sexta-feira, 28 de agosto de 2009

As praias de arribas


Desde moço, bem pequeno, a partir dos meados da década de cinquenta, passava grande parte das férias de Verão na praia. Durante o turno de três semanas de incorporação na colónia balnear infantil que o Sindicato operário e o Grémio patronal organizaram conjuntamente durante anos a fio, e também antes e depois, eram dias quase inteirinhos de praia. Começavam a meio da manhã, quando o Sol ia aquecendo, e terminavam pela tardinha, quando a areia trazida pela brisa picava a pele e incomodava, interrompidos apenas pelo almoço na fábrica, ali ao lado, e pelas três horas da digestão, nem sempre respeitadas, apesar das repetidas recomendações paternas.

Os operários tinham as curtas férias de uma semana no Inverno, em período de defeso, de modo que as suas idas à praia se ficavam por um ou outro Domingo de Verão em que não trabalhassem. Em tempo de fartas pescarias, todos os dias da semana saíam poucos para aumentar a produção, sempre à míngua para as encomendas, apreciadas que eram, naquele tempo, por uma boa parte da Europa, as conservas de peixe do Algarve. As folgas eram escassas, e o apelo da praia não constituía prioridade. Mas, de vez em quando, a família ia passar um dia à praia, de almoço aviado. Por vezes, íamos em ranchos de duas ou de três famílias de vizinhos ou de amigos, em animada romaria.

Quando escolhiam uma praia mais distante, a Donana, por exemplo, que por ser maior nos permitia mais desafogo, sem estarmos apinhados, abalávamos manhã cedo. O medo do calor e a longa caminhada de uns bons três quilómetros assim impunham. Para gaiatos de perna curta sempre era um bom esticão, obrigando a uma ou duas paragens durante o percurso, para reganhar fôlego e retemperar o ânimo. Voltávamos ao fim da tarde, indolentes do cansaço, mas felizes. O pai era jovem, moço escorreito, fora jogador de bola e ainda era bom nadador, e participando nas nossas brincadeiras prestava-nos a atenção que não nos podia dedicar durante a semana de trabalho árduo de manhã à noite. Eram uma alegria, aqueles dias de praia.

Preferiam as praias de falésias rochosas, as tais arribas, como se diz em bom português, capazes de proporcionarem as sombras que nos protegessem do soalheiro. Gente pobre não podia alugar toldos ou barracas, existentes nas poucas praias vigiadas. Isso era coisa para gente rica ou, pelo menos, remediada, proprietários e funcionários, longe das posses de simples operários. À sombra das falésias, onde não chegasse a babugem das águas cálidas, a areia fria em que as enterravam refrescava a garrafa do vinho para acompanhar a refeição e o melão ou a melancia com que nos deliciávamos à sobremesa. Mesmo na praia, o farnel era completo, e o Verão, com a abundância de fruta e de peixe baratos, era tempo de fartura.

Anos depois, calhou-me a vez de proporcionar aos meus os seus dias de praia, nas férias de Verão. Quem fora frequentador assíduo das praias do Sul durante anos estranhava as águas mais frias da costa ocidental, o mar mais batido e as ondas das praias da Caparica ou da Fonte da Telha. Quando pudemos fazer férias, rumámos a Sul. Não mais voltei às praias de falésias da minha infância e adolescência. Passara a poder alugar toldo, embora usasse chapéu-de-sol, mas ganhara receio daquelas rochas. Escolhi uma praia grande a perder de vista, apenas com dunas, cujo areal em meia-lua dava forma à baía, onde dantes ia para jogar à bola, tal a fama de traiçoeira que lhe haviam granjeado os seus abruptos pegos. Um molhe até à boca do rio mudara-lhe o assoreamento, corrigindo-lhe os velhos defeitos, e transformara-a numa das melhores praias da região.

Os filhos, coitados, enquanto pequenos, não gozavam dias de praia como os que eu tivera. Cuidados constantes — chapéu ou boné na cabeça, protector solar, mesmo se artesanal, lanche a meio — e vigilância apertada, coisas que a maturidade ensinara, quebravam o romantismo da liberdade de outrora. A ida era diária, ou quase, mas os dias encolheram, e a praia à descrição que eu tivera passou para eles a ser praia com horário de repartição: entrada às nove, saída ao meio-dia, porque o Sol a pino, à socapa, faz das suas. Apesar das restrições, que motivavam frequentes rogos para mais um bocadinho, só mais um mergulho, atendidos consoante o choradinho do coro suplicante, também eles pareciam ser felizes. Julgo que gostaram dos seus dias de praia tão diferentes dos meus.

Há dias sucumbiram cinco banhistas, soterrados sob umas falésias. Dantes, as falésias caíam por efeitos da invernia, fustigadas pelas chuvas e pelos vendavais de marés vivas. Dávamo-nos conta no Verão seguinte. O desordenamento urbanístico da orla costeira, a confluência de escorrimentos, o uso intensivo de percursos pedestres sobranceiros durante todo o ano, quando não o uso indevido por veículos, os estacionamentos automóveis e os edifícios construídos à beira das praias, tudo tem contribuído para aumentar as infiltrações e para acelerar a erosão. Qualquer leve estremecimento, coisa frequente por aquelas bandas, basta para fazer esboroar os frágeis arenitos. O trágico evento trouxe-me à memória estas lembranças de tempos idos e dos riscos, embora menores, que então corríamos.

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