O modelo de formação dos preços nominais das mercadorias elaborado pelo Marx é o corolário da errada fundamentação em que baseou a sua crítica da economia política. A concepção do valor das mercadorias sem definir a característica da mercadoria que o conceito representaria, o seu custo de produção, ao contrário do que sucedera com os conceitos valor de utilidade e valor de troca, confundindo a característica, que não identificou, com a sua medida, o valor ou quantidade de trabalho, ficando-se por uma tautologia sem sentido (o valor como quantidade de trabalho, e a quantidade de trabalho como valor do valor); a aceitação da falácia da troca equitativa, defendida pela ideologia dominante como lei geral da troca das mercadorias; a identificação da “força de trabalho” como sendo a mercadoria vendida pelo trabalhador assalariado, ao invés do trabalho, para assim tentar ultrapassar a impossibilidade da explicação da génese do lucro em que o David Ricardo esbarrara; a explicação da génese do lucro como mais valor fornecido por uma mercadoria mágica, a “força de trabalho”, como se alguma coisa pudesse fornecer mais do que contém, seja do que for que contenha; a distinção do capital circulante em capital constante e capital variável, a parte empregada em salários, e a criação do conceito de taxa de mais-valia relacionando o lucro com os salários; a determinação do montante do lucro particular pela aplicação da taxa geral de mais-valia esperada, ocasionando a formação e a repartição desigual do lucro social; a concepção da apropriação como ocorrendo na esfera da produção e não na circulação das mercadorias, sem a transformação do capital mercadoria em capital dinheiro e sem qualquer referência à formação, à repartição e à distribuição mútua do lucro social; enfim, todos estes erros do Marx estão reflectidos no seu modelo de formação dos preços nominais das mercadorias, o qual, por isso, acabou por constituir uma fantasia não representativa da realidade.
Para ilustrar a formação do valor das mercadorias e a génese do lucro, o Marx utiliza, no seu modelo inicial de formação dos preços nominais, um capital produtivo particular, frequentemente identificado como aplicado num ramo concreto, curiosamente, o dos têxteis, que toma para exemplo da diversidade dos capitais particulares. Aquele capital, na forma de capital dinheiro, encontra no mercado os meios de produção e a “força de trabalho” que adquire para empregar no processo produtivo em que é aplicado. O seu objectivo é a produção de novas mercadorias e a sua venda, para assim poder ser transformado em mais capital dinheiro. Surpreendentemente, o modelo pára na produção, na fase em que aquele capital dinheiro é transformado em capital mercadoria (D-M), não contemplando o ciclo da reprodução do capital (D-M-D’). Naquela fase do ciclo da sua reprodução, o capital empregado foi apenas consumido, na totalidade ou em parte, não vem agora ao caso, encontrando-se representado nas mercadorias com ele produzidas. Segundo a concepção do Marx, o valor destas mercadorias seria superior ao valor das que entraram na sua produção, visto a mercadoria mágica “força de trabalho” possuir o “dom” de fornecer mais valor do que o seu próprio valor, aquele com que entrara no processo produtivo. Deste modo, esse suposto valor a mais, a “mais-valia” ou lucro, era tido como produzido, contido nas novas mercadorias antes mesmo delas serem vendidas e do capital circulante ser transformado em capital dinheiro. No mundo real da produção das mercadorias, porém, as coisas passam-se de modo diverso do descrito na concepção marxista. Ao contrário do que é afirmado naquela concepção, as mercadorias que participam no processo produtivo de novas mercadorias não fornecem mais valor do que o valor com que nele entram; a “força de trabalho”, a mercadoria mágica que teria a especial utilidade de ultrapassar as leis da física, não passa duma mercadoria fictícia; a mercadoria vendida pelo trabalhador assalariado é o seu trabalho, cujo valor é o do custo da sua produção; e o valor das mercadorias produzidas é o correspondente ao valor do trabalho empregado na sua produção.
Existe, de facto, uma diferença entre o valor contido nas mercadorias, a quantidade de trabalho presente fornecida pelos trabalhadores que participaram na sua produção e na produção dos meios de produção empregados, e o valor ou a quantidade de trabalho por eles recebida sob a forma de trabalho passado contido nos meios de subsistência com que foram pagos. Essa diferença de valor, contudo, não constitui um valor a mais que as novas mercadorias contenham para além daquele que entrou na sua produção, mas um valor a menos recebido em pagamento pelos trabalhadores que as produziram; e foi já distribuída, como lucro, aos capitais vendedores por este capital, ao comprar-lhes, directamente, os meios de produção e, indirectamente, os meios de subsistência comprados pelos salários que pagou pelo trabalho presente que empregou. O lucro deste capital, por isso, virá a constituir um valor a menos que os trabalhadores receberão quando as novas mercadorias forem usadas como meio de pagamento de novo trabalho presente que lhes seja comprado, por constituírem meios de subsistência ou por participarem na sua produção como meios de produção. Para que o lucro deste capital venha a ocorrer é necessário, antes de mais, que o valor contido nas novas mercadorias seja apreciado, através da formação do seu valor de troca nominal, isto é, do valor que lhes é atribuído para a troca e que determina a sua relação quantitativa mútua, ou do seu preço nominal, que determina a sua relação quantitativa com uma mercadoria equivalente geral, pela aplicação da taxa de lucro esperada, e, depois, que as mercadorias sejam vendidas. Só então o lucro será gerado, distribuído a este capital pelos compradores das mercadorias que vendeu.
A apreciação do valor do trabalho passado contido nas novas mercadorias constitui a forma de depreciar o valor do trabalho presente em cujo pagamento elas vierem a participar, directamente, no caso de serem meios de subsistência, ou indirectamente, no caso de serem meios de produção. Se a venda da produção se ficasse pelo preço de compra dos factores produtivos apenas o capital empregado seria reproduzido e nenhum lucro seria gerado; neste caso, para este capital, as mercadorias seriam vendidas por preço inferior ao do seu valor, por preço correspondente apenas ao do valor depreciado do trabalho presente, anterior e actual, empregado na sua produção, visto a diferença entre o seu preço como trabalho passado representado pelos factores produtivos, na forma dos meios de produção e dos meios de subsistência comprados pelos salários, e o preço do trabalho presente que os originou ter sido distribuída aos vendedores daqueles factores produtivos como seus lucros. Sem terem o seu valor apreciado de novo as mercadorias não depreciariam o trabalho presente em cujo pagamento viessem a ser utilizadas e não proporcionariam o lucro do capital empregado na sua produção. No processo de produção, portanto, não é criado qualquer valor suplementar ao do valor do trabalho empregado; a quantidade de trabalho que dele sai é a mesma da que nele entrou, porque uma quantidade de trabalho não se transforma noutra quantidade; aí não é criado qualquer valor suplementar nem gerado o lucro. É no processo de circulação, quando os novos produtos são vendidos como mercadorias, para participarem, directa ou indirectamente, na troca por novo trabalho presente, que o lucro é gerado. Esta génese ocorre através dos valores de troca nominais das mercadorias, ou dos seus preços nominais, formados apreciando continuamente o valor do trabalho nelas contido, isto é, atribuindo-lhe valor de troca ou preço superior àquele pelo qual foi comprado, até que sejam vendidas aos trabalhadores e, assim, depreciem o valor do novo trabalho presente pelo qual venham a ser trocadas.
A apropriação duma parte do valor criado na produção, portanto, ocorre na circulação das mercadorias, nas trocas de umas por outras, através dos seus valores de troca, ou dos seus preços; e, sob a forma de lucro do capital, essa apropriação apenas ocorre quando o trabalho passado contido nas mercadorias é vendido àqueles a quem fora comprado como trabalho presente. Devido à divisão do trabalho social por processos produtivos distintos, e à divisão da produção social em dois grandes ramos, o dos meios de produção e o dos meios de subsistência, ambos os ramos compram trabalho aos trabalhadores, mas apenas o ramo dos meios de subsistência lhes vende mercadorias; o ramo dos meios de produção vende as suas mercadorias no seu interior ou ao ramo dos meios de subsistência e não aos trabalhadores; o trabalho passado contido nos meios de produção constitui uma forma intermédia do trabalho passado que será vendido aos trabalhadores sob a forma de meios de subsistência. Sendo o lucro do capital realizado com a venda do trabalho passado a quem fora comprado como trabalho presente, o lucro apropriado pelo ramo dos meios de produção é-lhe distribuído, antecipadamente, por quem compra as suas mercadorias, o ramo dos meios de subsistência, o único ramo que efectua compras e vendas aos trabalhadores. As trocas entre os dois ramos da produção social, porém, não se resumem às vendas do ramo dos meios de produção ao ramo dos meios de subsistência; este, por seu lado, também vende mercadorias ao ramo dos meios de produção, neste caso, indirectamente, através dos meios de subsistência comprados pelos salários dos trabalhadores do ramo, que assim retribui um lucro equivalente ao que lhe fora distribuído. A parte restante do lucro social, para além daquela distribuída ao ramo dos meios de produção e que este retribuiu, realiza-a o ramo dos meios de subsistência no seu interior, pela troca desigual com os seus próprios trabalhadores, acabando por constituir o lucro de que este ramo se apropria. Os lucros apropriados por uns capitais, portanto, são-lhes distribuídos pelos capitais que compram as suas mercadorias, constituindo partes do lucro social que resultará da venda de meios de subsistência aos trabalhadores. E a determinação do montante do lucro social esperado, a sua repartição equitativa e a sua distribuição aos diversos capitais particulares são efectuadas precisamente pelos preços nominais das mercadorias, formados pela aplicação de taxas de lucro esperadas similares. O mercado, através da concorrência, efectuará a adequação da produção e a transformação dos preços nominais em preços de mercado, os quais determinarão os lucros particulares e social obtidos e as respectivas taxas.
Mesmo sem entrar em pormenores sobre a diferenciação das taxas de lucro obtidas pelos diversos capitais particulares, pela transformação dos preços nominais em preços de mercado, devida a múltiplos factores, nem sobre a geração duma parte do lucro social por trocas desiguais com modos de produção pré capitalistas internos, ou por trocas desiguais efectuadas em mercados externos, nem sobre a função do crédito como adiantamento do capital necessário para a efectivação da reprodução ampliada do capital social, um qualquer modelo de formação dos preços nominais teria de levar em consideração aquelas características fundamentais da produção social e a forma como se processa a apropriação por cada capital particular da parte com que contribuiu para o lucro social obtido. Para poder representar a realidade da produção social, ainda que com as restrições apontadas, o modelo de formação dos preços nominais das mercadorias elaborado pelo Marx teria de considerar os produtores dos dois tipos de mercadorias representando o trabalho passado, ou pelo menos um, que produzisse aqueles dois tipos, e o produtor do trabalho presente, assim como as suas trocas mútuas, de modo a ilustrar o ciclo da reprodução do capital e a transformação do capital dinheiro em mais dinheiro. Embora o lucro só exista sob a forma de mais dinheiro do que aquele que foi empregado como capital produtivo, e por isso apenas ocorra com a venda da produção, na concepção do Marx o lucro era tido como produzido, integrando o capital mercadoria, antes mesmo da sua transformação em capital circulante e em capital dinheiro. Bastou a afirmação, não demonstrada, de que a “força de trabalho” fornecia mais valor para além do seu próprio valor, a mais-valia, para que o lucro fosse dado como produzido, criado no processo de produção, e a apropriação realizada. Ora, o lucro do capital não é constituído por valor suplementar contido nas mercadorias para além daquele que entrou na sua produção; o lucro é gerado pela repartição desigual do valor contido nas mercadorias, o valor do trabalho empregado na sua produção, e apenas ocorre na troca com os produtores do trabalho, quando as novas mercadorias entrarem na circulação e lhes forem vendidas. Sendo a compra do trabalho presente e a sua venda como trabalho passado efectuadas pelo dinheiro usado como capital produtivo, o lucro é gerado pela transformação daquele dinheiro em mais dinheiro, o que apenas ocorre quando o capital mercadoria é transformado em capital dinheiro.
Não ter identificado a que característica das mercadorias se referia o que era comummente designado por valor foi também uma lacuna da concepção do Marx acerca da génese do lucro. Embora não se soubesse a que característica das mercadorias se referia o que era designado por seu valor, o que constituía uma flagrante ambiguidade, tal não impedia a comparação desses designados valores. Mas não ter questionado a famosa lei geral da troca das mercadorias, a chamada troca equitativa, aceitando pacificamente a representação que a ideologia dominante fazia das trocas, foi talvez o principal erro cometido pelo Marx. Foi este erro que o conduziu para a identificação da “força de trabalho” como sendo a mercadoria vendida pelo trabalhador assalariado, em vez do trabalho, reconhecido pela economia política clássica como sendo a mercadoria que aquele vendia. Com essa identificação, aceite como sendo a sua inovação em relação à economia política clássica, o Marx arranjou uma forma de ultrapassar as dificuldades do Ricardo para explicar a génese do lucro, mas a solução que engendrou acabou por constituir um clamoroso erro. Atribuir à “força de trabalho” a capacidade, o “dom”, de proporcionar mais valor do que aquele que continha, como se algo pudesse fornecer mais do que contém, seja do que for que contenha, constitui uma completa inversão da realidade, confundindo o valor a menos atribuído na troca à “força de trabalho” com um suposto valor a mais que ela teria a capacidade de fornecer no processo produtivo. O trabalhador, de facto, recebe como pagamento pela mercadoria que vende menos valor do que aquele que ela contém, mas isto é muito diferente de a sua mercadoria ter a capacidade sobrenatural de criar mais valor do que aquele que contém. A concepção do Marx acerca da origem do lucro diferencia-se de outras anteriores, que o constatavam e o legitimavam, mas que não explicavam fundamentadamente a sua génese; ela, contudo, acaba por constituir uma concepção fantasiosa, porque explica a génese do lucro como sendo devida às propriedades paradoxais duma mercadoria mágica. A explicação acertada, porém, era do domínio dalguma economia vulgar, que reconhecia o lucro como sendo originado pela apreciação das restantes mercadorias face à mercadoria que o trabalhador vendia. Aceitar uma explicação tão prosaica conduzia ao reconhecimento da existência duma troca desigual entre os capitalistas e os trabalhadores assalariados, e à refutação da troca equitativa como lei geral das trocas, que os reputados ideólogos haviam proclamado; impolutos e honrados burgueses capitalistas eram assim apresentados como vulgares trapaceiros e burlões, independentemente das razões que fossem invocadas para legitimar o lucro, com todos os inconvenientes que isso acarretava.
Na errada concepção do Marx, portanto, o lucro era tido como valor suplementar fornecido pela “força de trabalho” para além do seu próprio valor, criado no processo de produção pelo trabalho, a utilidade da “força de trabalho”, e o montante obtido por cada capital particular decorria da aplicação duma taxa de mais-valia à sua parte empregada na compra da “força de trabalho”, os salários. A designação de capital variável que atribuiu a esta parte do capital, distinguindo-a do restante capital circulante, visava precisamente relacionar o lucro com os salários, e assim criar o conceito de taxa de mais-valia. Numa situação de completa mobilidade da “força de trabalho”, os salários correntes constituem os preços de mercado da mercadoria vendida pelos trabalhadores; sendo dados os salários, em condições de igualdade da jornada, do esforço e do ritmo do trabalho, e mantendo-se os restantes preços de mercado, ocorria uma taxa geral de mais-valia, a relação do lucro social com a parte do capital social empregada como salários. Nada permitia afirmar que os preços nominais com que as mercadorias eram apresentadas no mercado fossem formados pela aplicação da taxa geral de mais-valia esperada, nem que os lucros esperados, particulares e social, fossem o resultado dos preços nominais assim formados, mas foi em torno do conceito de taxa geral de mais-valia que o Marx elaborou o seu modelo de formação dos preços nominais. Concebendo o lucro como mais valor fornecido pela “força de trabalho” no processo produtivo, transformou a taxa geral de mais-valia em taxa de mais-valia particular, comum a todos os processos produtivos, e apresentou os diversos preços nominais como sendo formados pela aplicação da taxa geral de mais-valia ao capital empregado como salários. Preso a esta concepção, não considerando o lucro como sendo originado pela troca desigual entre os capitalistas e os trabalhadores assalariados, não poderia compreender que o capital empregado como meios de produção, que representava trabalho passado intermédio contendo lucros distribuídos aos seus vendedores, fosse também fonte de lucro para o capital comprador, correspondente aos lucros que este distribuíra, o qual seria gerado pela venda aos trabalhadores dos meios de subsistência em que aqueles meios de produção viessem a ser empregados; por isto, não poderia conceber que a formação dos preços nominais pela aplicação da taxa de lucro esperada, e não pela aplicação da taxa geral de mais-valia, era o meio de determinar o lucro particular esperado e de efectuar a sua apropriação, por repartição equitativa do lucro social para a formação do qual contribuíra.
De um tal modelo de formação dos preços nominais resultavam lucros particulares não proporcionais aos capitais empregados, e, para capitais de idêntico montante ou proporcionais, taxas de lucro particulares inversamente proporcionais às suas composições orgânicas, a relação entre a parte empregada como meios de produção, designada por capital constante, e a parte empregada como salários, designada por capital variável. Como consequência, os capitais afluiriam para os ramos em que fosse menor a composição orgânica do capital, cuja rentabilidade seria maior, abandonando os ramos de maior composição orgânica, de menor rentabilidade, provocando desequilíbrios na distribuição do capital social e entre a oferta e a procura das mercadorias, com a consequente baixa dos preços de mercado e das taxas de lucro obtidas nos ramos em que o capital fosse excessivo e o aumento dos preços de mercado e das taxas de lucro nos ramos em que fosse insuficiente, até que novas mobilidades redistribuíssem o capital social equilibradamente e reconduzissem os preços de mercado e as taxas de lucro obtidas a preços e a taxas de equilíbrio. Se estes preços de mercado promoviam o equilíbrio da produção social e, sendo similar a produtividade e as demais condições, proporcionavam taxas de lucro particulares similares, da hipotética aplicação do modelo inicial de formação dos preços nominais do Marx resultava um cenário discrepante, já que dele decorriam taxas de lucro desiguais, inversamente proporcionais às composições orgânicas dos capitais. Com o novo modelo de formação dos preços nominais pela aplicação da taxa geral de lucro, os preços de produção, era pretendido resolver a inconsistência do modelo inicial e a sua discrepância com a realidade. A obtenção de taxas de lucro similares em que o novo modelo se baseava, contudo, era justificada de modo inverosímil, quer porque a taxa geral de lucro esperada é o resultado de taxas de lucro particulares esperadas e dos preços nominais particulares que delas resultam, e não a sua causa; quer porque os preços nominais assim formados representam os valores das mercadorias a que se referem, e não são deles divergentes, como era invocado; quer, ainda, porque a repartição do lucro social pela aplicação de taxas de lucro particulares similares corresponde à apropriação por cada capital particular da mesma parte com que para ele contribuiu, e não reflecte qualquer apropriação de lucros alheios.
Um modelo em que o lucro é concebido como produto do emprego da totalidade do capital, porque todo ele compra trabalho, a mercadoria universal, independentemente da forma como se apresente, e, em conformidade, os preços nominais são formados pela aplicação da taxa de lucro esperada, mostra-se consistente, ao contrário de qualquer dos modelos elaborados pelo Marx. O lucro é gerado pela troca desigual entre os capitalistas e os trabalhadores assalariados, através da depreciação do trabalho presente, a mercadoria vendida pelos trabalhadores, e essa depreciação é efectuada pela apreciação das restantes mercadorias, através da formação dos seus preços nominais pela aplicação de taxas de lucro esperadas. Se os preços nominais de todas estas mercadorias contiverem lucro resultante da aplicação de taxas esperadas similares, os seus preços nominais relativos não se alteram, o lucro particular esperado é proporcional ao capital empregado e a sua apropriação é efectuada pela distribuição mútua do lucro social resultante da venda das mercadorias por preço contendo lucro aos trabalhadores assalariados, através das compras e vendas que os diversos capitais particulares efectuam entre si. Deste modo, a apreciação de todo o trabalho comprado, passado e presente, é a forma de depreciar todo o trabalho presente, independentemente de quem o compre; e a determinação dos lucros particulares esperados através da formação dos preços nominais pela aplicação de taxas de lucro esperadas constitui a forma de determinar o lucro social esperado e de reparti-lo e distribuí-lo por entre os diversos capitais particulares na medida em que cada um para ele contribuiu. Este modelo de formação dos preços nominais das mercadorias, por isso, não decorre do altruísmo de uns capitalistas abdicarem de lucros próprios nem da pretensão de outros se apropriarem de lucros alheios para que assim seja realizada uma desejada equidade na rentabilização dos diversos capitais particulares, como resultava duma das justificações da conversão dos valores em preços de produção; nem faz com que umas destas mercadorias sejam vendidas por preços acima do valor e outras por preços abaixo dele, como também foi invocado que acontecia com os preços de produção; um tal modelo constitui a forma necessária para depreciar homogeneamente o trabalho presente, independentemente de quem o compra, atribuindo-lhe preço inferior ao do seu valor, representado pelos preços nominais do trabalho passado assim formados.
A chamada conversão dos valores em preços de produção ficou constituindo uma tentativa de ultrapassar a inconsistência da concepção inicial do valor de troca das mercadorias, a famosa troca equitativa, reflectida no modelo de formação dos preços nominais que lhe estava subjacente, adoptando uma outra concepção distinta daquela. O objectivo de arranjar uma concepção consistente, que se harmonizasse com a realidade e explicasse a obtenção de taxas de lucro similares, porém, saiu frustrado, por várias razões. Uma das razões prende-se com a própria ilustração do modo como o mercado efectuaria a chamada conversão de hipotéticos preços representativos dos valores nos agora designados preços de produção, pois ela não passou, afinal, da ilustração do modo como o mercado efectua a conversão de preços nominais em preços de mercado, independentemente do modelo empregado na formação dos preços nominais. Outra das razões refere-se à argumentação usada para justificar a nova concepção do valor de troca das mercadorias, fundamentando-a com a reclamação de capitais de idêntico montante obterem lucros similares porque as mercadorias são produto de capitais, pretendendo fazer crer que a anterior concepção do valor de troca das mercadorias e o modelo de formação dos preços nominais que lhe estava associado seriam representativos dum modo de produção distinto do modo de produção capitalista, ao contrário do que sempre fora invocado. Para reforçar, o Engels afirmava, numa sua célebre nota de aditamento ao Livro III de O Capital, que a concepção adoptada pelo Marx (curiosamente, ele refere-se à lei do valor do Marx, como se a concepção dos preços de produção não lhe pertencesse) apenas seria válida para estádios de desenvolvimento anteriores ao capitalismo, sem tirar dessa sua afirmação as necessárias consequências. Uma outra razão é a de que baseando-se a nova concepção no mesmo erro da inicial — concebendo os preços nominais representativos dos valores das mercadorias como sendo formados pela aplicação da taxa geral de mais-valia esperada ao capital empregado em salários — os novos preços de produção, resultantes da aplicação da taxa geral de lucro, desviavam-se forçosamente dos preços nominais tidos por representativos dos valores, mas tais desvios apenas constituem divergência em relação a estes preços, e não em relação aos valores, já que os novos preços de produção, afinal, acabam por ser representativos dos valores. E uma outra razão, ainda, é a de que a invocada transferência de lucro de uns para outros ramos — apresentada como sendo efectuada pelo mercado, mas porque os capitalistas exigiriam lucros proporcionais aos seus capitais, comportando-se como accionistas duma companhia global que desenvolvesse como negócio os vários ramos da produção social, obtendo nuns ramos lucros proporcionais e noutros ramos lucros não proporcionais, consoante a composição orgânica, que se compensariam, recebendo cada um dividendo proporcional ao capital que investira — não tem qualquer fundamento, visto as causas dessas transferências, quando ocorrem, não residirem no facto dos preços nominais serem formados pela aplicação da taxa de lucro esperada.
O mercado, de facto, transforma preços nominais formados pela aplicação de diversificadas taxas de lucro particulares esperadas em preços de mercado, corrigindo os preços nominais em função da adequação da produção, da produtividade, da preferência dos consumidores e de outras ocorrências mais fortuitas, e assim determina as taxas de lucro particulares obtidas. Corrigir a diversidade dos preços nominais em função dos factores enumerados e efectuar a transformação da diversidade das taxas de lucro esperadas na diversidade das taxas de lucro obtidas não configura o sortilégio de transformar preços nominais formados pela aplicação duma taxa geral de mais-valia esperada em preços nominais formados pela aplicação de taxas de lucro esperadas, os quais, por serem preços nominais, são prévios à sua transformação em preços de mercado. A razão pela qual os diversos capitais particulares, sendo idênticas as demais condições menos a sua composição orgânica, obtêm taxas de lucro similares é o montante do lucro não ser determinado pela composição orgânica; aliás, se assim não fosse, sectores produtivos exigindo diferente composição técnica do capital reflectida em grande diferença da composição orgânica não teriam tido a oportunidade de serem constituídos, impossibilitando o desenvolvimento do capitalismo. O conceito de composição orgânica, decorrente da divisão do capital circulante em capital constante e capital variável inerente à concepção do Marx acerca da génese do lucro, foi usado precisamente para ilustrar a diminuição da taxa de lucro proporcionalmente ao aumento da composição orgânica; e taxa de lucro decrescente com o crescimento da composição orgânica do capital até foi uma sua famosa lei para ilustrar a decadência do modo de produção capitalista. A composição orgânica do capital poderá influenciar a diferenciação dos lucros obtidos, mas, ao invés do que era invocado, essa influência será no sentido da maior composição orgânica proporcionar maior taxa de lucro, devido à produtividade diferencial que gere e ao lucro diferencial que daí possa advir. A relação não é directa, porque o aumento da produtividade que possa decorrer do aumento da composição orgânica, em geral, implica aumento da produção, obrigando a baixar os preços para conquistar mercado em desfavor da concorrência, recolocando os sempiternos problemas da adequação e do consumo da produção e, consequentemente, da reprodução do capital, da geração do lucro e da determinação da sua taxa, enfim, a iminência das crises cíclicas de sobreprodução.
A realidade mostrava a tendência para a obtenção de taxas de lucro similares pelos diversos capitais particulares, independentes das suas composições orgânicas; os preços de produção, portanto, cumpriam a função de harmonizar com a realidade a errada concepção inicial do Marx acerca da determinação do montante dos lucros particulares e da forma da sua apropriação, da qual decorria a obtenção de taxas de lucro inversamente proporcionais às composições orgânicas dos capitais. A ilustração de como o mercado produzia a formação dessas taxas de lucro similares, e da taxa de lucro média geral, e a razão pela qual as efectuava, porém, eram fantasiosas; o mercado transforma preços nominais em preços de mercado e lucros esperados em lucros obtidos, determinando a diversidade das taxas obtidas, mas não transforma um modelo de formação dos preços nominais noutro modelo diferente nem forma qualquer taxa geral de lucro, que é um conceito construído como resultado da totalidade dos lucros particulares em relação com a totalidade do capital social. Fantasia por fantasia, porém, o sortilégio atribuído agora ao mercado não chegava a atingir o prodígio que continuava sendo atribuído à mercadoria mágica, a “força de trabalho”. Preços de produção que se desviavam dos preços representativos dos valores punham em evidência a falácia da troca equitativa, até entre os capitalistas, dado que uns se apropriariam de lucros alheios; isso, contudo, seria irrelevante, porque eles acabavam por formar uma imensa e harmoniosa confraria na qual uns confrades não se importavam de serem esbulhados por outros duma parte do lucro que lhes era devido, para que assim se fizesse a repartição equitativa do lucro social. Embora essa repartição do bolo fosse efectuada em quinhões distintos e por forma diversa do que o Marx concebera, também isso não importava, constituindo coisa de somenos. Os capitalistas, afinal, eram todos bons rapazes, fraternos ao ponto de uns abdicarem de parte dos seus lucros a favor de outros menos afortunados.
Fora enfim ilustrado o modo como a teoria do valor-trabalho ricardiana poderia ser conformada com a obtenção de taxas de lucro similares, independentes da composição orgânica dos capitais. A argumentação usada era a de que os capitalistas assim o requeriam, e a forma como tal ocorreria seria a transferência duma parte do lucro de uns para o lucro de outros, através de preços de produção divergentes dos valores. Argumentação manifestamente incoerente, contraditória com as premissas da troca equitativa e dos preços representativos dos valores anteriormente adoptadas, e também em contradição com a procura da melhor taxa de lucro, que motiva a concorrência dos capitais e a sua mobilidade entre os ramos da produção social. Apesar de fantasiosa, a conversão dos valores em preços de produção constituiria um feito, porque até há pouco ninguém explicara as razões pelas quais os lucros tendiam para serem proporcionais aos capitais empregados e as taxas de lucro tendiam para serem taxas similares. Tamanho feito foi a glória invocada para tapar as vergonhas da errada concepção do Marx acerca da génese e da apropriação do lucro, e assim tentar salvar a honra do convento. A explicação da obtenção de lucros particulares correspondentes a taxas similares era errada, e, pelos vistos, não seria original, mas também isso já pouco importava; com a idade avançada do intérprete e editor póstumo dos rascunhos marxistas, fora o que se pudera arranjar. Conhecemos o proselitismo com que tal glória foi reivindicada; restar-nos-ia saber quem teria sido o seu verdadeiro inventor. O mais confrangedor, porém, foi sucessivas gerações de marxistas, desde então, não terem conseguido ultrapassar os erros fundamentais cometidos pelo seu mestre, ficando-se por aspectos secundários, comportando-se como meros apologetas. Ainda hoje, uns não se prendem com a ninharia da inconsistência de qualquer das duas concepções acerca do valor de troca das mercadorias e da determinação do montante e da forma de apropriação do lucro, nem com as discrepâncias entre elas e delas com a realidade, porque não as compreenderam, e outros continuam à procura da solução correcta para a conversão dos valores em preços de produção, como se tal coisa existisse. Mesmo com a fé que os caracteriza, capaz de mover montanhas, os marxistas ainda não descobriram esse graal.