sexta-feira, 20 de abril de 2007

O Polvo sente-se acossado


Sempre que vai para o governo, o Polvo governa-se. A cada consulado o respectivo escândalo. O pantanal foi tal que o beato Guterres se deve ter sentido incomodado e zarpou. Mais uma vez, depois de estender os tentáculos por tudo quanto é Estado e ligações conexas, o Polvo inchou, seguro da maioria absoluta e confiante na habitual impunidade. Passados os primeiros receios, nem a Casa Pia acabou por amedrontá-lo, ciente de que tudo acabará por resolver-se como tem sido habitual. Comparados com o Pinóquio Tecnocrata, o Chopin Violinista, o Sebastião Encoberto e o Fujão Bacoco parecem meninos de coro; comparada com o Polvo, a direita semelha uma anémica lula esguia.

Sentindo-se acossado como já não se via desde Macau, o Polvo cerra fileiras em jantar de desagravo a pretexto de mais um aniversário. Tentando escapar ileso, lança o ferrado, vitimiza-se com o discurso da cabala e da campanha da direita. O Polvo não quer investigação de corrupções, de fraudes, de favores, de compadrios ou de peculatos. O Polvo não quer discutir OTAs nem TGVs, fontes de novos proventos à conta do erário e de chorudas mais-valias para os amigalhaços. O Polvo quer continuar intocável, vociferando contra tudo e contra todos. Afirmando à boca cheia ser defensor da liberdade, o Polvo mostra ter medo da liberdade, principalmente da liberdade de informação. O Polvo, afinal, revela-se um inimigo da democracia, lançando-a no descrédito e acabando por pô-la em risco.

Neste filme só é estranho o silêncio, certamente não inocente, dos habituais adversários do Polvo. Partilharão algumas das tocas ou, afinal, o Polvo é bicho amigo?

Uma nota pessoal. Há pouco menos de trinta e quatro anos, sabendo-me órfão da militância no PCP o falecido Francisco Marcelo Curto convidou-me (e a mais três companheiros) para ingressar no PS, que acabara de ser constituído na Alemanha. Discutidos em diversos encontros a Declaração de Princípios e outros materiais, a ideologia e o projecto político não me pareceram convincentes. Não aceitei (nem os restantes companheiros), apesar da insistência, com pesar seu. Para além da frouxidão com que qualificava aquele “socialismo em liberdade”, padecia então de uma incontida aversão pela vaidade desmedida, pela demagogia e pelo oportunismo político do Mário Soares, sentimento que nem estes longos anos permitiram ultrapassar, ainda que se tenha vindo a desvanecer um pouco à medida que ambos envelhecemos. Depois de romper com o marxismo-leninismo, em 1978, ganhei distanciamento para acompanhar mais objectivamente a política portuguesa. Apesar das investidas dos governos soaristas contra as conquistas dos trabalhadores, ainda cheguei a depositar leves esperanças de que o PS pudesse tornar-se o baluarte da consolidação da democracia, diga-se em abono da verdade. Pura ilusão. Em surdina, por diversas vezes, tenho-me congratulado por não ter participado na formação do que constato ter vindo a transformar-se no Polvo da democracia portuguesa.

3 Comentários:

Às 2:46 da tarde, abril 20, 2007 , Blogger chapa disse...

Infelizmente o Polvo não se fica pelo PS, antes atravessa tudo o que é poder. PSD, CDS e também o antes campeão da superioridade moral, todos esticam os tentáculos em busca de sustento.

 
Às 2:14 da tarde, abril 21, 2007 , Blogger JMC disse...

Acredito que sim, embora a experiência confirme ser o PS muito mais dependente do aparelho do Estado e das suas ramificações.

Os outros sempre têm mais afinidades familiares ou ideológicas com os capitalistas para terem lugares nas administrações à disposição, enquanto estes têm de se governar à custa do erário público.

Com o tráfico e as negociatas escuras sim, todos parecem ganhar.

Os casos da OTA e do TGV, então, são pouco menos do que sórdidos.

Obrigado pela sua visita.

JMC

 
Às 9:47 da tarde, abril 22, 2007 , Anonymous Anónimo disse...

concordo inteiramente com a análise do que chama, e a meu ver bem, "Polvo". Sendo um fenómeno que abarca a quase generalidade do sistema político que temos (e os resultados para o país estão à vista), parece-me que o PS é porventura o mais mafioso e corrupto de todos. Tirar conclusões e consequencias desse facto é urgente há muito.

 

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