sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O desenvolvimento tecnológico e a via "verde" para a saída da crise de subprodução


As posições manifestadas pelos dirigentes chineses na actual cimeira da ONU sobre o clima, a decorrer em Copenhaga, na Dinamarca, apontando para a necessidade de maiores reduções das emissões de CO2, não deixam de ser interessantes, tanto quanto surpreendentes. Serão as metas da redução das emissões que propõem exequíveis para a própria China, cujas elevadas taxas de desenvolvimento assentam ainda em muita tecnologia obsoleta, e corresponderão a uma aposta genuína na renovação tecnológica dos seus meios de produção, com a orientação prioritária do investimento para o desenvolvimento deste ramo do mercado interno enquanto a crise económica e financeira internacional não for ultrapassada e não ocorra a retoma da procura das suas exportações? Ou serão tais metas apenas para os países mais desenvolvidos, pretendendo com estas reduções possibilitar a manutenção dos actuais níveis de emissões, ou a sua menor redução, para os países menos desenvolvidos onde ela se integra? Os chineses são muito enigmáticos e subtis, e raramente sabemos bem o que querem dizer. Também desta vez, como se vê, as mensagens prestam-se a múltiplas interpretações.

Para nos ajudar a compreendê-las, o melhor é socorrermo-nos dos exemplos que a China tem dado ao mundo, que em nada têm contribuído para reduzir as emissões de CO2 e para combater o aquecimento global. O rol é extenso, na medida em que o capitalismo chinês tem vindo a florescer e as suas taxas de crescimento económico têm sido elevadas. Fixemo-nos apenas nuns poucos: multiplicação das fábricas e das respectivas chaminés fumegantes, aumentando as emissões de CO2; pôr milhões de utilizadores de bicicleta, que com a alimentação à base da apreciada soja e do conhecido arroz solto constituía um meio expedito de lhes manter a linha, a andar de motorizada ou de automóvel, aumentando a quantidade e acelerando o ritmo das emissões poluentes; deslocação de milhões de cidadãos dos campos para as cidades, alojando-os em modernos edifícios de apartamentos com um mínimo de condições de segurança e de conforto, ao invés dos velhos casebres de adobe que se esboroavam a cada tremor de terra, mas com o inevitável aumento do consumo energético inerente à vida moderna; criação de mais cidades gigantescas (na China, tudo o que se refere a pessoal é gigantesco), com o aumento do consumo de energia que tal cosmopolitismo implica; etc. Até agora, portanto, a China não tem estado em condições de contribuir activamente para a redução das emissões de CO2 e, assim, para a travagem da contribuição antropogénica para o aquecimento global.

Compreende-se que a China pretenda entrar como parceiro para o grupo dos grandes e, nesta altura de crise do capitalismo, aproveite o seu relativo desafogo financeiro para lembrar que as coisas não poderão continuar como dantes. O Banco da China tem avultadas reservas em moeda americana, provenientes das exportações, assim como em títulos da dívida pública americana e em títulos de propriedade de grandes empresas americanas, em que investiu como alternativa ao entesouramento, e tem mostrado o seu descontentamento com um modo de vida desregrado, como o dos americanos, que através do consumo acima das possibilidades, suportado artificialmente pelo crédito, põe em risco a rentabilidade das aplicações financeiras dos seus fundos de investimento. Além do mais, também deve ter contribuído para atenuar os impactos imediatos da crise financeira, injectando alguns milhares de milhões de dólares na banca internacional em aflição. No fundo, a actual crise está servindo para reforçar o papel da China no mundo, e compreende-se que os seus dirigentes aproveitem todos os pretextos para aparecerem na ribalta dos mais importantes fóruns e nos media internacionais.

O reforço do papel mundial da China tem tido como contrapartida, infelizmente, o aumento da sua contribuição para o agravamento global das emissões de gases com efeito de estufa e de outros poluentes. São por isso irónicas as preocupações dos dirigentes chineses com a contribuição das emissões dos outros para aquele efeito. E não se conhece qualquer sinal de que nos próximos anos a China possa vir a encarar seriamente a diminuição da sua quota de emissões. Após a acertada decisão de acabar com o comunismo, através da expansão do capitalismo, por enquanto restrita a zonas económicas especiais, e de tentar tirar da frugalidade e dum estilo de vida simples, mas duro, sempre à mercê das contingências da natureza, centenas de milhões de seres humanos, a China entrou para o grupo do industrialismo predador, usando, em muitos casos, tecnologias mais atrasadas e mais poluentes, já abandonadas nos países mais desenvolvidos a quem as comprou. Se atentarmos nos muitos milhões de camponeses que ainda tem para transformar em modernos operários industriais, nos muitos milhões de barris de petróleo e de toneladas de carvão que ainda terá de consumir, nos muitos milhares de toneladas de CO2 e de outros poluentes que ainda terá de emitir, enfim, no que falta à China percorrer para recuperar do atraso de cinquenta anos de comunismo e para se transformar num país desenvolvido, proporcionando aos seus trabalhadores um nível de vida condigno, que a esmagadora maioria não usufrui, só poderemos esboçar um sorriso perante tais desabafos dos dirigentes chineses.

A não ser que a actual crise económica e financeira mundial se arraste por uma crise de subprodução mais duradoura, devido à natural retracção do crédito ao consumo que mascarava a sobreprodução que a originou, com graves efeitos na recuperação económica mundial, e, nesse contexto, as exportações da China sofram uma tal quebra que baixe drasticamente os elevados ritmos do crescimento da sua economia, forçando-a a reorientar o investimento para o consumo interno, e parte substancial dele para a expansão das infra-estruturas viárias e energéticas e para a renovação do parque industrial, não se vislumbra como poderá este país, mantendo o seu desenvolvimento orientado principalmente para as exportações, descer significativamente o nível das suas emissões nos tempos mais próximos. A crise de subprodução mundial que atravessamos, com a redução da produção industrial, tem conduzido inevitavelmente todos os países a reduzirem as suas emissões de CO2. Tais reduções, meramente conjunturais, são manifestamente insuficientes para produzirem efeito significativo na contribuição antropogénica para as alterações climáticas, qualquer que ela seja na realidade, e terão de ser muito aumentadas e de forma sustentada, se mais não for, para desacelerar o ritmo do aquecimento global e para melhorar o ambiente. Resta saber se a saída da crise se saldará pela necessária redução das emissões de CO2, ou, pelo contrário, se constituirá o pretexto para que tudo fique na mesma ou para que os progressos se quedem aquém das tímidas metas que tudo indica virão a ser acordadas na actual cimeira.

O dinheiro usurário, mafioso e rentista que por aí abunda (originário dos chorudos lucros da banca, da droga, da cartelização do petróleo, da poupança dos pensionistas e dos fundos de pensões futuras dos trabalhadores activos) e o dinheiro fictício criado pela banca, cujas aplicações especulativas estiveram na origem da crise, não encontra actualmente grandes possibilidades de altas rentabilizações. Uma oportunidade para que começasse a render poderia residir na sua transformação em capital produtivo, através da aplicação no desenvolvimento e na produção de inovações tecnológicas que não degradem tão aceleradamente o ambiente. A produção de energias renováveis não poluentes, cujos interesses parecem mover o alarmismo ambientalista e climático, não será suficiente para absorver tão vultuosos capitais nem para alcançar redução significativa das emissões de CO2 e de outros gases com efeito de estufa, mas conjugada com a renovação dos processos e dos equipamentos produtivos poderá constituir um caminho frutuoso. Para já, o investimento no desenvolvimento tecnológico parece ser a única saída viável para a crise de subprodução que se atravessa, em alternativa à guerra, pelo menos, para os EUA, que devido ao nível elevado dos salários só poderão melhorar as suas exportações através de produtos inovadores que não encontrem por algum tempo concorrentes à altura.

Se nos lembrarmos dos dois grandes instrumentos que determinaram a transformação dos EUA na maior super potência, o Plano Marshall de concessão de crédito aos países europeus, a longo prazo e com taxa de juro baixa, para importações de bens de equipamento americanos, e a constante inovação tecnológica, veremos que na actual situação a saída para a crise mundial continuará a estar nos EUA, desta vez não através da concessão de crédito, mas usufruindo do dinheiro que não pára de lá afluir perante as reduzidas oportunidades de rentabilização com que se defronta noutras paragens. A aposta dos neoconservadores conselheiros da administração Bush na guerra como instrumento para a superação das dificuldades da economia americana, desde logo, pelo desenvolvimento dos negócios com os consumos militares e com a reconstrução do Iraque destruído, e, depois, pelo controlo da exploração petrolífera iraquiana, da qual as empresas americanas estavam arredadas pelo embargo, e da exploração das riquezas mineiras e da droga no Afeganistão, a que a máfia americana eventualmente ainda não chegara, mostrou-se de todo inadequada e desastrosa, já que os custos da aventura militar para o erário público excederam largamente as estimativas mais pessimistas e os proventos imediatos para o capital privado ficaram muito aquém dos esperados. Por essas e por outras, os dois mandatos do presidente cessante acabaram por constituir um dos períodos mais negros da história dos EUA.

Para além de outras decisões de política interna, reforçando o investimento público na recuperação das redes viária e energética e das escolas públicas degradadas, e na instituição de serviços mínimos de saúde e de protecção social, assim como a fixação dum salário mínimo condigno, por exemplo, só através do incentivo creditício e fiscal às actividades industriais de desenvolvimento de inovações tecnológicas os EUA poderão relançar de forma duradoura e consistente a sua economia, salvando-se e ao mundo dos graves efeitos do prolongamento da crise de subprodução de grandes dimensões em que estão mergulhados. A opção pelo reforço da guerra no Afeganistão, ainda que contrabalançada pela anunciada retirada das suas tropas do Iraque, decidida pelo actual presidente americano, Barack Obama, não prenuncia uma orientação animadora quanto ao rumo definido para a saída da crise, embora o anúncio de que a redução das emissões constitui um objectivo de defesa nacional permita acalentar alguma esperança. No futuro próximo, veremos qual o papel que os dois colossos económicos, os EUA e a China, desempenharão na orientação do investimento para o desenvolvimento de inovações tecnológicas, rumo necessário para o relançamento da economia e para a saída da crise sem o agravamento da degradação ambiental. A União Europeia parece arredada deste desafio e, que se saiba, nenhuma estratégia importante tem para oferecer neste campo.

(De um comentário inserido há alguns meses no blog Dotecome, revisto e ampliado)

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

Hiperligações para esta mensagem:

Criar uma hiperligação

<< Página inicial