Existem em O Capital duas concepções acerca do valor de troca das mercadorias, qualquer delas errada. Na do Livro I, as mercadorias seriam trocadas pelos seus valores do custo, que os seus valores de troca expressariam; os valores do custo de produção seriam formados pelo somatório dos valores de custo dos factores produtivos com a chamada mais-valia, a outra designação que o Marx atribuiu ao lucro, resultante da aplicação duma taxa geral de mais-valia, a relação do lucro com os salários, à parte do capital empregada como salários. Na do Livro III, as mercadorias seriam trocadas pelos seus preços de produção, que já não corresponderiam aos seus valores do custo; estes preços de produção seriam formados pelo somatório dos preços de produção dos factores produtivos com o lucro, resultante da aplicação duma taxa geral de lucro, a relação do lucro com a totalidade do capital empregado. A concepção inicial do Marx, aceitando que as mercadorias seriam trocadas pelos seus valores de custo e atribuindo a formação dos seus valores de troca à aplicação duma taxa geral de mais-valia, conduzia à obtenção de taxas de lucro inversamente proporcionais às composições orgânicas dos capitais, manifestamente em contradição com a realidade. A constatação de uma tal discrepância levou à introdução da nova concepção do valor de troca das mercadorias no Livro III de O Capital, objecto do capítulo IX, intentando resolver aquela contradição através da conversão dos valores de custo em preços de produção.
O Marx considera o lucro como a forma transfigurada da mais-valia, o suposto valor suplementar que o trabalhador assalariado forneceria gratuitamente ao capitalista pelo simples facto de lhe vender uma mercadoria mágica, a “força de trabalho”, a qual teria a faculdade de criar mais valor do que um seu hipotético próprio valor. Na realidade, o lucro é a parte do valor criado na produção apropriada pelo capitalista, mas essa apropriação ocorre na troca desigual entre o capitalista e o trabalhador assalariado, não provém de qualquer faculdade mágica da “força de trabalho” para proporcionar mais valor do que o seu suposto valor, como afirma a errada concepção marxista. Nem o trabalhador assalariado vende capacidade para trabalhar, “força de trabalho”, mas trabalho, nem a apropriação de parte do trabalho ocorre na produção; aqui é gerado o valor do que é produzido, do trabalho e, concomitantemente, dos novos produtos diversificados em que são transformados os objectos da sua acção, mas é na esfera da circulação, quando os produtos circulam, adquirindo assim a qualidade de mercadorias, o que se compra e vende, que ocorre a apropriação. A apropriação de trabalho alheio, portanto, ocorre na esfera da circulação, através da compra e venda do trabalho, e sob a forma de lucro do capital ela apenas se realiza quando o trabalho presente comprado é vendido, como trabalho passado empregado nas novas mercadorias, a quem o vendera como trabalho presente, na troca de uma quantidade de trabalho presente por quantidade menor de trabalho passado.
O capitalista, por seu lado, atribui a ocorrência do lucro a faculdades mágicas do capital para se transformar em mais capital. A produção exige a participação de meios de produção e de trabalho presente ou vivo, qualquer deles de sua pertença, porque os adquiriu no mercado; nada mais natural do que considerar a parte do valor de que se apropria, o lucro, como sendo originada pelo seu capital. A utilidade do capital para o processo produtivo, sem a qual, julga, a produção não seria possível, é confundida pelo capitalista com uma sua faculdade para produzir mais valor do que o valor das mercadorias com ele compradas. Um capital suplementar é o que espera obter formando o preço das mercadorias de que é proprietário pela adição ao capital consumido do lucro resultante da aplicação duma taxa de lucro esperada à totalidade do capital empregado, de modo que o preço de venda da produção seja superior ao preço de compra dos factores produtivos. Uma forma de legitimação do lucro — a remuneração que acha devida pela utilidade do capital para o processo produtivo — é transformada pelo capitalista na génese do próprio lucro e com ela confundida. Seguro de si, fortalecido pela longa tradição do direito que lhe assiste, interpreta o mundo à medida dos seus interesses, não se interrogando acerca dos poderes ocultos que fariam transformar dinheiro em mais dinheiro. Não admira os expeditos mercadores e os industriosos produtores não se preocuparem com tal alquimia, mas surpreende que os seus ideólogos, homens dedicados ao estudo e à descoberta das coisas e das suas razões de ser, ao cabo de tanto tempo não tenham desvendado o mistério produzindo uma explicação consistente e plausível para a génese do lucro.
Na formação dos preços nominais das mercadorias, os capitalistas sempre usaram a aplicação duma taxa de lucro esperada sobre o capital empregado. As vicissitudes do mercado — a adequação da oferta à procura, a concorrência de mercadorias congéneres produzidas com diferente produtividade e, por isso, com preços nominais diversificados, a preferência dos consumidores, por exemplo — acabam por transformar os preços nominais em preços de mercado e a taxa de lucro esperada em taxa de lucro obtida. O lucro obtido, portanto, resulta dos preços de mercado, dos preços diversificados pelos quais as mercadorias são vendidas, e as taxas de lucro obtidas pelos diversos capitalistas acabam sendo diversificadas, motivando a concorrência no interior dos ramos e a mobilidade dos capitais entre eles, na busca incessante da melhor taxa. A concorrência e a mobilidade dos capitais, por isso, constituem características fundamentais do modo de produção capitalista. Aceitando como plausível que os preços das mercadorias eram representativos dos seus valores, e considerando serem formados pela aplicação duma taxa geral de mais-valia, previamente conhecida, ao capital empregado como salários, e não pela aplicação da taxa de lucro à totalidade do capital, o modelo de formação dos preços nominais concebido pelo Marx fazia com que a taxa de lucro esperada por cada capitalista fosse inversamente proporcional à composição orgânica do seu capital. Deste modo, quanto maior fosse a relação entre o capital empregado em meios de produção face ao empregado em salários menor seria o lucro esperado por capitais de idêntico montante.
Em condições de igualdade da jornada e dos ritmos de trabalho, sendo dados os salários e os demais preços, ocorre uma taxa geral de mais-valia. Na situação exemplificada, os trabalhadores seriam igualmente explorados em qualquer processo produtivo particular, porque em todos eles, fornecendo determinada quantidade de trabalho, ou trabalho com determinado valor, receberiam em troca idêntica quantidade a menos de trabalho, ou trabalho com idêntico menos valor. O conceito de taxa geral de mais-valia assim formulado, contudo, apenas designa a relação do valor que os trabalhadores recebem a menos com aquele que efectivamente recebem, exprimindo a uniformidade da exploração a que se encontram sujeitos numa determinada formação económico-social, não tem qualquer validade para designar a apropriação individual dos capitalistas. A apropriação duma parte do valor não ocorre no processo imediato de produção; aqui tem lugar a criação do novo valor, através da produção do trabalho que transforma em novas mercadorias os objectos sobre os quais incide a sua acção. Nem ocorre apenas pela compra do trabalho presente; ela ocorre pela compra e venda do trabalho, pela compra de trabalho presente e passado e pela sua venda como novo trabalho passado. Nem tem como únicos intervenientes os capitalistas e os trabalhadores a quem cada um compra trabalho.
Devido à divisão social do trabalho e à intermediação da moeda, um capitalista particular não efectua trocas directas com os trabalhadores a quem compra trabalho, nem as suas trocas se resumem às que efectua com trabalhadores, englobando as que efectua com outros capitalistas a quem compre meios de produção e a quem venda a sua própria produção. Para que o seu lucro se origine basta que o trabalho que compra, passado e presente, seja vendido, sob a forma de novo trabalho passado apreciado pela taxa de lucro, aos trabalhadores ou a outros capitalistas, consoante o tipo das novas mercadorias em cuja produção foi empregado. A apropriação duma parte do valor criado na produção, portanto, ocorre na circulação das mercadorias, através da compra de trabalho presente anterior e actual depreciado e da sua venda sob a forma de novo trabalho passado apreciado, envolve diversos intervenientes e é efectuada pela intermediação da mercadoria equivalente geral dinheiro. Ela não provém da utilidade duma mercadoria mágica, a “força de trabalho”, cujo simples uso tivesse a faculdade de proporcionar directamente aos seus compradores mais valor do que o seu próprio valor, como concebeu o Marx. A utilização do conceito de taxa geral de mais-valia para determinar a parte do valor de que os capitalistas se apropriariam individualmente, e assim formar os preços nominais das suas mercadorias, é o reflexo duma concepção errada da génese do lucro e da forma como é determinado o seu montante e se processa a sua apropriação.
Os diversos tipos de mercadorias reprodutíveis que não o trabalho presente, para além de produtos da natureza, mais não são do que trabalho passado. A compra de trabalho passado sob a forma de meios de produção realiza o lucro dos capitais que o compraram como trabalho presente; e a compra de novo trabalho presente realiza o lucro dos capitais empregados na produção dos meios de subsistência com que é pago. A totalidade do trabalho comprado por um capital particular, portanto, é constituída por salários pagos pelo trabalho empregado na produção dos meios de produção e dos meios de subsistência e pelos lucros distribuídos a cada um dos capitais empregados na produção destas mercadorias. O trabalho presente ou vivo anterior empregado na produção dos meios de produção foi pago depreciado pelo lucro distribuído aos capitais que o compraram, e o trabalho presente ou vivo agora comprado é pago também ele depreciado pelo lucro distribuído aos capitais que compraram o trabalho presente ou vivo anterior empregado na produção dos meios de subsistência com que é pago. Um capital particular, empregado como capital produtivo, compra o trabalho pelo seu valor, representado pelo preço de compra, mas compra-o, directamente no caso dos meios de produção, e indirectamente no caso dos meios de subsistência, a outros capitais, e realiza o lucro deles. Aos trabalhadores, porém, este trabalho, como trabalho presente ou vivo anterior, foi pago e, como trabalho presente ou vivo actual, é pago abaixo do seu valor, depreciado pelos lucros distribuídos. O lucro que este capital estima ou deseja obter será determinado pela apreciação, à taxa de lucro esperada, do valor de todo o trabalho comprado, através da formação dos preços nominais das novas mercadorias em cuja produção for empregado; e o lucro obtido será realizado com a venda destas mercadorias aos preços de mercado. Um ciclo de reprodução de um capital particular envolve não só a sua própria reprodução como a de outros, realizando os lucros dos capitais de cujas mercadorias é comprador — directamente, no caso dos meios de produção, e indirectamente, através dos salários que paga, no caso dos meios de subsistência — e tendo o seu lucro realizado por aqueles que compram as suas mercadorias. A apropriação, por cada um dos diversos capitais particulares, duma parte do valor criado na produção, portanto, realiza-se pela repartição mútua do lucro social.
No caso da produção social, desde que num ciclo de reprodução do capital social, por exemplo anual, os montantes e a relação entre trabalho passado e trabalho presente — ou seja, o montante e a composição orgânica do capital, e, logo, a relação entre lucros referentes a trabalho presente anterior e lucros referentes a trabalho presente actual — se mantivessem constantes face ao ocorrido no ciclo precedente, o valor produzido e o lucro social obtido no ciclo poderiam ser referidos à totalidade do trabalho presente nele comprado. Ainda que uma parte deste trabalho presente apenas viesse a gerar lucro, pela sua venda como trabalho passado, no ciclo seguinte, este lucro seria compensado por aquele gerado pela venda no ciclo actual do trabalho presente comprado no ciclo anterior. Nestas condições, a totalidade do lucro social, pela compensação assinalada, representaria o que seria gerado pela venda no ciclo actual de todo o trabalho presente nele comprado, e a taxa geral de lucro e a taxa geral de mais-valia seriam idênticas, reflectindo ambas a taxa de exploração dos trabalhadores, dado que a totalidade do capital social empregado seria usada na compra de trabalho presente. A relação do lucro e da sua taxa com a compra e venda do trabalho presente seria então clara, tornando evidente o carácter supérfluo do conceito de taxa geral de mais-valia. Embora com flutuações no montante e na composição orgânica do capital social, é uma compensação deste tipo que ocorre na produção social, pelo que o preço do valor da produção social anual corresponde ao somatório dos salários pagos com os lucros obtidos.
Nos processos produtivos particulares, diversamente do que ocorre na produção social nas condições assinaladas, as proporções entre o trabalho passado e o trabalho presente comprados podem ser diversificadas. As composições orgânicas dos diversos capitais particulares podem ser distintas entre si e da composição orgânica do capital social, e os lucros que cada um distribui podem estar desigualmente repartidos pelos capitais aplicados em trabalho passado (meios de produção) e pelos capitais aplicados em trabalho presente (meios de subsistência). A distribuição dos lucros alheios efectuada por cada capital particular, portanto, é feita na proporção da sua composição orgânica, e das composições orgânicas dos diversos capitais particulares resulta a repartição da totalidade do lucro social proporcionalmente à composição orgânica do capital social. Se os preços nominais das novas mercadorias fossem formados pela aplicação da taxa geral de mais-valia à parte correspondente aos salários pagos por cada um dos diversos capitais particulares, o lucro esperado assim determinado poderia não equivaler ao que cada um deles distribuíra e lhe seria devido pela repartição equitativa do lucro social esperado. Os preços nominais das novas mercadorias em cuja produção cada capital particular é empregado, por isso, não podem ser formados pela aplicação da taxa geral de mais-valia à parte desse capital correspondente aos salários pagos. A taxa geral de mais-valia esperada depende do lucro social esperado, e não o contrário, e é o efeito do lucro social esperado ser determinado pelos preços nominais formados pela aplicação de taxas de lucro esperadas similares. Mesmo que meramente estimada, o significado e a forma como é determinado o conceito fazem com que a taxa geral de mais-valia não possa ser usada como instrumento de formação dos preços nominais das mercadorias e, por isso, tenha uma utilidade restrita.
Cada um dos diversos capitais particulares espera realizar com o processo produtivo em que é aplicado um lucro equivalente, a taxa similar, ao que distribuiu, por um lado, com a compra de trabalho passado representado pelos meios de produção; por outro lado, com a compra de trabalho presente que ele próprio adquiriu, que embora tenha sido pago com salários implicou igualmente a distribuição do respectivo lucro aos capitais produtores dos meios de subsistência comprados com os salários. A totalidade do capital empregado, portanto, é constituída pelos salários pagos e pelos lucros apropriados pelos capitais de cujas mercadorias é comprador, e representa o valor do trabalho empregado nestas mercadorias, tenham elas a forma de trabalho passado (meios de produção) ou de trabalho presente (meios de subsistência). A transformação deste trabalho em novas mercadorias, e a sua apreciação pela aplicação da taxa de lucro esperada, originará com a sua venda o novo lucro, depreciando o trabalho presente que vier a ser comprado, em cujo pagamento participarão, directa ou indirectamente, estas novas mercadorias. Deste modo, a formação dos preços nominais das novas mercadorias pela aplicação de taxas de lucro esperadas similares à totalidade do capital empregado na sua produção, e não pela aplicação da taxa geral de mais-valia à parte do capital empregada como salários, constitui a forma de realizar, simultaneamente, a depreciação homogénea do trabalho presente comprado por qualquer capital particular, a manutenção dos preços nominais relativos e a determinação do lucro social esperado, assim como a sua repartição equitativa pelos diversos capitais particulares, directamente proporcional à totalidade de cada um deles e independentemente das suas composições orgânicas.
Provindo da troca desigual entre os capitalistas e os trabalhadores assalariados, o lucro apenas pode ser gerado quando o trabalho presente comprado, independentemente do ramo da produção em que seja empregado, é vendido aos trabalhadores sob a forma de trabalho passado integrado nos meios de subsistência que estes compram com os salários. Como os capitalistas do ramo dos meios de produção não efectuam vendas directas aos trabalhadores, o lucro de que se apropriam é-lhes distribuído pelos capitalistas do ramo dos meios de subsistência que adquirem os meios de produção em cuja produção os capitais daquele ramo são empregados. Esta distribuição é efectuada directamente, no caso das trocas entre os dois ramos, ou indirectamente, no caso das trocas no interior do ramo dos meios de produção; neste caso, como os meios de produção são empregados no próprio ramo na produção de meios de produção que acabarão por ser trocados com o ramo dos meios de subsistência, os lucros provenientes desta troca são redistribuídos no interior do ramo. Deste modo, cada capital particular compra e vende trabalho aos seus produtores, ainda que uma parte destas compras e vendas seja efectuada indirectamente, no caso em que as mercadorias são meios de produção, através de compras e vendas mútuas entre capitais; em conformidade, o lucro de que espera apropriar-se será directamente proporcional ao seu montante. O lucro é gerado pela apreciação do trabalho comprado, isto é, pela sua venda por preço superior àquele pelo qual foi comprado; e o montante esperado é determinado pela formação do preço nominal das mercadorias em cuja produção o trabalho foi empregado, através da adição do lucro esperado ao capital consumido, resultante da aplicação duma taxa de lucro esperada à totalidade do capital empregado. A adequação da oferta à procura, a concorrência de mercadorias congéneres com preços diversificados, a preferência dos consumidores, por exemplo, obrigam ao ajustamento dos preços, efectuado no mercado por transformação dos preços nominais em preços de mercado e das taxas de lucro esperadas em taxas de lucro obtidas. A procura da obtenção da melhor taxa de lucro conduz à modernização tecnológica susceptível de aumentar a produtividade e à eliminação dos processos produtivos obsoletos, assim como à mobilidade dos capitais entre os ramos da produção social.
A adopção pelo Marx dum modelo de preços nominais formados pela aplicação da taxa geral de mais-valia provém, antes de mais, da aceitação da premissa de que as mercadorias eram trocadas pelos seus valores, e, depois, da sua concepção de que o lucro era gerado no processo imediato de produção, como mais-valia ou trabalho suplementar fornecido gratuitamente pela “força de trabalho”, e apropriado directamente pelo seu comprador. A designação de mais-valia que atribuiu ao lucro é suficientemente elucidativa da qualidade de valor suplementar com que a concebia. Não considerando o valor apropriado como sendo proveniente da compra do trabalho presente por preço correspondente a valor inferior ao seu valor, representado pelo preço superior da sua venda como trabalho passado, o Marx não se apercebeu de que o lucro constituía a parte do valor do trabalho subtraída ao trabalhador, representando para ele uma verdadeira menos-valia, e não uma mais-valia criada pelo trabalho. O facto de designar a mais-valia também por trabalho não pago é revelador das dificuldades com que se defrontou na tentativa de arranjar uma explicação plausível para a exploração do trabalhador assalariado. Como não concebia o trabalho como sendo a mercadoria vendida, nem a troca como sendo uma troca desigual, esta sua designação do lucro ou mais-valia como trabalho não pago, mais do que uma ambiguidade, constituía uma flagrante incoerência, uma vez que na sua concepção o trabalhador não vendia trabalho, nem este era a mercadoria que o capitalista comprava. Designar como não pago algo que não era vendido nem comprado, que por este facto não teria de ser pago, e identificar o lucro com algo que não constituía mercadoria, não tinha qualquer sentido; radicar a origem do lucro num fenómeno sobrenatural, então, constituía um absurdo. Sem compreender que a “força de trabalho” não poderia proporcionar mais valor do que o seu hipotético próprio valor, concepção errada que engendrara para se manter fiel à falácia da troca equitativa, só deste modo lhe era possível explicar a ocorrência do lucro e da exploração que o origina.
Tal como os capitalistas concebiam o lucro como sendo um valor suplementar fornecido pela utilidade do seu capital, o Marx concebia-o como valor suplementar fornecido pela utilidade da mercadoria mágica “força de trabalho”. Neste contexto conceptual, cada capitalista apropriar-se-ia da mais-valia correspondente à fornecida pela “força de trabalho” que comprava. Sendo o período e o ritmo do trabalho e o nível dos salários similares, a taxa geral de mais-valia transformava-se automaticamente em taxa de apropriação particular. Embora fosse admitido que algumas mercadorias pudessem ser trocadas abaixo do seu valor e outras acima dele, estas variações, justificadas pela produtividade marginal e por outros factores ocasionais, eram consideradas desvios em relação à lei geral da troca equitativa das mercadorias. Se as mercadorias, incluindo a “força de trabalho”, eram trocadas pelos seus valores; se a mais-valia era um valor suplementar fornecido gratuitamente pela “força de trabalho”; e se as condições de exploração eram comuns, cada capitalista apropriar-se-ia da mais-valia correspondente à aplicação da taxa geral ao capital que empregava como salários. Este errado modelo conceptual, derivado da economia política clássica, constitui a base da obra do Marx. Devido às suas discrepâncias com a realidade, um tal modelo viria a ser abandonado, substituído por um outro em que os preços nominais passavam a ser formados pela aplicação da taxa geral de lucro, através do artifício duma gorada tentativa de apresentar a conversão dos valores em preços de produção como sendo efectuada pela acção do mercado, o que acabou por contribuir para descredibilizar a sua obra.
Alguns marxistas e outros comentadores da obra do Marx afirmam que aquele seu modelo inicial de formação dos preços nominais se deveria a uma hipotética comodidade de exposição, para melhor ilustrar a formação do valor das mercadorias e a origem do lucro; e na justificação da conversão dos valores em preços de produção é afirmado que a troca das mercadorias pelos seus valores representava o que ocorria no modo de produção capitalista em condições bem mais atrasadas. Não comungo de opiniões tão ligeiras e benévolas. Um tal modelo de formação dos preços nominais é fruto das concepções erradas do Marx acerca do valor de troca das mercadorias, da génese do lucro, da determinação do montante do lucro particular e da forma da sua apropriação; e muito provavelmente nunca ocorreu em qualquer fase do desenvolvimento do modo de produção capitalista. Parece-me mais plausível admitir que a sua concepção acerca do valor apropriado como sendo trabalho suplementar gratuito fornecido pela “força de trabalho”, como novo valor criado para além do seu próprio valor, não lhe possibilitava conceber outro modelo de formação dos preços nominais, já que o lucro apropriado por cada capitalista decorria da quantidade de “força de trabalho” que empregava, e a apropriação ocorria directamente na produção. Preso a uma tal concepção, o Marx não poderia imaginar que a parte do valor apropriada resultava duma troca desigual e, portanto, que a apropriação ocorria na esfera da circulação. Existindo troca desigual, dizia, ela constituiria um mero logro recíproco dos capitalistas; não suspeitou que o logro se estendia ao participante mais fraco na troca, o trabalhador assalariado. Ficou impossibilitado, por isso, de sair da conclusão absurda que resultava da sua concepção da génese da exploração: taxas de lucro inversamente proporcionais às composições orgânicas dos capitais, manifestamente em contradição com a realidade.
Foi a resolução desta contradição, e a necessidade de conformar a concepção marxista da determinação do montante do lucro particular e da forma da sua apropriação com a realidade, que foi intentada com a chamada conversão dos valores em preços de produção. Para dar alguma credibilidade a esta operação de conversão de preços supostamente representativos dos valores noutros preços, os chamados preços de produção, era apontada a identidade entre o preço representativo do valor e o preço de produção da globalidade da produção social. De facto, sendo os novos preços de produção apresentados como resultado da acção do mercado na formação da taxa geral de lucro a partir da taxa geral de mais-valia, o preço representativo do valor da produção global teria de ser idêntico ao seu preço de produção. A famosa conversão partia de preços, de compra e de venda, e de lucros, particulares e social, representativos dos valores, decorrentes dum modelo em que os preços nominais eram formados pela aplicação da taxa geral de mais-valia esperada — que a concorrência corrigiria para preços de mercado em função da produtividade média ponderada do trabalho presente empregado, determinando assim o valor das mercadorias pelo “trabalho socialmente necessário” para a sua produção — e apresentava os novos preços de produção como forma “transmutada” daqueles. O mercado, cuja acção, “por força da concorrência”, é adequar a produção e transformar preços nominais em preços de mercado, corrigindo os preços esperados e determinando os preços a que as mercadorias acabam sendo vendidas, imporia agora a adopção dum outro modelo de formação dos próprios preços nominais. Devido à invocada acção do mercado, “por força da concorrência”, taxas de lucro particulares muito diversas, e inversamente proporcionais às composições orgânicas dos capitais, seriam transformadas em taxas de lucro similares, indiferentes às composições orgânicas, a taxa geral de lucro, para que o lucro particular obtido correspondesse à repartição equitativa do lucro social proporcionalmente a cada capital particular empregado; uma tal transformação ditaria a formação dos preços de produção. Um modelo irreal, em que todos os preços supostamente representavam os valores, e em que os lucros esperados, particulares e social, eram determinados através da formação dos preços nominais pela aplicação da taxa geral de mais-valia esperada, era convertido num outro modelo, ainda mais irreal, em que os preços deixavam de representar os valores e o lucro social era determinado pela taxa geral de mais-valia esperada, mas os lucros particulares eram determinados pela taxa geral de lucro conhecida ou esperada antes mesmo de ser formada.
A mesma “força da concorrência” levaria agora o mercado a converter preços nominais representativos dos valores em preços de mercado não representativos dos valores, os preços de produção, por igualização das diferentes taxas de lucro “numa taxa geral de lucro, que é a média de todas elas”. Os preços de produção divergiriam dos preços representativos dos valores, sendo uns superiores e outros inferiores a eles, mas tais desvios compensar-se-iam mutuamente, de modo que o preço de produção da produção social coincidiria com o seu preço representativo dos valores. A partir do instante em que o mercado efectuava a mágica conversão, em resposta ao apelo da realidade — a obtenção de taxas de lucro particulares similares, independentes da composição orgânica dos capitais — os preços nominais das mercadorias deixavam de ser representativos dos valores, passando a ser preços de produção nominais, e, portanto, formados pela aplicação da taxa de lucro esperada. A invocada conversão dos preços representativos dos valores em preços de produção por “força da concorrência” tornava-se então desnecessária, pois os preços de produção começavam por ser formados como preços nominais, agora pela aplicação da taxa geral de lucro, ela própria conhecida e não meramente esperada, determinada pela taxa geral de mais-valia, também ela conhecida ou esperada antes mesmo de formada. Ficava por explicar, antes de tudo, como seria realizado o lucro social sem qualquer referência a compras e vendas mútuas dos ramos, como se a produção social se destinasse a um hipotético comprador externo; e, depois, o que determinaria a formação da taxa geral de mais-valia e da taxa geral de lucro antes dos preços de produção determinarem o preço da produção social e o lucro social dele resultante. Assim como ficava por explicar a distribuição do capital social pelos diversos ramos, e a estrutura do capital (fixo e circulante ou, segundo a divisão marxista, constante, e a sua parte consumida, e variável) no interior dos ramos no modelo de preços representativos dos valores, e a sua manutenção no modelo de preços de produção, representando os preços, neste modelo, quantidades diferentes de mercadorias; e, nestas condições, como seria possível comparar os preços de produção com os preços representativos dos valores, e aquilatar o desvio daqueles em relação a estes.
Os preços de produção são preços nominais antes de serem preços de mercado, são por isso o resultado dum outro modelo de formação dos preços nominais e não o resultado da acção do mercado. E um outro modelo de formação dos preços nominais é o resultado duma outra concepção acerca da determinação do montante do lucro particular e da forma como se processa a sua apropriação, e não o resultado da acção do mercado. O mercado transforma preços nominais e lucros esperados em preços de mercado e em lucros obtidos, não transforma preços nominais e lucros particulares esperados determinados em função da aplicação duma taxa geral de mais-valia em preços de mercado e em lucros particulares obtidos determinados em função duma taxa geral de lucro. A taxa geral de lucro ou taxa de lucro social, relação do lucro social com o capital social empregado, é o resultado dos preços e dos lucros particulares e não a sua causa. Se a obtenção de lucros particulares correspondentes a taxa similar fosse determinada pelo mercado por transformação de lucros particulares esperados determinados pela aplicação da taxa geral de mais-valia, correspondentes a taxas de lucro muito diversas, seria desnecessário elaborar um outro modelo de formação dos preços nominais e dos lucros particulares esperados; qualquer que fosse o modelo, o mercado se encarregaria de transformá-los em preços de produção e em lucros correspondentes à taxa geral de lucro. A argumentação que apresenta a conversão dos preços representativos dos valores em preços de produção como sendo efectuada pelo mercado, “por força da concorrência”, portanto, não tem qualquer consistência. A chamada conversão dos valores em preços de produção, afinal, constitui o abandono dum modelo de formação dos preços nominais pela aplicação da taxa geral de mais-valia esperada e a adopção dum outro modelo, no qual os preços nominais passavam a ser formados pela aplicação da taxa geral de lucro esperada, representando uma outra concepção acerca da determinação do montante do lucro particular e da forma da sua apropriação, distinta da concepção inicial. Surpreende que alguém tenha perdido ou ainda perca tempo a tentar fundamentar aquela invocada conversão, quando ela representa coisa muito diversa.
A designação de conversão dos valores em preços de produção dada a esta operação, portanto, é errónea, visto tratar-se duma aparente conversão, representando apenas a adopção dum outro modelo de formação dos preços nominais, agora pela aplicação da taxa de lucro, e o abandono do modelo inicial em que eles eram formados pela aplicação da taxa de mais-valia. O seu objectivo — corrigir a anterior concepção do valor de troca das mercadorias, da determinação do montante do lucro particular e da forma da sua apropriação, e ultrapassar a discrepância da obtenção de lucros não proporcionais aos capitais empregados e de taxas de lucro inversamente proporcionais às composições orgânicas dos capitais que dela decorria — é claro; do novo modelo de formação dos preços nominais pela aplicação duma taxa geral de lucro resultava agora a obtenção pelos diversos capitais particulares de lucros proporcionais e de taxas de mais-valia diversificadas, directamente proporcionais às composições orgânicas dos capitais, ao invés duma taxa de mais-valia comum, tornando clara a inconsistência do conceito. O seu fundamento — que corresponderia à evolução e ao desenvolvimento do capitalismo — é inverosímil; no modo de produção capitalista, os preços nominais sempre foram formados pela aplicação da taxa de lucro esperada ao capital empregado, mesmo numa hipotética situação inicial em que os meios de produção não fossem adquiridos no mercado e a totalidade do capital se resumisse aos salários; as mercadorias sempre foram trocadas pelos seus preços de mercado, formados por transformação dos preços nominais por múltiplos factores, e sempre foram aqueles preços que determinaram a taxa de lucro obtida por cada capitalista, assim como as que dela resultam: taxa de lucro média dos ramos e, também, a taxa de lucro média geral. Os preços nominais nunca foram formados pela aplicação duma taxa geral de mais-valia, porque a relação que ao capitalista sempre interessou foi a do dinheiro que espera receber com a venda da produção com aquele que despende com a compra dos factores produtivos, e a taxa de lucro que dela resulta.
Quando lançam a produção no mercado, o dado fiável de que os capitalistas dispõem é o montante do capital empregado; a sua expectativa é obterem o maior lucro possível do seu emprego. Tal como a produção é o resultado do emprego da totalidade do seu capital, e não apenas da parte empregada como salários, é da totalidade dele que esperam obter lucro. Por isso, formam os preços nominais das mercadorias com ele produzidas pela aplicação da taxa de lucro que esperam vir a obter, e que desejam, pelo menos, não seja inferior à de qualquer deles; os preços nominais assim formados determinam os lucros esperados; e os preços de mercado em que os preços nominais são transformados determinam os lucros obtidos, a taxa de lucro particular, a taxa de lucro do ramo, a taxa geral de lucro e, necessariamente, a taxa geral de mais-valia. O lucro de que se apropriam é proveniente da repartição equitativa do lucro social, efectuada pela distribuição mútua do quinhão devido a cada um na medida em que contribuiu para a sua formação, e para que ele se origine é necessário que as mercadorias circulem. Todos efectuam compras aos trabalhadores, mas apenas os do ramo dos meios de subsistência lhes efectuam vendas, vendendo à totalidade dos trabalhadores enquanto compram somente aos que empregam; o lucro social proveniente destas vendas, porém, não tem origem apenas no trabalho presente comprado directamente por este ramo, mas também no trabalho presente comprado pelo ramo dos meios de produção, adquirido indirectamente pelo ramo dos meios de subsistência sob a forma de meios de produção. Embora realizado no ramo dos meios de subsistência, o lucro social é necessariamente repartido por entre os dois ramos da produção social e distribuído ao ramo dos meios de produção, que nada vende aos trabalhadores e que por esta razão se veria impedido de obter lucro. A determinação do montante do lucro social esperado, a sua repartição equitativa e a sua distribuição mútua são realizadas pela formação dos preços nominais das mercadorias através da aplicação de taxas de lucro esperadas similares. Um modelo tão dinâmico contrasta com o modelo estático do Marx, no qual o lucro era concebido como valor novo criado a mais no processo de produção pela utilidade da “força de trabalho”, que em condições de exploração comuns proporcionava a cada capital particular a apropriação directa do lucro fornecido pela “força de trabalho” que empregava. Seria insólito que os capitalistas esperassem obter lucro apenas duma parte do capital empregado; esperarem obtê-lo a taxas à partida desiguais formando os preços nominais das mercadorias pela aplicação da taxa geral de mais-valia seria absurdo.
O que se mostrava necessário para tentar salvar a obra do Marx, portanto, não era converter preços nominais supostamente representativos dos valores nos chamados preços de produção, nem justificar estes como forma transmutada daqueles, ainda por cima como resultado duma hipotética acção do mercado a responder ao interesse dos capitalistas em se trapacearem mutuamente. Nem os preços nominais admitidos pelo Marx como sendo representativos dos valores os representavam de facto nem os chamados preços de produção passavam a ser a sua forma transmutada. Antes de mais, seria necessário reconhecer o erro de conceber o lucro como mais-valia ou valor suplementar criado pela utilidade da “força de trabalho”, e admiti-lo como resultado duma troca desigual entre o capitalista e o trabalhador; depois, aceitar que o montante do lucro esperado constitui um efeito dos preços nominais das mercadorias serem formados pela aplicação duma taxa de lucro esperada à totalidade de cada capital, porque todo ele compra trabalho presente ou vivo, ainda que uma parte possa ser comprado como trabalho passado intermédio a outros capitais, e vende trabalho passado ou morto aos trabalhadores, ainda que o possa vender como trabalho passado intermédio a outros capitais. Restaria demonstrar que a formação dos preços nominais pela adição do lucro esperado ao capital consumido, resultante da aplicação duma taxa de lucro esperada à totalidade do capital empregado, sendo as taxas similares, constituindo, por isso, uma taxa comum aos diversos capitais particulares, não altera os preços nominais relativos das mercadorias com eles produzidas, e que esta é a forma própria de depreciar homogeneamente o trabalho presente, independentemente de quem o compra, e, simultaneamente, de determinar o montante do lucro social esperado e de proceder à sua repartição equitativa pelos diversos capitais particulares.
Isto teria decerto um grande impacto na obra do Marx. Nos rascunhos que deixou, aproveitados pelo Engels para edição póstuma como Livros II e III de O Capital, não se vislumbra que o Marx tivesse compreendido a falsidade da sua concepção da génese e da forma de apropriação do lucro. Não admira, por isso, que a orientação seguida tenha sido a de tentar harmonizar aquela concepção com outra forma da determinação do montante e da apropriação do lucro particular como repartição equitativa do lucro social, pela obtenção de taxas de lucro similares, a taxa geral de lucro. A nova concepção era apresentada como resultado da conversão de preços supostamente representativos dos valores nos chamados preços de produção, efectuada pela acção do mercado, “por força da concorrência”, em resposta a supostos interesses colectivos dos capitalistas. O mercado, que na concepção inicial formava os preços representativos dos valores, determinando por acção da concorrência o trabalho socialmente necessário para a produção das mercadorias, formaria agora, também por “força da concorrência”, preços de produção distintos dos valores. E os capitalistas, que por “força da concorrência” procuram incessantemente a obtenção da melhor rentabilização dos seus capitais, aceitariam agora que a concorrência que movem uns aos outros se traduzisse pelo efeito oposto, realizando a igualização das taxas de lucro, em vez da sua diferenciação, e, além do mais, fizesse com que uns se apropriassem de parte dos lucros devidos a outros, promovendo a trapaça geral. São demasiados efeitos contraditórios para que uma tal concepção possa ter qualquer consistência.
Aceitando a falácia de que todas as mercadorias eram trocadas por preços correspondentes aos seus valores, o Marx estava persuadido de que os preços nominais resultantes do seu modelo inicial representavam os valores das mercadorias. Errava duplamente; por um lado, porque o preço da mercadoria vendida pelos trabalhadores estava abaixo do seu valor; e, por outro lado, porque os preços das restantes mercadorias, formados pela aplicação da taxa geral de mais-valia, também não representavam os seus valores. Voltava a errar ao defender que os preços de produção não representavam os valores das restantes mercadorias. Em condições de adequação da produção e de similitude dos índices da produtividade, num mercado interno concorrencial e fechado, correspondendo ao modelo teórico do modo de produção capitalista, os preços nominais resultantes da aplicação de taxas de lucro esperadas similares, formados pela adição dos lucros assim esperados aos capitais consumidos, acabariam por representar os valores das mercadorias, ainda que essa fosse uma representação fantasmagórica e efémera. Nessa situação, representá-los-iam para os capitalistas, nas trocas que efectuassem entre si, na qualidade de preços de trabalho passado intermédio, não nas trocas que efectuassem com os trabalhadores. Nas trocas que os capitalistas efectuam com os trabalhadores, o preço de venda do trabalho, na qualidade de trabalho passado, representa o seu valor, enquanto o preço de compra da mesma quantidade de trabalho, na qualidade de trabalho presente, está abaixo do seu valor. Neste caso, os capitalistas compram uma quantidade de trabalho presente depreciada, por preço abaixo do valor, e vendem-na como trabalho passado apreciada pelo lucro, por preço correspondente ao valor. Aos trabalhadores, a realidade dos termos da troca parece invertida, julgando venderem trabalho presente por preço correspondente ao valor e comprarem trabalho passado acima do valor, porque apreciado pelo lucro. A ilusão provém do facto de o mesmo preço, o salário, comprar menor valor ou quantidade de trabalho passado do que aquela que o trabalhador vendeu como trabalho presente. Mantendo-se inalterado o capital de entrada e o de saída num ciclo da produção social, o valor produzido no ciclo representa o valor do trabalho presente nele empregado; sendo esse valor expresso pela totalidade dos salários pagos e dos lucros apropriados pelos capitalistas, a origem do lucro apenas pode residir na venda do trabalho presente por preço abaixo do valor.
O preço do valor do custo da produção social num ciclo não representa fielmente o preço da totalidade do trabalho nele consumido, porque o lucro esperado é determinado em função da totalidade do capital empregado, e não apenas em função do capital consumido. Participando embora na produção, o trabalho passado representado pelo capital fixo pode não ser consumido na sua totalidade, pelo que apenas o valor estimado do seu desgaste é incluído no preço de compra dos factores produtivos. Determinando o lucro esperado em função da totalidade do capital empregado, e não apenas em função do capital consumido, e formando os preços nominais pela adição daquele lucro ao capital consumido, os preços nominais assim formados não representam o valor consumido na produção. O que se passa com o capital, porém, reflecte o que se passa com o trabalho presente, porque o valor do trabalho empregado envolve não apenas o do trabalho consumido, ou a energia humana consumida na sua produção, mas também uma parte do valor do trabalho que foi necessário consumir para dotá-lo da diversidade das utilidades concretas com as quais participa na produção social. Deste modo, os preços acabam por representar o valor do trabalho empregado, e não apenas o valor do trabalho consumido. Um tal modelo de formação dos preços nominais previne eventuais distorções na repartição do lucro social, que resultariam se capitais de idêntico montante, consumidos a ritmo similar, obtivessem lucro a taxa diversa consoante a fase em que se encontrasse a amortização da sua parte fixa; e remunera, como juro, a parte do capital fixo imobilizada, através do lucro diferencial possibilitado pelo aumento da produtividade proporcionado por meios de produção renovados. Os preços nominais assim formados têm reflexos na diversificação das taxas de margem de lucro esperadas no ciclo, e acabam por constituir um incentivo para a constante renovação dos meios de produção e para o aumento da produtividade, reduzindo o valor do custo da produção social.
Apesar dos preços de compra dos meios de produção e dos meios de subsistência com que é pago o trabalho presente representarem o valor do trabalho neles empregado, porque contêm os lucros dos vendedores, e de mais nenhum trabalho entrar na produção, o preço nominal das novas mercadorias produzidas é superior ao preço de compra dos factores produtivos empregados, pela adição do lucro esperado. A mesma quantidade de trabalho, portanto, é representada por dois preços distintos: o preço de compra dos factores produtivos e o preço de venda das mercadorias em cuja produção são empregados. Este modo de formação dos preços nominais pela aplicação da taxa de lucro esperada a capitais empregados que incluem lucros alheios distribuídos, sendo as taxas de lucro esperadas similares, em nada altera os preços relativos das mercadorias trocadas entre os capitalistas; é indiferente que o preço nominal seja um ou outro, desde que seja o resultado da aplicação de taxa de lucro similar ao capital empregado. A apreciação efectuada formando o preço nominal pela adição do lucro esperado ao preço de compra, contudo, é a forma própria de depreciar o trabalho presente que vier a ser comprado, que será pago, directa ou indirectamente, com as novas mercadorias produzidas. O preço do valor do trabalho social, por isso, difere dos preços dos valores das mercadorias particulares, assim como dos preços médios dos valores das mercadorias de cada ramo da produção social. Isto poderá diferenciar ligeiramente as taxas de lucro particulares das taxas de lucro médias dos ramos e estas da taxa geral de lucro, mas não altera a troca desigual que origina o lucro. Apesar das evidências, alguns dos ideólogos burgueses da economia política, com total despudor, continuam vendendo como verdade a falácia da troca equitativa. Não admira que o Marx, na época em que produziu O Capital, não tenha podido libertar-se de tal patranha.
Não é indiferente, aos capitalistas, que os preços das mercadorias se afastem dos valores; nem poderia deixar de assim ser, pois essa divergência é condição da existência do modo de produção capitalista. Para que o lucro ocorra, é necessário que o preço de compra do trabalho presente ou vivo esteja abaixo do preço correspondente ao valor e que a mesma quantidade de trabalho seja vendida aos trabalhadores, como trabalho passado, por preço correspondente ao valor. A venda do trabalho aos seus produtores, sob a forma de trabalho passado representado nos meios de subsistência, culmina o ciclo de reprodução do capital social; este preço de venda representa necessariamente o valor do trabalho, e a diferença entre ele e o preço da sua compra como trabalho presente constitui o lucro de que os capitalistas se apropriam. Depois, como bons cristãos, pode bastar-lhes que os preços de venda relativos das mercadorias que trocam entre si não se alterem, desde que todos adicionem aos preços de compra um lucro esperado correspondente a taxa similar. Deste modo, a troca das mercadorias entre eles apareceria como troca equitativa, e é assim que os seus ideólogos representam a totalidade das trocas. A troca das mercadorias que efectuam com os trabalhadores assalariados, porém, é uma troca desigual, porque os preços relativos da mercadoria que os trabalhadores vendem e das mercadorias que compram são permanentemente alterados. O preço de venda do trabalho presente ou vivo está abaixo do seu valor, depreciado precisamente pelo preço de venda pelo valor do trabalho passado ou morto representado nos meios de subsistência que os trabalhadores assalariados compram com o salário. O mesmo preço, o salário, compra menor valor ou quantidade de trabalho do que aquela que o trabalhador vendeu. Por esta razão, os compradores de trabalho presente exercem o maior controlo, directamente ou através do seu Estado e de outros meios menos ortodoxos, sobre o preço desta mercadoria verdadeiramente singular. Quando se excedem, esforçando-se cada um por comprá-la pelo menor preço, e põem em risco o consumo da produção global e a realização do lucro social nas taxas requeridas, o seu próprio Estado intervém regulando a concorrência da ganância, fixando períodos de trabalho máximos e salários mínimos que ao menos assegurem a sobrevivência dos produtores do trabalho e a reprodução ampliada do capital.
Antes da publicação do Livro III de O Capital, alguém notara que todos os capitalistas acrescentam lucro na formação do preço de venda das suas mercadorias, e que apenas os trabalhadores assalariados não o acrescentam ao preço da sua. De facto, os trabalhadores assalariados não acrescentam lucro ao preço da mercadoria que vendem, e a razão é simples e prosaica: ela não é produto de outras mercadorias, não tem preço de compra para quem a produz, não resulta do emprego de capital e, por isso, não reclama lucro no preço de venda. O preço do trabalho presente ou vivo não provém da relação económica entre as mercadorias, mas da relação política entre os produtores de mercadorias, constituindo a outra dimensão da relação social que a economia política representa. Na sociedade das mercadorias produzidas por mercadorias o trabalho humano constitui a excepção, de tal modo que os seus produtores só em condições muito especiais de grande unidade e coalizão dispõem de capacidade para lhe atribuírem um preço nominal ou para limitarem a taxa da exploração de que são alvo. A génese do lucro explicada daquela forma simples punha a nu a falácia da troca equitativa; tornava-se imperioso justificar uma realidade tão crua e legitimar o lucro como coisa aceitável e, se possível, necessária. É a essa tarefa de legitimação do lucro que se têm dedicado os ideólogos da economia política. Ironicamente, afirmando-se crítico implacável das representações dos ideólogos burgueses o Marx acabou por ir além de todos eles: não só legitimou o lucro como produto da utilidade da mercadoria que os capitalistas comprariam, que desse modo constituía sua inteira propriedade, como o naturalizou, transformando-o em coisa derivada do “dom” possuído pela “força de trabalho” de produzir mais valor do que o seu próprio valor. Pretendendo ter resolvido um intrincado problema científico introduziu a magia na explicação da realidade social.
Detectadas as contradições a que conduziam as concepções do Marx, sem que tenham chegado a ser reconhecidos os erros que as originavam, a chamada conversão dos valores em preços de produção não passou de uma forma fantasiosa de tentar ultrapassá-las. Não se tratou, portanto, de pretender corrigir erros conceptuais acabando por cometer outros erros, o que seria natural. Neste caso, porque os erros não foram admitidos e a nova concepção foi justificada como correspondendo a um estádio mais avançado de desenvolvimento do capitalismo, a que não se referiria a concepção inicial, poderemos estar em presença de pura manipulação cínica. No melhor dos casos, estaremos perante sinceras tentativas frustradas de compreender e de explicar com sucesso uma realidade complexa. Admitir erros de tamanha gravidade poria em causa o essencial da obra do Marx e certamente abalaria a autoridade granjeada entre os marxistas até à publicação do Livro III de O Capital. Apesar do novo conceito preço de produção entrar em contradição com a premissa fundamental de que as mercadorias eram trocadas pelos seus valores, e de a obtenção de taxas de mais-valia directamente proporcionais às composições orgânicas dos capitais pôr em causa a sua fundamentação da tendência para a queda da taxa de lucro, nenhuma ilação foi tirada acerca das implicações para a obra do Marx desta sua nova concepção do valor de troca das mercadorias, e ainda hoje é a concepção inicial que continua sendo apresentada como representativa da sua obra.
Presos a concepções falsas, o Marx e os marxistas não poderiam imaginar o que é simples: que o lucro provém da depreciação do trabalho presente pela aplicação duma taxa de apropriação ao trabalho passado, e que este facto impede que as mercadorias sejam trocadas pelos seus valores. É nesta depreciação do trabalho presente, e na troca desigual que a consuma, que reside a essência do modo de produção capitalista. Formando os preços nominais pela aplicação de taxas de lucro esperadas similares, os preços nominais relativos das suas mercadorias não se alteram e a troca entre os diversos produtores capitalistas será equitativa. A transformação dos preços nominais em preços de mercado, devido aos factores já enumerados, podendo alterar os preços relativos e, com isso, diversificar as taxas de lucro obtidas, ocasiona troca desigual também entre os capitalistas. Esta troca desigual, porém, consiste numa redistribuição do lucro social obtido pela troca desigual efectuada entre os capitalistas e os trabalhadores assalariados, e constitui o estímulo para a concorrência e para a mobilidade dos capitais.
(continua)