terça-feira, 9 de outubro de 2007

O “Che” ou o mito do herói revolucionário romântico abnegado


Largos anos atrás, uma fita inesquecível de Bernardo Bertolucci, A Estratégia da Aranha, baseada no conto de Borges Tema do Traidor e do Herói, abordava a importância da construção do mito do herói para manter viva a chama da luta social, no caso a luta anti-fascista na Itália de Mussolini. A estória da construção do mito do herói Athos Magnani traz-me à memória a da construção do mito de Ernesto “Che” Guevara.

Ao contrário da personagem Magnani, Guevara não foi um traidor que depois de morto tivesse sido transformado em herói. Ele gozou em vida dos atributos do herói: o revolucionário romântico, deslocado da realidade, imbuído dum exacerbado voluntarismo, acreditando ser a revolução obra de um punhado de guerrilheiros apoiado pelo campesinato, que descendo às cidades tomaria o poder. Um pouco à imagem do que acontecera com os revolucionários da Sierra Maestra e a revolução cubana, de que fora um destacado protagonista, ao lado de Fidel e de Camilo.

As suas alucinadas concepções revolucionárias, o “guevarismo” ou “foquismo”, radicam na concepção da revolução permanente e generalizada como forma de ultrapassar os impasses na transformação económico-social a que conduzia o modelo do capitalismo de Estado monopolista em países pequenos e pouco povoados, onde a edificação duma indústria pesada como motor do desenvolvimento se mostrava totalmente inviável, e de romper com a opção dos soviéticos pela coexistência pacífica com o imperialismo americano. Criar muitos Vietnames, através da luta armada desencadeada por pequenos grupos guerrilheiros que atraíriam para a causa revolucionária as massas camponesas, parecia-lhe a forma de acelerar a prevista derrota do imperialismo ianque e de criar as condições para a construção do socialismo.

Até à sua conversão à ajuda soviética, o castrismo não fora bem aceite pela ortodoxia comunista, por não corresponder aos cânones da revolução proletária, encontrando-se muito mais próximo do maoismo, já então em litígio pela disputa da liderança do movimento comunista internacional. O guevarismo, então, fora até combatido e objecto de repúdio como via revolucionária destituída de qualquer credibilidade, porque baseado no puro aventureirismo. Depois do desaire no Congo, a incursão na Bolívia acabaria por conduzir o grupo guerrilheiro guevarista ao isolamento e à morte. Com uma particularidade: o herói revolucionário não morreu em combate; rendeu-se, esperando escapar vivo, e foi executado.

A construção do mito do “Che” em Cuba não envolve grande cinismo. Como Castro, Guevara fora um herói da revolução cubana vitoriosa. Apesar das divergências, a homenagem cubana terá tido tanto de necessária quanto de genuína. O mito que hoje perdura, porém, não se circunscreve ao herói da revolução cubana, mas estende-se ao revolucionário romântico sacrificado pela causa da revolução redentora e que dela se tornou mártir. Na falta de novos heróis vencedores, o romantismo desesperado de Guevara acabou preenchendo a lacuna existente no imaginário juvenil da rebeldia e da abnegação. Tal como o mito do Cristo redentor, oferecido em sacrifício para salvar os pobres e desvalidos, assim o mito do “Che”. O Cristo não teve um fotógrafo à altura nem um marketing tão oportuno.

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