sexta-feira, 12 de março de 2021

O "estado de emergência" permanente: a suspensão da democracia como "novo normal"


Com afecto, o Presidente propõe; com deferência, o Parlamento aprova; com desvelo, o Governo decreta, mas deixa as miudezas para meras resoluções do Conselho de Ministros, esse expedito instrumento de governação de duvidosa legalidade, não vá o Parlamento passar das recomendações ao Governo à fiscalização da sua acção e ter a veleidade de modificar ou de anular as suas opções; obediente e agradecido, o povoléu amocha, pois as decisões do Governo, como não se cansa de repetir a propaganda, são tomadas “A Bem da Nação”, para sua segurança e protecção.

Pela paulatina difusão e interiorização do medo são acatadas as medidas mais insensatas, e, pelos pretextos mais absurdos, alguns indirectos (como o fecho das escolas), os cidadãos são confinados nas suas residências compulsivamente, coisa nunca vista. E assim a política, escudada nos conselhos de escolhidos cientistas, especialistas em ciência por fazer, não em ciência feita, é transformada em engenharia social, a gestão tecnológica dos direitos, liberdades e garantias. Eis o desejado “novo normal”, atingido sem protestos de maior se não com aplauso.

Tempos interessantes, em que assomam as formas de novos totalitarismos, nas quais o poder deixa de residir no “povo” ou lhe é usurpado, sendo exercido por elites de tecnocratas, sem escrutínio nem controlo, “A Bem da Nação". No horizonte, mesmo se longínquo, em todo o lado desponta a sociedade gestorial, a tal em que se governa “digam as Constituições o que disserem”, pois os gestores existem para cuidar do povoléu com a optimização da “alocação de recursos”, e ninguém melhor do que eles o faz “A Bem da Nação” ou "A Bem de uma Pequena Parte da Nação".

Cuidem-se com o "novo normal"!


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