domingo, 31 de dezembro de 2006

Façam por ter um Bom Ano de 2007

Para todos os visitantes e leitores: façam por ter um Bom Ano de 2007. Em caso de necessidade, alarguem o intervalo entre o Bom e o Razoável. Sejam felizes!

domingo, 17 de dezembro de 2006

Fé, fundamentalismo e totalitarismo comunista


FÉ, FUNDAMENTALISMO E TOTALITARISMO COMUNISTA


José Manuel Correia


A crença pela fé constitui um modo de crença que não exige qualquer justificação racional para o seu objecto, e caracteriza-se pela confiança extrema numa verdade revelada por profetas reconhecidos, inspirados por uma qualquer divindade, dotados de poderes adivinhatórios sobrenaturais ou com conhecimento definitivo do passado, superior capacidade de interpretação do presente e infalível previsão do futuro. O poder de atracção da verdade revelada reside na autoridade dos profetas e no anúncio dum futuro radioso para os que a aceitem, seja a felicidade celeste, no além, depois da vida, seja uma sua variante mais prosaica e simplesmente terrena. A fé é uma graça concedida a alguns eleitos, os justos de entre a multidão dos descrentes e pecadores, identificados pela devoção à verdade e pelo empenhamento no combate a um inimigo previamente definido — por exemplo, Satanás, que corrompe a virtude inata das criaturas, ou o capitalismo, que semeia a miséria e a desgraça dos pobres produtores — assim como aos seus seguidores.

Seguros da supremacia da sua verdade, os fiéis facilmente caem no fanatismo ou no que se designa vulgarmente por fundamentalismo; daí à intolerância para com o pensamento distinto, mesmo se não adverso, vai um pequeno passo; e, frequentemente, os devotos de entre os fiéis aceitam como coisa natural o totalitarismo, seja sagrado, seja profano, subjacente à verdade revelada. A irracionalidade da fé, portanto, é propiciadora da manifestação de comportamentos irracionais nas mais diversas instâncias do relacionamento social. Para essa transformação muito contribuem os teólogos, atentos aos rombos e às brechas abertas pela realidade na verdade revelada, que tratam de apontar a própria realidade como manifestação do grande Satanás; enquanto as hostes de clérigos, mais próximas das hordas de crentes, se comportam como instigadoras da devoção e da intolerância. Como a vida tem demonstrado, nada de essencial distingue o fundamentalismo dos devotos das religiões sagradas daquele dos fiéis das variantes profanas, e a linha que separa de todos eles os seguidores moderados é muito ténue.

Confortados pela segurança que lhes confere o conhecimento da verdade, destituídos de inquietações ou de dúvidas, os fiéis não necessitam de se esforçarem para tentarem compreender essa coisa complexa que é a Natureza ou a parte dela que constitui a realidade social. Para os crentes numa qualquer religião, a verdade foi já revelada e não é passível de discussão com base na razão; a sua profecia está escrita, restando-lhes esperar ou fazer por acontecer. Tal ocorre também com a esmagadora maioria dos adeptos comunistas, que por uma questão de fé crê que o proletariado será a classe social destinada a suceder à burguesia na direcção da sociedade e que o comunismo que instaurará será o necessário sucessor do capitalismo e o salvador da Humanidade. Por muito que alguém se esforce a tentar mostrar-lhes os erros em que laboram, assim como as mistificações do marxismo e do marxismo-leninismo baseadas na profecia comunista marxista e no seu messianismo proletário, ou que a realidade os contradiga, os fiéis comunistas acreditam piamente na sua verdade, e tanto lhes basta para validarem a sua crença.

Esta incapacidade para compreender os erros e as ilusões em que se funda a profecia comunista marxista afecta tanto o comum adepto, simpatizante ou militante de qualquer partido comunista, como aqueles, pretensiosamente mais sofisticados, apresentando-se muitas vezes como intelectuais, que se assumem apenas simpatizantes ou seguidores do marxismo ou do marxismo-leninismo. Ao contrário do simples adepto comunista, que apenas conhece do marxismo ou do marxismo-leninismo as ladainhas dos catecismos de iniciação e as palavras-chave dos folhetos de divulgação, os ditos intelectuais marxistas ou marxistas-leninistas, que enxameiam as cátedras universitárias, conhecem as principais teorias do Marx, pelo menos, nos seus aspectos fundamentais. Quando confrontados com a crítica daquelas teorias, porém, uns e outros manifestam uma total incapacidade de discussão, refugiando-se os primeiros na repetição dos catecismos e os segundos na citação das erradas concepções do Marx. A sua curta argumentação resume-se ao “Marx disse”, corroborada por vezes com o “Lenine disse”.

Não se trata de mero desinteresse pela discussão, mas de uma completa rejeição da divergência e da discordância, mesmo das que possam surgir entre apaniguados. Em vez de ponderarem as razões da oposição, preferem calar os opositores, ostracizando-os, porque já não é tão fácil eliminá-los, como outrora, revelando a mais absoluta intolerância em relação a qualquer desvio da dogmática e da ortodoxia. A incapacidade para questionarem autonomamente os discursos produzidos sobre a realidade social, a começar por aquele que adoptam, é típica dos seguidores de qualquer religião, bem como dos adeptos comunistas e dos simpatizantes do marxismo ou do marxismo-leninismo; quando confrontados com erros e contradições da sua verdade revelada, fogem da discussão como o diabo foge da cruz. Apesar da flagrante evidência da similitude, os comunistas ofendem-se se equiparamos os seus comportamentos aos dos fiéis devotos religiosos.

A realidade é difícil de compreender para além do seu reflexo espontâneo na mente das pessoas. Se o seu significado, as suas causas e implicações fossem facilmente apreensíveis seria desnecessária a ciência. Apesar disso, os comunistas julgam ser possuidores do conhecimento sobre a realidade empírica, produto do labor científico e da inspiração do Marx. Eles não crêem apenas numa utopia idealista, meramente desejada; devido ao pretenso conhecimento que a fundamentaria, acreditam que ela irá acontecer, o que a transforma numa profecia. Com base nela, sabem que o comunismo será o modo de produção destinado a substituir o capitalismo. Como se isto não fosse já por si um sortilégio, os mais afadigados não esperam que o decurso do tempo confirme a profecia e esforçam-se quotidianamente por fazê-la acontecer. Deste modo, não só julgam conhecer o futuro como, mais extraordinário, pensam poder modificar o curso da própria realidade, apressando-o, através de actos de vontade. O voluntarismo e a irrealidade das previsões dos comunistas são de há muito conhecidos; passados os tempos de meditação, impostos pela orfandade do eclipse soviético, começa agora a conhecer-se como sua outra faceta a visão de miragens alucinadas, causada pelo cansaço da longa espera e pelo desespero que provoca, porque o futuro é sempre demasiado tarde.

Nos tempos conturbados dum Mundo em rápida transformação, afastando-se irremediavelmente dos ténues faróis que restavam como últimos portos de abrigo da fé, os inconformados fiéis esforçam-se a descortinar novas estrelas emergindo da negrura das trevas em que haviam mergulhado. Os focos para onde orientam agora a atenção não têm o esplendor luminoso da revolução proletária nem tampouco o surpreendente brilho de esperança com que as revoluções camponesas foram colmatando os demorados interregnos; reduzem-se ao estrepitoso estrelejar de foguetório colorido lançado por caudilhos populistas latino-americanos escudados no apoio popular que lhes foi concedido em eleições como capital de esperança pela massa de deserdados daquelas sociedades, com cujas proclamações voluntariosas substituem a acção aguerrida e organizada das massas operárias e camponesas guiadas pelas suas vanguardas revolucionárias. Estas originalidades constituem uma aparente inovação, já que desde sempre os comunistas se entusiasmaram com todas as manifestações anti-imperialistas e experiências de governos progressistas, e a própria revolução de Outubro ficou constituindo um desvio em relação à ortodoxia. Para alcançarem o poder valem todos os meios, por mais heterodoxos; posteriormente se encarregarão das legitimações teóricas, de que o leninismo é o exemplo mais claro.

Os objectivos, nesta fase renovada da esperança, mais modestos, restringem-se por ora a mudanças políticas de cunho sadiamente nacionalista, visando a apropriação autóctone das riquezas naturais, e apoiam-se na redistribuição do aumento das receitas proporcionado por uma conjuntura favorável dos preços das mercadorias energéticas. As revoluções, dantes proletárias e camponesas, são agora designadas com alguma singularidade por “revoluções bolivarianas”; a insurreição violenta é também substituída pela vitória em disputas eleitorais democráticas. Pomposamente, embora sejam regimes baseados em mandatos eleitorais que periodicamente terão de ser renovados por sufrágio de escrutínio maioritário (se continuarem a adoptar as regras da democracia representativa e pluripartidária), anunciam-se como portadoras do “socialismo do séc. XXI”. Desconhecem-se os programas destes simulacros de revoluções, ainda à procura da definição de um modelo coerente, mas é conhecida a admiração dos seus mentores pelo socialismo caudilhista cubano. Para além do reforço dos aparelhos estatais e da crença ingénua no sucesso que terão como motores do desenvolvimento, fica por saber-se como será implantado o “socialismo do séc. XXI” ao ritmo dos curtos ciclos eleitorais e à mercê da inevitável imprevisibilidade dos seus resultados.

Aos comunistas, na sua euforia momentânea, este eclectismo e a incerteza resultante pouco importam, porque em tempos de crise e de escassez tudo o que vier à rede é peixe. Enquanto durarem — e durarão enquanto o aumento da receita com a alta dos preços dos combustíveis se mantiver e permitir alguma redistribuição que atenue as gritantes desigualdades ou enquanto o vizinho norte-americano não voltar a encarar a América Latina como seu quintal, onde punha e dispunha a seu belo prazer — estes fogachos, simulacros do radioso socialismo de antanho, servirão para ir mantendo acesa a chama da fé dos crentes no futuro que tarda por acontecer. Depois, quando se esgotarem os fundos suplementares oriundos do petróleo ou do gás, que constituem a fonte da redistribuição em curso, e a dura realidade de economias em vias de desenvolvimento voltar a manifestar-se com a sua habitual crueza, obrigando a políticas mais realistas, os comunistas poderão afastar-se destes aliados, culpando-os e às suas políticas pouco audazes pelos previsíveis fracassos. Os inconscientes caudilhos serão então abandonados à sua sorte, porque já terão cumprido uma inestimável função propagandística.

Apesar de entretidos com o folclore das acções e intenções dos caudilhos populistas latino-americanos e com a sua louvaminha, como há bem pouco acontecia em relação ao populista brasileiro, com o qual depressa se desiludiram, os comunistas não descuram a permanente crítica da realidade, e denunciam, numa lamúria pungente, as injustiças produzidas pelo inimigo jurado, o capitalismo, a pura encarnação do mal, que nos pretenderá conduzir para o Armagedão. Descortinam sinais, vislumbrados apenas pelos iniciados, de que se aproxima a hora de uma nova onda de crises revolucionárias, mesmo se a realidade os contradiz e acaba ridicularizando as suas desmedidas expectativas. Misturam as falsas esperanças espalhadas pelos aliados latino-americanos com os efusivos entusiasmos quanto à recuperada vitalidade do movimento e à decrepitude do capitalismo, antes de mais, para garantirem a coesão e a fidelidade das hostes militantes, e, depois, para darem às massas a ilusão de que o vento sopra a favor. Com genuína ilusão ou pérfida hipocrisia — vão lá saber-se as verdadeiras convicções de tais artistas da dissimulação — intensificam a propaganda, procurando angariar novos seguidores de entre os incautos, cujo campo de influência e de recrutamento alargam aos descontentes com a globalização do capitalismo e às camadas não monopolistas da burguesia por ela prejudicadas.

A visão deformada que os comunistas têm da realidade social, reduzida a luta do bem — o comunismo — contra o mal — o capitalismo e a sua vertente imperialista — é devida a uma hipersensível capacidade de indignação, que em tudo vê malefícios e peçonha, e à indisfarçável arrogância de se considerarem os detentores da panaceia universal. A felicidade prometida pelas religiões sagradas é intangível, fruto duma viagem sem regresso que mantém os vivos prisioneiros da esperança; as promessas dos comunistas, porém, são bem terrenas, e apesar de já terem provado a sua fraca bondade não deixam de ser oferecidas como exemplo da suprema felicidade. Enquanto a propaganda ofuscou o totalitarismo comunista — regime de monopólio total da produção e do emprego, inimigo da liberdade, com o seu infindável rol de repressão, dos Gulags às deportações em massa e ao internamento compulsivo, de verdade sem direito a dissidência, de escassez de bens e de fomes periódicas, cujo único mérito reconhecível pela História foi ter trazido países atrasados para a modernidade capitalista à custa da abnegação e do sofrimento dos milhões de camponeses e de operários que submeteu e explorou sem piedade — os comunistas ainda podiam ir enganando os incautos com os seus cantos de sereia.

Passada a época em que a propaganda conseguia deturpar a realidade do comunismo, desmoronadas as oligarquias burocráticas de partido único, feitos os balanços possíveis, os povos dantes submetidos não lhes creditam mais veleidades, apesar do sofrimento que as dolorosas transições lhes têm provocado. Um profundo desprezo pela liberdade, esse bem primeiro e frágil do ser racional, é o que mantém hoje os comunistas apegados a um credo tão desprezível que proclama o total controlo social; a hipocrisia mais requintada, exibida sem o mínimo pudor, é o que os faz classificarem de retrocesso civilizacional a derrocada dos regimes comunistas. A arrogância e o cinismo dos prosélitos e o desprezo pelo estudo da realidade, que lhes advém de se considerarem os detentores da verdade revelada, dá aos comunistas uma visão deformada e invertida da realidade, através da qual confundem os seus desejos e representações idealizadas com o conhecimento do que de facto ela é e das formas da sua permanente transformação.

Os comunistas vivem num Mundo irreal, que analisam com um filtro que apenas lhes deixa ver a desigualdade da distribuição do produto social, o desemprego e outras maleitas. São pródigos na constante crítica da realidade, porque esta teima em não se moldar aos seus desejos. Com a irresponsabilidade de quem não governa nem espera vir a gerir o capitalismo (embora, ironicamente, alguns dos sucessos que invocam ultimamente sejam de comunistas ou de aliados a gerirem o capitalismo!), vivem numa permanente reivindicação maximalista, arrastando nesta onda os sindicatos que controlam, que ao rejeitarem o mais leve compromisso prejudicam os interesses dos trabalhadores. Procuram, com tal postura, conquistar a simpatia das massas, mas o seu maior temor sempre foi o de que estas se viessem a “aburguesar”, nem que fosse pelo desafogo consumista. É puro engano, portanto, pensar que os comunistas são lutadores empenhados na defesa dos interesses dos trabalhadores e não uma camarilha arrivista que os usa como tropa de choque para as manobras que interessam apenas aos seus objectivos políticos de aspirantes a burocratas fundamentalistas totalitários.

Sem o farol que dantes lhes guiava o rumo e lhes garantia a certeza da conquista do poder, o longo e inexorável refluxo que atravessam condu-los ao delírio da miragem. O mais leve sinal de novos descontentamentos, como os provocados pela globalização do capitalismo, fá-los entrarem numa euforia paranóica. Mas, ai de quem ataque a verdade revelada ou contradiga as suas delirantes análises! Será alvo dos mais variados impropérios, quando não das injúrias e das calúnias mais torpes, e num crescendo de desvario maniqueísta será apodado de estar a soldo do inimigo, como aconteceu, mais uma vez, no rescaldo do conclave da nata dos iluminados do planeta que teve lugar entre nós há pouco tempo. A raiva e o ódio que votam aos apóstatas e aos hereges, então, não tem outras consequências porque ainda vamos podendo usufruir das liberdades burguesas e não estamos no seu reino das "amplas liberdades", como aconteceria se estivessem no poder.

O comunismo já provou não passar de mais um credo totalitário de fiéis devotos, e mostrou não ter nada de novo a implantar que constitua sequer um leve indício de superação do capitalismo. Nada de bom tem para oferecer, porque o prometido Paraíso não é mais do que um doloroso Purgatório. A quem se iludir com as suas promessas e com as suas constantes críticas da realidade e denúncias das suas injustiças e iniquidades, dolorosa sairá a desilusão e custosos o arrependimento e as suas sequelas. Valham-nos as decadentes sociedades burguesas em que vivemos, onde cada um ainda é livre de acreditar no que bem lhe apetecer.

sábado, 9 de dezembro de 2006

A memória e o mito do comunista herói antifascista


A MEMÓRIA E O MITO
DO COMUNISTA HERÓI ANTIFASCISTA


José Manuel Correia


Os comunistas não são parcos no auto elogio acerca do heroísmo de que se teria revestido a sua luta contra o fascismo salazarista. Ao longo dos anos, têm colaborado nessa versão antigos companheiros de jornada, esperando colher parte dos louros; excomungados por múltiplas fraquezas, almejando granjear um resto de compaixão ou o definitivo perdão; e outros cujo preito de homenagem não é mais do que a justa medida do arrependimento serôdio da sua distanciada, mas cómoda e tolerante, convivência com o regime. O tempo, na sua marcha inexorável, tem da lei da vida libertado alguns verdadeiros heróis, uns comunistas, outros não, e a ingratidão da memória tem esquecido outros, apenas republicanos, liberais ou humanistas anticomunistas, mas firmes democratas. Resta esperar que a História a todos faça a lembrança dos seus nomes, para que não caiam num injusto esquecimento.

A tão cantada heroicidade dos comunistas na luta antifascista, reclamada como exclusivo, é mais um dos mitos que eles são pródigos em inventar, na ânsia de engrossarem o pecúlio do mérito que os credenciaria como lídimos lutadores pelas liberdades e insignes defensores dos interesses dos trabalhadores. A História tarda na reposição da verdade factual, e o que tem sido divulgado para as gerações mais novas não ultrapassa o panegírico. Quando o longo período da ditadura fascista for analisado com a isenção que só a distância do tempo permite, alguns dos mitos desfazer-se-ão e ficar-se-á a conhecer a verdadeira dimensão da luta travada pelos comunistas e os motivos profundos que a orientavam. Pode-se dizer, entretanto, que essa luta teve no regime ditatorial um reduzido impacto, que nunca o abalou minimamente, e que pouco ou nada contribuiu para a melhoria das condições de vida dos operários e dos restantes trabalhadores assalariados.

A heroicidade reclamada pelos comunistas não provém da sua abnegação na luta pela liberdade e pela defesa dos interesses dos trabalhadores, ainda que infrutífera, mas da pertença a um grupo organizado de revolucionários sonhando com o derrube do salazarismo e aspirando à conquista do poder, da sua persistente existência, ao invés de outros que apareciam e rapidamente desapareciam, e da perseguição e repressão a que foram sujeitos de forma continuada. Mais do que pelo perigo real que representavam, os comunistas tornaram-se num alvo para a ditadura pelas características da sua organização como seita conspirativa revolucionária, existindo na clandestinidade, pelo credo que abraçavam com fanatismo alguns dos membros, pela suposição das suas ligações orgânicas ao comunismo soviético e pelo receio de que os seus ideais subversivos contagiassem o operariado, o que os distinguia da restante oposição.

A perseguição policial e a repressão penal sofrida pelos comunistas, portanto, resultou da sua condição de membros duma pequena seita conspirativa revolucionária — cuja actividade principal, por longos períodos, se restringia à edição e distribuição de propaganda, ao estabelecimento de contactos entre os seus membros, necessários para uma mínima doutrinação, para a manutenção da coesão e para a difusão da propaganda, e à angariação de aderentes — e do perigo potencial, eventualmente desmesurado, que um regime reaccionário e totalitário, isolado internacionalmente, via nela e nos seus alardeados apoios internacionais, tomando-a, por isso, como um dos seus alvos preferenciais. A sua ideologia e a sua prática demonstram que os comunistas, ao contrário dos democratas, não lutavam para restituir a liberdade ao povo, para este decidir democraticamente os seus destinos; por isso, não foram apenas resistentes antifascistas, como pretendem fazer crer, mas revolucionários comunistas que afirmavam visar a substituição da ditadura fascista pela ditadura comunista.

Umas largas centenas foram vítimas da repressão, sofredoras de maus-tratos, de anos de enclausuramento e de desterro, outros tantos foram alvo de perseguições insidiosas que lhes negaram o emprego ou desfizeram as carreiras promissoras, obrigando alguns, de entre a intelectualidade, ao exílio, e uns poucos foram assassinados. Tal, porém, não resultou das suas insignificantes actividades de agitação, de organização e de direcção dos trabalhadores nas oficinas, nas fábricas, nos estaleiros ou nos campos — ainda que a polícia a todos os agitadores e protestantes tratasse de apelidar de comunistas, para mais facilmente os atemorizar — mas ficou a dever-se, essencialmente, ao facto de serem membros de uma organização revolucionária que afirmava pretender derrubar o regime e conquistar o poder, a qual acabou por preencher os requisitos necessários para ser identificada como o inimigo interno justificador da cruzada anticomunista em que também se fundamentava o corporativismo fascista. Essa a coroa de glória dos comunistas, que nem por tão parcos motivos deveremos esquecer ou deixar de respeitar.

Um outro mito meticulosamente construído pelos comunistas é o de terem constituído a vanguarda na organização e na direcção das lutas operárias por melhores condições de vida e de trabalho. O regime destruíra o movimento sindical autónomo, reorganizando-o e controlando-o ferreamente como parte da estrutura corporativa, quebrando por muitos anos a fraca capacidade reivindicativa dos trabalhadores portugueses. Os comunistas mantinham-se prudentemente afastados dos sindicatos corporativos, e a sua penetração nos meios operários, que sempre fora fraca devido à tradição hegemónica do anarco-sindicalismo, foi pouco mais do que insignificante. As lutas operárias contra a carestia da vida, contra o racionamento, por melhores salários ou por emprego, que irrompiam espontaneamente na sua maioria, só esporadicamente tinham o envolvimento ou a direcção dos comunistas, tal era o medo de serem descobertos e de porem em perigo a pequena seita a que pertenciam. Com a sua tendência intrínseca para a falsificação da realidade, frequentemente os comunistas noticiavam-nas na propaganda escrita como fruto do seu labor e empenhamento.

Os comunistas viviam do mito da sua organização clandestina, e alguma simpatia que colhiam não reflectia a sua acção na defesa dos interesses dos trabalhadores, antes resultava duma mistura da admiração pela coragem de serem o único partido político oposicionista do salazarismo e dos ecos dos feitos propagandeados do comunismo soviético. As grandes massas do povo e dos trabalhadores não eram receptivas à sua propaganda, por vezes por maus exemplos de vida de um ou outro conotado com o comunismo, mas em geral porque eram permeáveis à permanente propaganda insidiosa diabolizando o comunismo e os comunistas, porque o pequeno partido estava ausente, organizado em pequenas células, em número restrito e muito dispersas, nas grandes cidades e nos poucos centros industriais existentes, e porque o contexto social, onde grassava o receio, o medo, a miséria e a dependência da caridade pública ou particular, criava uma rede de subserviências pouco propícia para que tal acontecesse.

Daí que o partido comunista não fosse constituído esmagadoramente por operários esclarecidos, ainda que durante um tempo se esforçasse para que na direcção constassem maioritariamente membros de origem operária ou trabalhadores assalariados; não admira, portanto, que os seus principais quadros e dirigentes, durante a maior parte da existência do partido, tenham sido intelectuais de origem burguesa. Embora a sua propaganda se dirigisse prioritariamente aos operários, colhia o grosso da simpatia e da adesão entre os empregados no comércio e nos escritórios, assim como entre os artesãos e os pequenos patrões, entre a intelectualidade e a juventude estudantil pertencentes à pequena burguesia ou oriundos da média burguesia liberal e esclarecida, de cuja rede de amigos e de simpatizantes proveio grande parte do apoio logístico e do suporte financeiro indispensáveis para a manutenção de uma organização clandestina de revolucionários profissionais (que durante muitos anos não foi financiada nem subsidiada pela União Soviética ou por outros países comunistas, ao contrário do que o regime fascista supunha e difundia).

O medo que o regime fascista incutia nas massas para que não ousassem sequer “falar mal da situação”; a ancestral cobardia, ampliada pela miséria gerada pelo desemprego endémico e mantida por uma industrialização incipiente; a ignorância devida às elevadas taxas de analfabetismo; o conformismo, o respeito pela autoridade e o temor a Deus difundidos pela religião; a ausência de liberdade e o controlo da cultura e da informação pela censura; a existência duma polícia política e de uma vasta rede de informadores enquadrados e de “bufos” anónimos; e uma permanente propaganda glorificando o chefe, o salvador da pátria e zelador para que os portugueses fossem tendo algo com que enganar a fome eram alguns dos ingredientes decisivos que tornavam difícil o sucesso da propaganda e da acção dos comunistas entre as massas, os quais se transformaram em barreiras quase intransponíveis que só timidamente foram sendo ultrapassadas com a industrialização da década de sessenta e com a concomitante flexibilização do regime efectuada pelo Marcelo Caetano.

Nem a vitória aliada na guerra de 39-45 nem o drama da mobilização para uma longa guerra colonial conseguiram fazer sublevar este povo, que habituado a caudilho só despertava quando um outro candidato a chefe ousava afrontar o poder pessoal do Salazar. Aconteceu assim, um pouco, com o Norton de Matos, um velho general conservador e temente do controlo dos seus acólitos e aliados, e desabrochou inesperadamente com a frontalidade e a coragem pessoal do Delgado, um outro general, arrivista com carisma e ambição para novo caudilho (dissidente do regime, concorrente às eleições presidenciais de 1958 contra o candidato oficial Contra-Almirante Américo Tomás, perseguido e exilado, mais tarde atraído a uma armadilha e assassinado pela polícia política). Por isso, todas as revoltas não passaram de conspiratas palacianas congeminadas nos escritórios do reviralho, ou de tentativas de acções espectaculares de pequenos grupos isolados de aventureiros, sem a mínima organização e sem qualquer possibilidade de sucesso. Não foi necessária muita perspicácia para que o Cunhal se apercebesse de que o derrube do regime apenas seria possível com a sublevação da tropa.

Numa altura em que se assiste a despudoradas tentativas de branqueamento das malfeitorias de um regime político iníquo, que este povo tristemente suportou por tempo demasiado, e surgem sub-reptícios depoimentos humanizando os seus responsáveis máximos — o Salazar e o Caetano — insinuando que afinal não foram os ditadores cínicos e hipócritas retratados pelos antifascistas, é necessário guardar a memória do que foi o regime fascista. Evidenciar a similitude dos fundamentos ideológicos, das concepções políticas e institucionais e das práticas totalitárias, ilustrar o arcaísmo dos valores e a amplitude e diversidade dos instrumentos de controlo social, de vigilância e perseguição policial e de repressão física e penal será suficiente para que os mais jovens fiquem sabendo que a ditadura fascista existiu de facto e aprendam a amar e a cuidar da liberdade, agora que ela está passando por aqui.

É desajustado e contraproducente, neste movimento de cidadania, fazer dos comunistas os heróis da luta antifascista pela liberdade e pela melhoria das condições de vida do povo. Ainda que alguns deles estivessem imbuídos de genuíno idealismo, acreditando sinceramente numa profecia humanista, muitos outros não passavam de aventureiros, de oportunistas aspirando a um lugar à mesa do novo poder que sonhavam instaurar, que se diferenciava do fascismo pelo engano e ilusão das massas. Eles são vítimas, como todo este povo, mas o seu maior sofrimento foi o custo do risco assumido da luta pelo poder levada a cabo pela seita revolucionária de cariz totalitário a que pertenciam, apologista de um regime político ainda mais repressivo do que o regime fascista que combatiam. Como vítimas merecem respeito, como comunistas não são credores de consideração especial, como heróis mingua-lhes o crédito.

Os verdadeiros heróis anti-regime são as suas vítimas anónimas, aqueles que sofreram por ousarem gritar a sua genuína indignação contra a opressão e a miséria; os que pagaram apenas por desabafarem as durezas da vida a que os condenava um regime oligárquico; e os que lutaram pela liberdade sem mais nada esperarem em troca. Não serão muitos, esses heróis anónimos, mas são certamente os melhores deste povo subserviente que por tempo inusitado suportou a opressão, a mordaça, a ignorância e a pobreza.