sábado, 5 de junho de 2021

Facetas do regime fascista em Português Suave (I)


Comecei a ir ao cinema muito novo. Tinha cinco ou seis anos, já ia às matinés dos Domingos ver as fitas infantis da época. Assim começou o hábito, que se transformaria em gosto vida fora. Meu pai, com quem aprendi tanto, também frequentador assíduo, passou a levar-me às sessões nocturnas, para “maiores de 12 anos”, antes mesmo de atingir a idade mínima. Os porteiros, aí trabalhadores de segundo emprego, eram gente conhecida, como meu pai, jogador de bola que fora, porque o meio era pequeno, e mostravam a sua indulgência fazendo “vista grossa”.

Os pais, ambos operários, como a maioria dos membros das duas gerações anteriores da família, de Verão faziam serão, trabalhando até tarde. Com uma das avós em casa, a ida ao Clube para ver televisão era o pretexto habitual para as escapadelas à noite. Passava antes pela portaria do Cine-Teatro, para mirar os apelativos cartazes em policromia ou com fotos de cenas das fitas a serem exibidas durante a semana, alimentando desejos. Por essa altura, passei a ir às sessões nocturnas de coboiadas, de policiais ou de algum épico, por outros meios mais expeditos.

Enquanto percorria o átrio vendo as montras, acercava-se de mim um ou outro adulto jovem, também gente conhecida, aliciando-me: “Zé, queres ir ver o filme? A gente paga-te o bilhete”. A “gente” era um grupo de quatro ou cinco operários, que se quotizavam para me pagar o bilhete de 3$00 que custava então uma entrada para a “bancada”, a “geral” de bancos corridos de madeira, localizada na zona mais afastada do écran. A contrapartida era a leitura das legendas, para que eles, analfabetos, fossem acompanhando o desenrolar do enredo. Vi assim fitas que de outro modo não veria e outras que não veria tão cedo.

Nos anos cinquenta e sessenta, as taxas de analfabetismo entre adultos, velhos e jovens, eram elevadíssimas. Nem a institucionalização da escolaridade obrigatória para a 4.ª classe do ensino primário, e depois para a 6.ª classe, nem o lançamento de periódicas campanhas de alfabetização de adultos, algumas apoiadas técnica e financeiramente por instituições internacionais (OCDE), impediram chegarmos ao 25 de Abril de 1974 com taxas de analfabetismo que envergonhariam qualquer outro país da Europa Ocidental. São factos admitidos com alguma preocupação até entre gente desempoeirada do próprio regime.

Na família de que me lembro, apenas na da avó materna, os Nobre, grassava o analfabetismo. Numa irmandade de seis, de que ela era a primogénita, só um, dono de taberna na baixa da cidade, o “Ti Chico da venda”, sabia parcas letras aprendidas já tarde por necessidades do negócio. Durante a sua longa vida, a minha avó Isabel sempre se lamentou, com muita tristeza, desse facto que a penalizava, desabafando: “filho, não saber é pior de que não ver”. Na última década do século XIX, frequentar a escola não constituía prioridade, e as mulheres pobres, a quem nem nome de família era atribuído, portando-o como alcunha, eram as mais discriminadas.

Meus avós tiveram o cuidado de mandar à escola todos os seus oito filhos, rapazes e raparigas, ao contrário do que os seus pais haviam feito com a maioria dos seus. E embora alguns apenas tivessem chegado à 3.ª classe, o nível de escolaridade obrigatória para que regredira o salazarismo, todos sabiam ler, escrever e contar. Calhou-me em sorte ter nascido no seio de família citadina alfabetizada, e meu pai era não só leitor voraz como possuidor de uma pequena biblioteca, de onde surgiu a oportunidade de ler muito cedo “O imenso adeus” e “À beira do abismo”, esses admiráveis romances de Raymod Chandler.

E mais sorte me calhou por ser filho de quem sou. Meus pais puseram-me na “escola paga” da Belinha aos quatro anos, e depois na da Dona Calã. E embora alternasse a frequência das aulas de dia inteiro com ausências de muitas tardes, depois do almoço em casa ou na da madrinha, para idas à “maré” ali tão perto e chamativa, quando aos sete anos fui para a “escola régia”, a escola oficial, a nova escola do Bairro Operário (na verdade, um conjunto de duas escolas de quatro salas cada, uma para rapazes, outra para raparigas, funcionando em dois turnos, e uma cantina onde os mais pobres tomavam o pequeno-almoço, o almoço e o lanche), acabada de construir e inaugurada nesse ano, já dominava as matérias da segunda e algumas da terceira classe, sendo escolhido para ajudante informal da professora Dona Maria Sustelo, que ainda recordo com saudade.

Mesmo que as heranças da Monarquia e da 1.ª República tenham sido desastrosas (ao contrário do que sempre propagandeou acerca desta última a oposição reviralhista), o elevado analfabetismo, ainda que atenuado pela mobilização em massa para a guerra colonial, que proporcionou a muita rapaziada nova as aprendizagens mais elementares na tropa, entre muitas outras de triste memória foi uma das facetas do legado do regime fascista em Português Suave, que vozes melífluas de académicos e políticos pretendem agora adocicar tergiversando.


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