sábado, 29 de setembro de 2007

O limbo onde pairam muitos ex-comunistas


Ao contrário dos defensores de outros regimes ditatoriais e totalitários, os comunistas têm mostrado grande capacidade de desculpabilização do passado. Descartam-se da herança ditatorial e da barbárie criminosa que permitiram a instauração e a manutenção dos regimes comunistas, que apoiaram e incensaram enquanto duraram, esforçando-se permanentemente a minimizá-la, comparando aquelas práticas com a repressão e a violência com que o poder é exercido em sociedades de capitalismo privado concorrencial sob regimes ditatoriais, e assumem-se apenas como defensores das realizações positivas do comunismo. Embora se afirmem seguidores da mesma ideologia anti-capitalista e procurem realizar o mesmo projecto político, continuando fiéis à transformação social pela revolução comunista e à conquista do poder pela via insurreccional, apresentam programas aparentemente mais flexíveis, onde dizem permitir a propriedade privada fruto do trabalho individual e a democracia representativa pluripartidária. Entre os novos programas e a velha ideologia marxista-leninista de que continuam prisioneiros existe uma grave contradição, que não explicitam, em consonâcia, aliás, com a sua conhecida desonestidade política. Julgam poder enganar os crédulos com o estratagema do branqueamento do passado e da maior flexibilidade táctica do presente.

Nas sociedades onde não foram poder, a capacidade de desculpabilização dos comunistas resulta mais fácil, devido a duas ordens de razões: uma, não terem sido autores de perseguições, de vinganças e de violências contra os seus inimigos, e, ao contrário, pelo menos nos regimes ditatoriais, terem sido perseguidos e reprimidos, o que lhes permite apresentarem-se como vítimas; outra, o facto da sua ideologia anti-capitalista ainda encontrar alguma aceitação, mesmo entre uma certa esquerda “socialista”, nomeadamente, nos países de capitalismo mais atrasado, o que tem impedido (e bem) a criminalização da sua ideologia e a marginalização dos seus partidos, e faz com que ainda se possam manter activos, embora reduzidos a inexpressivas minorias. As sociedades burguesas democráticas não devem cercear a liberdade de expressão das ideias dos seus inimigos, criminalizando-as ou impedindo a sua difusão, nem limitar os direitos das suas organizações, mesmo que visem a sua destruição, sob pena de violarem princípios cruciais da sua própria fundação e a solidez da sua existência.

Em Portugal, estas razões têm ainda um cunho muito específico. Parte da oposição anti-fascista, o reviralho republicano, não tinha um passado recomendável em termos de respeito pelos direitos dos trabalhadores assalariados (por isso, a ênfase da sua acção oposicionista restringia-se à defesa da democracia, da liberdade e da República); outra parte era constituída por restos do anarco-sindicalismo operário (anti-capitalista); e outra parte, ainda, principalmente a partir do fim da segunda guerra mundial, era formada na sua maioria por jovens idealistas sem passado político, onde pontuavam alguns companheiros de jornada dos comunistas e um ou outro ex-militante oriundo da dissidência comunista por motivos menores; o PCP era o único partido organizado que mantinha alguma continuidade (com altos e baixos) desde a Ditadura Militar; e a propaganda comunista, exaltando os feitos da revolução e o papel decisivo da Rússia na vitória aliada, donde emergira como grande potência, ainda possibilitava conferir aos seus ideais humanistas alguma credibilidade, o que despertava simpatia entre a juventude mais esclarecida e activa politicamente.

Por ser tão inexpressiva, infelizmente (porque o fascismo salazarista gozou de um amplo apoio de massas, devido ao conservadorismo do campesinato maioritário e ao crescimento económico que foi proporcionando, pela centralização dos capitais que foi impondo e pela reorganização do tecido produtivo daí resultante, e porque neutralizou franjas de democratas tementes do comunismo, o que tem sido permanentemente escamoteado pela historiografia dominante), e para não ser confundida como aliada do regime, para quem os comunistas constituíam o verdadeiro inimigo, uma parte da oposição democrática, apesar do seu anti-comunismo, tolerou alianças com os comunistas, pese embora alguns desentendimentos pontuais em períodos de maior agressividade verbal mútua; e outra parte comportou-se mesmo como grupo de autênticos companheiros de jornada dos comunistas. O caso do Delgado, anti-comunista assumido, é elucidativo da tolerância, ou pelo menos da não hostilização radical, com que os comunistas, ou o apoio que prestavam, eram aceites no seio da oposição democrática.

Este contexto particular, a que se junta a constante propaganda comunista de enaltecimento do heroísmo da sua resistência ao fascismo salazarista — exibindo um rol de perseguidos, de desterrados, de prisioneiros políticos e de encarcerados em campos de concentração, e alguns assassinados — explica que os comunistas portugueses possam continuar a apresentar-se como campeões da luta anti-fascista, da luta pela democracia e da luta pela liberdade. Eles, de facto, têm um património de lutadores anti-fascistas, mas a sua luta contra o fascismo salazarista, pelo que afirmavam, era parte integrante da luta pela revolução comunista. Em coerência, se lhes fosse possível o derrube do fascismo e a tomada do poder em situação favorável instaurariam em curto prazo um regime comunista, não se ficariam pela reposição de um regime democrático e pela manutenção do capitalismo. Se a implantação do comunismo era de facto o seu objectivo, e se o poderiam manter em sítio tão periférico do centro comunista russo, é outra história. De qualquer modo, o seu ódio ao capitalismo privado no campo económico traduz-se, no campo político, pelo desprezo pela democracia representativa pluripartidária e pela liberdade, das quais são inimigos assumidos; nunca poderiam ser seus defensores.

Quem tenha sido activista da oposição democrática na condição de não comunista e, depois, na condição de militante comunista conhece bem que os comunistas conferiam à democracia e à liberdade um valor meramente instrumental, meios tácticos de passagem, mais ou menos rápida, para regimes comunistas, a exemplo do que acontecera noutros lados e do que tentaram aqui depois do 25 de Abril. O facto da revolução democrática e nacional representar para os comunistas parte constituinte da revolução comunista, pela qual ainda hoje afirmam continuar a lutar, não pode ser escamoteado. E a duplicidade dos comunistas não se restringia aos objectivos, era uma constante da sua prática política quotidiana. O uso da camuflagem, através de militantes ou de simpatizantes ainda não identificados como comunistas, apresentando-se como independentes, para influenciar a seu favor a composição e as deliberações dos órgãos dirigentes das diversas organizações oposicionistas, ou a tomada de assalto de organizações e de movimentos políticos nascidos fora da sua iniciativa (como o MUD, por exemplo), ilustram os métodos trapaceiros e a dissimulação com que tentavam ludibriar os aliados democráticos. As suas juras de dedicação à democracia e à liberdade nunca passaram de cínicas mentiras, fruto da intrínseca desonestidade política que desde sempre os caracterizou.

Muitos ex-comunistas ainda não tiveram a coragem de reflectir sobre a essência da ideologia e do projecto político comunistas, assim como sobre o valor instrumental atribuído à democracia e à liberdade e sobre os métodos usados pelos comunistas. Temem reconhecer que o seu passado padeceu dos males da militância comunista, que a sua luta, abnegada em muitos casos, tem a mácula de terem acreditado numa ideologia e num projecto político cuja perversidade a sua juventude e generosidade não lhes permitiram enxergar em toda a sua plenitude. Ainda não perceberam que foram vítimas de um logro, seduzidos pela propaganda de um ilusório humanismo dotado de grande poder de atracção. Têm receio de virem a sentir-se culpados, em vez de ganharem a coragem de ajustarem contas com os verdadeiros culpados, aqueles que abusaram da sua boa-fé e os seduziram. Não fazem essa reflexão e esse corte porque continuam acreditando na mesma profecia messiânica, ainda que já não reconheçam tantos méritos ao comunismo real, e porque continuam atribuindo os mesmos malefícios ao capitalismo; esse é o seu dilema. Se renegaram o estalinismo e muito do leninismo, ainda não cortaram o cordão umbilical que os liga ao marxismo, afinal, a causa de todos os equívocos.

O limbo onde pairam muitos ex-comunistas dá-lhes um certo conforto, apesar de tudo com muito de ilusório. Estão bem consigo próprios, mas são olhados pelos seus antigos camaradas como uns frouxos, que abandonaram o duro campo da luta política activa, não pertencendo ao grupo dos eleitos que serão agraciados no dia do juízo final, aquele sempre esperado da conquista do poder. Parece preferirem essa inimizade mitigada, que podem ir contendo com a compensação que retribuem pelo apoio esporádico que concedem ao antigo partido, do que serem alvo do ódio que os comunistas votam aos hereges e aos apóstatas. Muito menos querem correr o risco de serem confundidos com qualquer trânsfuga que se tenha passado para o campo do inimigo. Este seu comportamento ambíguo não é muito edificante e é altamente contraditório com o passado de lutadores corajosos que a si próprios se atribuem. Além do mais, contribui para que os comunistas continuem exibindo, impunemente, o mito de um passado glorioso. No fundo, é desta herança política, que alguns consideram também sua, que muitos dos ex-comunistas não pretendem abdicar, apesar das suas características mitológicas. Já não têm desculpa: dantes, optaram por ignorar; hoje, preferem iludir-se.


3 Comentários:

Às 11:23 da tarde, outubro 01, 2007 , Blogger Paulo Sempre disse...

"Foi assim"; é o livro de Zita Siabra. Conta um pretérito real, do PCP) pouco conhecido. Deve ser lido com atenção.
Abraço

 
Às 4:41 da tarde, outubro 04, 2007 , Anonymous Rui Bebiano disse...

Concordo, no essencial, com a análise. Acrescentaria apenas, ou sublinharia apenas, a dimensão da militância como prática «endogâmica», que a transforma num espaço de sociabilização único e, mais ou menos conforme as circunstâncias, voltado para si próprio. Mesmo quando as divergências políticas ou éticas surgem, torna-se difícil cortar com um estilo de vida, com determinadas relações pessoais, com hábitos e ideias feitas que foram definindo o próprio espaço de afirmação social da pessoa que duvida. O baixo nível da preparação cultural, assente em «certezas» e não na inquirição crítica, tende também a dificultar a passagem do estado de dúvida ao estado de ruptura. A maioria cala-se, simplesmente. É preciso ter bastante força pessoal e uma formação sólida para aceitar que há vida para além daquela que se conheceu. Para atravessar o deserto que entretanto é criado à volta de quem descrê. E para se aceitar que não se «traiu», apenas se mudou. Mas existe muita gente honesta que o fez e que o vai fazendo. Alguma dela anda por estes lados, parece...

 
Às 1:45 da manhã, outubro 05, 2007 , Blogger JMC disse...

O texto trata apenas do caso dos ex-comunistas, querendo significar os ex-militantes do PCP. Não aborda propriamente a questão mais complexa da ruptura com a militância partidária e com o sentimento de pertença que a envolve, assim como não trata das implicações afectivas, sociais e políticas que a podem acelerar, retardar ou impedir. O que aponta no seu comentário é outra questão, também interessante.

Abordei ligeiramente a maior capacidade de desculpabilização dos comunistas em relação aos defensores de outras ideologias e regimes totalitários, assim como a duplicidade política dos comunistas em relação à democracia e à liberdade — às quais sempre concederam um valor meramente instrumental, nunca as considerando como fins a atingir — apenas para ilustrar que são práticas nada abonatórias para alguém querer mantê-las como boa herança política.

Foquei o caso daqueles que já efectivaram a ruptura com a militância partidária, tendo abandonado o partido, e que se mantêm num limbo ideológico e político, comportando-se como companheiros de jornada. Quis ilustrar o dilema em que se encontram, continuando crentes na profecia messiânica marxista e persistindo em ver o capitalismo como o mal que se abateu sobre a humanidade, que pretensamente a conduz para a catástrofe apocalíptica e para a barbárie.

Continuando crentes na profecia messiânica classista proletária e identificando o capitalismo como o mal absoluto, eles continuam comunistas, apenas abraçaram a heterodoxia. Comportam-se como aqueles crentes numa qualquer religião que tendo abandonado a ortodoxia das sagradas escrituras e os rituais litúrgicos e de combate duma qualquer igreja, se mantêm crentes no que consideram o fundamental da mensagem. Tendo deixado de ir à igreja, acompanham uma procissão de vez em quando.

Tal como a adivinhação não consegue identificar o número do bilhete de lotaria que sairá premiado, também a História não é feita do cumprimento de profecias. Falta a tais crentes verem que o capitalismo, a relação de produção salarial, ainda não encontrou substituto à altura e é compatível com várias proporções de repartição do produto social e com muitas formas de organização e de exercício do poder político, umas com mais mérito do que outras porque baseadas na democracia e na liberdade e permitem as lutas económicas e políticas.

A realidade é injusta, mas é o produto resultante das lutas das classes; é desnecessário assacar-lhe outros malefícios ou encará-la como obra de belzebu. E é totalmente infrutífero desejar organizá-la racionalmente, como produto da vontade de uma classe social. Os seres humanos não estão programados e desejam orientar-se pelo seu livre arbítrio. São estas questões simples que os ex-comunistas ainda não desejam compreender. Não falo em não terem compreendido os erros teóricos do Marx, mas em não terem compreendido o logro da profecia messiânica marxista e do seu discurso acerca do capitalismo maléfico.

Obrigado pelo interesse demonstrado pelo tema.
JMC.

 

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