domingo, 22 de abril de 2007

O jornalismo e o receio dos tentáculos do Polvo


António José Morais foi entrevistado por dois jornalistas do Diário de Notícias. Depois de declarações avulsas do citado Morais sobre a malfadada licenciatura do Pinóquio, publicadas em jornais não afectos ao Polvo (o Expresso e o Público), esta era uma peça que faltava. Do que lhe dizia directamente respeito, por estar pessoalmente envolvido, que lhe perguntaram os jornalistas? Se, tendo sido professor do Pinóquio no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL), tendo-se mudado para a Universidade Independente (UnI) influenciou o seu ex-aluno a mudar-se para a UnI? Não. Se as equivalências e o plano de estudos que terá proposto à reitoria, na qualidade de responsável do curso, foram acompanhados de qualquer relatório com a devida fundamentação? Não. Porquê o mesmo plano era comum aos sete alunos que se diz terem constituído a turma especial de que Pinóquio terá feito parte? Não. Porquê o citado plano de estudos incluía disciplinas a que deveria ter sido concedida equivalência e não incluía outras do currículo da UnI cujas matérias o aluno nunca cursara anteriormente? Não. Porquê as pautas de exame das disciplinas que diz ter leccionado, tendo sido os exames colectivos, respeitavam apenas a um aluno, foram preenchidas sem número de aluno, sem indicação de ano de curso, sem referência a qualquer turma especial, e foram todas lançadas ao Domingo? Não. Porquê a disciplina de Projecto e Dissertação aparece classificada sem que o aluno haja realizado qualquer projecto, estágio profissional ou dissertação (como expressamente refere o regulamento do curso de licenciatura em Engenharia Civil da UnI)? Não. Sobre uma questão do domínio escolar, os jornalistas pouco perguntaram, fixando-se nas hipotéticas influências, impossíveis de provar, que a militância política no PS teriam tido na actuação do Morais.

Pelo que se depreende, esta entrevista insere-se na campanha de desagravo do Polvo em relação ao Pinóquio. Pelo seu conteúdo inócuo, fica constituindo mais uma tentativa de contrabalançar as suspeitas de fraude, e não já de simples favorecimento, que se abatem sobre a obtenção de um diploma de licenciado em Engenharia Civil na UnI pelo cidadão Pinóquio. No seu discurso, o Polvo foge das questões concretas, fixando-se na teoria da cabala e da campanha orquestrada, que teriam em vista provocar a queda do governo. Mas o que está em causa, neste caso, não é a acção política do governo e do seu Primeiro-Ministro; o sórdido assunto prende-se apenas com os meios usados pelo cidadão Pinóquio para a obtenção de um diploma escolar. E, nesta questão, os pormenores, dos quais o Polvo tenta afastar a discussão, são precisamente o factor decisivo (pelo menos, enquanto os restantes envolvidos não se decidirem a assumir as suas eventuais responsabilidades).

A táctica do Polvo, neste caso, assemelha-se à que usou aquando do escândalo da pedofilia com alunos da Casa Pia. Naquele caso, estando na oposição, o Polvo referia-se a tentativas de assassinato político de quadros seus. Agora, a coisa fia mais fino. Pela boca do Morais, o que estaria em curso seria uma tentativa de "golpe de Estado" (sem que os jornalistas aprofundassem o que quereria dizer com isto). Mesmo que o Morais não saiba bem o que diz (e o que terá feito...), compreende-se que o Polvo tenha receios sobre uma hipotética decisão do Cavaco Silva demitir o governo e convocar eleições antecipadas (ainda que muito improvável, porque não está na sua índole de cultor da estabilidade política). Ampliar os eventuais efeitos e consequências que este caso poderia ter para a estabilidade política é, portanto, um dos artifícios do Polvo (basta atentar nas referências do Mário Soares à falta de alternativa da direita) para levar os apaniguados a cerrarem fileiras (porque quem se mete com o Polvo, leva, como diz o Hádem Coelho). Mas este é um cenário por de mais inverosímil: o Polvo dispõe duma sólida maioria parlamentar; uma eventual queda do governo, tendo em conta os precedentes, manterá o Polvo com toda a legitimidade para formar um novo, até que o povo, se para isso tiver discernimento, lha retire em novas eleições, finda a legislatura. Não está sequer em causa que a oposição não tenha alternativa credível; a estabilidade política apenas seria perturbada se o próprio Polvo não tivesse alternativa ao Pinóquio Tecnocrata. Será esse um dos seus receios?

João Pedro Henriques, cujo trabalho no Público me habituei a apreciar, fica muito mal nesta fotografia como co-autor da peça. Não porque o resultado da entrevista constitua a ilibação do multifacetado professor Morais, mas porque as perguntas não corresponderam ao cerne da suspeita que recai sobre a actuação pessoal do dito Morais nesta sórdida questão. Mais uma vez, os jornalistas não fizeram o devido trabalho de casa. Com tantos elementos já disponíveis, não se compreende porquê. A não ser que o clima de intimidação que o Polvo instituiu nos meios de comunicação de massa esteja sendo de tal modo eficaz que os jornalistas se imponham a si próprios a censura. Neste caso, a sua timidez será totalmente compreensível. Eles têm família e dependem dos seus empregos para sustentá-la… Apesar disso, um dia terão de optar entre serem jornalistas e fazerem perguntas incómodas ou serem simples moços de recados.

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