sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Ilusão por ilusão, já basta a da religião

Então? Gostou do texto que leu? Achou-o muito complicado ou a forma sintética como está escrito, sem floreados retóricos supérfluos, foi suficientemente clara para que não sentisse dificuldades de maior?

Eventualmente está ainda chocado ou chocada com o tipo de erros cometidos pelo Marx. Ter-se-á perguntado: como não vi eu isto? Não se preocupe, não é problema apenas seu. Essa foi a pergunta que também fiz a mim próprio algumas vezes. Aceitamos afirmações sem as questionar, como se de verdades se tratassem, porque elas expressam, afinal, o nosso desejo profundo. Depois, quando paramos para reflectir, apercebemo-nos de que tais verdades não passam de falsidades provocadas por erros crassos. Mais tarde ou mais cedo, a realidade se encarregará de nos trazer à razão, confirmando-nos o antigo aforismo operário: o material tem sempre razão!

Não pense que foi fácil ao Marx chegar onde chegou. Também ele não era nenhum iluminado, como mais tarde quiseram fazer crer, entronizando-o como novo profeta laico. Produzir conhecimento não é fácil; produzi-lo nas condições de isolamento em que ele o fez é ainda mais difícil. Isso não explica os erros; mas permite-nos compreender que eles são produto das formas improfícuas, mas bem intencionadas, de superar umas contradições caindo noutras.

Se já compreendeu que o trabalho não “cria” valor, cria a utilidade das coisas, dos objectos e dos serviços, e tem valor, o valor do seu custo de produção. Se já compreendeu que o valor apropriado provém duma troca desigual entre os capitalistas e os trabalhadores, e não da suposta apropriação de um suposto mais valor “criado” pelo trabalho para além do suposto valor da força de trabalho (que, além do mais, seria de pleno direito do capitalista, que o adquirira com a compra do trabalho, e portanto não corresponderia a qualquer apropriação, porque ninguém se apropria do que é de sua propriedade!). Se já compreendeu isto, a naturalização da exploração por parte do marxismo, verá que não lhe será difícil compreender o que virá na segunda parte do texto acerca da famosa “transformação” dos valores em preços de produção e da não menos famosa “lei” da queda tendencial da taxa de lucro.

Depois, com outros textos, poderá compreender os errados fundamentos da profecia idealista da revolução comunista proletária. Não se assuste! Não se trata de qualquer cruzada anticomunista. Se o comunismo foi rejeitado por aqueles que o viveram, não é por desmistificá-lo teoricamente que perderá ou não arranjará mais clientes. Procura-se produzir conhecimento, tentando compreender melhor a realidade em que existimos, e isso estende-se à crítica da profecia comunista.

Está bem, mas não é por isso que a exploração não existe, dirá. É um facto. Apesar da demonstração dos erros com que o Marx tentou explicar a realidade, nem por isso ela deixa de ser o que é. Nem as explicações erradas do Marx transformaram a realidade, nem a demonstração dos seus erros e a formulação de uma outra explicação a transformam. Pois é! A produção de conhecimento não tem em vista transformar a realidade, mas explicá-la. E é melhor explicá-la bem, de forma coerente, do que de forma ilusória. Ilusão por ilusão, já basta a da religião.

A transformação da realidade começa pela transformação da “nossa” realidade, daquela pequenina parte em que somos actores; a começar pela transformação da forma como entendemos esta nossa pequena realidade e do modo como agimos nela. Quando a compreendermos e mudarmos a forma de agirmos veremos quanto difícil é mudar o contexto em que existimos. Compreenderemos, então, que a mudança da realidade social não depende da nossa vontade. Nem apenas de muitas outras vontades como a nossa. E se estendermos a nossa pequena realidade à da produção das coisas e dos objectos, à economia-política…

É sempre possível mudar alguma coisa, nomeadamente, ao nível da política. Por isso, empenhe-se, informe-se, conteste, proteste, proponha, aja! Desconfie das seitas de fanáticos, dos chamados fundamentalistas, laicos ou religiosos, dos profetas da desgraça, mas também dos profetas da felicidade. O Mundo em que existimos está perigoso. Os pretorianos detêm cada vez mais poder. A burguesia está enredada nas malhas do poder que a sua própria tropa teceu. O autoritarismo e a fascização espreitam as democracias, é uma penosa realidade. Mais uma razão para não nos acomodarmos e agirmos, para exigirmos o respeito pelos valores que a burguesia erigiu e acaba desprezando.

Ah! Se tiver pachorra, vá uma tarde destas até ao Rossio, em Lisboa, prestar uma singela homenagem ao grande Zé Pacheco — o nosso sabe muito acerca de tudo, o tal que não se enganou acerca das guerras de agressão e de ocupação do Afeganistão e do Iraque, que sempre soube da existência das armas de destruição massiva, e que não se engana acerca do 11 de Setembro, obra do bando terrorista do doente renal e não do bando de malfeitores pretorianos que se acoita por detrás da administração evangélica americana. Dê umas voltas à praça, em resposta ao apelo público que ele nos fez, colocando ao pescoço um cartaz com os dizeres: “GANDA PACHECO. ARRE, QUE É BURRO!”

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