a suposta mercadoria. Para encurtar caminho, uma tal mercadoria, como todas, sendo vendida pelo seu suposto valor (o valor das mercadorias compradas pelo salário), tem a faculdade de fornecer mais valor do que esse seu suposto valor, como se alguma coisa pudesse fornecer mais do que contém, seja do que for que contenha, numa clara violação das leis da física. Esse suposto valor a mais que teria a faculdade de fornecer (a famosa mais-valia) não era mais do que o lucro. Assim se resolvia o maior dos quebra-cabeças.

O maior virtuosismo da “força de trabalho” estaria ainda para vir (mas desse o Marx talvez não se tenha apercebido). Sendo as mercadorias produtos do trabalho humano, e o seu valor criado pelo trabalho humano vivo (num mecanismo também muito engraçado), esta especialíssima mercadoria, afinal, escapava a mais uma das condições: ela não tem o seu valor criado pelo trabalho vivo, visto este não entrar na sua produção, não constituindo seu factor produtivo, mas constituir somente o seu produto. Deste modo, em coerência, a “força de trabalho” não teria valor. É claro, seria um absurdo não atribuir valor a uma tal mercadoria. Daí que o Marx lhe tenha atribuído como valor o seu “valor de troca”, o trabalho morto constituinte das mercadorias compradas pelo salário.

O efeito da exploração, o valor a menos atribuído na troca à mercadoria vendida pelos trabalhadores (fosse ela qual fosse), era confundido com a sua causa, passando a constituir o valor a mais (a famosa mais-valia) que a “força de trabalho” tinha a faculdade mágica de fornecer. Também não é engraçado? E aqui temos a famosa mercadoria mágica, cujos “dons” especiais de que está possuída permitiram ao Marx ultrapassar as dificuldades até então não ultrapassadas para a explicação da génese do lucro.

Por esta razão lhe perguntei o que é que criava o tal valor das mercadorias e o valor desta tão especial mercadoria “força de trabalho”. Você não respondeu e preferiu remeter-nos para uma suposta direcção em que eu pareceria apontar (de sua inteira imaginação), a de um hipotético futuro longínquo de ”uma linha de montagem inteiramente automatizada”, quando eu lhe colocara uma questão bem real, existente desde os primórdios do capitalismo. Seria melhor ter tentado desvendar o mistério, retirando as conclusões que o Engels não soube tirar. Mas os marxistas parecem mais interessados em imaginarem o futuro do que em desvendarem os mistérios do presente. Para eles, a verdade foi já revelada.

Não se prenda com as minhas supostas leituras apressadas do Marx. Prenda-se com as minhas ideias. Dê-me troco. Refute-as. Se faz favor. Porque eu gostaria de saber a sua consistência.


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Se preferir, poderemos interromper aqui o debate e retomá-lo noutra altura que lhe pareça mais adequada. Com tempo, poderá encontrar em O Capital, logo à entrada do Livro I, as citações do Marx que me pede. Não sou muito dado a citações; parto do princípio de que os marxistas conheceriam suficientemente bem a obra do Marx para não necessitarem de citações para relembrarem as ideias em causa. Este método é também um pretexto que uso para que os menos conhecedores, que aprenderam por cartilhas de divulgação, passem a ir à fonte e, aí, não se fiquem por citações desgarradas e fora do contexto. Sei que a matéria é complexa, que exige grande capacidade de abstracção, e que o estilo do autor é denso e repetitivo, reflexo das suas próprias dificuldades, mas só tendo compreendido as ideias do Marx é possível discuti-las. E tê-las compreendido é coisa que falha à generalidade dos marxistas, que apenas as papagueia.

Sei também que é talvez exigir demasiado, porque se tivessem compreendido as ideias do Marx os marxistas ter-se-iam apercebido das ambiguidades e dos (e de alguns dos) erros e já teriam, ao menos, contribuído para saná-los e para as melhorarem com contributos originais. Constata-se, ao fim destes 143 anos desde a publicação do Livro I de O Capital, que cada geração de marxistas anda a tentar compreender o Marx e morre sem que o tenha conseguido; quando algum o consegue, abandona o marxismo, por ter percebido o logro. Nem calcula as exclamações que eu próprio fui proferindo, à medida que a cada releitura compreendia um pouco melhor a coisa (cujo espanto está reflectido nas anotações à margem e em outros meios). Por isso, nenhum deu qualquer contributo que superasse o próprio Marx. É surpreendente, mas é assim. Isto é revelador de quanto é difícil apreender e reconstituir conceptualmente a realidade social, mesmo partindo duma boa base, como é O Capital (que é o que mais importa da obra do Marx); de quanta capacidade de abstracção e dose de espírito crítico são necessárias para nos interrogarmos acerca de cada conceito que nos parece óbvio e de cada significado que nos parece plausível.

Não vou comentar a sua resposta. Não julgue que é por menor consideração. É por achar que não seria profícuo. Acontece que ela tem muitas confusões, mesmo em relação às ideias do Marx, e algumas contradições e passagens incompreensíveis, o que me faz pensar que terá sido uma resposta apressada e que este poderá não ser o momento adequado para continuarmos a debater. Deixo-lhe, sem qualquer sublinhado, apenas um parágrafo da sua resposta que justifica o que digo, para que possa reflectir um pouco melhor: ” Quanto ao trabalho como fonte do valor. Não há, parece-me, qualquer mistério no processo. O valor de troca da mercadoria trabalho é inferior ao seu valor de uso. Ele produz mais do que recebe e a palavra "produz" é mais indicada do que a que você emprega - "contém". A reprodução da força de trabalho também envolve trabalho vivo, a não ser que fora do seu horário de trabalho o trabalhador ainda vá cultivar a terra e cardar a lã. Mas então seria preciso compreender (por que) razão iria trabalhar. Você pretende captar as várias componentes do ciclo do capital isolada e detalhadamente, mas elas só são compreensíveis no seu movimento geral e não uma de cada vez”. Mas se preferir continuar a debater por minha parte estarei disponível, ainda que tenha de usar respostas extensas.

Almada, 20-23 de Julho de 2010.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O Capital: cento e cinquenta anos de equívocos e de erros transformados pelos marxistas em embuste intelectual (I)

Não tenho pachorra para concluir em tempo útil um texto que trago entre mãos acerca da passagem dos cento e cinquenta anos da publicação do Livro I de O Capital, de Karl Marx, em 14 de Setembro de 1867. Como não pretendo deixar passar em claro a efeméride, irei publicando, entretanto, textos antigos dispersos, inseridos como comentários em blogs da nossa praça dirigidos por marxistas (de marxistas-leninistas, a trotskistas, a maoistas, a conselhistas e a outros que tais).

Este primeiro texto foi inserido no blog “5 dias”, hoje inactivo, em 24 de Setembro de 2010. Trata-se de um segundo e último comentário meu como resposta a um outro comentário (bem estruturado) de um tal “Desacordo” (por sinal, um marxista informado e com uma prosa agradável, embora fazendo algumas confusões) em resposta ao meu primeiro comentário, tudo a propósito de um texto do Eugénio Rosa intitulado “Mais valia”, publicado naquele blog em 21 de Setembro (que poderá consultar aqui).

O texto é sarcástico, quiçá em demasia, admito. Na época não tinha grande pachorra para aturar marxistas a papaguearem até à náusea as baboseiras do Marx. E ainda hoje a cegueira dos marxistas e a ausência de espírito crítico com que abordam a obra do Marx tiram-me do sério. Reconheço não me ser fácil manter um registo sóbrio e comedido perante tamanhas manifestações de crendice. O sarcasmo, portanto, não é defeito, é feitio.

Correcções de gralhas e pequeníssimas alterações morfo-sintácticas não alteraram o estilo descuidado (que foi mantido) nem o sentido do texto. O subtítulo é de agora, assim como um curto período clarificador.


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O caso prodigioso da mercadoria mágica "força de trabalho"


Regressado há poucas horas à blogosfera, após um virar de página (porque a produção desta casa é muita e os produtos saem rapidamente da montra principal) deparo-me com o seu interessante comentário de resposta a um meu. Fiquei deveras surpreendido, não tanto pelo sumo do seu comentário, papagueando as baboseiras do Marx (sim, leu bem, e eu repito, para que não restem dúvidas a si e a outros leitores: papagueando as baboseiras do Marx), mas pelo à-vontade com que me trata, como se fôssemos velhos conhecidos e, até, amigos: o amigo isto, o amigo aquilo. Como não nos conhecemos de parte alguma, deu-me uma súbita vontade de mandá-lo àquela banda, que facilmente compreenderá qual é. Contive-me, porque sei que seria gastar cera com ruim defunto: os prosélitos não perdem facilmente os seus tiques. Também não fiquei com grande vontade de retorquir às baboseiras do Marx que papagueia. Reconsiderei, porque oportunidades de ridicularizar as palermices que os marxistas papagueiam não surgem todos os dias.

Permita-me que nesta resposta o trate por alminha. É um termo neutro ou quanto muito meramente caridoso, não encerra qualquer conotação pejorativa. Então, aqui vai.

1- Vou deixar de lado as baboseiras da sua lavra acerca da integração do custo dos serviços prestados pelo Estado aos trabalhadores nos salários, e das dificuldades de contabilização que isso acarretaria para o cálculo da taxa de mais-valia. Refiro apenas que a dificuldade reside na sua cabecinha, alminha. Para aquele cálculo, bastará usar o montante bruto dos salários (contabilizando nesse montante as contribuições directas e indirectas (as erradamente designadas por contribuições patronais) para a segurança social e os impostos pagos) e os lucros brutos. As suas dificuldades derivam de você pretender, infrutiferamente, calcular o valor da mercadoria mágica “força de trabalho”. As dificuldades do Eugénio Rosa são muito mais realistas, porque as estatísticas oficiais contabilizam como remunerações retribuições de gestores e de outros quadros das empresas, que gerem o capital, que pouco ou nada têm a ver com salários, porque tais gestores e quadros apenas de nome são trabalhadores assalariados.

2- Diz não estar “muito certo de ter percebido bem” o que eu queria dizer quando classificava “a mais-valia (recebida pelos capitalistas) como uma “menos-valia” recebida pelos trabalhadores assalariados”. Eu, então, estou certo de que o alminha não percebeu mesmo. Se tivesse percebido veria que quando falo “de mais-valias e de menos-valias” é porque se “trata de um comércio entre capitalistas e trabalhadores, em que os primeiros ganham porque conseguem comprar uma mercadoria abaixo do preço a que vendiam os segundos, que desse modo perdem”, como o próprio alminha reconhece pelas suas palavras citadas.

Aquilo que o Marx afirmou ser uma “mais-valia” proporcionada pela “força de trabalho” – e, note, alminha, o Marx apenas o afirmou num curto período de uma dúzia de palavras, sem que o tenha justificado, como se de um facto inegável se tratasse – o alminha papagueia, cento e quarenta e três anos depois, como se alguma coisa poder fornecer mais do que contém fosse a maior das banalidades. Alminha: ainda não lhe deu para pensar um pouco, só um poucochinho, em tamanha barbaridade? Nesta altura do campeonato, quando a física já se debruça sobre as causas últimas das coisas, acha mesmo que alguma coisa pode fornecer mais do que contém, seja do que for que contenha? Se acha, estamos conversados. Se, ao menos, for assaltado pela dúvida acerca duma questão tão simples, e que constitui o cerne de uma das clamorosas baboseiras do Marx, então, poderemos continuar a conversa. Doutro modo, não há o que conversar. Persistir em infantilidades do calibre das prodigiosas propriedades atribuídas à mercadoria mágica “força de trabalho”, de entre as quais avulta a de com o “seu uso criar mais valor do que ela própria vale”, torna a conversa totalmente infrutífera e transforma-a em pura perda de tempo.

É que, alminha, o facto incontestável de que o homem, com o seu trabalho, tem vindo a obter da Natureza mais energia do que aquela que consome na produção do trabalho que emprega nessa actividade de recolha e de transformação é apenas uma condição necessária para que se estabeleça a exploração de uns por outros homens, que torna possível a apropriação de trabalho alheio. Doutro modo, nada haveria para que outros se apropriassem. Digamos que um tal facto é a condição para que tenham sido constituídas as sociedades humanas divididas em classes sociais distintas, mas não explica as formas pelas quais se tem processado a apropriação de trabalho alheio ao longo das múltiplas fases do desenvolvimento social. Algumas dessas formas eram facilmente apreendidas, porque se baseavam em coerções extra-económicas. A forma pela qual ela se processa na sociedade capitalista parece estar ainda envolta em mistério. O Marx julgou ter desvendado um tal mistério pelo recurso à mercadoria mágica “força de trabalho”, a tal que proporcionaria mais valor do que o seu próprio valor; mas, alminha, já é tempo de nos deixarmos de magias e de faculdades prodigiosas, atributos reservados aos deuses. Não lhe parece?

3- Diz-me você, alminha, que parece eu “discordar, e até desdenhar, da noção de que não se compra nem se vende trabalho, de que o trabalho não é uma mercadoria”. Não, alminha, não parece: discordo mesmo. Não acha estranho que na sociedade do trabalho assalariado a mercadoria que se compra e vende não seja o trabalho? É que persistir nessa outra baboseira que o Marx inventou – que a mercadoria vendida pelos trabalhadores assalariados seria a mercadoria mágica “força de trabalho” – acabando por constituir a sua única originalidade em relação à economia política clássica (palavras do Engels, o mais categorizado dos marxistas), é de uma grande boçalidade. É escusado repetir e repetir que “o que se compra e o que se vende é a força de trabalho, a mercadoria é a força de trabalho”, porque mesmo muito repetida uma tal patranha não se transforma em realidade.

Como já tenho dito, estou disposto a fornecer aos crentes em semelhante dislate a quantidade de “força de trabalho” que quiserem comprar-me. Aviso que a vendo barato. Bastará dizerem-me como pretendem recebê-la. Ficam já de sobreaviso: não me responsabilizo se não puderem recebê-la. E não aceito reclamações: não me peçam que tendo eu vendido “força de trabalho” lhes forneça trabalho. É escusado dizerem-me, como você, alminha, que o “trabalho é simplesmente a utilização da força de trabalho, o exercício, a actividade da força de trabalho”. Isso já sabemos. Os crentes na baboseira de que a “força de trabalho” é a mercadoria vendida pelos trabalhadores é que têm de explicar como é que os compradores duma tal mercadoria a poderão receber e pô-la a produzir trabalho. Não vale afirmarem que o trabalhador vende “força de trabalho” e tem de fornecer trabalho. Ou bem que a mercadoria vendida pelo trabalhador é a sua capacidade de produzir trabalho, a sua “força de trabalho”, ou bem que é o trabalho que produz com ela.

Não há muito por onde enganar, alminha. Se você, amanhã, supondo que estaria realmente persuadido desta patranha na qual nem você acredita, se apresentasse ao seu patrão, fresco que nem uma alface, bem comidinho e cheio de genica, que é como quem diz cheio de “força de trabalho”, e se encostasse à bananeira, esperando que ele recebesse a sua “força de trabalho”, e não lhe fornecesse o trabalho da utilidade, na quantidade e com a qualidade que ele lhe comprou estou certo de que comprovaria que a puta da realidade não se compadece com as baboseiras do Marx acerca da mercadoria vendida pelos trabalhadores assalariados. Se ainda tem dúvidas, alminha, experimente. O patrão lhe dirá que mercadoria lhe comprou. Nada melhor do que a prática para deslindar um tal mistério.

Sabemos a razão pela qual o Marx inventou semelhante patranha: é que de outro modo não lhe era possível sair do impasse a que tinha chegado a economia política clássica. Como você bem papagueia, alminha, “se o trabalho fosse uma mercadoria que se trocasse (vendesse) por um equivalente do seu valor em dinheiro, como para as outras mercadorias, não se perceberia como é que o capitalista lucraria nessa compra”. De facto, sendo o trabalho a mercadoria vendida e sendo trocada pelo seu equivalente (em valor) não explicava a origem do lucro. Para resolver tal impasse, o Marx rejeitou que fosse o trabalho a mercadoria vendida, mas aceitou que as mercadorias se vendiam pelos seus valores, numa troca equitativa ou de equivalentes. A troca das mercadorias entre os capitalistas, de facto, fazia-se na base da troca de equivalentes, digamos para simplificar que era uma troca equitativa e que eles não se trapaceavam mutuamente, mas nada permitia afirmar que a troca entre os capitalistas e os trabalhadores fosse uma troca de equivalentes. Entrava pelos olhos dentro que um sujeito que trabalhava doze horas e na mercearia apenas podia comprar com o salário o correspondente a seis horas de trabalho não recebia o equivalente ao que vendera. Em vez de questionar a famosa lei geral da troca das mercadorias, a troca equitativa ou de equivalentes, o Marx optou por arranjar uma mercadoria especial de corrida, a tal dotada de propriedades mágicas, entre elas a de fornecer mais valor do que o seu próprio valor, a famosa mais-valia.

Terá sido maldade? Seguramente, não. Foi fruta da época, do contexto científico muito pouco desenvolvido ao tempo, do fraco nível em que se encontravam os discursos sobre a economia política, a que apenas os ideólogos burgueses se dedicavam, e do contexto geral do domínio exercido pela ideologia da classe dominante. Muito dificilmente os ideólogos burgueses poderiam ver o mundo de forma diferente do que se passava entre os capitalistas; e também muito dificilmente o Marx poderia romper radicalmente com o contexto em que se encontrava mergulhado. Ter tomado partido por quem trabalha foi já importante. Mas isso não foi suficiente para produzir uma explicação consistente para a exploração de que os trabalhadores assalariados são alvo na sociedade capitalista.

4- Não vou debruçar-me sobre as baboseiras acerca do trabalho produtivo que você aborda no seu comentário. Do que se seguirá facilmente compreenderá que não é o trabalho que cria o valor das mercadorias; o trabalho, como mercadoria vendida pelos trabalhadores assalariados, tem valor, e é de trabalho que os capitalistas se apropriam. Se assim é, o trabalho que produz lucro é o trabalho presente ou vivo que é comprado aos trabalhadores e que lhes é vendido sob a forma de trabalho passado, qualquer que seja a sua utilidade concreta. A distinção que o Marx fez acerca do trabalho produtivo deriva da sua concepção errada de que o trabalho criava o valor das mercadorias, e, portanto, que apenas o trabalho empregado na produção das coisas, dos objectos e dos serviços, criando-lhes o seu valor, seria produtor de lucro. As concessões que acabou por fazer ao trabalho empregado nos transportes e na manutenção são apenas enxertos forçados na sua concepção do valor das mercadorias.

O caso que abordo prende-se ainda com a mercadoria mágica “força de trabalho”. Para além das propriedades especiais que lhe foram atribuídas para explicar a génese do lucro falta referir a mais paradoxal. Refere-se esta ao seu valor, ao modo como o valor da “força de trabalho” seria determinado, a que você, alminha, parece dedicar algum esforço. Sendo o valor das mercadorias, na concepção do Marx, criado pelo trabalho vivo, e medido pelo tempo da sua prestação, através dum mecanismo algo confuso de conservar valor (do trabalho passado) e de acrescentar valor novo (correspondente ao da “força de trabalho” e a uma mais-valia, como ele dizia), todas as mercadorias terão de ter o seu valor criado pelo trabalho vivo. Não valerá aqui invocar que o valor é criado pelo trabalho, porque na concepção marxista é-o pelo trabalho vivo. Por muito trabalho passado que seja empregado, se não entrar no processo de produção uma pitada que seja de trabalho vivo nenhum valor (do trabalho passado) foi conservado e, portanto, as mercadorias assim produzidas não terão qualquer valor. É escusado arranjar outra versão para tentar salvar a honra do convento. Nesta altura do campeonato tal manobra é escusada.

Acontece que a mercadoria mágica “força de trabalho” não é produzida pelo trabalho vivo. Nenhuma pitada de trabalho vivo assalariado entra na produção dessa suposta mercadoria. Não existe trabalho vivo assalariado com uma utilidade tão específica. Também não colhe afirmar que o próprio corpo do trabalhador, que tem a faculdade única de produzir energia humana que é transformada em trabalho humano de diversas utilidades, seria ou forneceria esse trabalho vivo. Mesmo com uma concepção tão mirabolante, esse suposto trabalho vivo não seria mercadoria nem seria proveniente de “força de trabalho” comprada pelo trabalhador a outrem nem a si próprio. Nem vale, também, afirmar levianamente, como o fez o Ricardo Noronha num outro blog, que casa, cama, mesa e roupa lavada, e outros trabalhos que tais, contenham trabalho vivo que entre na produção da “força de trabalho”. Mesmo que o trabalhador assalariado compre “força de trabalho” para empregá-la na produção de coisas, objectos e serviços que lhe são necessárias para a sua vida (admitamos que não se transforma em capitalista e não vende essas coisas, objectos e serviços como actividade principal ou com o objectivo de obter lucro), nenhuma dessa “força de trabalho” é empregada na produção da sua própria “força de trabalho” (e se por milagre tal pudesse acontecer, isso, no mínimo, transformá-lo-ia num capitalista, e a produção da própria “força de trabalho” seria uma actividade capitalista).

Não sei se está acompanhando o enredo, alminha, mas não há como fugir deste paradoxo: a mercadoria mágica “força de trabalho” não seria produzida por pitada de trabalho vivo e, em conformidade com a concepção do Marx, não teria qualquer valor. Teríamos então uma mercadoria especial de corrida que não tendo valor teria valor, já que seria a mercadoria vendida pelo trabalhador e comprada pelo capitalista. Que acha de um tal quadro conceptual? Ah e tal, e o camandro, dirá você, alminha, mas o trabalhador compra e consome mercadorias. Pois claro, que não vive do ar; e o que compra e consome é para se manter vivo e continuar sendo um produtor de mercadorias, não é para produzir a mercadoria mágica. É certo que se não viver não produzirá a mágica “força de trabalho” nem qualquer outra mercadoria, mas como ao viver produz muito mais do que a “força de trabalho” que supostamente venderia, torna-se claro que o que o trabalhador compra e consome não representa o suposto valor da sua suposta mercadoria. Representará outra coisa qualquer, e também qualquer mercadoria, porque na sociedade que generalizou a mercadoria todos, em princípio, serão vendedores e compradores de mercadorias.

Que mercadoria poderá representar o que o trabalhador assalariado recebe como salário? A mercadoria mágica “força de trabalho” inventada pelo Marx ou o seu trabalho, que produz com a sua “força de trabalho”? E que valor terá o seu trabalho, se acaso for a mercadoria que o trabalhador vende? É o trabalho produzido por mercadorias? Facilmente se comprova que o trabalho humano é produzido pela energia humana, por sua vez produzida pelo corpo humano vivo e pelas mercadorias que o trabalhador consome. Como não temos modo de atribuir valor ao corpo humano vivo, que na sociedade capitalista não constitui mercadoria, nem temos modo de saber que parte das mercadorias consumidas pelo trabalhador para se manter vivo entra na produção do trabalho assalariado que vende, o valor da mercadoria trabalho tem forçosamente de ser determinado pelo que custa produzi-la (aquilo que o Marx apenas designou como “valor” das mercadorias), pela quantidade de energia humana empregada na sua produção. É indiferente a unidade que arranjemos como adequada para medir o valor do custo de produção do trabalho; como práticos expeditos, os capitalistas arranjaram o tempo da sua produção, e assim o continuam comprando. Como o trabalho é o produtor das restantes mercadorias, o trabalho constitui a mercadoria universal, e o valor das mercadorias é o valor do trabalho. O trabalho não cria o valor das mercadorias; o trabalho, como mercadoria, tem valor; e o valor das restantes mercadorias é o valor do trabalho empregado na sua produção. [E se as mercadorias que o trabalhador compra contêm menos trabalho do que aquele que ele vendeu, de onde provirá o lucro? (Acrescento clarificador inserido agora)].

Não sei se acompanhou o desenrolar do filme, alminha, ou se isto foi desbobinado muito aceleradamente e não deu para ver o mocinho sacar da pistola e atirar no bandido e descortinar a origem do lucro. Se quiser passo outra vez, mais calmamente. Vá, repita comigo: o lucro é originado pela troca desigual entre o capitalista e o trabalhador assalariado, pela compra de trabalho vivo abaixo do seu valor e pela venda de trabalho passado pelo valor. De qualquer modo, deverá ter dado para compreender o enredo que o Marx tanto se esforçou por contar-nos bem. Ele foi um bocado trapalhão, mas os meios de produção de fitas do seu tempo eram ainda muito toscos. O mesmo já não se poderá dizer dos marxistas, de quem o alminha, desculpe que lhe diga, apesar de papaguear bem, é um mau representante. Comparados com o Marx, que produziu baboseiras originais, os marxistas não passam de papagaios. E mausotes.

Alminha. Desculpe qualquer coisinha, que isto foi escrito à pressa, de uma assentada, e nem foi revisto. Se pretender mais e melhores pormenores, sabe onde se dirigir. Por minha parte, não espero convertê-lo. Sei quanto os fiéis gostam de verdades reveladas e muito dificilmente abraçam o ateísmo. Cada um com a sua, alminha, que daí não advém grande mal ao mundo. Mas tente dar-me troco, alminha, aqui ou no meu sítio. Terá uma casa às ordens. Tenha uma noite descansada.

Almada, 24 de Setembro de 2010.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Um grande filme: Norma Rae

Ocorreu no domingo mais uma edição dos Oscares da Academia. Lembrei-me a esse propósito de um grande filme de 1979, do realizador Martin Ritt, em cujo desempenho Sally Field foi agraciada com a estatueta de Melhor Actriz. Não recomendo que o vejam tantas quantas as dezenas de vezes que eu já o revi, mas vejam-no. Nos tempos difíceis que correm, Norma Rae, é o nome da fita, é um hino de louvor à luta dos trabalhadores assalariados, no caso os operários têxteis e por uma coisa simples: terem o seu sindicato na fábrica, no país do capitalismo mais desenvolvido e mais selvagem. Vê-lo fará bem não apenas a trabalhadores, mas também a sindicalistas, principalmente àqueles que se esquecem do dia-a-dia, mas sonham com os amanhãs que cantam.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Finou-se o Maroscas, um putanheiro bem-disposto e incansável lutador pela liberdade... e pelas patacas

domingo, 4 de dezembro de 2016

PCP: o oportunismo ao rubro de verde vestido ou o socialismo e o comunismo no longínquo horizonte “para além das nossas vidas”. Do paraíso na Terra ao paraíso no Céu?

domingo, 27 de novembro de 2016

Fidel Castro: mais um déspota iluminado do comunismo que se finou


Para além dum ego avantajado, o finado tinha certamente algumas qualidades, que mostrou na liderança da revolta popular camponesa de 1959 que pôs cobro à ditadura dum fantoche dos EUA. Isso foi há muito, muito tempo. Nesta hora, o que importa realçar é que nem a longa existência lhe permitiu reconhecer a fraca bondade do comunismo para proporcionar ao povo cubano um mediano nível de vida e de liberdade.

Esse é um exercício de humildade difícil para qualquer crente na verdade revelada, por incapacidades várias ou por cinismo, pouco importa, quanto mais para um déspota que se julgava iluminado e que se atribuía a missão de salvar os cubanos da perdição e da miséria, quando não o resto da humanidade. Mas um passo necessário para colher a complacência da história.

Os crentes choram o seu herói, os companheiros de jornada tecem-lhe loas imerecidas, aos críticos, quais desmancha-prazeres do coro das ladainhas louvaminheiras, contra a corrente resta-lhes invocarem apenas a crua realidade. Porque ela, implacável, cedo ou tarde acabará por destruir todos os mitos.