domingo, 29 de agosto de 2010

O amigo do povo e a candidatura patriótica e de esquerda


O PCP tem apresentado às eleições presidenciais candidatos próprios, membros dos seus mais altos órgãos dirigentes, revelador da importância que concede a tais actos eleitorais. Neste aspecto, ninguém poderá acusá-lo de subverter o espírito de Abril e da constituição, que atribui a iniciativa das candidaturas a movimentos de cidadãos eleitores. Com a sua atitude, o PCP reforça o papel dos partidos na nossa vida democrática, o que é de louvar. Os seus candidatos sempre se apresentaram para ir até às urnas; nalguns casos, no último momento, aproveitada a campanha, desistiram a favor de outros — em 1980, a favor do Ramalho Eanes, um homem do 25 de Novembro, perante o risco do reaccionário Soares Carneiro; em 1986, a favor do Salgado Zenha, como desfeita deliberada à ambição desmedida do Mário Soares, antigo camarada e depois aliado caído em desgraça, mas tão malfeitor quanto o outro; e, em 1996, a favor do Jorge Sampaio, contra o actual Presidente, Cavaco Silva, inimigo de estimação.

Quando se mostrou necessário, na segunda volta, o PCP acabou por apoiar o candidato posicionado à esquerda contra o posicionado à direita, não fosse ser acusado de fazer o jogo da reacção. Em 1986, sendo adversários na segunda volta o Mário Soares e o Freitas do Amaral, não se coibiu de apelar ao voto no Soares — de quem na primeira volta dissera cobras e lagartos — por receio injustificado de que a vitória do Freitas, realizando a consigna da direita “um governo, uma maioria, um presidente”, juntando a Presidência da República à maioria parlamentar e ao governo, de que já dispunha, envolvesse o perigo dum regresso ao passado. Embarcando na demagogia do Soares e na dramatização que ele imprimiu à disputa agitando o espantalho do fascismo, o PCP até engoliu sapos vivos, mas concedeu-lhe o apoio decisivo para a sua eleição. Também fui na conversa e caí nessa esparrela, estopada difícil de recordar, que de há muito reputo de ridícula, mas episódio ilustrativo dos escrúpulos e do calibre da personagem.

Por razões apenas conhecidas do restrito núcleo dirigente executivo, que aos militantes comunistas parecerão meras coincidências, de entre os candidatos apresentados às eleições presidenciais nos últimos anos saíram os dois secretários-gerais da era pós Cunhal. As candidaturas do Carlos Carvalhas e do Jerónimo de Sousa constituíram, deste modo, como que um teste das suas capacidades para assumirem ainda maiores responsabilidades no partido. Como se prova, o Comité Central (CC) não tem dúvidas e raramente se engana, e as escolhas que fez acabaram por mostrar-se acertadas, salvo o estranho caso do António Abreu, em 2001, que pelo fraco desempenho não esteve à altura das responsabilidades que lhe foram confiadas, mas certamente por quaisquer razões atendíveis. Também agora, o partido pode ficar descansado com a escolha do CC; se assim decidiu, uma vez mais terá decidido bem. Nada melhor do que dirigentes de origem operária para manterem a aparência do reforço da identidade revolucionária.

Nas eleições presidenciais, o PCP não disputa eleitorado nem cobiça o cargo, pelos fracos poderes do Presidente. Quando não vislumbra o rabo de fora de qualquer perigo escondido, não embarca em coligação de apoio a terceiros e aproveita-as para propagandear as suas críticas às políticas governamentais e para reafirmar a sua identidade de partido revolucionário, comunista marxista-leninista, que se esforça por manter e que não se cansa de realçar. As candidaturas evitam que alguns dos votos que recolhem se percam na abstenção, o que reduziria o número dos necessários para o candidato melhor posicionado alcançar a vitória; e as campanhas sempre servem para fidelizar adeptos e para captar novos simpatizantes, usufruindo de merecido tempo de antena que a burguesia então lhe concede, qual compensação do que lhe sonega no dia-a-dia. Outros podem vociferar contra o sectarismo do PCP, mas o partido não brinca em serviço e sabe melhor que ninguém o que serve os seus interesses. Cumprindo a tradição, para as eleições presidenciais que se avizinham o PCP apresentou um candidato próprio, Francisco Lopes, membro do Grupo Parlamentar, do Comité Central, da Comissão Política e do Secretariado. Candidato de peso, sem dúvida. Saindo-se bem, certamente outros voos o esperarão.

A candidatura é “patriótica e de esquerda” e dirigida aos “democratas e patriotas”, variante dos “portugueses honrados” e das forças “progressistas e patrióticas” de antes do 25 de Abril ou das forças “democráticas e progressistas” que se lhe seguiu, indício de que os tempos são de desgraça. Um eleitorado mais vasto do que a classe operária e as amplas massas trabalhadoras, que o partido afirma representar, estendendo-se aos micro, pequenos e médios empresários, cujos interesses também pretende defender, e que juntamente com o Estado serão os pilares do ressurgimento da depauperada “economia nacional”. De fora ficam os capitalistas monopolistas, essa escumalha anti-democrática, sempre à espreita da possibilidade de regresso ao fascismo, e anti-patriótica, porque apenas o grande capital não tem pátria, para mais nesta era de globalização sem fronteiras exigindo cabedais vultuosos para percorrer tamanhas lonjuras e assim escapar da ruína. São os verdadeiros inimigos da realização da “democracia avançada rumo ao socialismo”. Tudo o resto é malta porreira, que não tardará a entrar nos eixos ajudando a cumprir, finalmente, ainda que um pouco para além do “limiar do século XXI”, os desígnios da patriótica “revolução anti-monopolista e anti-imperialista”.

Vi uma das entrevistas televisivas do candidato Francisco Lopes, operário de longa data, mas de curta experiência, revolucionário profissional com muita tarimba, quadro de grande currículo e altamente colocado na hierarquia, bem-apessoado e bem-falante, jovial mesmo, que encara as câmaras com descontracção e que discorre com desenvoltura sobre as críticas a tudo quanto é poder, do governo ao Presidente da República (também com as suas culpas no cartório, dos tempos em que foi Primeiro-Ministro, pelo estado calamitoso a que chegou a “produção nacional”, e do mandato presidencial, pela conivência com as políticas de direita do governo), apresentando fluente e convictamente o projecto político e os objectivos tácticos de conjuntura do partido. Fiquei agradavelmente surpreendido, rendido ao inusitado carisma revelado por um potencial líder, até agora injustamente ofuscado pelo protagonismo de parlamentares engraçadotes e encoberto pela penumbra dos bastidores. Falta-lhe, talvez, a simpatia e o jeito para a dança que o Jerónimo comprovou possuir, mas nada que o tempo não permita burilar.

Votei no Jerónimo por aquelas suas qualidades, insuspeitas num líder comunista; e nas últimas eleições parlamentares até votei no PCP. Neste caso, mais por nostalgia, nem sei bem, mas também por pena, por ver um partido de tão longa tradição e de tamanhas aspirações vir caminhando progressivamente para a perda de expressividade eleitoral, antecâmara da perda de influência social. Esperei sinceramente que não baixasse da barreira dos 10% dos votos e que não descesse para a quinta posição, correndo o risco de ser relegado para a segunda divisão do campeonato eleitoral, limbo onde vegetam os pequenos partidos. Como acontece com o Belenenses, depois é difícil a recuperação e o regresso estável ao escalão maior, e a decadência poderá ser inevitável, destino inaceitável para um clube com tanta e relevante história. O meu voto pouca importância teve no cômputo geral, mas contou como atitude pessoal. Agora, irei votar no Francisco Lopes. Na primeira, na segunda e, se necessário, na terceira volta.

Os restantes candidatos apresentados, e o pressuposto ainda não anunciado, dirigem-se aos eleitores, quanto muito, com um insípido “caros concidadãos”, e não explicam claramente ao que vêm, nem os interesses que os movem. Um é nobre quixote, placidamente indignado com o tráfico de influências e com o assalto partidário ao Estado subversores da ética republicana, apesar da sua mal disfarçada preferência monárquica; outro é pateta alegre, poeta desde sempre aboletado na mesa do orçamento, que se tem caracterizado por dar uma no cravo e duas na ferradura, para não perder o apoio da musa mais inspiradora; e o outro, a aguardar a altura certa para a confirmação, não passa de conselheiro de insonsa cavaqueira, contabilista pragmático, cauteloso e astuto o suficiente para não dispensar forças que possam contribuir para a desejada reeleição e o almejado prémio de fim de carreira. Nenhum suscita confiança, mas também não representa um perigo potencial de agravamento da situação.

O Francisco Lopes é de outra cepa. Dirige-se ao eleitorado com um fraterno “caros democratas e patriotas”, uma notória diferença de transparência, de estima e de consideração, sinónimo do respeito que o PCP nutre pelo pessoal, tão grande que até lhe arranja partidos quando o sente mal representado, do PRD ao actual Os Verdes, com outros mais pardos de permeio, como se passa lá fora, não vá o comunismo parecer regime de partido único que não deixa alternativas. Toda a gente sabe ao que ele vem, não se apresentando neste jogo para enganar ninguém. Como é sobejamente conhecido, o partido deseja-nos sempre o melhor dos mundos, não quer que nos falte nada, pretende que o Estado cuide de nós com desvelo, desde que chegamos até que abalamos, para que a vida decorra sem sobressaltos. Nestes tempos difíceis, de desemprego crescente e de subsídios a minguarem e a acabarem, tal aconchego é mais do que nunca necessário, o Estado não pode acudir apenas aos ricos, e ele não se cansará de repeti-lo com fervor, sem se acanhar e sem pudor.

No quadro eleitoral que se prefigura, com um único candidato conotado com a direita, ainda que de centro-direita — depois da desistência de putativos candidatos que não recolheram suficientes garantias de apoios financeiros para cobertura das despesas da campanha no que excedesse as comparticipações estatais, que isto de campanhas amplas e vistosas, nos tempos que correm de fraca militância e empenhamento político, custa caro (que o diga o Freitas do Amaral, que andou vários anos a pagar o saldo negativo da sua) — se a eleição não ficar decidida na primeira volta será por dispersão dos votos ou pela abstenção dos eleitores dessa área. A candidatura “patriótica e de esquerda”, embora contribuindo para a dispersão dos votos à esquerda, contribuirá também para reduzir a abstenção e o voto branco ou nulo desta área e, deste modo, para exigir maior número de votos para a eleição à primeira volta do candidato da direita. Caso ocorra uma segunda volta, um eventual apelo ao voto no candidato da esquerda também não lhe exigirá grande pirueta e até lhe trará algum crédito.

Se a rapaziada do partido já me trata como “anti-comunista primário” por mandar umas bocas sarcásticas sobre a inconsistência da base teórica da sua infalível ideologia científica, que prevê um futuro radioso que tarda por acontecer, e amiúde vem aqui brindar-me com os insultos mais desbragados, não quero que por não votar nele passe a alcunhar-me também de “anti-democrata” e de “anti-patriota”. Era só o que me faltava, depois de tantos anos a pugnar pela democracia e pelo melhor para tão ditosa pátria. Decididamente, Chico Lopes, o amigo do povo, terá o meu voto. Espero que não ganhe, para o PCP não perder a graça e não se dissipar a esperança a que a fé nos aprisiona; basta que obtenha um resultado honroso, que não desmereça os pergaminhos do partido. Felicito-o antecipadamente, recomendo-o a todos os “democratas e patriotas” e desejo-lhe um próspero futuro, com uma carreira repleta das maiores venturas. Ele faz falta ao partido, para ilustrar quanto os operários são patriotas; e o partido faz falta à pátria, para animar a malta.

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