terça-feira, 28 de agosto de 2007

EPC: a poética da fala


Desde há muito, já do tempo da outra senhora, ouvi referirem-se a Eduardo Prado Coelho como o Execrável Prado Coelho, o É PC ou o bola de sebo. Os epítetos depreciativos vinham de invejosos sarcásticos ou de inimigos de estimação, que abundavam nos meios snobs da intelectualidade de café, e eram usados a propósito de uma qualquer crítica de cinema, da apreciação de um livro, duma crónica de ocasião ou da opinião política emitida por EPC. Agora, que também ele das leis da vida se libertou, alguns daqueles derramam hipócritas lágrimas de crocodilo.

Confesso não ter sido admirador do cidadão, muito próximo das cadeiras do poder, nem do intelectual, exibindo erudição em prolixas citações, mas sem pensamento original. Nem, ao contrário de outros, fui leitor assíduo das suas crónicas, embora lhe apreciasse o estilo de fino recorte. Uma coisa não esqueço: ouvir Prado Coelho falar, acerca do que fosse, era puro deleite. Mesmo que o sorriso aflorasse aos lábios. Para além da subtil inteligência, ele tinha o dom, como ninguém, da poética da fala. A dicção clara, a prosódia agradável, o tom comedido, o sorriso leve e um delicado menear de mãos compunham uma personagem inigualável. Esse EPC não vou esquecer.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

As dificuldades enfrentadas pela crítica teórica do marxismo


AS DIFICULDADES ENFRENTADAS
PELA CRÍTICA TEÓRICA DO MARXISMO


José Manuel Correia


Marx é autor de uma vasta obra, que se estende da filosofia à crítica da economia política, a maior parte dela inédita em sua vida e publicada postumamente pelos regimes comunistas. A sua faceta mais importante prende-se com a de crítico da economia política, a que dedicou dois livros: Contribuição para a crítica da economia política (1859) e O Capital (cujo livro primeiro, dos três que o compõem e o único editado em vida do autor, foi publicado em 1867). Praticamente ninguém, até mesmo entre adversários, põe em causa a importância e o valor da obra de Marx, nomeadamente, quanto à narrativa descrevendo o funcionamento do capitalismo ou quanto à economia política e a outras questões que se pode considerar constituírem os alicerces do que mais tarde veio a ser a sociologia. A controvérsia em torno do marxismo, portanto, não reside nos aspectos gerais da obra de Marx, mas em aspectos específicos, nomeadamente, em relação à crítica dos discursos vigentes sobre a economia política capitalista e à teoria da revolução social, através das quais procurou fundamentar a profecia idealista de que o comunismo proletário seria o necessário sucessor do capitalismo, que anunciara na proclamação panfletária Manifesto do Partido Comunista (1848). Por esta razão, as divergências em relação às concepções marxistas não se confinaram ao campo do conhecimento sobre a realidade social e desde cedo foram transformadas em oposição ao projecto político que pretendiam fundamentar.

A narrativa marxista do capitalismo é exaustiva, descrevendo de forma clara, mas por vezes repetitiva, muitas das características que ele já evidenciava no início da fase de maturidade; e a sua crítica da sociedade capitalista é pungente e compreensível, pelo humanismo que dela ressalta, face ao gritante contraste entre as duras condições de existência proporcionadas pela organização industrial do trabalho e as que haviam caracterizado a anterior organização artesanal do trabalho na sociedade tributária. Como qualquer outra crítica da realidade empírica, porém, a crítica marxista da sociedade capitalista é totalmente infrutífera. A realidade não é passível de crítica; como se costuma dizer, a realidade é o que é. O que pode ser objecto de crítica são os discursos explicativos e legitimadores da realidade, demonstrando as suas eventuais inconsistências e apontando potencialidades de desenvolvimento da realidade que aqueles discursos não contemplem ou escamoteiem. A realidade está em permanente mudança, sem que os actores sociais se apercebam, como resultado de pequenas mudanças nas práticas que a constituem. É a crítica das representações dominantes acerca da constituição e significado da realidade que poderá conduzir a transformações ideológicas e políticas que progressivamente as alterem, as quais terão reflexos posteriores no desenvolvimento das estruturas sociais.

A obra de Marx tem aspectos originais que constituem progressos valiosos do pensamento social, desde logo, sobre a organização social, em geral, sobre a sua evolução, mas sobretudo acerca dos fundamentos da sociedade burguesa capitalista. A crítica marxista dos discursos sobre a economia política, nomeadamente, sobre as funções desempenhadas pelo dinheiro, sobre a descrição dos objectivos da burguesia enquanto classe e sobre a função da acumulação no desenvolvimento da capacidade produtiva social, etc., tem também alguma valia. Sobre as questões basilares da economia política — como sejam o valor das mercadorias e a génese do lucro e da exploração — as concepções de Marx, porém, são destituídas de qualquer consistência. Os erros que cometeu residem em duas ordens de razões: por um lado, as suas conclusões contrariam uma ou mais das premissas em que se baseou, o que retira validade à argumentação; por outro lado, algumas das premissas adoptadas como verdadeiras não são plausíveis, o que o conduziu a conclusões falsas. Apesar disso, a generalidade das críticas feitas pelos mais diversos ideólogos burgueses às principais concepções de Marx não tem fundamento. Tal não é razão para conferir credibilidade científica àquelas concepções, mas provavelmente foram a inadequação das críticas dos ideólogos burgueses e a ausência de refutação convincente que permitiram aos adeptos atribuírem às principais concepções marxistas, durante tanto tempo, uma pretensa credibilidade científica.

Pelas repercussões sociais que viria a ter, o essencial da obra de Marx foi restringido à sua componente de projecto político. Este aspecto, contudo, é a parte menos teorizada, quedando-se por uma proclamação panfletária e por um ligeiro esboço acerca da concepção da revolução social. Neste campo, os erros são mais notórios do que os cometidos na crítica da economia política, porque as concepções não ultrapassam a mera especulação infundamentada, e as suas repercussões foram bem mais graves. Desde logo, a concepção marxista restringe a revolução social à sua componente de revolução política, como que esquecendo a lenta revolução económica que prepara as condições de necessidade e de possibilidade de eclosão da revolução ideológica e política. Depois, a própria revolução política é apresentada como forma de resolução duma hipotética contradição entre a necessidade de desenvolvimento das forças produtivas e as relações de produção dominantes, como se o desenvolvimento das forças produtivas fosse coisa autónoma e causa das relações de produção e não um seu efeito. Uma estranha interpretação ainda acabou convertendo aquela hipotética contradição na contradição de interesses entre a classe social exploradora e a classe social explorada de um determinado modo de produção social, e, no caso do modo de produção capitalista, entre a burguesia e o proletariado. A revolução social, portanto, foi concebida como revolução política e identificada, na época actual, com a revolução proletária. Foi esta errada concepção da revolução social que veio fundamentar, posteriormente, a profecia idealista inicial em que apontava o comunismo proletário como necessário sucessor do capitalismo burguês na organização social, e o proletariado como sucessor da burguesia na direcção da sociedade.

Nada na História ou na realidade empírica, porém, permite confirmar a concepção marxista da revolução social, nem que as revoluções ideológicas e políticas que culminam as lentas revoluções económicas sejam protagonizadas pela classe social explorada de um determinado modo de produção social. Nem os escravos nem os servos foram os protagonistas das revoluções sociais que acabaram com o esclavagismo e com a servidão. A História tem mostrado que as revoluções ideológicas e políticas são protagonizadas por novas classes sociais dirigentes, que emergem na sociedade pela instituição de novas relações de produção durante a longa revolução económica da produção social e que aspiram a conquistar o domínio ideológico e político para o adequarem aos seus interesses e representações. A errada concepção marxista da revolução social, portanto, constitui uma forma de tentar dar algum fundamento à profecia comunista proletária apresentada anos antes na proclamação panfletária, mas a História não permite conferir-lhe qualquer credibilidade. O único fundamento visível de uma tal concepção é o voluntarismo, o desejo de que assim venha a ocorrer, como forma de acabar com a imoralidade da inumanidade total que a exploração representa. Neste sentido, a crença na profecia marxista configura-se como mera crença pela fé numa verdade revelada. Ironicamente, o próprio Marx rejeitava o voluntarismo e a crítica das concepções burguesas da realidade baseada na moral; acreditava que as suas predições tinham um cunho científico, e que o socialismo que proclamava se distinguia do socialismo utópico ou idealista por ser um socialismo científico. Destituídas de qualquer credibilidade científica, resta às concepções marxistas fundamentarem-se no voluntarismo idealista.

A parte científica da obra de Marx, porque baseada em argumentação inválida, contendo grosseiros erros lógicos, e em premissas não plausíveis, está eivada de conclusões falsas. Durante longo tempo, tais conclusões foram aceites como conhecimento, mas não passam de representações invertidas da realidade social, em que os efeitos são confundidos com as causas dos fenómenos. Devido à complexidade dos temas e à aparente fecundidade dos conceitos, a sua obra não foi objecto de crítica exaustiva; os adversários limitaram-se a rejeitá-la, enquanto os adeptos a abraçaram. Deste modo, até hoje, o marxismo tem sido combatido principalmente no campo político, quer no âmbito da profecia idealista, quer no âmbito dos resultados da sua aplicação prática. A disputa tem estado confinada ao nível das opiniões, onde nenhuma conclusão sólida é possível. Mas a demonstração das falácias do marxismo é não só possível, através da crítica teórica das suas erradas concepções, como ainda necessária, para incentivar os trabalhadores assalariados a lutarem por melhores condições de vida, porque o seu futuro, ao contrário do que diz a profecia, não é risonho. Infelizmente, a crítica teórica do marxismo é alvo de muitas e variadas incompreensões, oriundas quer dos ideólogos burgueses, quer dos ideólogos comunistas, encontrando-se entre dois fogos. É compreensível que assim seja. Por um lado, porque ela não legitima os discursos burgueses apologéticos do capitalismo, e, por outro lado, porque também não legitima os discursos apologéticos do comunismo, tentando desmistificá-los a ambos. A crítica teórica das concepções marxistas permite compreender melhor a realidade social e demonstrar as inconsistências dos discursos apologéticos, tanto do capitalismo como do comunismo, mas não constitui a chave para a adivinhação do futuro, que é coisa que os actores sociais vão construindo no presente sem a consciência de o estarem fazendo.

Os adeptos marxistas, sejam militantes ou ex-militantes dos partidos comunistas, sejam simples simpatizantes ou companheiros de jornada dos comunistas, continuam apegados à profecia idealista que proclama o comunismo proletário como necessário sucessor do capitalismo. As suas posições políticas derivam dum exacerbado espírito crítico em relação à exploração e às desigualdades de toda a ordem geradas pelos regimes capitalistas, como se fossem caso único ou o mais pérfido da História, e na crença, pela fé, de que o comunismo constitui um humanismo que acabará com semelhantes iniquidades. Persistem em tais crenças mesmo depois da falência da generalidade dos regimes comunistas e da evidência das atrocidades que todos cometeram, que mostraram sem margem para dúvidas a incapacidade do comunismo para se constituir como alternativa económica e política ao capitalismo. Continuam iludindo-se que com a reforma cosmética das velhas igrejas — os partidos leninistas de revolucionários profissionais, auto proclamadas vanguardas iluminadas para a condução das massas ignaras na insurreição vitoriosa e, depois, na edificação da nova sociedade — o comunismo reeditado estará ao abrigo dos chamados erros e desvios que conduziram à sua derrocada generalizada. Apesar de se orientarem pela mesma ideologia e de continuarem agarrados à mesma concepção totalitária da organização social que despreza a liberdade individual, os adeptos querem fazer-nos crer que também eles são outras pessoas, que aprenderam com os erros que outros cometeram, e que a sociedade que propõem constitui a verdadeira e genuína alternativa ao capitalismo. Como todos os fiéis devotos, têm plena legitimidade para continuarem a iludir-se, mas não podem pedir-nos que acreditemos em semelhantes patranhas, sob pena de se cobrirem de hilariante ridículo.

Existem variadíssimos tipos de adeptos, uns mais crentes, outros mais enduvidados, e outros que tendo abandonado as igrejas permanecem orgulhosos do seu passado e mantêm ainda a esperança na construção de uma alternativa ao capitalismo. Alguns destes últimos, quando criticados por permanecerem orgulhosos dum passado de militância comunista que não deveria constituir qualquer motivo de orgulho (a não ser em relação à actividade anti-fascista que possam ter desenvolvido, mas até esta maculada pelo sectarismo e pela hipocrisia que desde sempre caracterizaram a acção dos comunistas) desempenham o papel de vítimas ofendidas. Confundem a inutilidade da crítica do passado pessoal, porque é injusto julgar as pessoas pelo que foram sendo, com a legitimidade da crítica do que em cada momento do presente persistem aprovando do seu passado. Atitude oportunista, que pretende aproveitar o que de bom teria tido o passado de comunistas sem arcarem com a penalização que a actividade comunista acarreta no presente, e reveladora de que o seu corte com o comunismo ainda não foi efectuado. O passo maior que deram foi migrarem para a social-democracia à moda do Mário Soares — um dito socialismo democrático, que nem o próprio Soares sabe o que seja, e que não passou de rótulo distintivo face à social-democracia reformista com raízes numa forte ligação ao movimento sindical, adoptado por um político ultra oportunista, vaidoso e ambicioso, sem qualquer ligação ao movimento operário, mas imbuído de um velho complexo de inferioridade, real e bem notório, em relação ao invejado rival Álvaro Cunhal — constituindo-se como sua ala de esquerda ou consciência crítica. Outros, um pouco mais radicais, acolheram-se nesse albergue espanhol do comunismo de passado apagado e de futuro branqueado que dá pelo nome de Bloco de Esquerda, e continuam apostados em renovar o comunismo. Outros, ainda, mantêm-se numa situação de independência ou de companheiros de jornada ocasionais dos comunistas. Todos eles saíram da igreja por uma qualquer desavença táctica, metodológica ou organizativa, ou por divergência menor em relação à cartilha, mas continuam indo às procissões; abandonaram o proselitismo de outrora, mas continuam crentes na profecia messiânica marxista do comunismo proletário e na sua pretensa credibilidade científica. Aceitar que acreditaram num logro teórico constituído por um rol de falácias e de patranhas infantis, camuflado por um humanismo idealista, é para eles demasiado. Temem a desilusão que destituiria de sentido parte importante das suas vidas e o ridículo de que se cobririam pela sua dantes reivindicada condição de vanguardas iluminadas.

Entre nós, resta um pequeno grupo de adeptos, não sei se abarcando mais do que os membros de um casal, que desenvolve uma meritória actividade mantendo na Internet, há vários anos, um fórum de discussão. Também eles são ex-militantes comunistas, depois fundadores do grupo dos que pretendem renovar o comunismo, do qual parece se terem ido afastando. Ao que se conhece das suas posições, foram críticos dos regimes comunistas sendo ainda militantes no activo, não aceitando que aqueles regimes pudessem estar construindo o comunismo partindo duma base económica atrasada. Pelo que deixam transparecer no seu blog e naquele fórum, admitem que algumas concepções marxistas podem estar erradas, mas apenas admitem, sem que se conheça qualquer sua crítica fundada. Distinguem-se também por criticarem os que persistem acreditando na revolução política comunista proletária e que concebem a instauração de novas relações de produção a partir da superstrutura, do aparelho do Estado. Mantêm-se apegados a uma concepção idealista e voluntarista da transformação social, propugnando a necessidade de se estabelecerem novas relações de produção, as quais tornariam possível a almejada revolução política. Incompreensivelmente, ainda não se aperceberam de que o estabelecimento de novas relações de produção não ocorre por qualquer idealismo voluntarista empenhado em transformar o Mundo, mas pelo egoísmo prático dos actores sociais ao aproveitarem as oportunidades que possam ir surgindo na realidade empírica e que mostrem capacidade para se desenvolverem.

A exploração de umas classes sociais por outras é uma constante das sociedades produtoras, e tem uma história já bem antiga. E se a História não é mais do que a narrativa e a interpretação das lutas das classes, sendo o comunismo uma sociedade sem classes, logo, sem lutas de classes, a instauração da sociedade comunista constituiria o fim da História. Com base naquele desejo, legítimo e humanitário, Marx anunciou o fim da História muito antes do que Francis Fukuyama o fizesse. Apesar de tão peremptórias predições, parece que a História terá ainda um longo futuro pela frente.

Almada, 25 de Agosto de 2007.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Os (bons) fins justificam os (maus) meios?


Os OGMs são produtos tecnológicos que exigem alguma precaução. Os perigos associados são em grande parte desconhecidos, pelo que os riscos não podem ser desprezados. Impõe-se, portanto, o princípio da precaução.

Devido aos riscos presumíveis ou a outros, quiçá terríficos, apenas imagináveis, muita gente é contra a produção de OGMs. Está no seu pleno direito e tem variadíssimas formas de manifestar a sua discordância e oposição dentro dos limites da lei.

Um numeroso grupo de jovens, juntando nacionais e estrangeiros, oriundos de um acampamento organizado por uma ONG virada para a ecologia, financiada pelo Estado, resolveu destruir um milheiral transgénico. Foi afirmado que a acção seria uma forma de chamar a atenção pública para o problema da produção de OGMs.

Invadiram uma herdade e destruíram parte da cultura, causando danos em propriedade alheia. Fizeram-no nas barbas da GNR, aparentemente sem a sua adequada reacção, e perante as câmaras da TV. Como ficou demonstrado, a acção fora antecipadamente preparada e anunciada, estava devidamente organizada, com os activistas transportados em autocarros e as TVs avisadas. Ao que dizem, a romagem teria sido autorizada pelo Governo Civil.

Vários comentadores já teceram as mais diversas apreciações sobre o caso. Uns demonstrando simpatia, outros condenando. Vasco Graça Moura, no Diário de Notícias de hoje (ver aqui), aflora o cerne da questão.

Tratou-se de um caso de violência política, ainda que envolvendo um crime contra a propriedade, em relação ao qual as autoridades demonstraram uma inaceitável complacência, contrastando com o excesso de zelo com que entravam manifestações pacíficas de trabalhadores, por exemplo. O Governo, esse, evidenciou, uma vez mais, a sua conhecida incompetência. Os dois ministros que saíram a terreiro mostraram ser menos do que duas “borboletas trapalhonas”, pois desempenharam o papel de autênticos mentecaptos.

O ministro das polícias estava num dia mau, fazendo retorcidas interpretações da lei para defender a GNR e justificar a adequação da resposta policial ao evento. O da Agricultura, esse, coitado, estava num dia péssimo. Perante um evidente caso de polícia, apressou-se a minimizar os prejuízos causados pelos energúmenos, não fosse tratar-se de crime grave, e ainda teve o desplante de afirmar que o Estado os pagaria; irresponsavelmente, não se coibiu de insinuar o envolvimento, indirecto, de um partido político da oposição no acto de violência.

Se o ridículo matasse, este Governo seria um conjunto de cadeiras vazias na sala de reuniões do Conselho de Ministros, tantos e variados têm sido os eventos hilariantes em que se tem metido. Tal não se deve aos fortes calores que se têm feito sentir e aos seus eventuais nefastos efeitos sobre as mentes. É defeito de fabrico, que noutras paragens não passaria no controlo de qualidade.

Os rapazolas e as raparigotas ecologistas, bem nutridos e financiados, que se comportaram como vulgares energúmenos, mostraram pertencer à estirpe dos cavaleiros andantes imbecis que denodadamente pretendem catequizar os gentios. Não são apenas jovens e irresponsáveis, são também palermas intolerantes para quem os (bons) fins justificam os (maus) meios.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Sejamos magnânimos, concedamos-lhes também a liberdade de serem tontos


Entre muitas outras particularidades, os comunistas têm uma tendência inata para a falsificação. Apagar factos e figuras, denegrir o adversário, execrar o capitalismo e contrapor-lhe a verdade imaculada dos santos sem pecado, prometer a felicidade terrena contra as iniquidades do capital e o ópio das religiões e exaltar os feitos gloriosos dos regimes comunistas, com a União Soviética à cabeça, são alguns exemplos do extenso rol de práticas em que os comunistas são exímios. Reescrever a História é uma das variantes, mas dentro desta avulta o negacionismo.

Quando se trata dos crimes cometidos pelos regimes comunistas excitam-se momentaneamente, mas logo rapam do seu arsenal de negação. Os regimes comunistas não eliminaram milhões de pessoas, não encarceraram em condições humilhantes, não deportaram em massa, não provocaram deliberada ou negligentemente fomes dizimadoras, não internaram dissidentes em hospícios, nem tão pouco participaram em guerras imperialistas (neste caso, apenas reclamaram territórios legítimos ou ajudaram progressistas locais). Não podem ter cometido semelhantes barbaridades, pela simples razão de que são os portadores da ideologia mais humanista. Por princípio, uma realidade tão humilhante não pode ter existido.

Negada a possibilidade de tamanho sacrilégio, que contraria todas as promessas humanistas da profecia redentora, colocados perante a irrefutabilidade da prova recorrem à negação da condição de comunista dos regimes que cometeram as atrocidades. Na impossibilidade de ilibarem os regimes, porque todos de comunistas se proclamavam e como tal eram aclamados e reconhecidos, reduzem os exemplos a desvios oportunamente criticados; raramente chegam ao repúdio, ficando geralmente pela conivente compreensão. Devido aos múltiplos casos, formando um modelo generalizado, apenas com cambiantes de dimensão e de requinte de malvadez, sob pena de caírem no ridículo da negação da mais clara evidência adoptam a negação da qualidade de comunistas dos respectivos chefes. E assim sucessivamente.

Como ainda mantêm uma paixoneta por Estaline (cada vez menos secreta, já que de vez em quando a exprimem claramente) e resistem a qualificar “o pai dos povos” de bárbaro sanguinário, os comunistas jogam mão de outro subterfúgio: contrapõem às vítimas do comunismo as vítimas do imperialismo, na esperança de que a contabilidade lhes seja favorável. Nada deixam de fora, das guerras civis às guerras de agressão e à repressão interna. Ora, a contabilidade, mesmo recuando aos primórdios do capitalismo e feita com estimativas por alto, continua a apontar o comunismo como a ideologia mais sanguinária. Sem margem para quaisquer dúvidas, porque os números, mesmo com a manipulação mais grosseira a seu favor, não mentem.

Este último reduto em que se refugiam acaba transformando-se na negação da sua própria negação: afinal, sanguinários, sim, admitem; mas, atenção, que ainda há outros mais sanguinários! Na tentativa grotesca de encontrarem quem seja mais sanguinário, os comunistas perdem todo o pudor e demonstram ser possuidores duma desfaçatez sem limites. A raiva do desespero nem lhes permite enxergar o ridículo em que caem. E esquecem deliberadamente que nenhum regime capitalista praticou semelhantes barbaridades sobre os seus próprios nacionais. Mesmo dos regimes fascistas, só o nazismo se aproximou no ódio e na sanha liquidacionista, ficando muito aquém na dimensão da tragédia, porque os seis milhões de judeus que exterminou não eram na esmagadora maioria de nacionalidade alemã.

Porque a violência é uma constante da História e porque todas as revoluções acarretam baixas, os comunistas erigem tais princípios simplistas, repetidos, mas restritos a curtos períodos, como regra na luta política e adoptam-nos como normas de conduta permanente para lidarem com os adversários: a luta de classes não passa de guerra declarada, onde tudo vale e em que os fins justificam os meios mais abjectos. Como a História tem mostrado, os regimes políticos comunistas, com a sua concepção totalitária da organização social, que não deixa espaço para a organização livre e autónoma dos cidadãos fora dos organismos do partido único e do Estado, só têm sobrevivido à custa do terrorismo político periódico, organizado como safras purgadoras, e da constante repressão policial e carcerária.

Mais nenhum programa político, a não ser o dos comunistas, transforma os adversários em inimigos e proclama a sua eliminação física. Têm o mérito de não o esconderem, abusando da tolerância com que aqueles os aceitam. Basta atentar no ódio que votam aos inimigos de classe, que quotidianamente propalam, assim como nas proclamações que não se coíbem de fazer antecipadamente acerca do destino que a revolução comunista lhes reserva. Mas quando os que sofreram a opressão do comunismo e se libertaram lhes cerceiam a liberdade de se organizarem e ilegalizam os partidos comunistas, cortando-lhes as possibilidades de voltarem a oprimi-los, aqui del-rei! que são fascistas. Tais vinganças, apesar de tudo inaceitáveis, comparadas com o que sofreram às mãos dos comunistas são meras brincadeiras de crianças. Os comunistas não constituem um perigo encoberto, disfarçado, mas um perigo claramente afirmado; e a perversidade dos seus regimes não é mera conjectura, constitui uma pérfida realidade. Sabem-no os povos, que com a sensatez da experiência têm ido rejeitando a barbárie redentora que propõem e, nas sociedades democráticas, os têm reduzido a insignificantes, mas activas, minorias.

Para além dos execráveis objectivos estratégicos, tacticamente são artistas da dissimulação. Ainda enganam incautos com cânticos de sereia acerca do seu progressismo social, da sua abnegação ao serviço dos interesses dos trabalhadores e da felicidade terrena que prometem. Mas não conseguem iludir a incapacidade para os defenderem das investidas mais gravosas do capital, conduzindo-os para a acumulação de derrotas atrás de derrotas. Não apenas por inépcia e estupidez, adoptando as formas de luta mais desajustadas às situações concretas, mas porque toda a sua estratégia assenta no desejo recôndito do agravamento das condições de existência, na esperança de que do descontentamento e do desespero surja a almejada crise revolucionária que os conduza ao poder. Perante o agravamento das condições de vida dos trabalhadores, a sua cartilha preferida é a da lamúria moralista e do reavivar da hostilidade e do ódio classista, que de tanto repetida incute nas massas o desalento e a resignação. O desânimo que semeiam é então o campo necessário para realçarem a sua permanente combatividade e dedicação.

Quando o marasmo da impotência invade os acólitos, tudo inventam para incentivar a militância, cultivando o mais desbragado tarefismo. Com o avolumar da idade, até aos mais empenhados vai faltando a pachorra, mas a todos há que alegrar uma vez no ano, e aí está a Festa do Avante, a única altura em que podem confraternizar sem a interposição das barreiras do centralismo democrático. Reservada à propaganda, a ponto de encontro à volta dum copo e dum petisco regional e ao desfilar da música cada vez menos engajada, a Festa cumpre ainda o papel de principal angariadora de fundos, depois que cessaram as ajudas soviéticas e que se espatifaram as velhas fortunas burguesas de antigos companheiros de jornada, e o pouco que delas resta, junto com os subsídios do Estado capitalista, já não constitui financiamento suficiente. Mas a Festa é um bom pretexto para fazer ver aos comunistas o óbvio que o seu fanatismo os impede de ver: o contraste entre a liberdade de que gozam nas sociedades burguesas democráticas e o destino trágico que reservam aos burgueses e aos cépticos que ousem não se transformar em adeptos.

Este ano, aprestam-se para comemorar o nonagésimo aniversário da revolução comunista de Outubro de 1917, na Rússia, chorando a desgraça da queda do comunismo por todo o lado. Coitados! Nem o tempo, que tudo cura, lhes tem permitido fazerem o luto necessário. Apegados a semelhantes fantasmas, como todos os fanáticos os comunistas só podem estar loucos. Sejamos magnânimos, concedamos-lhes também a liberdade de serem tontos. Apesar de tontos perigosos.